CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de março de 2016

FORTE DE SÃO JOSÉ DO RIO NEGRO

Recolhido da revista VICTORIA-REGIA, circulada em Manaus na década de 1930, trouxe esse pequeno artigo sobre o "misterioso" forte existente em nossa capital. Pouco se sabe sobre esta fortificação, restou apenas o nome do protetor. Nada mais.
Também nada recolhi sobre o autor. 

Recorte da Revista-regia, fevereiro de 1933

O FORTE SÃO JOSÉ DO RIO NEGRO

Ali, onde está o acinzentado edifício do Tesouro Público, erigia-se, dominando as águas da baia, o tradicional Forte São José do Rio Negro, também chamado Fortaleza da Barra, pedra fundamental da cidade. Ali começou a risonha Manaus... 
Foi em 1669. O capitão-mor, do Grão-Pará, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, informado sobre o rio Negro, por Pedro da Costa Favela, o chacinador das desventuradas tribos do rio Urubu, e julgando conveniente assegurar aos lusos o direito de posse ao Quiari famoso, ordenou erigir uma fortificação numa das margens. 
Coube faze-lo a habilidade do capitão Francisco da Motta Falcão.
A sete milhas do conhecido Encontro das Águas, num outeiro entre igarapés e florestas, a 44,9m acima do nível do mar, Motta Falcão, auxiliado por seu filho Manuel da Motta Siqueira, especialista em fortificações, construiu de pedra e barro, um quadrângulo de muralhas baixas, sem fosso, e artilhou-o com duas peças de bronze de calibre um e duas de ferro de calibre três. 
A recém-construída fortificação, primeira que possuiu o Amazonas, recebeu a denominação de Forte São José do Rio Negro e ficou entregue a um pequeno destacamento, tirado da guarnição do Pará, sob o comando do esforçado capitão Angélico de Barros. 
À sombra protetora daqueles muros não tardaram a vir se abrigar famílias de Bares, do Japurá, de afáveis Passes, do Japurá e do Içá, e de Banibas, do alto rio Negro.
E surgiram, logo, fragílimas palhoças, desgraciosas e paupérrimas, agrupando-se como que instintivamente... Rio acima, porém, milhares de índios, abrigados no recesso das matas, constituíam uma cortina vedando a penetração. 
Um sargento da guarnição, Guilherme Valente, venceu aquela dificuldade. Subindo audazmente o rio, até o Cabori, conseguiu a amizade dos Caboricenas, dos Carahahis e dos Manaus. Solidificou-a casando-se com a filha de um tuxaua (1693). E a ação profícua dos frades da Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo, vindos do Pará em 1695, tornou duradouro o domínio luso... 
E Manaus era “um agregado de algumas choupanas, onde só havia um esplendor: o da Fé”. 
Até 1774 pouco progrediu o obscuro vilarejo. Atingia, mais ou menos, o local onde se ergue a Delegacia do Tesouro Nacional e contava apenas duzentas e vinte almas.

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O Forte São José do Rio Negro assentava-se a 3°, 8’ e 4” de latitude austral do Equador, e a 59°, 59’ e 59” de longitude ocidental de Greenwich. Servia de registo e de presidio. 
Ocuparam-no os Cabanos, em 1863. Em 6 de março daquele ano, oitocentos rebeldes, dirigidos por Bernardo de Sena, surpresaram o Lugar da Barra. Foi o primeiro ponto ocupado. Estava desarmado; há muito (1783) havia sido retirada a artilharia, por ordem do general João Pereira Caldas, e recolhida a Barcelos. 
Não tinha mais —a acreditar em Fausto Augusto de Sousa—aquela guarnição de duzentos e setenta homens, de que saiam os destacamentos para os outros fortes e presídios e registos do rio Madeira. 
Quando chegou Tenreiro Aranha, para fundar a província, seu estado era desolador, contrastando com o da cidade, cuja população já ultrapassava de quatro mil pessoas. A propósito disse o primeiro presidente, em seu relatório de 30 de abril de 1852: "O forte desta capital tem apenas suas arruinadas muralhas. O local é o mais improprio; e, ainda que se dispendessem consideráveis somas para a sua reedificação, de utilidade alguma poderia servir, a não ser para os sinais de regozijo em dias de festa nacional”.

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Um aviso, datado de 14 de fevereiro de 1857, mandou-o considerar entre as fortalezas de segunda ordem. Outro, de 22 de maio de 1875, jogou-o ao abandono “e como se não existisse”. Foi o golpe de misericórdia... E desapareceu nos últimos anos da monarquia.

Autor: Heiroceryce Pessoa
 Bibliografia
Arthur Reis, História do Amazonas.Gaspar Guimarães, História do Lugar da Barra.Bertino de Miranda, A cidade de Manaus.Fausto A. de Sousa, Fortificações no Brasil