CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, junho 02, 2026

SEMINÁRIO SÃO JOSÉ DE MANAUS (2)

 Reunidos hoje, quatro ex-seminaristas - Ludolfo, Vital, Encarnação e eu - visitamos o Seminário atual, porque somos oriundos daquele que existiu no cruzamento das ruas Emilio Moreira e Ramos Ferreira, na Praça 14. O Reitor padre Pedro nos recebeu e nos levou a conhecer as nova instalações. Voltei a prometer a mim e ao Seminário uma publicação de sua história.

Contei aos colegas que Manoel Bessa Filho, que foi sacerdote, porém, falecido Juiz de Direito, acolheu uma crônica que escrevi em complemento a dele - Alma Mater -, e tive o privilégio de vê-la publicada em seu livro Jornal Velho (2001). 

Transcrição

28 maio 1998

Roberto Mendonça

 

Nossa última crônica mereceu um “fax”, cujos principais tópicos transcrevo.Começou assim: “Ao Manoel Bessa Filho, autor de Alma Mater”, e continuou:

“A minha saudação de quase padre do Seminário São José. Verdade mesmo é que na quinta-feira [21 maio], sem atentar para a efeméride, li sua crônica. E obviamente me senti recompensado. Aliás, perdoado em parte do pecado que acolhi sobre os ombros, ao prometer na posse como membro do IGHA [Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas] escrever a história do SSJ [Seminário São José]. Não desprezei o projeto, mas o tempo nos impõe... Não compareci ao café regional, porque não fui alcançado com o convite. Pouco importa, o SSJ vive comigo onde cheguei no ano de 1956, pelas mãos do cônego Antônio Plácido de Souza, vigário de Constantinópolis, aquele que fazia rima de ‘peito das moças com buzina de automóvel’.

Possuía apenas 10 anos, e com essa idade, como saber de vocação sacerdotal? Certo mesmo, é que estudei, estudei todo o seminário menor... fui educado na melhor das escolas de Manaus. Talvez por isso compreendia quando as pessoas me viam como um jovem correto, de princípios religiosos e familiares. Enfim, era um bom casamento, e foram três, até o presente.

Houve um momento extravagante na vida: a substituição da batina pela farda militar. Diria que a permuta ocorreu na forma literal, quando o graduado me determinou que tirasse a roupa para os exames físicos. Mas o constrangimento foi superado, e pude aventurar-me como oficial da Polícia Militar, em uma quadra da vida nacional movida a “ordem unida”. Então, foi a sopa no mel. Mas, e o Seminário?

Ainda voltei lá, mesmo depois de fardado com o caqui da Polícia. Aquela casa me deixava leve, me permitia recolher como ex-votos as questões profissionais que me assacavam. Recordava então dos Poemas para Rezar do padre Michel Quoist [1921-97] (desculpe se claudico com a memória), que rezava missa depois de ler os jornais, para orar pelos problemas sociais que a cidade produz.

A casa da rua Emílio Moreira, 601, gerou muitos filhos: o padre Onias Bento, contemporâneo de Tiago e Pinto. O padre Puga Barbosa, cujo pai, Nicanor Puga, foi maestro da Banda da Polícia Militar O padre Luiz Souza, meu colega da turma de 1956. Os advogados Raimundo Melo, João Bosco Pereira e Miguel Langbeck. Alguns chegaram ao judiciário, Ary Brandão de Oliveira, na Justiça Federal, e Cristóvão Alencar, na Promotoria Pública local. O médico e ex-prefeito de Boca do Acre, José de Oliveira Costa, cujo irmão Antonio Costa, foi coronel comandante do Corpo de Bombeiros do Acre. Há ainda o empresário Flaviano Guimarães e o professor da UA [UFAM], que foi candidato a governador pelo PT, Osvaldo Gomes Coelho.

Grato pelas palavras saídas do homem que aprendeu a lição da vida sacerdotal. Que se atualiza a cada dia, a cada gesto, a cada desafio, e fez gravar com vivo fogo na reminiscência da Cidade da Barra de São José do Rio Negro que o sesquicentenário do Seminário do mesmo santo vive e se perpetua.

Ab imo pectore 

Roberto Mendonça 

Obs. O Manoel Roberto é hoje coronel reformado da PM, membro de nosso IGHA, um dos maiores pesquisadores nacionais sobre “Canudos”. E o latinório final quer dizer: “do fundo do peito, ou do coração”. Obrigado, Mané Roberto, ab imo pectore, também.

Nenhum comentário:

Postar um comentário