CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

20 de fevereiro de 2016

CORONEL ILMAR FARIA (1946-99)


A partir da esquerda, Roberto, autor do post, Romeu Medeiros,
comandante da PMAM, e Ilmar Faria,
em Fortaleza, em 1989
Guardava este texto para homenagear ao saudoso colega de farda caqui, da Polícia Militar do Amazonas, Ilmar Faria, quando anteontem desapareceu de nosso convívio outro companheiro, coronel Edson de Lima Matias. Possuidor de portentosa cabeça e farta cabeleira, autêntico cabeção, que aquele não perdoou com sua capacidade inventiva, a de espalhar apelidos por onde passava. Creio que sua inspiração faz jus a um catálogo. 

Eu conheci seus feitos nas hostes militares, todavia, desconhecia a gênese de sua verve, que o texto de Ribamar Bessa (publicado em 3 de janeiro, no Diário do Amazonas) esclarece. Não perdoava ninguém. Por onde passou, nos cursos policiais, na administração estadual, sempre que possível marcava os colegas com sua inspiração.

No próximo mês, a turma Ajuricaba, do Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR), completa meio século de formatura, solenidade celebrada no pátio do 27 BC (hoje 1º BIS). O baile aconteceu nos salões do Ideal Clube, ali onde o Ilmar Faria dançava e dublava os rocks, a sensação que invadia a cidade, e conquistava os jovens. E éramos todos jovens, lembra Bessa; todos “brasas”, cantava RC.

Eu participo dessa Turma, vindo do Seminário São José, ao lado do Ilmar, do Osório, do Amilcar, relembrando alguns alunos do Colégio Estadual do Amazonas. A festa do cinquentenário já começou com uma atração brasiliense, a presença do colega Waldir Ferreira, vai prosseguir para bem marcar a efeméride.

À brilhante crônica de José Ribamar Bessa:

O Quinto Mosqueteiro da Amazônia
Sempre soubemos que os três mosqueteiros do romance de Alexandre Dumas eram, na realidade, quatro. O que ninguém sabia, mas agora eu conto, é como que havia mais um, vindo da Amazônia, que só foi anunciado ao mundo em 1963: Olha o quinto Mosqueteiro!!! 
O grito ecoou na escadaria do Colégio Estadual do Amazonas, em Manaus, e rolou degraus abaixo até o portão onde eu estava e me atingiu como um soco no peito. Lá em cima, esgrimindo uma espada imaginária, Ilmar Faria, o temível criador de apelidos, apontava para mim, que me tornara o centro das atenções, salientando que a manga comprida da minha camisa era igual à de um espadachim. O quinto mosqueteiro era eu. Ilmar acertara, mesmo sem saber de onde viera aquela manga folgada de guarda do rei da França. 
A camisa viera de um beco lá do bairro Aparecida, onde uma vizinha solidária, ao saber que eu faltara à aula por não ter farda, deu a minha mãe uma camisa velha de seu sobrinho. Sendo o defunto bem maior, dona Elisa teve que reciclá-Ia, de noite, às pressas, à luz de lamparina, numa máquina Singer. Com a vista cansada, inverteu a manga direita, costurando-a com a carcela pra cima. De manhã, já não havia tempo de desfazer o erro. Vesti assim mesmo, abotoei o punho e girei o tecido, botando a abertura pra baixo, o que formou uma manga bufante, cheia de rugas em volta do braço. 
Lendo Camões 
Embombachado, sai para a escola, onde ganhei aquele apelido cruel, mas tão engraçado que meio século depois insisto em recordá-lo. Com isso, perco o amigo, mas não a piada, com um agravante: o amigo perdido, neste caso, sou eu, o melhor amigo de mim mesmo. Hoje seria bullying, mas foi brincadeira tão efêmera que só durou “o espaço de uma manhã”. 
Coronel Ilmar Faria, 
Outros apelidos inventados por Ilmar sobreviveram mais tempo, como os dos bedéis “Pierre Pirrocá” e “Bunda-de-Aço”, ou o da professora de Filosofia, Lindalva Mota, alcunhada de “Por-conseguinte-então” ou “Silogismo”. Era a cara dela. Professor da mesma disciplina, cônego Walter, cujas aulas nos levavam a crer que "Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual a gente fica tal e qual", ficou sendo “Vavá Tal-e-Qual”. 
Todos os colegas tinham apelido. Um deles surgiu em aula memorável de Literatura Portuguesa do professor e poeta Farias de Carvalho. Aula é um modo de dizer. Ele não dava aula. Declamava. Era ator performático, usava todos os recursos corporais, as bochechas infladas, as mãos fartas, o olhar penetrante, o riso sardônico. Parecia Orson Welles, no físico e no espírito: charmoso e provocador, obeso, corpulento, carismático.
Nesse dia em que ditava um ponto sobre Os Lusíadas, Farias estava com a macaca solta. Burlesco e farsante, declamava "as armas e os barões assinalados", enquanto nós copiávamos o que ele falava: “Os Lusíadas”, a epopeia de uma raça, poema épico humanista, com dez cantos, 1.102 estrofes num total de 8.816 versos decassílabos... 
Foi interrompido por um colega:
-- Desculpa, professor, mas o senhor já leu TUDO ISSO?
-- Eu vou lá perder o meu tempo com uma meeeeerda deeesta - vociferou Farias, advertindo que não era para copiar aquela frase. Fechou parêntese e com voz impostada cheia de teatralidade continuou:
-- Luiz Vaz de Camões, gênio lusitano, relata o assassinato de Inês de Castro, episódio que simboliza a força do amor e a dor da morte. Com um olho só, via mais longe do que qualquer homem do seu tempo. 
Na sequência, revelou que Camões perdera o olho direito numa batalha. A aula não havia terminado e um papelzinho já circulava de uma carteira à outra, batizando de Camões nosso colega Flávio Farias, que era cego de um olho. Aí foi bullying mesmo. 
Três Farias 
Eram três Farias do Curso Clássico agora em outras órbitas. O primeiro a se despedir foi Carlos Farias Ouro de Carvalho (1930-1997), que nos deixou vários livros de poemas, entre os quais Pássaro de cinza (1957) e Cartilha do bem amar com lições de bem sofrer (1965). Hoje empresta seu nome a uma Escola Municipal de Manaus situada no Monte das Oliveiras.
O segundo foi Ilmar Faria (1946-1999), que morreu como coronel. Depois de ser Oficial da Reserva (NPOR), ingressou na Policia Militar. Tentou carreira política como candidato a vereador. Perdeu. Desistiu. Foi Secretário de Segurança Pública. O governo do Estado construiu quadra esportiva na Manaus Moderna e deu o nome do coronel a ela [hoje, no local, encontra-se a 24ª DIP]. 
O terceiro foi Flávio Farias (1946-2015) falecido recentemente numa sexta-feira, 13 de março. Cursou jornalismo, em São Paulo, trabalhou em vários jornais de Manaus e foi professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas. 
Lembrei dos três Farias, porque voltando de Brasília, há duas semanas, sentou-se ao meu lado no avião um jovem que era a cara do Ilmar. Quase pergunto se ele ainda dançava e dublava os sucessos da época, especialmente Jorge Ben, Chubby Checker, Ray Charles e os Beatles, que cantávamos em sala de aula, quando faltava um professor. 
Há meio século, em dezembro de 1965, éramos todos jovens e concluíamos o Curso Clássico no Colégio Estadual do Amazonas. Depois de convivência diária de três anos, nossos destinos ali se separaram, cada um tomou seu rumo. Quantos ainda estão vivos? A contagem do tempo na passagem de ano remete ao Ocaso, de Farias de Carvalho: 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde.
 Aguçai vossos dentes, cães do tempo,
vamos comer a morte no crepúsculo".