CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de abril de 2013

HISTÓRIA LITERÁRIA DO AMAZONAS

Arthur Reis
Arthur Cezar Ferreira Reis (*)

Faz um punhado de anos, o professor Carlos Nascimento, de Belém (PA), iniciava ali a publicação da História Literária da Amazônia. Saíram em várias edições da “Folha do Norte” os primeiros artigos. Estudavam a terra e o homem. Naquela linguagem de artista que era tão do educador paraense. Alinhando conceitos cheios de verdades. Anunciando monografia marcante de época nos anais culturais do vale. Mas o escritor morreu. Perdeu-se, assim, a notícia robusta, o panorama traçado a mão de mestre.

Outro, Eustáquio de Azevedo, atirou-se à tarefa. Parece que até antes de Carlos Nascimento, não estou certo. O estudo que elaborou vem divulgado no Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, volume II, grande livro que o I. H. Brasileiro edita. É minucioso. As informações, porém, nem sempre de fiar-se. Paulino de Brito, naquelas páginas, aparece como paraense. Não está certo. O poeta, teatrólogo, romancista, jornalista, que tudo ele foi com talento a valer, nasceu aqui. Nos seus livros há sempre, palpitante, alguma coisa em que revelava entusiasmo pela selva natal, que sempre soube elevar, lá fora, em prélios memoráveis.
Eustáquio limitou-se, porém, ao seu Pará. E a ligeira referencia que se lê no Dicionário, a nosso respeito, é mofiníssima, insignificante, inexpressiva.

Revista Victoria-Regia, julho 1932
 
Na História do Amazonas, ligeiramente eu disse alguma coisa sobre a obra literária da Província. Não era ali o lugar próprio para o ensaio largo a respeito. Quis, apenas, significar o estado de civilização dos nossos avoengos, salientando as dificuldades que o meio criava para o desenvolvimento intelectual, -- a instrução sem relevo assinalável, a imprensa a ocupar-se unicamente com a política, os homens de estado cuidando mais atentamente de outros problemas que lhe pareciam a exigir solução imediata.

Quando, pois, o quadro da nossa contribuição ao pensamento nacional? 

* * *
O Dr. Manoel Anísio Jobim tem-se consagrado ao estudo das coisas amazônicas. São de sua autoria vários ensaios de subido valor sobre municípios do interior. Barbosa Rodrigues, naturalista consagrado às pesquisas no vale, está por ele biografado carinhosamente. João da Silva Coutinho, também.
Meticuloso, com o senso do historiador, conhecendo bem as fontes da crônica do Estado, servido de cultura invejável, Dr. Jobim tem realizado uma obra que há de ser proclamada das maiores no tocante à verificação das nossas ainda tão apagadas origens.

O seu mais recente trabalho tem este título – História Literária do Amazonas. Ao que estou informado, não custará muito a ser divulgado. Não é certo. Abre-o, em título forte, o aspecto da terra e do homem, no drama de ontem e de hoje. As figuras que desde as primeiras horas do Amazonas lhe deram começo à vida intelectual desfilam a seguir. Todas, sem exceção de uma só: mesmo aquelas que não lhe são afeiçoadas. Desde os cronistas arrevesados que nos examinaram detalhadamente. Em retratos bem vivos, acompanhados do índice bibliográfico e da resenha biográfica. Retratos fidelíssimos, que lhe custaram meses de paciente atividade na rebusca aos elementos certos.

E em que linguagem! Tem se impressão do vernaculista que formou o espirito na leitura meditada, diária, dos clássicos da língua. Rebuscado, fidalgo, o estilo é de lampejos. Manaus, na terceira parte da História, quando lhe traça o perfil na fase do ouro negro, aparece em toda realidade. Há sobre a cidade jovem períodos que entusiasmam. Sente-se a Manaus da agitação, dos devaneios, dos excessos, do esplendor. Sente-se o artista que trabalha seguro, do que risca criando motivos de beleza.

Na exposição serena, o Dr. Jobim chega aos nossos dias. Menciona o grupo dos novos -- amazonenses e amazonizados, assinalando as tendências de cada um, sem pendores, sem exclusivismos.
A História Literária do Amazonas, quase toda republicana, conquanto, insisto, lá estejam os pro-homens da fase colonial e do Império, é preciosa e única. Fala da nossa cultura, indicando-a com toda lisura. 

(*) Reproduzido da revista Victoria-regia – julho 1932