CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Serviço de Saude. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Serviço de Saude. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, novembro 04, 2022

PMAM – SERVIÇO DE SAÚDE (1)

Já relatei neste canal alguns fatos relacionados com o estado sanitário da tropa da Polícia Militar do Amazonas. Em novo empenho, rebuscando os arquivados livros de registros, outras informações vão ao público.

 

Antigo quartel da Polícia Militar

Desativada em novembro de 1930, a Polícia Militar do Amazonas esteve mais de 5 anos “fora do ar”, melhor dizendo, impedida de executar seu ofício. Ao retornar, em 20 de abril de 1936, parecia mais criteriosa. Após reagrupar seus integrantes, a corporação foi paulatinamente se recompondo, com novas provisões sendo incorporadas à instituição. Talvez a mais exponencial tenha sido a criação do Serviço de Saúde.

Para melhor compreensão: em 1935, ocorreu relativa mudança no Poder Executivo quando, a 19 de fevereiro, o interventor Álvaro Maia torna-se governador. Mudança apenas de nomenclatura, pois o governante permanece. A 2 de junho, o Poder Legislativo promulga nova Constituição do Estado, onde nada se encontra sobre a Força Estadual, porque esta inexistia. Contudo, um movimento sobre a situação das Forças Auxiliares transcorria no Congresso Nacional, que acabou por aprovar legislação pertinente.

Em decorrência dessa decisão, o Legislativo local sancionou a Lei 55, de 31 de dezembro, que “restabelece a Força Policial do Estado”, concedendo ao governador seis meses para sua reorganização. O art. 1º é categórico: “é criada a Força Policial do Estado do Amazonas”. Recordo que ela fora desativada, não extinta, todavia, como se vê, foi aqui recriada. 

Ramayana de Chevalier

Antes do prazo limite, em 20 de abril de 1936, Maia baixou o decreto 99, para cumprir o dispositivo. Na mesma data, segundo o Ato 1039 escalou os oficiais para seu direcionamento, sob o comando do tenente-coronel PM José Rodrigues Pessoa. E pelo Ato 1040, nomeou “o senhor doutor Ramayana de Chevalier para exercer o posto e o cargo de 1º tenente médico da Força Policial do Estado”. Embora mambembe, estava criado o Serviço de Saúde (SS).

Em tempo anterior à desativação, o atendimento clínico era realizado por médico do Estado, que visitando a caserna consultava aos policiais. Os casos gravosos eram encaminhados aos hospitais da cidade, com mais frequência à Santa Casa de Misericórdia.

Chevalier logo foi promovido ao posto imediato. Este médico nasceu na

residência da família situada no cruzamento das ruas Quintino Bocaiuva com

Dr. Moreira. A família o enviou à Salvador (BA), onde Chevalier frequentou a

Faculdade de Medicina da Bahia, concluída em 1933. O pioneiro no SS legou

uma trajetória pouco edificante: abandonou esta função e mudou-se para o Rio,

ingressando na imprensa. Isso acarretou-lhe a demissão do Serviço de Saúde,

porém, amicíssimo de políticos, o governo amazonense devolveu-lhe, em 1951, ocargo com direito à promoção e ressarcimento pecuniário. E mais: foi reformado coronel, por ato de 22|06|1953.

Portanto, a partir de 1930, é possível relacionar os oficiais integrantes deste serviço. Observei a ordem cronológica e, onde foi possível, a ordem hierárquica. Apontei algumas exceções, como a demissão e o posto na passagem para a reserva. Inclui a naturalidade, o ano de nascimento e a escola de formação.

1936

1º tenente médico

20|04| Walmik Ramayana Paula e Souza de Chevalier - AM   (1909-75)

No contexto da Segunda Guerra, no biênio 1942-43 o aquartelamento da Praça da Polícia ganhou uma enfermaria, que foi construída no andar superior, sobre a edificação postada pela rua José Paranaguá, e ela foi utilizada até a instalação do Hospital da Polícia Militar em 1984.

Nesse período bélico, o SS recebeu o auxílio de médicos do Exército, tão-somente para compor a JMS (Junta Médica de Saúde). Foram alcançados no livro de apresentação de oficiais, existente no Museu Tiradentes, os seguintes:

1) 1º tenente Flavio Silva Martins – do 27 BC – dispensado em 12|05|1944;

2)   2º tenente R/2 Salomão Morais Levy – apresentado em 14|05|1944 e dispensado em 20|07| – residente à rua Dr. Moreira, 190 – fone 1049;

3)   1º tenente Hyssarro Ferreira – apresentado em 01|08|1944 – morador da rua Lauro Cavalcante, 237 – fone 1285;

4)   2º tenente Jesuíno de Souza Lins – a partir de 09|06|1945;

5)   2º tenente R/2 Cristovam Paulo Martins – da 1ª/4º Batalhão de Fronteira – apresentado em 24|10|1945.

quinta-feira, novembro 11, 2021

SERVIÇO DE SAÚDE PMAM: NOTA PARA SUA HISTÓRIA

 Já muito escrevi sobre a presença de Ramayana de Chevalier na Polícia Militar do Amazonas, na condição de médico chefe do Serviço de Saúde. Como alcançou este cargo nos idos de 1936, ele mesmo descreve no artigo aqui compartilhado do livro em que se reverencia ao político amazonense Manuel Severiano Nunes (1892-1957), seu padrinho. 


 

O VIGOR DE UM CARÁTER

Eu não sabia bem se era eu, um jovem ardente e confuso, ou um pedaço de meu pai, quem entrava, àquela manhã doirada de luz, pelo gabinete do Secretário-Geral do Estado do Amazonas. Vinha do Sul, onde me formara em Medicina, mais propriamente da Bahia, que eu deixara saudoso e galante. Um emprego! Cavar um emprego! Era essa a mentalidade do momento, enquanto não sazonasse a minha clínica, a vida não me tisnasse de desilusões, o tempo não me argentasse a fronte. Um emprego! Mas onde?

O Estado era pequeno, politicamente, as posições poucas e já usurpadas, a iniciativa particular quase nenhuma por essa época. Casas de saúde não existiam. Serviços privados, do ponto de vista médico, nem sombra. O governador era o Dr. Álvaro Botelho Maia, por esse tempo um espelho da juventude de minha terra. Orador, poeta, professor, político. Um tanto lânguido para a administração. Contudo, bom e digno. Eu já escorvara a escopeta das investigações. Não havia nada à vista, a olho nu. Mulheres, muitas. Emprego, nenhum.

Comecei balbuciando a minha clínica de consultório. Na província, a essa altura, era difícil misturar-se o literato e o médico. O povo só acreditava em clínico de aspecto soturno, um tanto sobre o medíocre, com cara de pai de família. Eu tinha um rosto imberbe, alegre e sorridente como o cartaz de uma pensão de marafonas. Estavam duros a conquista de um emprego e o começo da clínica. Foi então que um desses anjos perdidos na terra, alma cândida e boa, Sebastião de Bogéa Saint-Clair, soprou-me um nome: Manuel Severiano Nunes. Em 30, na hora das barricadas, ele formara com o meu pai na "Legião de Outubro". Um amigo.

Muitos o chamavam de "Frasquinho de Veneno". Para mim, foi um frasquinho de perfume. Que Deus o guarde no mais veludoso recanto do seu regaço. Um caráter. Leal. Firme. Desses que só prometem uma vez. Para cumprir. Tinha um doce crepúsculo nos olhos, que lembrava tristeza ou romantismo. E era alegre com os seus companheiros. Soube viver, como soube morrer. Só uma tristeza lhe empanou a hora da morte: morrer distante de sua terra, longe do Amazonas que ele tanto amava.

Um homem. Com todas as letras, com todas as dores, com todas as lutas.

Saint-Clair levou-me a ele. Ia-se organizar de novo a Polícia Militar do Amazonas, cuja tradição vinha da campanha de Plácido de Castro e das lutas de Canudos. Severiano, atendendo ao amigo, olhou-me nos olhos e disse: "Você será o chefe do Serviço de Saúde da futura PM". E apertou-me as mãos, adiantando: "Eu sou amigo do seu pai e admiro a sua inteligência". Despedi-me como um pássaro. Entrei em casa cantando. Estava arranjado o emprego. Álvaro Maia, governador, também meu amigo, não recusaria o meu nome.

Recorte do Almanaque de oficiais, ano 1948

Daí por diante, comecei a subir em minha carreira, até terminar reformado como Coronel-Médico, neste delicioso outono biológico que me inebria. (...)

Foi num dia triste, no Rio de Janeiro, que recebi a notícia de seu falecimento. Depois de algum sofrimento, na pobreza do seu apartamento sóbrio e digno, o gigante entregara a alma ao seu Criador. Fui vê-lo, comovidamente.

O Posto 6 estava embuçado de nuvem. O mar Atlântico soluçava nas escarpas do Forte. O seu corpo, engerelado e pálido, conservava, mesmo no mistério da morre, o leve sorriso fraternal que ele dedicara aos que lhe eram leais.

O Amazonas teve nele um soldado, um filho ardente e nobre, um condutor de homens, uma bandeira, um advogado. Foi caboclo em toda a extensão luminosa da palavra. Meu testemunho teria que vir entrelaçado com as corolas da gratidão mais pura.

O jovem médico, que começou a sua escalada do primeiro degrau que ele lhe dera, ainda hoje, malferido pelo destino, como um animal selvagem, ergue os olhos para Deus e pede por ele, com a mesma vibração honrada dos primeiros dias.

Ao lado de Álvaro Maia, ele foi um defensor insone do Amazonas. Quem poderá esquecer as suas lutas, os seus revezes, os seus triunfos, as suas glórias? Conheci-o muito de perto, em certos ângulos de intimidade cordial que só são dados aos legítimos companheiros, em horas felizes, como em instantes amargos. Tenho certeza de que os seus filhos haverão de honrá-lo, assim como herdarão dele um fecundo, um profundo amor pelo Amazonas.

Seu perfil não é fácil. Visto de longe, da fumaceira das distâncias, do poeiral das ruas, das fogueiras das paixões políticas, Severiano Nunes poderá apresentar uma face ignota para mim. Essa, não a conheci, nem creio sua. A que conheci e estimei, a que se fixou na minha saudade e na minha gratidão, para sempre, essa era resplendente e sadia, sorridente e amável, jovial e carinhosa, cristã e admirável como uma tela de [Thomas] Gainsborough (1727-1788).

O político tinha comigo um traço de união indelével: o Amazonas era, para ele, algo como um pedaço do seu próprio sentimento, como a afirmação de sua própria personalidade.

 


sábado, abril 10, 2021

EVOLUÇÃO DO SERVIÇO DE SAÚDE NA PMAM |3|

Mais um passo na evolução do Serviço de Saúde na Polícia Militar do Amazonas, prosseguindo a partir da implantação do Estado Novo, em 1930. 

Brasão do Serviço na PMAM

ESTADO NOVO (1930)

Competiu ao interventor federal Álvaro Maia, notável poeta e escritor, que havia sido capitão da PM, servidor da Auditoria Militar, a autoria da desativação da Força Estadual, em novembro de 1930. Também lhe coube o ensejo de reativá-la, em abril de 1936.

Quando desse retorno, consoante o decreto 99, foi dada nova projeção ao Serviço de Saúde – ou até diria que foi inaugurado, com previsão de três médicos: um capitão e dois tenentes, um dos quais, veterinário (profissional inalcançável em Manaus de então). Sem anotações, simplesmente a primeira vaga foi contemplada ao incorporar o Dr. Walmiki Ramayana de Paula e Souza de Chevalier. Abreviando o verso de seu sofisticado nome: Ramayana de Chevalier (1909-72). Excelente escritor e polemista, aqui nascido, mas que fez sucesso no Rio de Janeiro, então Capital Federal. Comentam os paralelepípedos de Manaus que este falecido clínico nunca receitou uma Cibalena ou um Melhoral. Digo eu, optou por escrever (muito bem) crônicas à receita médica. 

Em 1936, retornou a Manaus, depois de formado em medicina e realizada a etapa da residência, o doutor Ramayana de Chevalier. Homem bem relacionado, muito em função da ascendência paterna, encontrou acolhida em Álvaro Maia, interventor federal, que o designou para dirigir o Serviço de Saúde da PMAM. 

A situação econômica do Estado continuava precária. A 2ª Guerra (1939-45) trouxe desalentos, mas, também, reforço financeiro para o Amazonas. Na área sanitária, recordo a criação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). Em relação ao tema que se aborda, em 1943, foi ampliada uma parte do quartel da Praça da Polícia, pela rua José Paranaguá. No segundo andar, foi construída e instalada uma Enfermaria, que devia permitir além dos primeiros cuidados médicos, os de curativos, e da baixa de doentes com diagnósticos triviais. 

A movimentação desta enfermaria obrigou a inclusão de enfermeiros, com a hierarquia de praças. Talvez o primeiro enfermeiro tenha sido Benedito Nogueira Sombra, cearense, incluído em 1947, que seguiu na função até sua aposentadoria, no meado dos 1970. Outros, foram: Edgar Lira de Oliveira e Valadares Pereira da Silva, incluídos em 1952 e 1955, respectivamente. 

Em relação aos médicos, ainda não foi nessa oportunidade que se estabeleceu um Quadro de Saúde. Não consigo aquilatar a indiferença desses profissionais para com o “emprego” na Força Estadual. Seriam os salários? Ou a falta de recursos básicos? Ou a própria hierarquia e a disciplina? Todavia, sempre havia um de “plantão”. Vejamos alguns “plantonistas”: Djalma Batista (na condição de capitão, entre março e julho de 1943), conhecido pela sua dedicação e pela erudição; Antonio Hosanah da Silva Filho (reformado coronel, um dos raros a se manter na corporação); Danilo de Aguiar Corrêa (de 1945, morto em acidente de aviação no interior do Estado, quando deputado estadual); Alfredo Corrêa Lima (reformado coronel). (segue)

EVOLUÇÃO DO SERVIÇO DE SAÚDE NA PMAM |2|

 Prosseguindo com o retrospecto sobre o Serviço de Saúde na Polícia Militar do Amazonas, relato o que colhi sobre a matéria nas três primeiras décadas do século 20.

Brasão do atual órgao
diretivo do serviço

PRIMEIRA REPÚBLICA

 

A primeira providência republicana foi mudar a denominação da Força Estadual amazonense, que passa de Corpo Policial do Amazonas para Batalhão de Polícia. Dois anos depois, Batalhão Militar de Polícia e, ainda no mesmo ano, Batalhão Militar de Segurança. Somente após o governo de Eduardo Ribeiro (1892-96), com o aporte de imensos recursos financeiros provenientes da hévea, houve uma evolução substancial – Regimento Militar do Estado, com dois batalhões e outros serviços. 

Em 1897, encontra-se o simulacro de um serviço de saúde. Ainda assim, com atendimento intitulado de “visita médica”. O quartel seguia ainda sem enfermaria. O nome do clínico mais conhecido é do doutor Nemezio Quadros, amigo de Adolpho Lisboa, que comandou a PM e a Prefeitura entre 1902 e 1908. Naquele ano, aconteceu o notável episódio de Canudos, na Bahia. A corporação amazonense socorreu as Forças de Terra, enviando o 1º Batalhão contra Antonio Conselheiro. Ainda nos preparativos, foi designado o doutor José Leite Barbosa, capitão cirurgião, para acompanhar a tropa. Esse médico “adoeceu”; comprovada a sua desídia, contudo, foi demitido do serviço público por “incapacidade física”.

Doutor Barbosa foi substituído espontaneamente pelo colega Pedro Juvenal Cordeiro, também capitão cirurgião. Como sabido, o batalhão amazonense em sua viagem a Canudos (BA) fez o primeiro transbordo em Belém (PA). Ali, Dr. Juvenal solicitou uns dias de folga para ultimar as providências junto à família. Atendido, deixou de viajar com a tropa, somente o realizando nove dias depois. Devido ao desencontro gerado pelo cirurgião, resultaram as agruras sofridas pelos policiais durante a expedição. Ao fim da missão, Dr. Juvenal não retornou ao Amazonas, sendo exonerado pelo governo, que o substituiu pelo Dr. João Ricardo Gomes de Araújo.

Aproveito o episódio de Canudos para anotar a existência de um Sanatório Militar em Itacoatiara (AM). Foi o governador Silvério Nery que em 1902 inaugurou esta casa de saúde, destinada ao recobramento de policiais militares. A explicação para essa providência sustentava-se na teoria médica de que a recuperação somática se acentuava com o afastamento do doente para sítio com novos ares.

Era uma construção em madeira, segundo o registro do autor de Cronografia de Itacoatiara, vol. 2 (1998). E que o sanatório esteve situado no terreno ao lado da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, onde depois funcionou um serviço de controle do abastecimento de águas e esgotos. Hoje não se vislumbra qualquer sinal daquela casa de saúde. Era administrador do sanatório: capitão Joaquim Alves de Lima Verde e os “serviços de atendimento prestado pelo médico comissionado do Estado Dr. Domingos Pinheiro”.

Em Manaus, o Regimento prosseguia em alta, porém, seu custeio sempre motivou as lamúrias dos governantes. Estimo seu efetivo na ordem de seiscentos homens, em dois batalhões e serviços. Quanto aos médicos, estes pertenciam ao efetivo, dispondo de postos militares, e seguiam visitando os policiais no quartel da Praça da Polícia, pois os demais recursos clínicos eram providos pelos hospitais de benemerência. As lesões mais graves ou moléstia de cura prolongada, o único recurso era baixar o policial na Santa Casa de Misericórdia, a mesma que se agora se encontra com as portas cerradas. Esta estrutura permaneceu até o final da primeira década do século passado.

Indiscrição acerca de um médico: em maio de 1910, o Chefe de Polícia informava ao governador que apurava uma queixa do doutor Álvaro Moura, do Batalhão Militar do Estado, contra dois indivíduos, residentes à rua Joaquim Sarmento, 36. O queixoso reclamava das pilherias ofensivas ao pudor e ao decoro de indivíduo, em especial “à sua moralidade de varão”. Os acusados não foram encontrados, desconversou aquele chefe. 

Ao final da Primeira Guerra, o Amazonas perdeu o privilégio da exportação da borracha e, consequentemente, o fluxo de caixa até então abarrotado. Sua decadência levou consigo a Polícia Militar do Amazonas (PMAM), que teve gradativamente diminuído o efetivo e serviços. Ainda assim, foi engolfada em repetidas disputas políticas, tendo participado de, e até promovido, algumas rebeliões. Em julho de 1924, quando da Rebelião de Ribeiro Júnior, a corporação sofreu intempestiva mudança, ao tomar a denominação de Guarda Cívica sob o comando do capitão Martins, até que, ao final daquele ano, retomou o consagrado título. Não delongou bastante para que, em novembro de 1930, um dos primeiros atos da implantação do Estado Novo no Amazonas tenha sido a extinção da Força Policial. (segue)


sexta-feira, abril 09, 2021

EVOLUÇÃO DO SERVIÇO DE SAÚDE NA PMAM

Já publiquei neste Blog algumas notas sobre o Serviço de Saúde, prestado na Força Policial do Estado. Ano passado, todavia, voltei ao tema com mais disposição, atendendo a sugestão de integrantes do quadro médico. A ideia agora é organizar o registro da evolução do serviço sanitário da corporação, cujo passo inicial ocorreu em 1876.

Com esta postagem, pois, dou partida à retrospectiva que se encontra nos retoques finais para sua divulgação.


Brazão da Diretoria
de Saude

ANTECEDENTES

Nenhuma notícia se alcança sobre esse assunto em vasto período da existência da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), no período que se estende de sua criação, em 1837, até o ano da primeira renovação (1876). A partir deste progresso, reinaugurada como Guarda Policial do Amazonas, encontram-se em seu Arquivo Histórico preciosos dados, tanto sobre quarteis e localização, quanto sobre a administração e o serviço sanitário, assunto que mais interessa nesta retrospectiva. Desse modo, pesquisando nos arquivos mais remotos, encontram-se relatórios presidenciais e de comandantes da corporação, bem como assentamentos pessoais, todos contribuindo fartamente com essa produção.

O mais antigo registro encontrei no Relatório de fevereiro 1884: informa ali o presidente Teodoreto Souto aos parlamentares que, no período, foram exclusos 25 praças. Entre outros motivos, 14 “por incorrigíveis” e sete por incapacidade física. A legislação de antanho não perdoava, o funcionário, o Guarda Policial, que perdesse a capacidade física seria dispensado incontinenti, sem quaisquer direitos. Situação muitíssima distinta de nossos dias.

Há outro registro contemporâneo. Ao transmitir o encargo ao vice-presidente Joaquim Sarmento, Teodoreto Souto sanciona a Lei 679, de 20 de junho de 1884, concedendo “licença por um ano a diversos funcionários públicos”, entre esses, ao Dr. Jonatas de Freitas Pedrosa, “diretor e professor de francês da Escola Normal e médico da Guarda Policial”, adiante governador do Estado (1913-17)

No ano seguinte, ainda registro no relatório presidencial: o tratamento hospitalar era realizado na Santa Casa de Misericórdia. E, de março a julho, acolá foram atendidos 26 praças, tendo falecido dois soldados e um cabo, sem identificação. E mais outro apontamento: em 25 de agosto de 1886 – a concessão de três meses de LTS (Licença para Tratamento da Saúde) “fora da província, ao Dr. Jonatas de Freitas Pedrosa, médico da Guarda.” Para substitui-lo, foi nomeado a 3 de setembro o Dr. Júlio Mário da Serra Freire, que adiante foi substituído pelo Dr. Joaquim Mariano Bayma do Lago. Enfim, a licença do titular foi prorrogada por igual período, em 29 de novembro. 

Dessas ressalvas, pode-se concluir que o atendimento médico na Força Estadual era realizado por clínico contratado entre os raros médicos existentes na província, sem vínculo com a hierarquia. A pequenez da cidade permitia facilmente o atendimento no próprio quartel aos poucos guardas. Lembrando que à época, o quartel da Força ocupava prédios locados, impróprios para a atividade policial, porém, naquilo que existia na temporada.

terça-feira, novembro 10, 2020

SERVIÇO DE SAÚDE DA PMAM (2)

 Antes de prosseguir na retrospectiva deste Serviço, quando tratarei de identificar os pouquíssimos dentistas ali empregados, vou acrescentar duas observações atinentes a estrutura deste ofício na corporação: 1) a construção de uma enfermaria e 2) a presença de oficiais médicos das Força Terrestre apoiando a JMS (Junta Militar de Saúde), sempre em caráter temporário.


Quadro do Serviço de Saúde, em 1948, 
conforme Almanaque da PMAM

Notando que, quando da 2ª Guerra, o Governo Federal desprendeu forte ajuda ao Estado, em troca do esforço de guerra na extração da borracha. Entre esses benefícios, foi instalado o SESP (relativo à saúde pública) em vários municípios.

Nesse contexto, no biênio 1942-43, o aquartelamento da Praça da Polícia ganhou uma enfermaria, que foi construída no andar superior, em prolongamento à edificação postada pela rua José Paranaguá. Ainda a alcancei quando de meu ingresso nesta corporação em 1966, e ela foi utilizada até a instalação do Hospital da Polícia Militar, em 1984.

Como era praxe, no livro competente de assentamentos o médico escrevia seu posto e nome, a Força a que pertencia e, ao final, o endereço que, alguns oficiais, incluíam o telefone. Com esses detalhes, listei os seguintes clínicos:

1)   1º tenente Flavio Silva Martins – 27 BC – dispensado em 12|05|1944;

2)   2º tenente R/2 Salomão (ilegível) Levy –– em 14|05|1944 e dispensado em 20|07| – rua Dr. Moreira, 190 – fone 1049;

3)   1º tenente Hyssarro Ferreira – em 01|08|1944 - rua Lauro Cavalcante, 237 – fone 1285;

4)   2º tenente Jesuíno de Souza Lins – em 09|06|1945;

5)   2º tenente R/2 Cristovam Paulo Martins – da 1ª/4º Batalhão de Fronteira - em 24|10|1945.

Finda a Guerra, findou também o subsídio de militares federais a JMS, assim obrigou ao Governo Estadual a recorrer a médicos da cidade. O primeiro a ser convocado, ainda que provisório, em 20 de junho de 1947, foi o doutor Antonio Hosanah da Silva Filho, residente a rua Lima Bacuri, 161, próximo, portanto, ao quartel da Polícia Militar. Este médico foi efetivado na corporação três anos depois.

Na postagem seguinte, cuidarei dos odontólogos, começando pelo pioneiro Francisco Menezes, formado pela Faculdade de Odontologia de Manaus.

domingo, novembro 08, 2020

HISTÓRIA DA PMAM: SERVIÇO DE SAÚDE

 Desativada em novembro de 1930, a Polícia Militar do Amazonas levou mais de 5 anos “fora do ar”, melhor dizendo, impedida de executar sua missão. Ao retornar, em abril de 1936, parecia mais acertada. Reagrupados seus elementos, a corporação foi paulatinamente se recompondo. Diversas novas providências foram incorporadas à instituição. Trato hoje do Serviço de Saúde.

Antes da desativação, o atendimento sanitário era realizado por médico do Estado, que atendia aos policiais passando pela caserna. Os casos mais graves eram encaminhados aos hospitais da cidade, com mais frequência à Santa Casa de Misericórdia.


Quando da reativação, porém, foi criado o Serviço de Saúde (SS), cujo primeiro dirigente foi o médico Walmik Ramayana Paula e Souza de Chevalier (foto), mais bem identificado por Ramayana de Chevalier, com o posto de capitão. Este médico, nasceu na residência da família situada no cruzamento das ruas Quintino Bocaiuva com Dr. Moreira. A família o enviou a Salvador, onde Chevalier frequentou a Faculdade de Medicina da Bahia, concluída em 1933. Ao tempo, Getúlio Vargas havia tomado o poder executivo do país.

Somente em 1943, temos notícia da inclusão de alguns médicos, não obstante uns terem se mantido em reduzida permanência no serviço. Em 13 de fevereiro, foi incorporado o Dr. Stelio José dos Santos Lobato, no posto de 1º tenente; um mês depois, em 14 de março, foi a vez do médico Djalma da Cunha Batista (graduado na Faculdade de Medicina da Bahia), na condição de capitão, mas que se manteve no SS somente seis meses.

Em setembro daquele ano, chegaram dois médicos: em 13, o Dr. Danilo de Aguiar Correa, graduado na Medicina do Pará, na condição de 1º tenente. Ingressou na política e foi deputado estadual até sua morte em acidente aéreo no interior do Amazonas. A 17, foi admitido o Dr. Alfredo Correa Lima, amazonense graduado pela Faculdade de Medicina do Rio. Logo, porém, restou este médico para atender aos policiais, pois os demais haviam desistido do emprego, inclusive Chevalier, que se mudara para o Rio e trabalhava na imprensa local, com elevado reconhecimento.

Somente em 2 de fevereiro de 1950, no entanto, é que a Polícia Militar acolheu novo médico. Acolheu o Dr. Antonio Hosannah da Silva Filho, também oriundo da Medicina da Bahia. Incluido com o posto de 1º tenente e alcançando o coronelato, empenhou-se no Serviço, deixando forte lembrança entre seus pacientes policiais; atendia ainda à Polícia Civil, no Instituto Médico Legal, que hoje leva seu nome.

Na próxima postagem, vou relembrar os raros Dentistas do período e os Médicos que vieram a partir da década de 1960.


terça-feira, março 31, 2020

HOSPITAL DA POLÍCIA MILITAR



Ao passar para a reserva na Polícia Militar do Amazonas (PMAM) em outubro de 1996, estava dirigindo o Serviço de Saúde da corporação. Aliás, fui o primeiro oficial combatente a exercer esse cargo e, desse modo, preciso explicar o evento: na época, diante de um desentendimento entre médicos e dentistas integrantes deste setor, o coronel Mael Sá, comandante-geral (1995-97), resolveu inovar nomeando-me chefe do Serviço de Saúde (SS). 

Principal serviço de saúde da PMAM, hoje abandonado
Com apoio no decreto 17.238/96, que efetuou uma reorganização na PMAM, estive naquela função entre junho e outubro desse ano. Apesar do tempo exíguo, produzi uma reforma dos prédios do SS, o hospital na rua Candido Mariano (atualmente aos pedaços, largado e ocupado por “invasor”), e o do Consultório Dentário, na rua Duque de Caxias, onde foi inaugurado a Companhia de Rádio Patrulha (desaparecido, após ser absorvido pela maternidade Balbina Mestrinho).
Além de melhorar as acomodações, consegui dar novo visual ao Hospital da Polícia Militar (HPM). E, devido minha aproximação com a imprensa, divulgar o feito. Veja a foto.
Mais: em busca de uma fórmula para que o HPM sobrevivesse, sem depender exclusivamente da Diretoria de Finanças, conversei exaustivamente com os oficiais médicos. Não alcançamos resultado positivo, mas intentamos com as seguintes sugestões: 1) receber  do extinto Ipasea, somente, 1% do nosso recolhimento; 2) estabelecer em diretrizes os dependentes dos policiais, a fim de que impedir que o “coronel” levasse até os vizinhos, para atendimento sem ônus; 3) melhoria das dependências, para permitir a recepção de clientes-particulares, mediante paga; 4) o pagamento simbólico (R$ 1,00) pelo atendimento, seja por consulta ou internação, pelos associados (lembrando que de graça, nada tem valor); 5) absorver o atendimento pelo SUS.
Enfim, o resultado desses procedimentos injetaria recursos financeiros no HPM, todavia, para que o gerenciamento desses valores fosse mais bem administrado, urgia que a corporação criasse uma Fundação (ainda continua necessária). Semelhante as que possuem as corporações militares federais e algumas policiais estaduais.
À fundação caberia, entre outras iniciativas, contratar médicos especializados, que atenderiam conforme normas administrativas e trabalhistas. Com isso, a corporação não se preocuparia com a seleção de oficiais médicos e de outras categorias. E, mais adiante, com a promoção desses e os desgastes que a hierarquia acaba gerando, tal como a que enfrentou o coronel Mael Sá, conforme explanado.

Da maneira que segue, lamentavelmente, a Policlínica não passará de uma UBS.