CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

28 de abril de 2013

ADILSON (1964-2013)


Renato Mendonça
Meu irmão Renato, para se despedir do cunhado Adilson, morto dia 22 passado, em Barra Mansa-RJ, escreveu a crônica aqui postada. Resta-me a recordação repleta de mirabolantes lances de pura jovialidade, de vida que o amigo sabia transmitir. Abraço a cunhada Bela e aos manos dela nesse dolorido momento.
 
ADILSON
22/04/13

Perdi a grande chance de fazer uma boa crônica, estive a poucos metros de um bom assunto. Em Barra Mansa, estiveram sentados, numa mesa redonda — literalmente — alguns colegas e irmãos de uma mesma família, daquelas famílias humildes, mas cheias de virtuoses. Era o último dia do carnaval, o ponto final de um carnaval frio e previsível pra mim. Assuntos vastos foram expostos na mesa nua; deleites e frustrações primaveris relatadas como se fossem sonhos ou fantasias.


Adilson e a irmã Isabel, em
momento de festa
Preocupei-me apenas com o jogo de futebol que passava na TV e nem me dispus a catalogar todos aqueles “causos” contados, com tanto detalhe que merecia, como já afirmei, uma crônica mais abastada de nuances. Apenas alguns ficaram aquilatados na minha memória, como um marcador de livro escolhendo uma página predileta.

Adilson se esmerou em contar que quando criança, vendo que sua irmã partira para São Paulo em busca de um novo horizonte, ficou imensamente saudoso. E esse momento sombrio, triste, o inquietava. Acostumado a ter sempre todos os irmãos por perto — e não eram poucos, mais de uma dezena —, não via a hora de tê-la de volta. Mesmo que fosse por um dia, ou um final de semana. Por isso, quando passava um avião no céu, ele gritava a pleno pulmões: ”Avião, avião, vai depressa e traz a Bela. Anda, vai buscar ela”.

Ele bem sabia que não teria jeito disso acontecer, mas apostava na força da mente e no que costumamos dizer na força da fé, uma fé incondicional de que o impossível pode acontecer. Para uma criança em formação, que não tem o discernimento da razão, o desejo pueril pode falar mais alto. Há sempre o pressuposto de que Deus tem um jeito pra tudo acontecer. Mesmo que isso possa parecer apenas um sonho ou a força da imaginação.

Poderia narrar mais alguma coisa, tentar me estender sobre o assunto, mas com certeza iria ferir a leveza do momento que se vive, mormente neste dia de hoje – 22 de abril.

É que hoje, exatamente ás oito da manhã, o nosso Adilson, um homem com uma confiança inabalável, e dono de um carisma incomparável, foi vítima de um infarto. A saúde o traiu, não bastou a confiança e a esperança de que dias melhores estariam por vir.

Não bastou a sua luta obstinada para que todos fossem felizes, para todos estivessem sorrindo, ou mesmo rindo dele. Não bastou a altivez com que se dedicava à família e o prazer de ver todos juntos, em união. Não bastou o afeto contagiante e a solidariedade com que estabelecia uma amizade. Não bastou a conquista de tantos amigos, parentes e sobrinhos que o tinham como um herói. Um herói lúdico de histórias em quadrinhos, cheio de formas mirabolantes para enternecer, para divertir, para definir a melhor maneira de jogar o jogo da vida. As suas imitações de Elvis e Magal eram apenas uma forma de nos dizer que a vida é uma arte, a arte de interpretar a melhor maneira de viver: com alegria.

É esse o homem que nos deixou hoje, órfãos de deleite, alegria e entretenimento. Que conseguiu, com seu jeito único de ser, ser um homem maduro e um menino ao mesmo tempo. Um menino cheio de fantasias, e sonhos, com aquele da infância quando tentava dialogar com o avião.

A esse mensageiro da paz e do sonho, que o destino nos roubou tão precocemente, gostaria de pedir a Deus que lhe reserve um lugar de Luz em nosso céu pouco estrelado. E se me permitisse mais um pedido, gostaria de repetir o seu gesto mais juvenil: “Deus, Deus, traz de volta o Adilson...”.

Renato Mendonça