CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, agosto 18, 2026

VIAGEM NO TEMPO (4)

 

Feliz Aniversário       18.07.2026                        

 Renato Mendonça 

Logo cedo, recebi uma ligação do José Manoel me parabenizando pelo aniversário. Durante a conversa relatei o desconforto da Alda, que não havia passado bem à noite, e a suspeita de infecção urinária. Sua esposa, Marília, aproveitou a ligação e interveio com asserção, nos orientando a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação. Assim, programamos a ida imediatamente, sentindo uma certa urgência.

Chegamos ao Hospital Santa Júlia bem cedo, na manhã do dia de São Pedro, logo após o saboroso café do hotel. Mesmo com a informação prestada pela Marília, ainda havia entre nós uma pequena preocupação com a natureza da instituição e se seria atendido pelo plano de saúde. O motorista do Uber nos deixou exatamente no atendimento de emergência, com acesso pela Avenida Ayrão.

Como se fosse uma bênção divina para comemorar o aniversário, essa instituição estava cadastrada para atender meu plano. Desde a recepção, observamos que era um hospital de excelência, com boa estrutura, todo informatizado, com agilidade impressionante no atendimento e no resultado dos laudos de análises clínicas dos pacientes. Um painel à frente mostrava o andamento de cada resultado, assim como já constava do celular cadastrado do paciente. Em pouco tempo, Alda estava de volta à mesa da médica Maria José Silva para sistematizar o laudo e receber a prescrição dos remédios. Havia urgência em comprar e começar a tomar o antibiótico.

O guarda, com a calma de quem conhece cada recanto daquele espaço, nos guiou por corredores silenciosos, ladeados por salas de atendimento e consultas. Saímos por uma porta lateral e tomamos um elevador para subir um andar; de repente, o mundo hospitalar se dissolveu na vibração da cidade. A Rodovia Álvaro Maia pulsava com o ritmo apressado dos carros e o colorido das farmácias, cada uma oferecendo remédios e cosméticos.

A urgência nos fazia caminhar rápido, mas havia algo de ritual nesse deslocamento: como se o antibiótico fosse não apenas um remédio, mas um símbolo de esperança, um elo entre a fragilidade humana e a força invisível que nos sustenta. O dia de São Pedro, outrora celebrado com procissões e fogueiras em cantos da cidade, ali se manifestava em forma de bênção silenciosa — o encontro entre a fé e a ciência, entre o cuidado humano e a tecnologia que acelera curas.

Ainda como parte das bênçãos recebidas, estávamos próximos ao Cemitério São João Batista, onde eu tencionava passar para rever o túmulo de minha mãe e de minha avó. Fazia parte do meu plano primitivo, antes de viajar. Caminhamos até lá. O portão do cemitério era como se fosse passagem para outro tempo, outro mundo. Cada passo sobre o chão quente trazia lembranças que se misturavam ao presente. O azul do túmulo, ainda vivo na memória digital, agora se revelava diante dos olhos com outra cor, mais brilhante sob a luz do sol. Toquei a superfície da lápide e senti que, de algum modo, minha mãe e minha avó estavam ali — não apenas sob a pedra e a camada de terra, mas no calor que me envolvia, na emoção que me tomava por inteiro. Esse instante singular reformulou minha maneira de sentir saudade de minha mãe — como se fosse uma saudade compartilhada —, cuja breve existência de apenas trinta e cinco anos deixou em mim uma ausência que não se apaga — a beleza que nunca se acaba. Cada lembrança é um fio de dor e ternura, e ao evocá-la, sinto que sua vida interrompida continua a pulsar dentro de mim, como se me pedisse que a memória seja também uma celebração.

 

Renato no cemitério São João Batista

Rezei em silêncio, como quem conversa com o passado e pede proteção para o futuro. O vento leve que atravessava nossos corpos parecia resposta, um sopro de bênção. Naquele instante, a viagem deixava de ser apenas deslocamento geográfico: tornava-se uma peregrinação íntima, um encontro entre fé, memória e destino.

É impróprio dimensionar o tamanho da emoção, posso assegurar que o momento foi épico — o melhor presente de aniversário para meus 75 anos — comemorado com uma festa espiritual. Minha avó, que conviveu mais tempo comigo, me “olhava” com seus olhos miúdos e me acalmava. Segredamos juntos nossas orações e pedi-lhes a Bênção. Uma placa provisória, trazida pelo meu irmão Roberto, que me acompanhava também nessa missão, encimava o túmulo. Prometi para elas, e para mim mesmo, que não vou ficar mais tanto tempo afastado... se Deus quiser.

O calor do verão amazônico parecia selar meu juramento, como se o próprio sol fosse testemunha da promessa. A lembrança do meu pai, repousando no São Francisco Xavier, aguardava sua vez de ser visitada, mas naquele instante o destino e a fome nos chamavam para a casa do Roberto, meu anfitrião.

O almoço em família, simples e festivo, foi como prolongamento da oração feita no cemitério. À mesa, entre risos e histórias, percebi que a viagem não era somente uma jornada física programada: era celebração da vida, encontro de gerações, reafirmação de laços que resistem ao tempo. Cada garfada trazia o sabor da memória, e cada palavra trocada era bênção renovada de amor e fé. Roberto, Beatris e a juventude da filha, Sofia, 16 anos, foram fundamentais para que nos sentíssemos novamente no aconchego de um lar — e feliz aniversário!

 

Renato - no cemitério São Francisco Xavier

À tarde, presente ao túmulo de meu pai — sepultado com minha madrasta, Doroteia — a mesma fé devotada. O azul tênue do céu parecia guardar segredos, e a nuvem que se afastava com o vento carregava consigo minha angústia, como se fosse mensageira de um consolo invisível. Percebi que a fé que compartilhamos muitas vezes ainda nos unia em silêncio, cada um traduzindo a ausência à sua maneira.

Meu pai, mesmo ausente, deixava ali sua marca: um legado que me acompanha e se revela nas pequenas lições que a vida me ensinou quando ele estava presente e após sua partida. Era como se ele me dissesse, naquele momento, através do sopro do vento, que a paz não está em negar a dor, mas em aceitá-la como parte da caminhada.

domingo, novembro 02, 2025

DIA DOS FINADOS 2025

 Este Dia de Finados me traz recordações curiosas, porém como recorda o articulista - Renato Mendonça, antes havia uma sacralidade, a visita aos cemitérios, aos mortos era motivo de ganhar indulgências. Hoje, a preocupação é com o resultado do jogo de futebol e equivalências.

Sepultura no cemitério São Francisco, situado
no Morro da Liberdade - Manaus
 

DIA DE SAUDADES

02.11.2025                                                        Renato Mendonça

O dia de hoje, para a maioria dos cristãos, vem carregado de sentimentos. Antigamente, trazia no bojo uma certa sacralidade, recheado de emoções e lembranças de nossos entes queridos que “partiram”. São emoções profundas que nenhuma lógica humana consegue explicar. Um ar circunspecto, envolto em um mistério divino, acompanhava multidões aos cemitérios, aos jazigos ou aos espaços onde os finados deixaram suas marcas. Uma forma de reverenciá-los com gratidão.

Entretanto, a cada ano que passa por nós e nos abandona, confirma-se aquele velho adágio popular: “O pior da morte não é morrer, é ser esquecido”. Fazendo um contraponto com essa dialética da vida, devemos nos alicerçar em um pressuposto: aqueles que nos amaram e aqueles a quem amamos, não passam, jamais morrerão. A presença deles é inesquecível e faz parte do nosso ser e de nossa história.

A profundidade do mistério da vida nos é garantida pela imortalidade de Cristo, que vive em nossos corações e mentes. Ele, também, nos abastece de amor com argumentos místicos que se encerram numa fé profunda sobre o nosso porvir: "Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá" (Jo 11:25-26).

A morte de qualquer pessoa do nosso convívio nos faz pensar também na nossa, pois é inevitável. Esta realidade, ao invés de diminuir o sentido da vida, nos contextualiza dentro da lógica humana, para viver plenamente cada momento como se fosse a eternidade. Isso nos é oferecido pelo amor, pois só o amor nos eterniza.

O Dia de Finados, além de ser um momento de reflexão, é também um Dia de Saudades. Um dia de homenagem aos mortos e oportunidade de lembrar que nosso viver, aqui nesse plano físico, está confinado dentro de um espaço de tempo, dentro dos planos de Deus.

A Encíclica Gaudium et Spes nº 18 (Alegria e Esperança) nos oferece fundamentos filosóficos confortantes sobre a nossa condição humana: “Para qualquer pessoa que reflete, a fé dá-lhe uma resposta à sua angústia sobre a sorte futura. Ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de comunicar-se, em Cristo, com os irmãos queridos já arrebatados pela morte, trazendo a esperança de que eles já tenham alcançado a verdadeira vida junto de Deus”.

Por uma questão de obviedade, sempre lembro de minha mãe, falecida prematuramente. Hoje, nesse dia especial, estendo a todos os nossos entes queridos essa lembrança. Deus os guarde à sombra de Sua proteção e à luz de Sua Face!

Amém.

quarta-feira, novembro 02, 2022

DIA DOS FINADOS

 Cumpri a tradicional visita aos cemitérios, hoje no Dia dos Finados. No cemitério São João Batista se encontram minhas avós, minha mãe e meu filho. No São Francisco, existente no Morro da Liberdade, estão meu pai e minha madrasta-mãe (mais mãe que...). O clima ajudou, pude sentar-me na sepultura e dialogar com a eternidade. Retirei-me mais rejuvenescido.

Escolhi uma das tantas cruzes marcantes no campo santo para ilustrar a postagem. A cruz e a vela bruxuleante.

A cruz e as velas no 
São João Batista

O texto abaixo pertence ao mano Renato que, ainda que distante, relembra com devoção os seus mais queridos.  

REFLEXÕES DO DIA DE FINADOS

 Renato Mendonça 

“Eu sou a Ressurreição e a Vida.

Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.

E quem vive e crê em mim, jamais morrerá.” Jo (11,25-26).

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue,

tem vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia...” Jo (6, 54-55)

 

Este Dia de Finados, como em todos os anos, nos traz lembranças, sentimentos e emoções que nenhuma lógica humana é capaz de explicar. O clima diferente, que nos envolve, nos faz diminuir as palavras e aumentar nossos sentimentos de pesar, de perda e de tristeza.

Para quem nos amou muito, teve sua participação efetiva, tanto na nossa geração como na nossa criação e educação, e, se ainda os amamos tanto, essas almas merecem a nossa reverencia, nossa dedicação e memória. Creio que o pior da morte, visto pelo lado humano de quem ainda permanece entre nós, não é morrer — afinal somos finitos —, é ser esquecido, abandonado em túmulos e nem ao menos ser visitado nestes dias de dedicação aos mortos.

 Qualquer lógica doutrinária que tente nos afastar dessa homenagem, para o cumprimento de um dever meramente humano, não tem lógica, não tem respaldo a partir da fé em Jesus Cristo. A morte dos outros nos faz pensar na nossa, é inevitável. Mas, essa realidade cruel, não nos diminui o sentido da vida, pelo contrário, nos dá argumentos e fé para viver como se fosse a eternidade.

terça-feira, novembro 02, 2021

DIA DE FINADOS

Aqui jaz a memória da

família Lima Mendonça


encontra-se no jazigo aberto para a avoenga Adelaide Vieira Lima, no cemitério São João Batista, há 80 anos. Para este finados intentei ultimar os reparos imperiosos à recepção de novos. Não me foi possível finalizar a obra, ainda assim pretendo recolher ao local dois personagens desta família sepultados no cemitério São Francisco, no Morro da Liberdade.

Hoje é dia para a reflexão, seguramente. Momento de rever de alguma maneira os antepassados, de relembrar-lhes as passagens, de reavivar a memória dos novinhos sobre os antepassados. Enfim, como de hábito religioso, oportunidade de rezar por suas almas. De acender velas, de deixar-lhes flores. E, quem sabe, aproveitar a ocasião para refletir sobre seu destino. Para tanto reproduzi o texto de meu irmão Renato, escrito para este evento.

Detalhe de curiosa lápide existente no 
cemitério de São João Batista - Manaus

Os campos-santos citados passaram por reformulação, receberam aquela recapagem, a fim de melhor acolher aos visitadores neste dia. Daí as fotos aqui postadas com as quais relembro os túmulos da minha família em cada necrópole.

 

Em São João Batista repousam:

 


             
Adelaide Vieira Lima (1883-1941)

Francisca Lima Mendonça (1917-1951

Victoria Malafaya (1890-1961)

Maria Nogueira de Lima (1920-1966)

Roberto Souza Mendonça (1971-2016)

 


          

 Em São Francisco repousam:


             Doroteia Santos Mendoza (1936-1992)

             José Manuel Mendoza (1916-2014)

terça-feira, maio 18, 2021

MANUEL MENDONÇA MALAFAYA (1916-2014)

 São passados sete anos que nosso pai - Manuel Mendonça - partiu, sem volta. Veio do Peru, da fronteira brasileira, para viver em Manaus. quando "partiu" estava em São Paulo, razão pela qual atravessou o país para ser sepultado no cemitério de São Francisco, no alto do Morro. Renato, meu irmão, assina o texto aqui postado, com que reverenciamos o saudoso pai. 

Manuel e Francisca, em belo momento da vida (1950) 

·     Eis o pequeno grande homem!

Eis aí, Senhor, o pequeno grande homem.

Eis aí, Senhor, o menino dos tempos idos, el niño cholo de Caballococha, no Peru. Junto com sua mãe e outro irmão mais novo, deixaram sua página de dor, para ingressarem na história. Na história da borracha e do Amazonas, escrevendo com o suor derramado. Desde a aurora da vida, buscando angariar a dignidade do ser humano, enfrentando as dificuldades da língua e dos costumes.   

Eis aí, Senhor, o garoto carente, mas firme nos seus propósitos, sem medos, sem tempo para contemplar a vida, senão enfrentar as inquietudes e desafios, construindo sonhos conforme os vossos desígnios, aproveitando as oportunidades na sociedade.

Eis aí, Senhor, o jovem Manoel, vivaz, sem angústia, cheio de esperança. Aceitando o que a vida lhe reservou, mas experimentando novas fronteiras, com a finalidade de sedimentar um projeto para o futuro. Sonhos realizáveis ou devaneios, sem detrimento do prazer, sem deixá-los de viver.

Eis aí, Senhor, o homem na sua plenitude, com o dever cumprido, arquiteto de duas famílias bem alicerçadas. Conduzindo sua cruz nos momentos difíceis, sem rancor, sem abdicar da responsabilidade, da luta pela dignidade, apoiando-se tão somente na sabedoria que a vida lhe ensinou.

Eis aí, Senhor, o homem! Um homem quase centenário, lutando contra as doenças da velhice como um guerreiro que não foge da guerra, e não esmoreceu jamais. Como um prodigioso missionário, doou-se de corpo e alma, usou as orações e os dogmas de Deus para terminar sua jornada em paz, para chegar ao fim da estrada sem lamentar nada.

Eis aí, Senhor, o homem!

Eis aí, Senhor, José Manoel Mendonça Malafaya, desde 18 de maio de 2014.