CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, abril 14, 2025

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS EM MANAUS

A ineficiência dos Bombeiros Municipais, na década de 1950, ensejou a criação da Sociedade dos Bombeiros Voluntários, fundada em 24 de abril de 1952. Era dirigida pelos lusos José Antonio Dias Loureiro Ventura, o comandante Ventura, e Constantino José Machado, subcomandante. A sede estava na rua Comendador Alexandre Amorim, bairro de Aparecida, também sede da empresa de Ventura. O empreendimento durou exatos dez anos, começando sua derrocada com a morte do subcomandante, sobre a qual a edição de A Gazeta (13 maio 1961) assim se manifesta:


Jornal A Gazeta, 13 maio 1961

Ontem, em Manaus, morreu um herói.

Que não o foi somente pelas determinantes de sua morte. Que não era apenas um relojoeiro. Um bombeiro voluntário. Um ator do teatro amador. Um português radicado no Brasil. Era um verdadeiro dínamo humano, desde 1918 – quando chegou a esta capital, se identificou com o dia-a-dia da terra que escolhera, dividindo suas energias com a profissão, com a missão nobre e heroica, com a arte, com o grêmio que une seus irmãos. Seu nome: Constantino José Machado. O português nascido em Leixões no dia 5 de outubro do segundo ano deste século morreu ontem, quando os relógios – que foram o seu ganha pão – marcavam as 19 horas e 30 minutos.

Num relance, talvez, se lhe passaram pela mente os acontecimentos mais importantes de sua vida irrequieta: o casamento com a sra. Rosa Gomes Machado, os três filhos (Altair, Ilos e Alda), a viuvez. O segundo matrimônio, a sra. Maria da Conceição, os outros filhos: Estefânia Maria, Antonio e Luzia. A sua genitora, as cinco irmãs, todas em Portugal. As suas atividades no rádio-teatro, na antiga “Festa da Mocidade” da Rádio Difusora, quando chegou a contracenar com famosos artistas brasileiros, como Pedro Celestino. O Luso Sporting Clube. O velho Luso, cujo corpo cênico dirigia. O incêndio na fábrica de sabão. O corre-corre que durante todo o dia colocou em permanente movimentação os Bombeiros Voluntários. Quantos incêndios já não ajudara a apagar? Só que este fora diferente. Fora o último. Um ônibus da Transportamazon interceptara a corrida que era uma constante na sua vida: matara-o.

O sr. Constantino José Machado era subcomandante da Sociedade de Bombeiros Voluntários. Em Manaus, além dos filhos e da esposa, deixou um tio, o sr. Antonio Pires, proprietário da casa “A La Ville de Paris”.

quarta-feira, maio 15, 2024

VOLUNTÁRIOS DO COMANDANTE VENTURA

No século passado, Manaus foi assistida em duas oportunidades por Bombeiros Voluntários: no governo de Silvério Nery (1900-04) e, entre 1952-61, conduzida por entidade privada. Este segundo desempenho, seja pela duração, seja pela indigência que assolava o município, marcou sua presença. A sociedade era composta de autoridades e comerciantes, liderados por José Antonio Dias Loureiro Ventura (1897-1961), nascido em Porto (POR) e alcunhado de comandante Ventura.  A sede usava as dependências da Luzitana Industrial Ltda., pertencente ao comandante, em Aparecida, onde hoje funciona o Fórum Des. Mário Verçosa.

Criado em 1952, dois anos depois os Voluntários desfrutavam da confiança do povo e dos governantes. Tanto que lhe foi destinado pelo governo carros próprios de combate ao fogo. Nesse sentido, bem expressa o editorial do Diário da Tarde (11 jan. 1954), que aqui vai transcrito. 

Ilustração sobre o editorial do Diário da Tarde, 11 jan. 1954

Realmente notável é o papel que desempenha, em nossa capital, a Sociedade dos Bombeiros Voluntários. Fundada em 1952 por um grupo de homens idealistas, de cidadãos dotados dos mais elevados propósitos de servir à terra e ao povo, a entidade, hoje em dia, com menos de dois anos de existência, constitui em verdade a garantia única de nossa gente, nos duros combates contra os traiçoeiros incêndios.

Começando suas atividade com um carro pequenino, sob a descrença de muitos e o estímulo de poucos, a Sociedade, paulatinamente, foi vencendo as grandes dificuldades e, no momento, graças à cooperação emprestada pelo governador Gama e Silva, já dispõe de um patrimônio apreciável, tanto assim que, reforçado por mais alguns auxílios que não deixará de prestar s. exa., — ela, a Sociedade, ficará em condições de poder manter um carro em Constantinópolis (Usina “Labor”); outro em São Raimundo; outro na ilha de Monte Cristo (Usina “Estrela”); outro em Adrianópolis; outro na Cachoeirinha; e ainda outro no quartel central, no bairro de Aparecida, para maior e mais afetiva proteção de nossa coletividade.

ATIVIDADES GRANDIOSAS

Mesmo sem o auxílio governamental, expressivo, e condizente com o seu programa de tão alta envergadura, os Bombeiros Voluntários, no entanto, desde o seu surgimento, tendo um comandante com a disposição, o entusiasmo e a fibra de José Ventura, passaram a prestar à coletividade relevantes serviços, quer nas árduas lutas contra o fogo; sem equipamento adequado e eficiente, quer no fornecimento de água a hospitais, quer ainda em outras atividades de interesse do nosso povo.

Voluntários na expressão da palavra, sem visar em consequência qualquer remuneração, esses “soldados do fogo”, sob à direção de José Ventura, vêm cumprindo, com galhardia e sob os calorosos aplausos de sua população, o seu altruístico objetivo.

Dia e noite, eles estão alertas. E, ao menor sinal de incêndio, ou ao simples chamado de entidades ou particulares, para condução de água, eles saem velozes, alegres e dispostos a atender. Não há conveniência, da parte dos seus membros. A todos satisfazem, indistintamente, pondo inclusive, em perigo, suas preciosas vidas.

DEVE HAVER ESTÍMULO E APOIO  

Ninguém desconhece que, desde à sua organização, os Bombeiros Voluntários têm tomado parte ativa e decisiva, no combate aos últimos incêndios verificados em Manaus. E, mercê dessa interferência, imensos prejuízos têm sido evitados. Prestando, como vêm prestando e prestarão sempre, trabalho altamente meritório à nossa gente, os Voluntários fazem jus a toda sorte de estímulo, de incentivo e apoio, seja da parte do governo, seja da parte de entidades particulares, seja do próprio povo.

É certo que eles não pretendem, para si, pessoalmente, compensações. No entanto, desejam o fortalecimento de sua corporação, o que é muito justo e necessário, pois, dispondo de melhor equipamento, poderão prestar a todos nós um serviço mais eficiente, mais positivo. Assim, cada habitante de Manaus, deve ser um defensor, um incentivador dos Voluntários, para que eles, amparados e protegidos nas suas atividades, possam prosseguir na sua campanha, no seu movimento em favor da segurança e da tranquilidade de nossa população.

 

terça-feira, janeiro 09, 2018

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS [3]

Era véspera do Dia de Nossa Senhora de Fátima, padroeira do bairro da Praça 14 de Janeiro. Enquanto a comunidade católica preparava a festa da protetora, um forte incêndio, no mesmo bairro, consumia a fábrica Três Unidos, instalada na rua Visconde de Porto Alegre. 
No desenrolar do combate ao fogo, a viatura 3 dos Bombeiros Voluntários, conduzindo o subcomandante Constantino Machado, chocou-se com um ônibus da estatal Transportamazon, resultando na morte deste chefe.
A cidade enlutou-se com a tragédia. E a empresa, por seus dirigentes, fez publicar um Testemunho no Jornal do Comércio (17 maio 1960), que aqui vai postado.



Maria Luiza Leal Gesta, Rubem Pereira de Melo e Elias Ramiro Bentes, sócios constituintes de Bentes, Melo & Cia., desta praça, proprietários da Usina Três Unidos, ainda sob a impressão desolad0ra do sinistro, ocorrido a doze do corrente mês, no seu estabelecimento de indústria e beneficiamento de castanha, que, pelo fogo, lhe destruiu todas as estufas, vêm, de público, manifestar a gratidão aos Exmos. Srs.  Gilberto Mestrinho, Governador do Estado; Desembargador Manuel Machado Barbuda, ilustre Secretário do Interior e Justiça; Doutor Luigi Farini, operoso Chefe de Polícia e aos seus valorosos auxiliares; Tenente-Coronel José Anchieta do Vale Bentes, comandante do 27 Batalhão de Caçadores; Sargento Aguilar de Jesus Ribeiro, comandante do Destacamento da Aeronáutica de Manaus; Coronel Assis Peixoto, acatado comandante da Polícia Militar do Amazonas e respectivos comandados; ao heroico e estimado Corpo de Bombeiros, aproveitando para prestar sincera homenagem  à memória de seu denodado subcomandante, Sr. Constantino Machado, cuja vida se imolou no cumprimento de sublimes deveres; Doutor Elias Morkazel, dedicado diretor do Departamento de Estradas de Rodagem; Doutor Aderson Dutra, presidente da Companhia de Eletricidade de Manaus; Senhores Raimundo de Alcântara Filgueira e Stepheson Vieira Medeiros, Gerente e Contador e demais funcionários do Bando do Brasil;  Hélio Silveira, Gerente, em exercício, do Banco de Crédito da Amazônia; H. C. K. Bangrineister e H. L. Meranell, Gerente e Contador do Bank of London & South America; Dario Farias de Lima, Diretor da Escola Técnica de Manaus e seus denodados alunos; Dr. Candido Machado, aos nossos empregados; Dr. Walter Zuany de Figueiredo, Diretor do Departamento de Águas do Estado; e aos dignos chefes das firmas J. G. Araújo & Cia. Ltda.; I. B. Sabbá & Cia. Ltda.; Cia. de Importação e Exportação S.A.; Curtume Mago  & Cia.; J. R. Siqueira & Cia.; N. Pazuello; Ferreira da Silva; C. V. Vasques & Cia.; Industrias I. B. Sabbá S.A. e aos competentes e corajosos operários da Usina Labor e, finalmente, a todos quantos naquela hora de profundo pesar, aos manifestantes também, que trouxeram, com o valiosíssimo concurso, a prova de comovedora solidariedade humana, virtudes que caracterizam a grandeza de coração, a nobreza de espírito e o sentido da Caridade do povo a que, com muito orgulho, pertencem.


Manaus, 16 de maio de 1960

Maria Luiza Leal Gesta Rubem Pereira de Melo Elias Ramiro Bentes

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS [2]


Recorte do periódico, de 14 maio 1960
A morte do subcomandante dos Bombeiros Voluntários, em 1960, pela forma e a situação como ocorreu, repercutiu na provinciana cidade de Manaus. Os textos postados bem demonstram a solidariedade de todos, autoridades obrigadas pela função pública, e o povo, em geral, como se depreende do testemunho dos donos da empresa sinistrada. 
Ainda nos conhecíamos a todos, ou pelo nome de família ou por alcunha típica. Éramos um imenso grupo quase familiar, ligados pela afetividade e outras virtudes.
Diante dessa intensa causa, a cidade chorou no velório de Constantino Machado. As manifestações foram amplas, como bem publicou em suas páginas o Jornal do Commercio (14 maio 1960) . E aqui são postadas. 

Ainda na alma e no coração do povo a triste
recordação de C. Machado

A sociedade amazonense, as classes militares e autoridades principais do Estado prestaram sua última homenagem ao denodada soldado do fogo — Concedida pensão vitalícia à viúva de Constantino Machado pelo governador do Estado

Ainda repercute dolorosamente em todos os círculos sociais de Manaus a brutal tragédia que, à noite de quinta-feira, roubou a vida do Sr. Constantino Machado, figura que em vida, desfrutou de real apreço entre nós, pela sua capacidade de trabalho, dedicação afetiva à família e grande cooperador de nossa modelar Cia. de Bombeiros Voluntários, onde era um dos seus subcomandantes.

Dada a lacuna que o mesmo deixou na sociedade de Manaus, na Cia. de Bombeiros Voluntários, nossa reportagem procurou ouvir o comandante Ventura, colega e amigo do inditoso soldado do fogo, para que nos dissesse algo sobre a vida do mesmo.

Soubemos, então, ter sido um exemplar companheiro da esquadra dos homens que lutam contra os sinistros dos incêndios, onde durante seis anos empregou suas atividades. Estava Constantino Machado trabalhando em um show que, brevemente, seria levado a efeito no Teatro Amazonas por iniciativa do comandante Ventura e seus companheiros, em benefício das crianças internas do Educandário Gustavo Capanema. Deixou viúva dona Maria Machado e mais três filhinhos menores.

OS FUNERAIS
Seu sepultamento, manhã de ontem, constituiu outra demonstração de apreço em que era tido, tornando-se verdadeira apoteose de saudade e de dor, entre seus colegas, amigos, e toda a nossa sociedade, deixou a sua passagem através da morte para a eternidade.
Se corpo foi velado no salão nobre do Luso Sporting Club, onde uma Guarda de Honra prestou-lhe as homenagens fúnebres. A Guarnição Federal se fez representar, no velório, por oficiais, sargentos e praças. A Polícia Militar da mesma forma.

Reprodução do JC, 14 maio 1960

Sr. Antonio José Pina agradece à cobertura dada pelo “Associado”, a respeito da tragédia em que desapareceu o subcomandante Constantino Machado
Recebemos atenciosa carta datada de 12 do corrente, cujo teor damos abaixo e pela qual aquele cidadão, tio do infortunado Sr. Constantino Machado, recentemente morto no desastre ocorrido naquele dia, com o carro-pipa dos Bombeiros Voluntários, vem trazer de público seus agradecimentos ao JORNAL DO COMÉRCIO a respeito da cobertura que fizemos em torno do lutuoso fato, inclusive nossas crônicas e artigos a respeito:

Manaus, 12 de maio de 1960
Ilmo. Sr.
Diretor do JORNAL DO COMÉRCIO
Nesta

Como tio do Sr. Constantino José Machado, subcomandante dos Bombeiros Voluntários, tragicamente desaparecido no dia 12 do corrente, quando desempenhava o cumprimento do seu abnegado dever, venho, com o devido respeito, apresentar a minha sincera e imorredoura gratidão, não só pela completa reportagem noticiosa a respeito do corrido, como também pelos comoventes artigos publicados sobre a vida de meu infortunado sobrinho.

Atenciosamente
Antonio José Pina
  

segunda-feira, janeiro 08, 2018

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS [1]

Raríssimos são aqueles que se lembram de que prosperou em Manaus um corpo de Bombeiros Voluntários. Há mais de 50 anos, situado no bairro de Aparecida, dirigido pelo comandante Ventura. 
A morte deste, antecedida pela do subcomandante, apressou o encerramento desta organização. Reproduzo abaixo dados do desastre que vitimou a Constantino Machado, extraídos do Jornal do Commercio (sexta-feira, 13 maio 1960). 
Já escrevi neste Blog sobre o comandante Ventura e seu primoroso trabalho.


Perde a vida quando no cumprimento do dever o Subcomandante dos Bombeiros Voluntários

Constantino Machado um dos esteios da corporação perde repentinamente a vida na colisão do carro 3 dos Bombeiros com o ônibus 18 da Transportamazon — Estavam terminando os serviços de incêndio na fábrica Três Unidos — Capotou espetacularmente o carro dos bombeiros — Três feridos e um morto o balanço — Os passageiros do ônibus nada sofreram

Um choque de veículos na esquina da Eduardo Ribeiro com a 7 de Setembro, entre o ônibus 18 da Transportamazon com o carro número 3 dos Bombeiros Voluntários, resultou em uma morte e 3 feridos, todos pertencentes aquela corporação.



O CHOQUE
Descia a avenida Eduardo Ribeiro o Transportamazon 18 quando, ao atravessar aquele cruzamento com sinal em seu favor, surge descendo a 7 de Setembro o Carro 3 dos Bombeiros com a sirene aberta, em grande velocidade. Ao perceber o carro dos bombeiros o chofer do ônibus não teve mais tempo de frear seu carro, tentou atravessar a rua antes do outro para evitar o desastre no que foi infeliz, pois o Carro 3 foi atingi-lo à altura das rodas traseiras, capotando em seguida na sarjeta que dá para a Matriz.

CUSPIDOS DO VEÍCULO
Com o impacto, dois bombeiros que vinham trepados na passadeira do carro pipa, foram cuspidos à distância o que lhes valeu, pois os dois que vinham na boleia, o chofer e o subcomandante, foram mais infelizes.

OS FERIDOS
Saíram feridos da colisão os seguintes bombeiros voluntários: Mario Garcia da Cunha, condutor do Carro 3, solteiro, chofer, residente à rua Miranda Leão, 341, que sofreu fratura da perna direita; Milton Dib Nunes, com 18 anos de idade, estudante e bombeiro voluntário, solteiro, residente à rua Leovigildo Coelho, 313, com escoriações no braço esquerdo; e Claudio Barbosa Santos, com 19 anos de idade, solteiro, comerciante, residente à avenida Airão 317, com escoriações generalizadas.

O MORTO
A nota triste e lamentável foi a morte quase instantânea do subcomandante dos Bombeiros Voluntários Constantino Machado, ourives de profissão e um dos grandes esteios da corporação ao lado do Comandante Ventura. Constantino teve morte quase instantânea, pois transportado para o Pronto Socorro, logo ao chegar faleceu. Como se sabe desde as 11 horas da manhã os bombeiros voluntários estavam trabalhando no incêndio da fábrica Três Unidos, quando já ao término da missão, o manto negro atinge em cheio a briosa e destemida corporação roubando um de seus mais entusiasta e lutador. Constantino fiel ao seu ideal, morreu em serviço
O subcomandante Constantino residia na sede do Luso Sporting Clube, de onde era figura destacada, fazia parte também do círculo teatral de Manaus, onde por várias vezes atuou em peças as mais variadas. O mesmo era entusiasta da arte cênica, dinâmico cooperador da administração da sociedade dos portugueses, terra que lhe serviu de berço.
Deixa com sua morte uma grande lacuna em todos os setores de que fazia parte, por sinal difícil de preenchê-la, dado o seu entusiasmo e capacidade de trabalho.

PRESO OS CHOFERES
O comissário Walter Rodrigues da Delegada de Trânsito prendeu os dois choferes em flagrante delito, para proceder interrogatórios necessários que deverá instruir o competente inquérito. O chofer do ônibus 18 da Transportamazon é o senhor Mardock de Oliveira Pacheco Duarte, filho de Francisco Pacheco Duarte e de Generosa Oliveira, cearense, com 34 anos de idade, casado, residente à rua Belém, Vila 5 Irmãos, casa 5 [certamente Cachoeirinha].

PASSAGEIROS NADA SOFRERAM
Felizmente os passageiros do coletivo nada sofreram com o impacto, saindo todos sãos, levando apenas o susto, isso em face do local do baque e do grande peso do veículo. 

terça-feira, dezembro 06, 2011

COMANDANTE VENTURA, SUA MORTE: 50 ANOS (5/5)


Comandante Ventura
Aconteceu na tarde desse dia, em acidente de trânsito com um jipe da instituição dos Bombeiros Voluntários. A repercussão foi imediata e geral na cidade, levando grande número de pessoas e autoridades ao velório e ao enterramento do corpo no dia imediato.
Os recortes abaixo de diários de Manaus, portanto, refletem o clima que a tragédia acarretou nos manauenses.


No ano anterior, morrera o subcomandante dos voluntários. E em 6 de dezembro de 1961, outro acidente grave mata o comandante José Ventura. A descrição pertence ao Jornal do Commercio (8 dez.). “O comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários voltava de uma missão, combater o incêndio nas instalações ‘asfálticas’ do Deram, na estrada Manaus–Itacoatiara, quando aconteceu o acidente”.

O veículo capotou em uma curva bastante íngreme no Km 36, provocando duas mortes (além de Ventura, morreu o bombeiro Mário Sá) e quatro feridos (todos integrantes daquela organização). O comandante Ventura foi o primeiro a falecer, pois seu corpo havia sido atirado do veículo à distância. O jipe desgovernado acabou no barranco marginal com cerca de 5 metros de altura.


O velório ocorreu “na residência do comandante Ventura, onde se registrou verdadeira romaria e cenas as mais pungentes, de amigos comuns e admiradores do grande morto e sua obra”. É conveniente lembrar que o aquartelamento se confundia com a moradia e a empresa da família Ventura. Apenas para recordação, ocupava esta o local onde hoje se encontra o Forum Mario Verçosa, em Aparecida.


Às dez horas de 7 de dezembro, o cortejo fúnebre partiu, encabeçado pelo carro dos Bombeiros Voluntários, mais um da Força Aérea Brasileira, para o cemitério de São João. Outros carros, estimados em mais de duas centenas, seguiram ao féretro. Foram muitas as representações de colégios, religiosas, escoteiros, e personalidades, como o deputado Josué Cláudio de Souza, em nome do governador Gilberto Mestrinho, e o general Vasco Kropf de Carvalho, do GEF.


Várias foram as homenagens prestadas aos mortos, no mesmo cortejo seguiam os corpos do comandante e de seu subordinado. Na prefeitura, onde funcionava a Câmara Municipal, falou o vereador Manuel Bessa Filho, “em nome da comunidade, ressaltando a grande obra do falecido”. Nova parada ocorreu no Palácio Rio Negro, “onde o governador do Estado rendeu homenagem aos mortos também em nome do povo amazonense”. Nas Casas Legislativas, os encontros trataram da morte do comandante. Os vereadores prometeram aprovar “a pensão de 10 mil cruzeiros à viúva do comandante dos Bombeiros Voluntários”.


No dia seguinte, o mesmo Jornal do Commercio produziu longo editorial. Dele, transcrevo parte:


A corporação dos Bombeiros Voluntários, no entanto, será herdeira desse exemplo e terá sempre a nortear-lhe os passos da figura agora legendária e espiritual do seu fundador e inesquecível comandante Ventura. Homem bom, vindo de outras terras do além mar para viver conosco, amar o Amazonas e trabalhar conosco, o comandante Ventura, por isso mesmo, tornou-se querido, estimado e incentivador de grandes campanhas de benemerência em favor dos necessitados, principalmente em benefício da Casa da Criança, Dr. Fajardo e do Instituto Gustavo Capanema. Como se não bastassem, ainda, essas provas inequívocas de amor ao próximo, o comandante Ventura idealizou e criou o Corpo de Bombeiros Voluntários para suprir a ausência do poder público nos dramas de incêndios da cidade.

O governador do Estado, Gilberto Mestrinho, não demorou (Lei n.º 44/1961) em amparar aos herdeiros do comandante, concedendo “à senhora Silvia Isabel Neves Ventura, viúva do comandante José Antonio Dias Loureiro Ventura, presidente da Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus, falecido no cumprimento do dever e a serviço da coletividade manauara”, a pensão de CR$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros).


Governador Gilberto Mestrinho, 1960

Esta providência governamental teve o suporte do legislativo, figurando o líder do governo, deputado Arlindo Porto, que pronunciou na Assembléia (e reproduziu na mídia) apurado discurso, para fundamentar a decisão do chefe do Poder Executivo. Lamentavelmente, a instituição dos Voluntários, ao perder seu baluarte, deu início ao seu desaparecimento.


Outro que se manifestou pela imprensa foi o colega de palco, de ribalta, o cronista Gebes Medeiros. Gebes, na coluna Theatro (O Jornal, 10 dez. 1961), ainda sob o impacto do desaparecimento trágico do amigo, sob o título Comandante Ventura, escreveu:  


                        Saudades daqueles que passaram pela terra, deixando um rastro luminoso, inapagável, fulgurante, cujas vidas foram todas devotadas ao próximo, pela feição, pela ternura, pelo ideal nobre e sublime, pela vocação constante e sempre fazer o bem, sem distinção de classes.
                   Comandante José Ventura!...
                   Deus tirou-o desta vida, na última quinta-feira!...
             Foi um homem do povo. Bravo, no entanto, no saber querer. Sentinela constante da nossa cidade, a frente dos seus bravos Bombeiros Voluntários.
O Jornal, Manaus, 18 ago. 1956
               Em julho seguinte, A Crítica (24 jul. 1962) registra que o jipe dos Bombeiros Voluntários, o acidentado na morte do comandante Ventura, fora recuperado. Além dessa generosa notícia, apesar do longo prazo para o conserto do veículo, em se tratando de prestador de serviço de urgência, havia outras. Uma, que os Bombeiros seguiam operando. Segunda, que o jipe fora restaurado às expensas da ECCIR, uma empresa de construções. E terceira, que o novo comandante era o José Afonso, que, na entrevista, falou dos “sonhos” dessa entidade benemerente. 


                       Disse-nos o comandante José Afonso que a recuperação do referido jipe totalizou em 150 mil cruzeiros, tudo custeado pela ECCIR, e que agora a Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus aguarda somente os carros pipas prometidos pelo governador Gilberto Mestrinho para que os heróis do fogo possam contar com os referidos carros em qualquer emergência.

Um ano depois ainda era lembrada a morte do saudoso comandante. Até porque a corporação divulgou a missa encomendada “em sufrágio da alma daquele”, na igreja de São Sebastião. A mídia impressa, em associação, relembrou o evento. Repassou em editorial que o pranteado recebera da Câmara Municipal o título de “Cidadão de Manaus” (O Jornal, 6 dez. 1962.  Faz, hoje, um ano de morto o Comandante Ventura). Encerrando o noticiário, o matutino assegurava que

                              Ventura era, acima de tudo, uma segurança permanente aos lares pobres e ricos, na defesa de seu patrimônio, contra incêndios. Quando isso porventura acontecia, ninguém se lembrava de outro nome senão o do Comandante Ventura.

                   E ele chegava, às carreiras, com o seu pessoal igualmente valoroso carregando um equipamento modesto, obsoleto mesmo, mas até aqui o único existente, pois a Prefeitura não dispõe de nenhum. E foi durante um dos seus combates às chamas, que a fatalidade tirou a vida do Comandante Ventura, juntamente com outro “soldado do fogo”. A cidade até hoje chora, com saudades, a morte do herói, cuja figura nunca deixou de ser reverenciada.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

COMANDANTE VENTURA, SUA MORTE: 50 ANOS (4/5)



A Crítica, Manaus, 21 outubro 1958
Amanhã, 6 de dezembro, completa 50 anos a morte do comandante Ventura, criador e condutor da Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus (1952-63). Aos 64 anos, o comandante foi vítima de acidente de trânsito quando se deslocava no jipe da instituição.
As regras básicas de sua instituição são conhecidas, reponho no espaço apenas o primeiro e o último artigo. E mais, os nomes dos membros da assembléia, crendo que apenas um – Paulo dos Anjos Feitoza, desembargador aposentado, segue vivo, lembrando esse episódio heroico.  


ESTATUTOS da Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus


Capítulo I - Da fundação, finalidade e sede
Art. 1º – A Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus (SBVM), fundada no dia 24 de abril de 1952, é uma sociedade civil, com personalidade distinta de seus associados, os quais não respondem pelas obrigações contraídas pela Sociedade, com sede e foro em Manaus, capital do Estado do Amazonas, sem prazo de duração determinado, com a finalidade precípua de se organizar para dar combate aos incêndios e prestar socorros se possível em caso de calamidade pública, por iniciativa própria ou quando solicitada a sua interferência. É um órgão de beneficência, visando ainda promover reuniões e movimentos outros de caráter desportivo, cultural, artístico e cívico, visando melhor congregar seus associados. (...)
Art. 40 – Os presentes Estatutos entrarão em vigor logo após a sua aprovação.

         Aprovados em sessão da Assembleia Geral de 14 de maio de 1952.
Elias Ferreira da Silva; Francisco Rebelo de Souza; Dr. Jorge Abrahim; Antenor C. Braga; Wuppschlander Lima; Edgard Gama e Silva; Erminio Fernando Barbosa; Antonio César Montenegro; Desembargador Rocha Carvalho; José Ribeiro Soares; Mansour Francis Chehuan; Waldemar Pinheiro de Souza; Paulo dos Anjos Feitosa; Padre Clemente; Carlos Barroco; José A. M. Teixeira; Oscar Maia; José Afonso; Severino P. Freire; José Antonio Ventura; Dr. Leopoldo Amorim da Silva Neves; Aristóteles Bonfim.
* * *
O governador Plínio Ramos Coelho (1955-59) concedeu respeitável ajuda ao SBVM. Além dessa, havia a colaboração do comércio e da prefeitura de Manaus (apesar de possuir os Bombeiros Municipais). Embora houvesse tanta contribuição, nesse tempo, as dificuldades financeiras paralisaram os Bombeiros Voluntários. Segundo A Crítica, “A ajuda do comércio não chega para cobrir as despesas só de combustível”, afinal a elevação do preço da gasolina para Cr$ 8,20 “provocou sérios transtornos na vida da cidade”. Para contornar a situação, os Voluntários decidiram “não mais continuar abastecendo de água residências, hospitais e colégios”. Assim, diante dos “constantes e permanentes faltas de água”, a cidade será privada desta valiosa ajuda. 

O Jornal, Manaus, 2 set. 1958
Esse transtorno financeiro se sucedia pela inadimplência da Prefeitura para com os Bombeiros, pois, havia quatro meses que esta não liberava a dotação prevista. Buscando solucionar a situação nefasta, o jornal endereçou veemente apelo ao prefeito Ismael Benigno, no sentido de “solucionar esse problema de graves resultados para a nossa cidade”. A Crítica igualmente apelou para o comércio de Manaus, “a fim de que os Bombeiros Voluntários possam continuar realizando o seu trabalho diuturno de fornecer água aos colégios, hospitais e residências”. Na verdade, a organização servia mesmo para suprir de água a cidade. Combater incêndio, seu objetivo, ficava em segunda ordem.

Em fevereiro de 1957, os Voluntários foram à luta, saíram às ruas em busca de auxílio. Ou seja, passaram a arrecadar recursos junto à população. Obviamente, com o total apoio da imprensa. Acompanhemos essa campanha em O Jornal, então o matutino de maior circulação. A 3, sob a manchete - Compareça com seu auxílio na campanha dos Bombeiros Voluntários, o jornal marcava para o dia 30 a “coleta de donativos suficiente para formar o quanto for necessário de equipamentos para compor as modernas unidades”. E arrematava a reportagem pedindo a todos que “não deixem de comparecer com a sua contribuição”.
O Jornal, Manaus, 19 set. 1958

Novamente na rua, hoje, os “Comandos” dos Bombeiros Voluntários, propalava O Jornal (24 fev. 1957). Ao anunciar a coleta, o matutino esclarecia que a campanha financeira se destinava a aquisição de dois carros de combate ao fogo. E que os bombeiros cumpririam o seguinte itinerário: rua Ramos Ferreira, praça da Saudade, praça do Congresso, rua Nova e rua Leonardo Malcher.  (segue)

sábado, dezembro 03, 2011

COMANDANTE VENTURA, SUA MORTE: 50 ANOS (3/5)


Comandante Ventura, com uniforme
da SBVM

Em 6 de dezembro de 1961, desaparecia o comandante Ventura, criador e condutor da Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus (1952-63). Aos 64 anos, Ventura foi vítima de acidente de trânsito com um jipe da instituição, e, junto com ele, morreu um subordinado, Mário de Assis Sá.

 Encerro hoje a carta que sua filha especialmente escreveu para meu livro sobre Os Bombeiros do Amazonas.


Os voluntários passaram logo a funcionar, mas a Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus (SBVM) somente foi fundada em 24 de abril de 1952. Aqui se manifestaram os amigos de meu pai, cuja relação se encontra nos estatutos da associação. Na primeira reunião, o comandante Ventura foi eleito diretor do voluntariado e somente o deixou com sua morte.


Em razão dessas dificuldades, os Bombeiros voluntários se juntavam aos municipais no combate ao fogo e outros sinistros. Se eu contar das inovações que se fazia para cumprir o serviço, talvez seja motivo de risos. Não se sabia como funcionava, pois, se Manaus dos anos 1950 passava por uma pobreza danada, quanto mais os voluntários. Enfim, foi tentando superar essas penúrias que meu pai, o comandante Ventura, encontrou a morte.
Em 6 de dezembro de 1961, aos 64 anos, ele saiu para socorrer uma instalação do Deram na estrada Manaus-Itacoatiara.  Apenas os voluntários.  Nesse dia, não pude acompanhar o comboio, por sentir os sinais do nascimento de meu filho Cirilo. Então, aconteceu o desastre, o jipe capotou e... Bem pior foi a maneira como a triste notícia chegou a nossa casa. Sem que a família desconfiasse de nada, um jornalista perguntou pelos mortos do acidente...
No dia seguinte, antes de sepultar seu corpo, assisti a cidade de Manaus reverenciar o comandante Ventura. Foi então que meu pai, por seus voluntários, virou lenda!
Praça Comandante Ventura, 13 de junho de 2006

Maria Neves Ventura

O Jornal, 22 março 1959. Terminologia da época
Na trilha das homenagens prestadas ao morto, uma semana depois, o prefeito de Manaus sancionou a lei que denomina o logradouro público com o nome do comandante. A escolha do sítio recaiu no bairro de Aparecida, afinal ali estavam baseados os voluntários e a praça existia com a identificação de Bandeira Branca.

O espaço escolhido, todavia, era muito apreciado pela comunidade. Certamente, por essa razão, “a lei não pegou”. Talvez, se a mídia tivesse colaborado, a transferência poderia ter ocorrido, como bem se vê em nossos dias com as ruas de Adrianópolis.

O resultado foi elementar: a praça continua Bandeira Branca e, hoje, 50 anos depois da morte daquele português benemérito, raros são os manauenses que se lembram desta tragédia e, mais ainda, de sua atuação em vários campos de atividade.

Ninguém, cinquentanos depois, se incomoda com o tributo que transcrevo:

Lei n.º 772, de 15 de dezembro de 1961,
Dá denominação à Praça Pública.
Art. 1.º - Fica revogado o Art. 1.º da Lei n.º 474, de 22 de dezembro de 1956, na sua alínea “d”.                     
Art. 2.º - Fica denominada de Comandante Ventura a Praça, atualmente conhecida como “Praça da Bandeira Branca”.

Loris Valdetaro Cordovil - Prefeito Municipal