CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

17 de abril de 2013

A PALAVRA “ARIGÓ”

O texto abaixo foi escrito há 70 anos, quando os primeiros arigós desembarcavam na Amazônia ao tempo da II Guerra Mundial. Foram trazidos do Nordeste para a empreitada de produzir borracha para os Aliados. Estranhos ao meio, a identificação ou o apelido colado a esses aventureiros exigiu do saudoso filólogo João Leda um breve estudo, que foi publicado em O Jornal.

Julgo que o termo ainda não está corretamente dicionarizado, pois o Dicionário Aulete registra arigô -- s. m. (Bras., Centro) || pacóvio, simplório; pessoa rústica.
 
João Leda (*)

Manifestou a sua folha, edição de ontem, domingo, o desejo de ouvir-me a respeito da etimologia e do sentido real da palavra “arigó”, que, presentemente, anda muito na moda, no curioso noticiário policial das gazetas. Não desejando ser arguido de descortês, remetendo-me ao silêncio diante do seu apelo, aqui vai exposta, resumidamente, a minha maneira de ver no caso:
Os mais conceituados léxicos da nossa língua não têm noticia do vocábulo “arigó” e, semelhantemente, o ignoram os ilustres vocabularistas, que, em nossos dias, se devotaram à paciente coleta de regionalismos linguísticos, em várias e vastas zonas do nosso país. (...) abrangendo todos a imensa área que, partindo de São Paulo, alcança o extremo-norte, nenhum assinalou “arigó” nas suas pesquisas, onde os brasileirismos, reais ou supostos, ocupam lugar considerável.

Reproduzido de O Jornal, 21 setembro 1943
 
Parece certo que o nome não provém em linha reta do português. Terá sido transplantado do crioulismo americano, compreendida essa expressão como o conjunto de alguns falares do continente, dos mais estudados e esquadrinhados pelos especialistas?
Falece-me elementos para uma afirmativa peremptória. Tudo quanto posso referir nesse particular é que, numa interessante relação de termos de origem mexicana e peruana, seguido de um resumo do vocabulário aruaco-castelhano, de muitas vozes indígenas do Orinoco e rio Negro, de numerosas dicções do goagiro-castelhano e abundantes termos tamanacas – tudo eruditamente enfeixado num valioso opúsculo do professor Jacques Raimundo – não se rasteia o enigmático “arigó” objeto da solicitação linguística de O Jornal.

O perlustrar, embora de fugida, todos esses idiomas americanos mais ou menos exóticos, em cata da possibilidade de um encontro com o escapadiço “arigó”, sem a grata surpresa de o topar escondido em algum verbete, não significa entretanto que ele seja estranho à ambiência continental, uma vez que não procede de genuína fonte portuguesa, como parece.
De feito e, sobretudo, no que concerne à gíria da malandragem profissional, nossa vizinha Argentina tem opulentado sobremodo o vocabulário brasileiro. (...) “O calão do malandro carioca, ou fluminense, perfilhou numerosos termos da jerga do delinquente argentino, na tendência imperiosa de universalizar a triste linguagem do criminoso”. (...)

Nada, porém, de “arigó”, e a este substantivo que filtra velhacaria e agilidade de unhas, consoante a literatura da reportagem dos jornais, é que se cinge o apelo de O Jornal.
Se eu não respeitasse a linguagem do meu país, considerando-a o mais robusto elo que aperta os sentimentos de fraternidade e de solidariedade da raça, não devendo, portanto, ser apoucada com fantasias gramaticais absurdas e delirantes, aproveitaria o ensejo que agora se me oferece para inventar uma etimologia mirabolante de “arigó” e inseri-lo no catálogo de muitos desvarios que por ai correm, subscritos até por eminentes autoridades.

Inventaria, por exemplo, o étimo iorubano agó, significativo de haveres e riquezas, e, ajoujando-o a um prefixo imaginário de qualquer dos idiomas negroides que subsidiaram o nosso, forçaria “árigo” a traduzir o espoliador ou surripiador de bens alheios, assanhando destarte, com a minha criação estapafúrdia, os venerandos próceres da gramática e da filologia.  
Mas, nestas matérias, a honestidade da consciência está acima das toleimas vaidosas. E a verdade, na questão proposta, está, a meu ver, no seguinte: se o nome não se origina no idioma que os portugueses nos herdaram, nem é possível filiá-lo a nenhum dos outros que cooperaram e ainda cooperam em nossa linguagem, será forçoso ensartar “arigó” no infinito acervo das palavras, das expressões ocasionais, “das criações populares abruptas, espontâneas, nascidas das necessidades do momento, para reforçar uma ideia, colorir uma imagem ou exaltar uma impressão”, na frase viril e exata de Mariassy, arguto observador desse fenômeno linguístico no alemão e no inglês.

E assim sendo, o “arigó”, sem raiz conhecida e certificada, consequentemente sem um sentido próprio e fundamental, pode adotá-lo com a maior elasticidade, fazendo-o compreender todas as formas imagináveis da sutil atuação dos malandrins, notadamente aqueles que o grande padre Antônio Vieira enumerou, na conjugação dum expressivo verbo latino.
A latitude do significado atribuído a “arigó” é a mesma de todas as palavras que, isentas de limitação sinonímica por não se lhes poder fixar a etimologia, comportam enorme extensão de sentido: “arigó”, ou o malandro adventício que, tirando todas as vantagens de ser desconhecido no meio em que opera, exercita com mais segurança e eficiência a arte de despojar o próximo daquilo que possui.

É possível flexionar no feminino a palavra “arigó”?
Penso que nesse ponto a questão se resolve por analogia. Se os nossos mais grados escritores admitem um jaó e uma jaó (ave), um socoró e uma socoró (árvore), não vejo razão para se retirar do “arigó” a qualidade de epiceno.

Salvo melhor juízo.

Manaus, 22-9-1943

(*) Joao Leda (1876-1955), filólogo, sério cultivador da língua portuguesa. Foi funcionário da Assembleia Legislativa e integrou a Academia Amazonense de Letras.