CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, setembro 11, 2020

CLUBE FILATÉLICO DO AMAZONAS

 Anteontem, 9 de setembro, os remanescentes desta associação cinquentenária retomaram a marcha, tentando aprumar seu rumo: decidiram escolher uma nova diretoria. Não que o atual presidente Jorge Bargas seja ineficaz, ele apenas alcançou o limite de sua disposição. E devemos agradecê-lo pela afabilidade dispensada e a dedicação com que agiu junto à direção dos Correios local. Afinal, Bargas vem dirigindo o CFA desde 2014.

O pessoal do Clube, que necessita de um local mais adequado 

Agora, é possível que eu passe a dirigir este Clube, apesar de filatelista diletante, com uma coleção temática sobre o Natal devidamente arquivada. Porém, vou me escorar no Adriel França, que começa no colecionismo e sua caminhada na vida com a disposição de um jovem bem formado e, mais que isto, com o apetite de um felino.

Estou ciente dos agudos entraves: i) a pouca atração que hoje os selos e seus derivados exercem sobre a comunidade; ii) a promessa do governo em privatizar o Correio; iii) a inexistência de divulgação das atividades deste colecionismo; iv) o custo das peças filatélicas; v) a inexistência de um local adequado para as reuniões e outras atividades. Mas, vamos em frente!

quinta-feira, setembro 10, 2020

ENCONTRO DE DOIS POETAS

Luiz Bacellar
Ontem, o dia foi consagrado à lembrança do poeta Luiz Bacellar (1928-2012) por dois motivos: seu desaparecimento, há oito anos, e o lançamento do livro em sua homenagem escrito por Elson Farias. Farias também é poeta, porém, que ele me desculpe, quero relembrar ao saudoso poeta Djalma Passos (1923-90). 

Buscava subsídios para um trabalho literário, quando encontrei a apreciação de Luiz Bacellar sobre a poesia de Djalma Passos, inserido no livro deste - Tempo e Distância, publicado em 1955. Foram jovens da mesma geração, enquanto Bacellar estudou em São Paulo, Passos veio do Acre para se notabilizar em Manaus. Vamos ao texto de Luiz Bacellar.

é o terceiro livro de Djalma Passos. O segundo – As Vozes Amargas – publicado pela Casa do Estudante do Brasil em 1952, inaugurou a poesia social no Amazonas. Nele, o poeta nos transmite sua mensagem através dos ritmos largos e ondulantes de uma poesia cheia de inquietude pelos destinos do homem.

Ao seguir, As Vozes Amargas não teve da crítica a atenção que merecia, em face da desconceituação da poesia moderna, então chama "futurista" pelos maiorais da crítica e das letras provincianas, mas, embora tratado com tão clamorosa injustiça, firmou-se no conceito da nova geração. (Um grupo de novos, no qual se destacavam elementos ligados a círculos literários de outros estados, como Sebastião Norões, de poesia marcadamente social, surgia então para reivindicar o direito de renovar os cânones da poesia no Amazonas).

Embora sem contatos prolongados, Djalma Passos acha-se integrado a esse grupo, do qual fazem parte: Freitas Pinto, o mais velho dos novos, Jorge Tufic e Carlos Farias, poetas diferentes entre si mas coesos quanto à necessidade de renovação dos valores poéticos; e nele toma parte, destacando-se como o pioneiro da poesia social, além de ser o único desses poetas que já estreou em forma de livro.

Djalma Passos, que é também contista ainda inédito, é um dos mais brilhantes oficiais da nossa Polícia Militar, atualmente no posto de major, tendo exercido a elevada função de comandante da Guarda Civil de Manaus, durante o período de 31-01-51 a 17-11-54, quando escreveu, em defesa do guarda civil Manuel Carlos de Melo, acusado de causador da morte do cidadão conhecido nos meios boêmios pela alcunha de “Caroço”, o opúsculo Entre o Dever e o Cárcere (Manaus 1953). Foi, por certo, nesse cargo, que Djalma Passos teve a oportunidade de entrar em contato mais direto com o homem da rua, o que marca profundamente sua expressão de poeta e contista.

Poeta cheio de profunda ternura pelos desajustados sociais, Djalma Passos é uma das mais puras vozes líricas da poesia planiciária; possuidor de uma linguagem despojada e simples, galvaniza e marca, com o estigma de sua poesia, o leitor mais desinteressado; senhor de uma fluidez límpida e clara, transporta-nos aos redutos de seu espírito observador do homem da rua, através da “fonte perene” de uma expressão profundamente individual.

Pertencendo à categoria dos que têm os olhos voltados para o futuro, sob o signo da pergunta, Djalma Passos domina, com tôda a maestria, a expressão larga e a ênfase do verso withmaniano.

DJALMA PASSOS

dá-nos neste volume uma continuação à temática social de As Vozes Amargas. E, até mesmo, podemos ver no seu “Poema do Feto” um complemento do “Poema aos que hão de vir” de As Vozes Amargas.

O homem, entidade no tempo mais que no espaço, é, como se vê, a constante genérica na poesia de Djalma Passos, onde avultam ainda as subconstantes da Infância, da Noite e do Mar.

O Futuro sempre aparece como maior preocupação do poeta: “Poema aos que hão de vir” e “Poema do Feto”. Caracterizando-se como poeta de ritmos livres (quase sempre tão traiçoeiros para os que se deixam dominar pela sua aparente facilidade sem se submeterem ao rigor sutil e sem manter consciente obediência aos autênticos movimentos interiores), Djalma Passos atinge maior pureza lírica e riqueza expressional nas composições que intitula simplesmente Poema.

 Em TEMPO E DISTÂNCIA, por pura condescendência para com o presente surto de reatualização do soneto, ao que parece, o poeta realiza alguns, entre os quais se deve destacar o que tem por título "Nossas Mãos".

Sem preocupações de afetar sua autêntica modernidade, Djalma Passos exclui, muito acertadamente, o problema da unidade em sua obra, tendo antes a preocupação da transmissão de sua mensagem. E consegue plenamente seu objetivo! Vale destacar, por exemplo, entre os poemas de As Vozes Amargas, os de títulos: “Poema do Moleque Brasileiro”, “Poema do Olhar Extinto”, “Estranhas Vozes”, “Procedência”, “Anjo Noturno”, “O Homem Só” e “Despedida do Viajante Noturno”. No “O Poeta de Branco” há uma interessante correspondência de sentimento com “O Poeta Come Amendoim” de Mário de Andrade.

A função de sua poesia carrega-se do mais intenso significado nos dias cheios de angústia e expectativa que estamos passando. Poeta dos mais autênticos e expressivos, surpreende-nos de vez em quando com “pulos de gato” de poesia no mais cristalino estado de pureza: “A noite lá fora é um mistério, o vento derrubou todas as estrelas...” (Despedida do Viajante Noturno). Sua penetrante naturalidade realiza no leitor aquilo que chamaremos de “comoção lírica totalmente independente de qualquer intenção ideológica”, não se podendo, portanto, classificar a poesia de Djalma Passos de “dirigida”.

Resta-nos chamar a atenção do leitor, neste livro, para a extraordinária potência poética de Djalma Passos que é, sem favor, o fundador da poesia social, “do povo e para o povo”, no Amazonas. Que os novos que se estão agrupando agora sob a denominação de Clube da Madrugada lhe façam justiça.

Luiz Bacellar 

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segunda-feira, setembro 07, 2020

SETE DE SETEMBRO VIRTUAL

 Certamente, não mais veremos um Dia da Pátria tao sem entusiasmo, e sem desfile militar, a característica maior desta data. Aqui compartilho algumas lembranças de tantos desfiles comemorativos.

Banda de M´sucia na avenida Djalma Batista

Desfile na avenida Eduardo Ribeiro

Na rua 10 de Julho, ao lado do Teatro, anos 1950


Grupamento da Polícia Feminina, na avenida
Djalma Batista


sexta-feira, setembro 04, 2020

CARTA RECEBIDA (2)

De fato, conheci Sabbá Guimarães pela leitura de suas obras, difíceis, por sinal, e pelas informações de associados do IGHA. Soube que ele fora Juiz de Direito em nossa capital e, que abandonando a magistratura, retirou-se para Santa Catarina, onde exerce o magistério na Universidade Federal.

E mais, devo ter cruzado com ele, no IGHA, apenas numa oportunidade. Não me recordo o motivo de ter-lhe enviado o meu livro sobre o padre-poeta L. Ruas, guardei, no entanto, a carta recebida com as considerações, a qual compartilho ora com o universo.  


Florianópolis, 09 de outubro de 2012

 

Prezado confrade, saúde e felicidade.

É curioso que sendo ambos da mesma entidade, o IGHA, jamais nós tenhamos cruzado e estou ali há mais de quarenta anos! Obrigado pelo livro que organizou dos poemas do padre Ruas, que já li. Foi um gesto generoso o seu, pouco encontradiço em a nossa região. Aliás, este é um fato sociológico sobre o qual eu conversara com André Araújo e Mendonça de Souza, ali mesmo, na Academia, em uma de nossas belas sessões de sábado. Temos a tendência muito forte à mesquinharia e à inveja. Atribuo isto ao nosso isolamento, ao poder assombroso da floresta, à extrema mestiçagem racial e cultural que nos moldou. Repito-lhe: não há generosidade entre nós e o seu gesto merece cumprimentos, como faço agora. Diga-se de passagem, digno de ser imitado por outros. Gesto de discípulo, de amigo e de admirador o seu.

Leve adiante os propósitos de reunir o que Nonato Pinheiro deixou. Conheci-o na Academia e algumas vezes conversamos sobre Literatura Francesa, que ele amava.

Lamentei não haver conhecido Luiz Ruas. Como antes lhe disse, eu via o padre como muito à esquerda e isto separava-nos. Os meus conhecidos do então SNI - todos hoje falecidos, e só eu ainda aqui, forte como um touro selvagem -, diziam-no uma figura subversiva, malquista dos órgãos militares, por ele ser da mesma linha do padre Boff, um sacerdote que não escondia o seu perigoso trotskismo.

Eu visitara, a serviço, vários países da Cortina de Ferro e tivera a oportunidade de sentir a violência da censura, da perversidade das polícias secretas, do poder etático por ali, e era levado, por isto mesmo, a sentir horror por todos os "vermelhos", entre os quais nós, então, incluíamos o pobre Luiz Ruas. Veja, meu confrade, a força da ideologia de Estado, o poder que ela possui! Jamais pensaria que iríamos cair em um regime semelhante ao cubano e, de mais a mais, capitaneado por analfabetos, como o ex-presidente e seus seguidores. O ancien régime era composto de gente culta, refinada, honesta, bem intencionada, e que via no Brasil e sua grandeza, o alfa e o ômega do seu desiderato político.

Em seu nome, com a sua amável permissão, oferecerei um dos dois volumes à Biblioteca Central da Universidade. É pena que não viesse, também, autografado, como o que teve a bondade de dedicar-me.

Pedi à minha editora que lhe enviasse ou o tratado sobre Tradução (tenho que confessar que se trata de obra bastante difícil sobre a Filosofia da Tradução), ou o estudo sobre Ezra Pound, Rebeldia e Genialidade. Espero que receba muito em breve um dos dois livros. 

Talvez vá, com a sra. Sabbá Guimarães, a Manaus, em dezembro. Apreciaria conhecê-lo nessa ocasião, se tiver oportunidade. Tenho três bons amigos aí: Gaitano Antonaccio, Armando de Menezes e Amir Diniz. Não sei se os conhece. São gente muito dinâmica e sempre envolvida com livros. Mais adiante, se lhe não for inconveniente, avise-me se estará em Manaus a partir de 20 de dezembro.

Êxito nas investigações e incentivo-o a levar adiante os seus bons e nobres projetos.