CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

6 de fevereiro de 2016

PERICLES MORAES & HUGO BELLARD (2)

Segunda parte do artigo publicado pelo então presidente da Academia Amazonense de Letras, Pericles Moraes, apreciando o trabalho literário do poeta Hugo Bellard (1914-89), cujas considerações e amizade contemplaram o autor de Ajuricaba com a Cadeira 28, empossado em 1950. 
Posse de Hugo Bellard, jornal A Gazeta, abril 1950

REFLEXÕES SOBRE UM POETA 



O legendário guerreiro manau aí se projeta das estrofes plásticas e resplandescentes, no quadro vertiginoso dos seus sentimentos e de suas angústias, que se debatem em lances de tragédia. O que há de afirmativo em Ajuricaba é que nele existe o elevado potencial dinâmico dos artistas predestinados, dos artistas que nasceram dotados para as pesquisas estéticas.

Seria, no entanto, curioso que, quando tanto se exaltam os altos méritos de poeta, ficasse determinada a sua posição entre as correntes literárias de nossa época. Diante dessa arte fascinante, porém recuada de mais de meio século, como se manifestariam as reações da crítica?

É indiscutível que Hugo Bellard está completamente à margem das influências renovadoras da arte contemporânea. Os poetas de hoje já não toleram a servidão do metro e da cesura, nem admitem a grandiloquência das rimas ricas e torturadas, que se esgotaram com os últimos remanescentes do parnasianismo.

O esquerdismo “à outrance” não se conforma com a revivescência das fórmulas antigas. Para o temperamento desses pseudo-renovadores, o soneto, o alexandrino, a balada, o "triolet" e o canto real são expressões obsoletas, de uma poesia cujo prestígio declinou e se extinguiu com o perpassar dos anos. No ímpeto do momento atual, representaria um desafio insensato quem se aventurasse a compor um poema ainda modelado pelas formas fixas de outrora.

Ajuricaba, no conceito dos impenitentes iconoclastas, será pura arqueologia. Desprovido da seiva que aciona as inteligências jovens, essa poesia estará relegada ao menosprezo acintoso das gerações de hoje. O próprio modernismo, que teve em Graça Aranha e Jackson Figueiredo os seus insignes precursores, é letra morta para a irreverência das "novos”, na ilusão de que seja possível, por exemplo, obscurecer a obra e o pensamento de um Ronald de Carvalho, o prodigioso criador de Toda a América, e dos senhores Tasso da Silveira e Guilherme de Almeida, para citar apenas três luminares desse momento estético, já consagrados em definitiva.

Há dezoito anos, precisamente, Humberto de Campos, figura paradigmária de juiz literário, discreteando sobre Horas Lentas, do nosso inesquecível Raimundo Monteiro, da família espiritual de Hugo Bellard, relatava um episódio de sua vida, a propósito de um incêndio que ajudara a apagar, vibrando golpes desesperados nas portas fechadas e devoradas pelas chamas, no intuito de salvar os moradores que lá se encontravam.

Um bombeiro, que estava presente, segurou-lhe o braço, explicando ironicamente que o seu esforço era inútil, de vez que todos os moradores já tinham fugido pela porta da outra rua. "Poeta, parnasiano, esclarecia o autor de Memórias, artista que ainda vasa as suas emoções em sonetos e versos caprichosamente medidos, o senhor Raimundo Monteiro representa, no caso, aos meus olhos, o papel que eu próprio representei, aos do bombeiro, naquela noite de incêndio. 
É como eu um homem bem intencionado, mas que chegou tarde. Descendo do Amazonas remoto e selvagem, vem em busca dos irmãos em estética, dos poetas que amavam a língua e o metro. E ao bater à porta do templo que os Eróstratos incendiaram, encontra-me aqui, para dizer-lhe:
-- Não há ninguém mais aí, meu amigo...
E com tristeza, minha e sua:
-- Os sacerdotes saíram pelos fundos..."

Seja, porém, como for, embora tenha chegado tarde em demasia, Hugo Bellard traz consigo tão avultada soma de virtudes literárias, distribuídas consonantemente, que a sua poesia permanecerá viva ainda por muito tempo na admiração dos que sentem e compreendem a sedução dos verdadeiros artistas.

Eu, de mim, o considero uma consciência estética em ação. E' um artista cativante que mantém íntegra a tradição dos poetas ilustres do passado, ressuscitando-lhes os tumultos e as inquietações interiores. Artista retardatário, se quiserem, mas rejuvenescido com as ideias do presente, com a intuição de seus processos evolutivos, sem atraiçoar nem deprimir os cânones estéticos do passado.

Ajuricaba, pode-se dizer, é a tragédia do ameríndio rebelado contra a tutela do adventício. Poema de grandes movimentos humanos, ele representa uma atitude criadora e marca uma data na história das letras amazônicas.

Novembro, 1948PERICLES MORAES