CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

21 de maio de 2014

ORFANDADE DA FAMÍLIA | 2


Manoel Mendonça, ao casar, 1942 
Cumpri ontem à tarde, ensolarada pelo verão amazônico, um sagrado dever filial: levar à sepultura meu venerado pai. José Manoel Mendoza morreu aos 97 anos, às vésperas do centenário, na cidade de São Paulo, onde residia transitoriamente. Amava de verdade a capital amazonense e, sem que tenha disposto, seu corpo atravessou o Brasil, como se despedindo do país que acolheu o peruanito ainda na segunda década do século passado, para ser sepultado em Manaus.  
Antes de ir em frente com o registro, desejo esclarecer a diferença entre o sobrenome dele e o meu. Primeiro o Mendonça.  Quando meu pai, imigrante analfabeto e sem documento, com dez anos, desembarcou em Manaus, passou a ser conhecido por Manoel “peruano”. Legalmente, assinava Manoel Mendonça. Com este sobrenome, estranhamente, casou-se em Iquitos (Peru), e deste fato resultou na esposa e nos três primeiros filhos esta marca.

Agora o Mendoza. Na condição de viúvo, contou-me que buscou o consulado peruano em Manaus para regularizar sua documentação. Também estranhamente saiu dessa repartição com um novo nome: José Manoel Mendoza. Este “novo homem” contraiu as segundas (?) núpcias, resultando gravando este sobrenome na esposa e nos cinco filhos. Assim foi substituído meu pai e já órfão materno, que havia falecido.  Confesso, contudo, que ganhei nova mãe com Dona Dora.

Sepultura
Na tarde dessa terça-feira, reunimo-nos no cemitério de São Francisco, outrora conhecido como da Colônia (Oliveira Machado) e agora denominado do Morro, causado pelo avanço urbanístico deste bairro que absorveu ao “campo santo”, para o sepultamento. Meu pai, muito católico, foi velado na capela de Nossa Senhora Imaculada, no mesmo bairro. De sorte que foi um pulo para o cemitério, passando pela antiga residência da família na rua Amazonas, 29.

Realizamos uma “festa”, como recomendou o vigário na homilia com que encomendou o corpo do velho paroquiano. A morte deve uma passagem para uma nova existência, portanto, alegremo-nos. O velório à moda antiga não dispensou almoço e merenda (lanche em amazonês) e um amplo encontro de familiares e amigos do seu Manoel “peruano”. A todos - sem distinção - agradeço penhoradamente.
Para encerrar, uma palavra pesarosa sobre o cemitério. É uma tristeza generalizada, a começar pelo prédio da administração, caindo aos pedaços.  “Operários” em busca de algum serviço, amontoados a entrada, atacam qualquer visitante, com ofertas as mais variadas. Arrisquei pagar por uma limpeza ao túmulo da família, coisa para arrancar alguma vegetação ressequida e uma vassourada em redor. Joguei dinheiro fora, pelo porco trabalho realizado. Contratei outro para fechar o jazigo após o enterro. O serviço não pôde ser realizado porque o coveiro estava cansado e, pior, não havia adquirido o material necessário. Enfim, falar em quadra, fila e número da sepultura, no São Francisco, é um acinte, um exercício de adivinhação, tal a irregular disposição das covas, devido ao declive do terreno e, mais ainda, da indolência dos administradores.

São Francisco, rogai por nós!
Prefeito Artur Neto, velai pelo nosso patrimônio!

Seu Manoel Mendonça (za), olhai pelos seus agradecidos descendentes.