CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

20 de março de 2018

PONTE EFIGÊNIO SALES

Situação da ponte
Placa comemorativa

Semana passada, tomei um desafio: visitar a Ponte Efigênio Salles (prefiro com “f”, não obstante a ortografia exibir o “ph”) em Educandos. O objetivo era entender o professor Aguinaldo, que afirmava ter aquela passagem outra denominação: Ponte dos Ingleses. A prova da visita vai postada: uma placa de metal barato, apesar do lucro da Andrade Gutierrez com o Prosamim, quase sem condições de leitura.
E a foto da ponte com o mato em toda extensão, hoje unicamente um caminho quase sem uso, pois o pedestre prefere atravessar a larga artéria de outro modo. Se há responsável por esta situação de desamparo, deve caber à prefeitura.
Aproveitei para recordar meu caminho entre o Morro da Liberdade e a Praça Quatorze, quando estudante do Seminário São José. Lembrei-me do velho ônibus de madeira que atravessava perigosamente a dita-cuja mostrando as águas do igarapé do Quarenta ainda em condições de uso; do casario às margens deste curso de água, do funileiro com vitiligo, que parecia um artista televisivo; da serraria Moraes, bem na curva saindo da ponte; da subusina de eletricidade, cuja passagem lateral permitia-nos sair na avenida Sete, encurtando a caminhada; do “mercadinho”, agora um simulacro do mercado da Cachoeirinha, usado para servir somente um café da manhã e suas iguarias; a Ponte de Ferro, em triste condição, agonizando nas noites, pois sequer dispõe de uma lamparina para alumiar sua degradação. Chega de lembranças.
Recolhi do saudoso memorialista Genesino Braga parte de um artigo em que ele louva o criador da primeira ponte a servir o bairro de Educandos.
  
Artigo circulado no Jornal do Commercio, 7 novembro 1971
Tem o Amazonas, a rigor: o Estado do Amazonas, um dever de gratidão a cumprir com um homem que fora dos mais probos, dos mais operosos, dos mais progressistas e dos mais proeminentes de seus governantes: o saudoso político amazonense Dr. Efigênio Ferreira de Salles,  (...)
É a esse saudoso governante que se deve a criação do "broadcasting" local e também a montagem da radiotelefonia em Manaus. E mais: construiu a Vila "Belisário Pena" e o Sanatório "Ephigênio de Salles"; construiu a antiga ponte de acesso aos Educandos e os prédios do "Broadcasting" na saudosa Praça do Pobre Diabo; deu luz elétrica ao bairro dos Educandos; levou a água potável e a ampliação da rede elétrica a São Raimundo e a Adrianópolis; reconstruiu o hospital da Santa Casa; restaurou e remodelou o Teatro Amazonas, o Instituto Benjamim Constant, o Hospício Eduardo Ribeiro, a Penitenciária, as pontes metálicas da Cachoeirinha e dos Bilhares, o Asilo de Mendicidade, o Hospital São Sebastião; e enriqueceu o patrimônio do Estado com importantes aquisições de prédios, terrenos, máquinas e embarcações.
Obrou mais, ainda: estimulou a colonização e promoveu a vinda de imigrantes japoneses; fundou o Campo Experimental de Agricultura; instituiu o plantio das héveas, criando os seringais do Estado e distribuindo árvores ao longo das estradas de rodagem; levantou a carta geográfica e mandou imprimir o mapa do Estado; manteve ininterruptos os trabalhos da rodovia Manaus-Rio Branco.
Em seu governo foram abertos 121.000 quilômetros de estradas de rodagem: para o Tarumã, para o Rio Branco, para a Raiz, para a Chapada, para a Ponta do Ismael, para Camanaus, para Campos Sales, tendo feito o levantamento das de Manaus-Itacoatiara, Lábrea-Humaitá, Lábrea-Acre e a que contornaria as cachoeiras do Aripuanã.

(...)Nascido nos altos de Minas Gerais, Efigênio Ferreira de Saltes fora aluno-interno do famoso Colégio do Caraça, berço de estadistas e de intelectuais. Viera para o Amazonas ainda adolescente, contando dezessete anos de idade; e aqui aprendera o ofício de tipógrafo, como aprendiz nas oficinas do Diário Oficial. (Contou-nos, a propósito, o seu ilustre filho, Dr. Alíneo de Salles, certa vez em conversa na Superintendência do Correio da Manhã, no Rio, que o Dr. Efigênio de Salles, quando Presidente do Estado (tinham esse título os governadores de então), exibia com orgulho, na parede de seu gabinete do Palácio Rio Negro, o antigo diploma de tipógrafo). E foi precisamente nas oficinas daquele velho órgão de publicidade do Governo, que tivera início a sua escalada de triunfos. (...)Nessa escalada árdua, mas gloriosa, Efigênio de Salles foi tipógrafo e foi repórter; foi soldado do exército de Plácido de Castro, na reação patriótica que deu o Acre ao Brasil; foi herói da resistência local no malsinado bombardeio de Manaus, em 1910. Depois, foi Partidor e Distribuidor Geral do Foro de Manaus, foi redator do Amazonas, foi diretor do Diário do Amazonas. 
Faleceu em 1939. Lembramo-nos bem do Dr. Efigênio de Salles, quando Presidente do Estado. E lembramo-nos bem, porque muito o admirávamos e respeitávamos. Homem simples e cordial, espírito balsamizado de religião e de bondade, a saúde moral de todos os seus atos, de sua vida e de suas lutas, tinha respiração intensa nos desvelos de sua santa esposa, Dona Alice de Salles, e nos carinhos de seus filhos, com reflexos de harmonia e sãos princípios de costumes e maneiras no comportamento de nossa sociedade.
Com esse nome honrado — Efigênio Ferreira de Salles — o Estado do Amazonas e a municipalidade de Manaus têm um dever de gratidão. Devem-lhe, sim, uma pública homenagem. Uma homenagem em que haja, nos seus sentimentos, na sua expressão e na sua espontaneidade, a exculpação do ato grosseiro de há 41 anos atrás, quando o nome do emérito estadista, num impulso demagógico de falsos líderes, foi retirado das placas da avenida Sete de Setembro. (...) E honrará Manaus, como há anos honra o Rio de Janeiro, no aristocrático bairro do Cosme Velho, a rua de Efigênio de Salles.