CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, julho 13, 2026

MEUS OITENTANOS (9)

             FASCÍCULO 9 

O ano de 1970 ficou marcado pelo tricampeonato do Brasil no futebol e, em Manaus, pela inauguração do estádio Vivaldo Lima (Vivaldão), evento que contou com a presença da delegação brasileira em preparação para o México. No início do ano levei a filha Valeria para “receber a benção” do avô Manuel e, com esse gesto simples, consegui restabelecer a harmonia familiar; foi alegria em dobro.  A situação financeira na casa do meu pai não era boa, em função do encargo de sustentar quatro filhos menores e um adolescente – Renato, que já trabalhava. Meu outro irmão – Antonio, havia se fixado em Santos e, com a situação organizada, viabilizou a mudança da família para o Sul ao final do ano.

Vivaldão, na inauguração - 1970
e em 2004👇

Eu seguia na chefia da Tesouraria da Força, função que me oportunizava generosos presentes, amizades agradáveis e certo conforto no lar. O quartel, ainda situado na Praça, tornava-se cada vez pequeno para o número de policiais cuja incorporação agora passava a interessar à coletividade. Havia, no entanto, um detalhe: serviam à instituição, mas mantinham atenção nas indústrias da Zona Franca que vinham se instalando no Distrito Industrial.  A Força seguia ampliando-se como ocorreu com a criação do segundo batalhão, para cuidar dos destacamentos interioranos, igualmente acontecia com o comércio na área central. Esse movimento atraia turistas de todo o país pelas novidades importadas, atração que os cursos policiais desde então incluíam no currículo como “viagem de estudos” a Manaus.

Formatura no BEASA - 1971

A inauguração do estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão (demolido para a Copa de 2018), ocorreu em 5 de abril de 1970. Naquele dia, Manaus assistiu a dupla apresentação da seleção nacional, mesclada com jogadores locais. A seleção ficou hospedada no Centro de Treinamento Maromba, hoje pertencente à arquidiocese de Manaus. O estádio ainda estava em construção, razão pela qual os torcedores preocuparam-se em chegar cedo, a fim de alcançar algum lugar. Havia necessidade de levar algum alimento, pois no local tudo era improvisado e, se alguém deixasse o lugar por algum motivo, era improvável retomá-lo. Todavia, valeu todo o sacrifício, asseguro, pois presenciei na arquibancada ao lado da esposa. No dia de São Pedro ocorreu o final da Copa, no México; os colegas do quartel decidiram ouvir – ainda não havia TV em Manaus – a partida no balneário do senhor Mário, proprietário da firma S. Monteiro, em seu balneário no km 22 da atual rodovia AM-010. A festa seguiu bem até o final do primeiro tempo; no segundo, como a atuação do Brasil prometia vencer, a turma retornou à cidade para se incorporar à festança geral.

Iniciei a conversação com o Antonio articulando a mudança da família para Santos, a mim tocou fornecer o transporte. A ideia foi prontamente acordada com a família, apesar do pouco entusiasmo de meu pai; Dona Dora – a mãe – foi a artífice dessa epopeia, que se iniciou em dezembro, quando ela viajou com os filhos mais jovens: Luiz (8 anos) e Ricardo (6 anos). Ainda hoje me penitencio por não adquirir passagens comerciais para este grupo de familiares; à vista de minha proximidade com a Base Aérea consegui vagas em avião da FAB, ignorando ser a primeira viagem aérea de Dona, com o inconveniente do voo encerrar no Galeão e o Antonio trabalhar em São Paulo. Os vários inconvenientes teriam espantado a muitos, enfim, a viagem foi uma fortuna.

1º aniversário da Valeria - 1970 

Antecipando o Natal, festejei o 1º aniversário da Valeria, reunindo amigos e parentes na residência da família. Com a mudança de parte dos irmãos junto com a mãe, a presença da família foi mínima. Lamento registrar que os transtornos da vida me fizeram ausente, de modo que somente voltei a participar dos 50 anos desta filha, comemorados em Brasília. Logo em janeiro, os manos Zemanuel e Miguel (12 e 11 anos, respectivamente) viajaram pela empresa aérea VASP, na inauguração de nova linha entre Manaus e São Paulo. E, após igual período, embarquei meu pai na mesma empresa, assim concluindo a mudança da família. A casa em Manaus ficou entregue ao Renato, que cursava o NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da reserva) e iniciava o ensino superior.

 

quarta-feira, julho 08, 2026

MAROMBA - SEMINÁRIO SÃO JOSÉ

 Há 50 anos, a arquidiocese de Manaus adquiriu o espaço de terras denominado de Maromba, no governo de Dom João de Souza Lima, que servia até então para encontro de formação de pessoal das várias secretarias e outros órgãos oficiais. 
Hoje, abriga os alunos do Seminário São José. 
Nesta postagem transcrevo o artigo de Helen Veras para o Jornal do Commercio, edição de 25 de julho de 1976, relacionado as primeiras operações realizadas no Centro e sua importância para o futuro.


Recorte do Jornal do Commercio,
25 julho 1976

A cinco quilômetros da cidade, situado dentro de uma grande área verde, quase exótica, está o Centro de Treinamento Maromba. Seu terreno foi adquirido pela Arquidiocese de Manaus e mede 285 metros de frente por 225 de fundos. Tem em volta um bosque convidativo para momentos agradáveis de lazer. Lá se reúnem renomados técnicos durante a realização de seminários e cursos promovidos pela SUDAM, ACAR-Amazonas, Mobral, Icoti, CEAG-AM, Codeama e outros órgãos governamentais. Foi na Maromba que se hospedou a seleção brasileira de futebol e seus grandes craques, como Pelé, deixando sua assinatura no livro história do Centro. Além de funcionar como instrumento de prepararão de recursos humanos, o Maromba tem sido lugar escolhido para a tomada de decisão, inclusive políticos (foi lá que o Sr. João Walter escolheu seu secretariado), encontros internacionais, irradiando novos horizontes para o desenvolvimento da região.

O Centro Maromba tem como finalidades básicas desenvolver uma política de treinamento adequado ao processo de desenvolvimento da região, manter cursos de treinamento de caráter geral ou especializado, visando a habilitação de profissionais ligados às atividades de desenvolvimento da região e de líderes rurais para o efetivo engajamento desse processo desenvolvimentista e ainda possibilitar a realização  de encontros, seminários e convenções que congreguem organização de pessoas atuantes na região e promover atividades que possibilitem integração efetiva de esforços entre os entidades interessadas.

ACARIQUARA

O Centro possui uma arquitetura onde se sobressai a madeira regional, como a acariquara, emprestando ao local aspectos tipicamente regionais. Formado por três grandes pavilhões ligados entre si, englobando os serviços de cozinha, copa, bar, secretaria e administração, o centro dispõe atualmente de 32 apartamentos, um amplo salão de refeitório, três salas de visitas, salão para biblioteca e um grande dormitório comum. O prédio tem capacidade para hospedar 33 pessoas em quartos ou apartamentos individuais e cerca de 100 pessoas no dormitório.

ATIVIDADES

Até 5 de junho deste ano, o Centro foi utilizado para a realização dos seguintes cursos e encontros: Encontro de Catequistas (CRB), Curso Integrado para Orientação Educacional e Supervisão Pedagógica (Ceteam) e centro de Técnicos da Embrapa (Embrapa), Treinamento de Liderança Cristã (Arquidiocese de Manaus), Curso de Catequistas (Paróquia Nossa Senhora de Nazaré) e Centro de Espiritualidade (Ivete Ibiapina), Curso do ACAR (ACAR-AM), Encontro do Mobral Estadual (Mobral), Curso de cooperativismo (ACAR-Amazonas), Curso da Cosama, Curso de Crédito Rural (ACAR-AM), Encontro de Cooperativismo da Embrater, Administração  de Fundos Federais e Tributação (Icoti), Curso do ACAR-Amazonas, Curso de Fertilizantes (ACAR-AM), Secretaria de Saúde, Administração de Pessoal e Material (Icoti), Sistema de Produção (ACAR), Treinamento de Liderança Cristã (Arquidiocese), Seminário de Coordenadores (SUDAM), Encontro da Embrapa (Embrapa) e Oração do Espírito Santo (Arquidiocese).

 Outros encontros e reuniões estão programados até dezembro. As atividades previstas são: Curso de Elaboração Orçamentaria, Curso de Sistema de Produção de Pimenta do Reino, Encontro de Oração, Encontro Regional de Agentes de Mobilização, Curso de Administração de Cooperativa, Cursilho de Cristandade, Movimento de Educação de Base, Administração de Escritório de Extensão Rural, Cursilho de Dirigentes Setoriais de Manaus, Congresso Salesiano, Treinamento de Liderança Cristã, Treinamento de Geração Dinâmica, Encontro dos Delegados do Amazonas, Encontro Regional da CNBB, Administração de Projetos Agrícolas e Congresso Bandeirante.

IDEALIZADOR

D. João de Sousa Lima, arcebispo metropolitano de Manaus, um dos idealizadores do Centro, o primeiro do Norte do Brasil, acredita que os objetivos do Centro estão sendo atingidos plenamente. D. João acha que a arquidiocese de Manaus, com esse empreendimento, deu sua contribuição marcante para a formação e aperfeiçoamento da mão-de-obra qualificada como fator de fundamental significação para a concretização plena do desenvolvimento do Amazonas. O secretário-executivo do Centro José Amarilis Castelo Branco, afirma que o Centro não pertence somente à arquidiocese, mas ao Amazonas, dando sua contribuição para o desenvolvimento dos nossos recursos humanos.

Amarilis procura conciliar os interesses de todos os órgãos, dando sempre um “jeitinho”, permitindo a realização de todos os curses e treinamentos. Para atender à crescente demanda de reservas, o Centro vem se expandindo, invadindo a selva, onde vem sendo construído mais um moderno pavilhão. Mas acentua que a área verde não será destruída, irá aproveitá-la para a construção de um bosque com as características regionais, inclusive espécies da nossa fauna e flora. Ninguém pode negar a real importância da Maromba. E dele o Amazonas receberá muitos benefícios e valiosas contribuições que somarão pontos positivos em favor do bem comum traduzidos pela consecução de melhores dias para a nossa comunidade. 


sábado, maio 30, 2026

SEMINÁRIO SÃO JOSÉ DE MANAUS

Antigos seminaristas oriundos do Seminário São José de Manaus, donde sou igualmente originário, compuseram um grupo para relembrar as estripulias cometidas e congregar o maior número de colegas. Em busca de fatos sobre aquela Casa de Formação, revi o livro de Manoel Bessa Filho – Jornal Velho, e dele recolhi a crônica desta postagem.

 

Edição 2001 

Alma mater

21 maio 1998

Manoel Bessa Filho

Tudo começou de uma audácia. Um bispo [dom Afonso Moraes Torres], uns padres, uma quase aldeia, querendo ensinar para os caboclos o “trivium” e o “quadrivium” dos currículos europeus, que continham todas as cadeiras do ensino ginasial, como chamavam até bem pouco tempo, os últimos quatro anos do 1° grau. Assim nasceu, há 150 anos, neste 14 de maio, o Seminário S. José, primeiro estabelecimento de ensino secundário no Amazonas. Os anos se passaram, algumas cadeiras foram se transferindo para o Liceu. Do liceu nasceu o “Pedro II”, ainda garboso lá em frente à Praça da Polícia. Depois o “São José” fechou suas portas, para renascer bem mais tarde, no dia 19 de março de 1943, fruto de outro bispo visionário, D. João da Mata Andrade e Amaral.

No sábado passado [16 maio], convidado pelo atual Reitor do Seminário S. José, fui rever minha “alma mater”. O prédio já era outro, não importa, o nosso hoje é a FES da Universidade, lá na Emílio Moreira [601]. O importante mesmo é que o espírito permanecia o mesmo.  Ex-alunos de várias gerações, padres e seminaristas, se confraternizavam em torno do “velhinho” de 150 anos que marcou, e ainda está marcando indelevelmente nossas vidas.

De repente visualizei meu primeiro dia, um dia qualquer de março daquele ano de 43, pouco antes da reinauguração oficial, chegando com meu irmão e nossas malas emprestadas para trazer a roupa, que arrumamos no armário, ao lado da cama, no dormitório... Capela, salas de aula, recreio, salão de estudo, horta para cultivar, a oficina de marceneiro com o mestre Nelson Falcão (fizemos muitos móveis, com polimento puxado no “verniz de boneca"). E nessa roda viva foram os seis primeiros anos.

Quantos passaram pelos mesmos caminhos. É difícil lembrar tanta gente: o Orígenes Martins do CIEC [Centro Integrado de Educação  Christus] (que passou de Jabuti, para Jacaré Vovô), o Áureo Pereira (Ceariba), que depois se tornou o frei Xico, dominicano. O Tiagão, padre Tiago Braz, recentemente falecido, Jorge Normando (Calango Elétrico), o Chico Pinto (Mons. Francisco Pinto), que também já foi para o outro lado, o Waldemar Pacheco (Waldemar Bodega) e seu primo Lourival (Bolinho), todos dois de Manacapuru. Nas gerações seguintes tem muita gente, o Manezinho Neuzimar, atual presidente do TJ [Tribunal de Justiça], um monte de oficiais superiores da PM, como os coronéis Encarnação, Vital e Manoel Roberto. Pois é, ao lado da atual geração, cada um deu seu testemunho naquele encontro.

Puxa vida, meu velho Seminário, ainda agora você me ensina. Uns padres jovens, esbanjando saúde e alegria mandaram seu recado. “O importante é aprender a ser feliz”. Juro meu velho cento-e-cinquentão, minha “alma mater”, que estou sempre tentando aprender a ser feliz... Obrigado por mais esta. Aliás, você me deu o que era de mais importante, a fé nos valores sobrenaturais e eternos, a crença inabalável na existência de um Deus Supremo. Está certo que quando me falavam nele, diziam que era um sujeito ríspido, exigente, carrancudo, sempre disposto a nos punir por qualquer besteirinha. O importante é que eu e Ele nos conhecemos e daí, para nos tornarmos amigos foi um passo. Hoje sei que Ele é compreensivo, amigão que não falha, segura nossas barras, e nos quer felizes, como os padres novos do Seminário estão pregando.

Mas não há como negar que tudo começou com aqueles primeiros contatos, meio temerosos, meio medrosos, mas bem concretos, bem reais. Velho Seminário, em qualquer prédio, com quaisquer pessoas, em qualquer tempo, você me fez gente, me fez crente, me fez amor, me fez perdão, porque você moldou definitivamente minha vida.

Obrigado, eternamente obrigado, minha “Alma Mater”.