CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

18 de abril de 2013

JOSÉ GENOINO & ARTHUR NETO

Arthur Neto, maio 1980
Em 1980, José Genoino visitou Manaus, tendo proferido uma palestra aos interessados. Sobre o acontecimento, Arthur Virgílio Neto escreveu o artigo abaixo, no desaparecido jornal A Notícia (16 de maio), apresentando o palestrante.

 
Genoino: historiador e personagem da história

Arthur Virgílio Neto (*)

Chegará brevemente a Manaus, como o objetivo de fazer palestra para os amazonenses que se disponham a ouvi-lo, o professor José Genoino Neto, diplomado em História, ex-lider estudantil e participante, como guerrilheiro, da campanha do Araguaia (PA), em inciativa que visava à derrubada violenta do regime militar brasileiro.

A vida de Genoino foi das mais intensas, do ponto de vista das atividades políticas a que se dedicou. Do seu período de militância na política estudantil, registra-se que, de 1967 a 1968, presidiu o Diretório Central de Estudantes da Universidade Federal do Ceará. De 1969 a 1970, foi diretor da União Nacional dos Estudantes, tendo sido preso, juntamente com as maiores expressões da liderança universitária da época, quando participava do histórico Congresso de Ibiuna (SP).

Recorte do jornal A Notícia, 16 maio 1980
Tao logo se viu em liberdade, optou pela vida clandestina e, a partir de articulações no seio do Partido Comunista do Brasil (PC do B), dirigiu-se, ainda em 1970, para o Araguaia, incumbido de auxiliar na preparação da guerra rural de guerrilhas a eclodir desde essa região; vale dizer que Genoino foi dos primeiros combatentes a cair nas mãos das forças militares destacadas para combater a insurreição (1972), cumprindo aproximadamente 60 meses de prisão, 13 dos quais em estado de incomunicabilidade. Julgado em 1975 pela corte militar, recebeu condenação por militância política ilegal, permanecendo encarcerado até abril de 1977.

Eis, em resumo, a biografia política do futuro visitante de Manaus, que, hoje militando no Comitê Brasileiro pela Anistia  de São Paulo, é um dos raros lideres sobreviventes da guerra do Araguaia. Creio, sinceramente, que será de bom alvitre comparecer a ouvi-lo todas as pessoas que entendam a importância de, pelo diálogo, começarmos a escrever a recente e conturbada fase da História do Brasil, de que Genoino tomou parte ativa, ele que a universidade fez historiador, ironicamente saindo do  exame teórico do mundo para atuar como agente transformador – ou tentativamente transformador – de uma realidade dada.

Inteligente, corajoso, conforme atestam o seu passado e o seu presente; lúcido e aberto ao diálogo, estou certo de que Genoino acolherá com naturalidade as intervenções, favoráveis ou não, que surjam sobre abordagem que fará da vida brasileira, da década de 70 aos dias correntes. Não há que se ter preconceito sobre ele, é bom frisar. Genoino não é, nem nunca foi, terrorista; bem ao contrário, foi soldado vencido, combatente derrotado por forças militar e estrategicamente superiores àquelas que (lhe) davam suporte.

É muito comum a ordem vitoriosa nomear de terroristas os seus adversários batidos. De 1968 a meados da década passada, o que houve no Brasil, ao invés de terrorismo, foi o choque de dois exércitos, o institucional e o contestador, com a vitória do primeiro. Após a guerra, o vencedor diz o que bem entende, produz a versão inicial – a final virá depois, à revelia de quem quer que seja – que bem lhe convenha.

Vejam bem! Fidel Castro venceu a guerra contra o sistema, em Cuba, e, subindo ao poder, teve e tem meios para exercer os derrotados; se tivesse perdido para Fulgêncio Batista, estaria hoje incluído na galeria dos terroristas, pois certamente seria essa uma determinação da ala vitoriosa. Assim, Genoino, o vencido, teve construída, perante a opinião pública, a imagem de terrorista. Para mim, ele não o é; digo que foi apenas um combatente, que precipitadamente se lançou à liça, sem fazer exame cuidadoso da correlação de forças entre o seu grupo e o opositor. Nunca um terrorista, porém. Apenas um guerrilheiro, um guerrilheiro que subestimou o adversário, e pagou por isso, na ânsia de transformar o mundo.

A palestra do historiador-guerrilheiro será realizada na sede do DU (Diretório Universitário), à av. Epaminondas, às 20h do dia 16 de maio (hoje). Estarei lá para ouvi-lo depor, desta vez sem constrangimentos físicos ou psicológicos, livremente, pois, sobre um momento que viveu com voracidade. Será bom escutar um homem que teve a coragem e o desprendimento de ir ao fundo do poço das suas ideias.

(*) Arthur Neto, em 1980, era suplente de deputado federal pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), hoje é prefeito de Manaus, pela segunda vez.