CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, maio 28, 2026

PRAÇA DA SAUDADE

 Pela manhã vi a postagem de Manaus de Antigamente sobre o edifício demolido na Praça da Saudade, à tarde, consultando ao Ramayana de Chevalier, encontrei sua crônica A Vez da Juventude, circulada em A Gazeta, edição de 3 de maio de 1961. O autor era então secretário de Administração do governo Gilberto Mestrinho (1959-63). A postagem reproduz parte da crônica.

Edifício demolido na Praça da Saudade

(...) Tudo isso me ocorreu, numa destas tardes de sol caboclo, sentado democraticamente num dos degraus do Palácio dos Espelhos, onde se abriga o Atlético Rio Negro Clube, olhando a praça da Saudade. Dentro do esquema idealizado pelo governador Gilberto Mestrinho, estive a sonhar com a nossa futura ágora amazônica, em cujo redondel se travarão as mais puras discussões filosóficas e se resolverão os mais intrincados problemas técnicos. Ali, na praça da Saudade, se erguerá, em tempo recorde, um centro universitário de entusiasmar. Segundo as diretrizes do Professor Mestrinho, esse guapo diretor dos destinos amazônicos até janeiro de 1963, a praça onde se levanta, imponente, a estátua ao primeiro Governador do Amazonas emancipado, terá, em cada face, um edifício moderno, abrigando a cultura. As construções devem obedecer a um critério moderno, de linhas aerodinâmicas, elegantes, finas, atraentes, sóbrias, utilitárias.

Serão quatro prédios que, pela minha vontade, eu veria montados sobre pilotis, deixando à visão dos pedestres e dos que viajam em carros, toda a amplitude da praça graciosa e remodelada em jardins amazônicos, em palmas e tinhorões coloridos, em flores tropicais de excelsa beleza. Enroscando-se nesses pilotis, teríamos as nossas trepadeiras ornamentais, de flores sugestivas, revestindo o plano inferior dos edifícios, num dossel. Não perturba a mirada do monumento, não obstrui a contemplação da praça ajardinada, com os seus bancos estendidos ao longo dos passeios, convidando à meditação ou ao colóquio, como de resto se usa em todos os países do mundo. Nos quatro cantos da praça, entradas largas irão, em X, até ao monumento, cortadas por círculos de cimento. Ali se instalarão a Faculdade de Filosofia, a Faculdade de Ciências Econômicas, a injustamente esquecida Escola de Comércio Sólon de Lucena e a própria Secretaria de Educação e Cultura, cada uma no seu próprio edifício e os quatro, cercando a praça, numa visão arcádica. (...)


sábado, novembro 19, 2016

CLUBE DA MADRUGADA

Ainda em 1987, o Clube da Madrugada, como se demonstra com esta postagem, ainda funcionava. Esta agremiação que completa 62 anos na próxima terça-feira, era então presidida pelo saudoso multi-artista Anísio Mello.
Na segunda-feira, o jornal A Crítica circulava com a coluna intitulada Madrugada. Neste espaço se via  o esforço desesperado de seu presidente para não deixar este clube desaparecer. Não foi capaz, apesar de seu esforço em escrever e ilustrar, pois, bem antes de seu falecimento (2010), o Madrugada tornara-se somente uma referência na cultura amazonense. 

A Crítica, 31 agosto 1987
O post compartilha um texto sobre a Banda de Música da Polícia Militar do Estado, quando esta costumeiramente apresentava-se nos coretos da cidade, e outros recantos, alegrando aos ouvintes.

Reconhecimento

Richard Clayton

Praça da Saudade, sexta-feira, 21 de agosto, cerca de oito horas da noite. Movimento normal: casais de namorados, alunos retardatários (ou fugitivos?) do Instituto de Educação, os atletas e futuros ases de futebol, paqueradores e paqueradoras, o mesmo pessoal nos botecos e barracas da Praça — tudo como sempre. 
Inesperadamente, aparece um caminhão da Polícia Militar cheio de soldados e pára: o que será? — uma "blitz", batida policial, o quê? 
Aí vê-se o brilho dourado de instrumentos musicais — nada disso: é a Banda da PM. Dirige-se ao palco atrás da Sham [esta repartição funcionava em prédio, que foi demolido na última reforma da praça, situado à frente do Rio Negro Clube,]; os músicos afinam seus instrumentos, assumem suas posições no palco — a batuta do regente sobe e depois desce — temos Música! 
Não rock, "heavy metal", jazz ou outros atentados importados mas, sim, boa música brasileira — valsas, choros, sambas, chorinhos, marchas e ranchos — que beleza! A Praça vibra e revive — em poucos minutos, centenas de pessoas aproximam-se da banda para ver e ouvir melhor, aplaudindo os músicos nos intervalos. 
Algumas horas — infelizmente, de menos — agradáveis. No final, uma homenagem tão inesperada quanto singela. Um menino, não mais que quatro anos, sai de perto de seu pai e, saquinho de pipoca na mão, corre para perto do regente (mal dá na altura de sua cintura) e cutuca sua coxa. 
Quando este se vira e olha pra baixo, o garotinho apanha uma pipoca e dá na mão do maestro, que come e agradece seu pequeno fã. Até os pequeninos reconhecem o que é bom! 
Obrigado e parabéns, maestro, a você e seus colegas da banda! Obrigado e parabéns coronel PM Pedro Lustosa [comandante-geral da PMAM entre 1987-89] repita a dose, por favor — a amostra aprovou!

segunda-feira, novembro 09, 2015

CATÓLICOS vs BATISTAS EM MANAUS

Praça da Saudade, ano 1920
Em outubro de 1950, grande número de Católicos acossaram aos Batistas, que pretendiam celebrar um culto religioso na Praça da Saudade. Entre "mortos e feridos" salvaram-se todos, como explicita o Chefe de Polícia, então a maior autoridade de Segurança Pública.


POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DO AMAZONAS (*)

Fac-símile de parte da Publicação

NOTA OFICIAL

A respeito de um telegrama procedente do Rio, publicado na primeira página de O Jornal, de hoje, subordinado ao título - "Não nos deram garantias" - e com referência aos incidentes ocorridos à noite de sábado último, na Praça da Saudade, esta Chefia, na parte que lhe diz respeito, tem a esclarecer o seguinte: 
1 - Solicitada, no referido sábado pela manhã, por um cidadão pertencente à Igreja Batista, esta Chefia providenciou o policiamento da Praça da Saudade, com guardas do Corpo de Segurança Pública e soldados da Polícia Militar do Estado, inclusive uma patrulha de Cavalaria, a fim de que fosse impedida qualquer perturbação durante a realização de uma cerimônia religiosa. 
2 - Cerca das vinte horas do mesmo dia, informado por telefone de que estava ocorrendo sério tumulto na Praça da Saudade, o próprio Chefe de Polícia dirigiu-se incontinente para o local, tendo passado pelo Quartel da P.M.E. e pela Chefatura de Polícia, onde deu ordens para o envio imediato de reforços policiais para a referida praça. 
3 - Chegando à Praça da Saudade, verificou a existência de uma multidão de cerca de três mil pessoas, com uma tendência a avolumar-se, contando-se considerável número de menores, colegiais e mulheres, todos manifestando desagrado pela realização do culto religioso, motivada atitude, ao que consta, por um discurso proferido no dia anterior. 
4 - Embora reconhecendo o Direito de liberdade religiosa assegurado em nossa Constituição e a obrigação da sua garantia pelas autoridades, o Chefe de Polícia constatou, de pronto, uma impossibilidade de dispersar os elementos católicos, cuja concentração se fizera rápida e de improviso, sem a utilização de medidas extremas, o que era em absoluto desaconselhável, restando às autoridades policiais apenas garantir a vida e a retirada dos religiosos Batistas. 
5 - A Chefia de Polícia, porém, tomou imediatas providências para a segurança pessoal dos membros da Igreja Batista e guarda dos próprios templos protestantes da Cidade, postando sentinelas armadas, durante toda à noite de sábado, o mesmo fazendo para a realização do culto de domingo à noite na Igreja Batista do Alto Nazaré, por ordem do senhor Governador do Estado, atendendo à solicitação do Doutor Serra Lima, ficou protegido por vinte praças da P.M.E., sob o comando de um oficial, até o término do ofício religioso. 
6 - À Chefia de Polícia, pois, não cabe responsabilidade pelos lamentáveis ​​acontecimentos de sábado à noite, na Praça da Saudade, motivados pela eclosão inesperada de um movimento popular e que assumiu proporções que não permitiam a sua sufocação sem sérias consequências.

Gabinete da Chefia de Polícia do Estado, em 25 de outubro de 1950.
 
David Melo
Chefe de Polícia

(*) O Jornal, 26 de outubro 1950

domingo, outubro 05, 2014

PRAÇA TENREIRO ARANHA




Para recordar o aspecto deste logradouro, diante da miséria que se observa em nossos dias. Detalhe: aqui esteve instalado o monumento do primeiro presidente da província do Amazonas. No entanto, para monumentalizar a Praça da Saudade – onde se encontra – o pedestal foi deslocado para aquele espaço.

Vemos na foto com mais destaque a sede do extinto jornal A Notícia. Ao fundo, parte da Catedral e, ainda mais ao fundo, o edifício do Iaptec, hoje INSS. 

Anos 1970

sexta-feira, setembro 12, 2014

MANAUS ANTIGO



Dr. Antonio Loureiro
Conhecedor de múltiplos percursos da cidade de Manaus de antanho, o médico Antonio Loureiro, membro de diversos institutos culturais do Amazonas, descreve, ainda que sintetizado, no Boletim da Academia Amazonense de Letras o local de lazer mais aprazível dos endinheirados da belle époque.


A PENSÃO FLOREAUX

Foi uma bela casa avarandada, com um grande pátio e um largo portão de ferro batido, encimado pela denominação da casa, ali na Estrada Epaminondas, quase chegando à praça
da Saudade e ao cemitér
io São José, um lugar ermo e longe das vistas da população, dos mais frequentados pelos boêmios amazonenses e pelos seringalistas de saldo, aí por volta de 1910.
Do outro lado da rua morou o alsaciano Guntzburger, ativo comerciante aviador de seringais e recebedor de borracha do interior, que se dedicava ao cultivo de orquídeas, artigo muito requerido pelos alemães, e também vendia bilhetes das loterias e corridas de cavalos inglesas. Sempre usava um terno de linho branco, possuía orelhas gigantescas e uma total aversão a assobios, talvez por uma aguçada percepção auditiva.
Em uma vila vizinha a essa casa viviam dezenas de belas mulheres vindas dos mais diversos países do mundo e de quase todos os estados brasileiros, para aqui exercerem a
mais antiga profissão do mundo, em um dos grandes centros de concentração de riqueza e um dos maio
res em vendas de diamantes.
Todas as noites para ali se dirigiam polacas, francesas, russas, alemãs, cubanas, peruanas, portuguesas, chilenas e bolivianas, em rápidas passagens, pois ali era a central do meretrício.
Também a Floreaux funcionava como cassino, onde os contos de réis ganhos em anos de trabalho na floresta eram perdidos em segundos, nas bancas de pôquer, nas mesas de bacará, nas de dados ou nas de ferro, com tampo de mármore branco, onde eram servidas as mais finas bebidas importadas. Bebiam-se os melhores licores de todos os tipos, vinhos franceses, portugueses, espanhóis e italianos e as maravilhosas champagnes Moet Chandon, Veuve Clicquot, Bollinger, Mumm e Pommery, entre outras. Sem falarmos dos deliciosos sanduíches e de um requintado cardápio a la carte.
Não era chique tomar cerveja, coisa de gente mal educada, restrita aos bares próximos ao porto. O vinho era a bebida mais consumida, pois aqui moravam e trabalhavam 10 mil portugueses, 3 mil espanhóis e 500 italianos, todos mediterrânicos apreciadores da bebida descoberta por Baco.
Aqui na Floreaux surgiu a fabulosa lenda de que os seringalistas, para chamarem atenção, acendiam seus charutos com notas de 500$000 (quinhentos mil-réis), um extremo desperdício, pois equivaliam a mais de 30 libras esterlinas.
A Floreaux, frequentada por mais de uma centena de pessoas, intensamente iluminada, embalada pelas valsas, lundus, maxixes, chorinhos, funcionava barulhenta, com seus frequentadores conversando em altas vozes, até a madrugada, sobre os mais diversos assuntos, quando subitamente todos a deixavam, rumo às casas das beldades que os acompanhavam, nas traquitanas e vitorias, que ali faziam ponto.
Nada mais resta da Floreaux. O seu terreno está baldio, o portão de ferro batido foi levado para o Sul do País, por um parente da proprietária, que para lá se retirou, antes da crise acabar com a cidade, e com a riqueza que aqui adquirira. A vila das beldades foi reformada e nem mais se parece com a de outrora.
Cem anos depois a cidade respira o mesmo clima daquela época. Agora, dezenas de Floreaux espalham-se por essa imensa metrópole, que continua sendo a Paris dos Trópicos.