CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

13 de maio de 2014

NOVO RETORNO


Faculdade de Direito do Amazonas
Sem muitas promessas. Depois de novas broncas, pedidos e sugestões, retomei o Blog. Recomeço com um texto do saudoso escritor Waldir Garcia, que tudo sabia sobre o município de Silves (AM), onde nasceu.
No presente texto, Garcia relata a caminhada do finado advogado Perseverando da Trindade Garcia, que ainda hoje deve desfrutar de um recorde: completou a Faculdade de Direito do Amazonas, então na Praça dos Remédios, aos 70 anos.
Tive um prazer redobrado, pois fui contemporâneo do Perseverando naquele período. De fato, devido a idade, ele representava esse desejo de conquistar um troféu. Não se intimidava com os mais jovens e indagava aos mestres com aquele linguajar característico do interiorano amazonense. Outro colega, Mael Sá, sabia imitá-lo à perfeição.

 
Perseverante e Perseverando (*)

Uma das personalidades mais destacadas da família Garcia é, sem dúvida, o cidadão Perseverando da Trindade Garcia. Nascido em 10 de janeiro de 1903, na então Vila de Silves, filho do cidadão Raimundo Nonato
Garcia e de Dê Margarida Farias de Almeida Garcia, ambos amazonenses e já falecidos. Perseverando é
, na sua família, o exemplo típico do cidadão perseverante, firme, constante nos seus ideais, fazendo jus, assim, ao nome que acertadamente lhe foi dado por seu saudoso genitor.

Estudou o ABC com o professor Francisco Assis e Silva, um paraibano inteligente e culto, padrasto do desembargador Zózimo Severino de Leiros, que tinha, em Silves, no principio do século, uma escola particular, frequentada, dentre outros alunos, pelos silvenses Alcebíades de Leiros, AImerinda Garcia, Josefa Garcia, Francisco Afonso, Otílio Garcia e Zoroastro de Leiros.

Em 1913, Perseverando passou a frequentar a Escola Mista de sua terra natal, regida pela professora Zolima Marques Garcia, e a partir de 1914, matriculou-se na Escola Pública de Silves, regida pelo professor João Pedro Garcia, sob cuja orientação terminou seus estudos primários.

Concluindo o curso primário em 1919, foi nomeado interinamente para exercer o cargo de secretário da superintendência Municipal, no qual permaneceu até 1929, servindo, assim, a sucessivas administrações.
Em 1922 foi nomeado, também interinamente, agente do Correio, em cujo cargo conservou-se até 1935, após nele se ter efetivado. Com a transferência da sede municipal para a Vila de Itapiranga, em 1931, passou a exercer o cargo nesta localidade, onde contraiu núpcias com a prendada senhorinha Tereza Panza, de cujo consórcio houve 10 (dez) filhos: América do Sul, Auri, Maria da Graça, Maria Margarida, Álvaro, Lázaro Nazaré, Paulo José, Marcílio Dias e Perseverando da Trindade Garcia Filho, além de Aderbal.
 
Em 1935 candidatou-se ao cargo de prefeito, pelo antigo Partido Popular Amazonense, liderado por Álvaro Maia, tendo sido eleito por expressiva votação, assumindo o novo cargo em 1 º de fevereiro do ano seguinte. Com o golpe de Estado de 10 de novembro de 1937, foi mantido no cargo, do qual foi afastado em 1945, para voltar em 1946 e ser novamente afastado em 1947.

Em 1951 foi convocado para a Assembleia Legislativa, suplente de deputado que era, eleito pela legenda do Partido Social Democrático, no pleito de 1950. Em 1954 foi eleito vice-presidente da Assembleia Legislativa, e como tal assumiu duas vezes o governo do Estado, em virtude de impedimento do presidente, sendo a primeira vez eventualmente, em dezembro daquele ano, e a segunda, em caráter permanente, com a renúncia do Governador Paulo de Grana Marinho, em janeiro de 1955, tendo, inclusive, transferido o governo ao eleito Plínio Ramos Coelho.

Durante sua estada no interior do Estado, foi diretor do jornal O Alfinete, editado em Silves e de propriedade do jornalista Antônio Duarte Beltrão. Como Solicitador, apaixonado que sempre foi pelo Direito, advogou nos termos de Urucará, Urucurituba, Silves e Itapiranga.

Foi desportista, fundador do Saracá Futebol Clube, de sua terra natal. Quando moço, foi o "almofadinha” de sua terra, tal a elegância e o aprumo do trajar.

Sua grande meta era bacharelar-se em Direito. Perseverou, e muito, para alcançar' o seu grande ideal. Resolveu fixar residência em Manaus, e aqui, em 1969, termina o Curso de Madureza, feito no Colégio Estadual do Amazonas, e logo após matricula-se na 1ª série da Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas, onde se graduou em Direito, em 1973, aos 70 anos de idade, como o mais idoso dos formandos de sua turma. Presentemente é advogado militante, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Amazonas sob nº 692.

Perseverando perseverou tanto, que medrou graças à sua perseverante atividade, várias posições: secretário da Superintendência Municipal, agente do correio, prefeito municipal, deputado estadual, governador do Estado, advogado.

É este cidadão simples, modesto, perseverante, que atende pelo nome de Perseverando da Trindade Garcia, que completa 80 (oitenta) anos de idade no dia 10 do mês fluente, sob o calor da amizade de sua esposa e filhos e os aplausos carinhosos de seus parentes e admiradores.
 
(*) Extraído do livro À Sombra dos Igapós, publicado por Waldir Garcia, em 1987. Por isso, não sei indicar a data do falecimento de Perseverando Garcia.