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| Circulado no vespertino A Tarde, 22 maio 1960 |
PAISAGEM
Mavignier de Castro
Baixa a tarde diluindo lentamente
ametistas, topázios e turquesas
sobre o debrum flumíneo da Amazônia.
Aí vem a noite com a sua visitação de escuros e silêncios.
Paisagem de quatro dimensões murchando vesperalmente
num sono antigo de lianas e raízes.
Cerra-se, úmido, o verde dos olhos dos lagos
e forma um só veludo com as árvores, os barrancos e os igapós.
Céleres gaivotas esparsas vão confundindo
as asas como aspas solitárias
gizando as solidões fluviais que fogem.
Debruça-se o crepúsculo sobre as águas,
a tarde quieta veste-se de sombras nas alturas,
e os homens vão recolhendo à mansuetude dos casebres
as almas cheias, maduras e leves
e a certeza intemporal de uma Presença
na fácil perfeição de todas as coisas.

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