CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de setembro de 2013

MANAUS: ANOS 1930 (2)


Praça do Comércio (hoje desfigurada), em 1933
Ainda seguindo as páginas do Amazonas: aspectos socioeconômicos (1930-1939), escrito por José Lopes da Silva (Manaus: SESC/AM, 1995). No capítulo abaixo, o autor descreve a situação de Manaus na década de 1930, observando diversas situações, algumas bem curiosas. 

MANAUS DOS ANOS TRlNTA 

A Inspetoria de Veículos oferecia o seguinte cadastro em 1936: automóveis de aluguel, 55; automóveis particulares, 58; caminhões, 71; bicicletas, 161; motocicletas, 4; carrinhos de bagagem, 42; carrinhos de frutas, 4; carroças, 22; carros de gelo, 6; animais de cangalhas, 115; cavalos de sela, 10 e 22 cavalos de corrida.

Outra evidência do início da década se constituía nos meios de comunicação escrita e falada, específico para o interior do Estado, na divulgação de informes de interesse governamental; e aquele, exercitado pela iniciativa privada constante de jornais e revistas e do Diário Oficial como órgão inerente aos atos e procedimentos do Poder Público, inclusive com edição aos domingos.


Em verdade, o veículo oficial se apresentava com dupla função: a de editar os atos oriundos do Poder Judiciário e de oferecer informações locais e nacionais, transcrição diversas de origem pública e privada, além dos programas de diversão. "Muito grato ficarei prezado amigo se numa das vagas do serviço sanitário ou da profilaxia ocorridas com a saída de Paulo Cerqueira fosse aproveitado o doutor Moraes Rego. Abraços. Efigênio” (nota: tratava-se de um telegrama do senador Efigênio Salles ao presidente Dorval Porto – Diário Oficial, 5 de outubro de 1930).

Outra interessante noticia reproduzia o bilhete seguinte: Rio de Janeiro, 12 de setembro (de 1930). "Meu caro Raimundo Moraes. Recambiado de Madri, onde não estou desde julho passado, recebi aqui o País das Pedras Verdes, que acabei ontem de ler. Como felicita-lo por mais essa obra-prima? V. é de fato um grande escritor e, além disso, um escritor inconfundível. Ex corde. Luís Guimarães.


Outro anúncio, esse de caráter mercantil exercido pelo próprio órgão: "Venda de hoje em diante (10.10.30) lindos álbuns do Brasil, ilustrados, encadernados, dourados a fogo. Próprios para fino presente a preço de Rs. 10$000 quanto cobramos por exemplar, chega ser irrisório. Pedimos ao publico para vir ver o famoso trabalho”.  Tratava-se, portanto, de uma originalidade que os tempos modernos não admitem mais o seu emprego, da mesma maneira, em noticiar os filmes que seriam oferecidos pelos cinemas Odeon, Politeama e Popular, sempre no horário noturno das 8h30, discriminando tanto o elenco como o número de partes de cada exibição.

Os convites naturais aos responsáveis de Na. Sa. de Nazaré em benefício da construção de uma capela, iniciativa de frei José de Leonissa, pároco de São Sebastião, "obreiro incansável da Fé e da Igreja”: “Ontem vieram a esta casa, a Sra. Emília de Castro Santa Cruz e senhorita Maria Cruz  Valdez, a convidar o nosso diretor para mordomo dos solenes festejos que a religião de Manaus promove em honra e benfazeja santa. Tais solenidades que constam de novenário e de quermesse em benefício  da capela de Nossa Senhora de Nazaré prometem revestir-se de desusado brilho”.
Faculdade de Odontologia, edifício atualmente integrado à
igreja de Nossa Senhora dos Remédios

A comunidade manauara servia-se do horário oficial adotado pelo Governo, de conformidade com o decreto específico, que indicava o Relógio Municipal situado à Praça Osvaldo Cruz como seu informante, após os melhoramentos elaborados pela administração Araújo Lima, assim como a partir de 3 de outubro de 1931 a 31 de março de 1932, assumia-se a "hora da economia da luz" (versão antiga do Horário de Verão) em cumprimento ao Decreto n.º 20.466, do Ministro da Justiça.
 
Outros acontecimentos comunitários:
 
• as audiências públicas na Interventoria Federal eram realizadas nas segundas e últimas quartas-feiras das 10 às 12 horas e na primeira e terceira terça-feira, de todos os meses, das 20 às 22 horas, sendo proibida a audiência às senhoras no horário noturno.

• no período de maio/dezembro de 1932, o Posto Lactométrico de Manaus aprovou para consumo os seguintes produtos: 839.470 litros de leite, 9.703 quilos de manteiga, 5.705 quilos de queijos e condenou 11.209 litros de leite pela sua má qualidade.

• o consumo de carne vermelha obtida do abate no Matadouro Municipal apresentou o seguinte resultado no ano: 15.384 bovinos com 2.418.700 quilos; 8.046 suínos com 387.500 quilos; 996 ovinos com 13.600 quilos e 89 caprinos com 750 quilos.

• embora sob promessa da realização da primeira viagem aérea para o dia 20 de outubro de 1933, ao Dr. Waldemar Pedrosa, Interventor interino, a Panair de Brasil somente realizou no dia 25, chegando de Belém às 16horas, cujo regresso ocorreu na manhã de 28 do referido mês.

• a iniciativa do jornalista Jorge de Andrade de solicitar ao funcionalismo estadual, voluntariamente, a doação de um dia de vencimento por mês, para auxiliar o Estado a cumprir seus compromissos externos, era um dos destaques do Diário Oficial do Estado, em virtude da adesão que "continuava a merecer o apoio de tão alevantada ideia".

• o trabalho benemérito da Cruzada Nacional da Educação sob a administração do Dr. André Vidal de Araújo, para cujo empreendimento a Associação Comercial contribuiu com 500 cartas de ABC, 500 tabuadas, 12 dúzias de lápis "Especial", 10 caixas de giz "Victória", 2 resmas de papel almaço "Victória" e 35 volumes de publicações diversas.

• Edezio de Freitas editava o primeiro Guia Turístico de Manaus, contendo inúmeras fotografias de edifícios e trechos de nossa urbe.

• a instalação da Sociedade dos Amigos das Árvores com o escopo primordial de incentivar o culto e proteção das árvores, concorrendo, também quanto possível, para evitar as devastações das nossas reservas florestais, já bastante desfalcadas pela imprevidência humana.
 
• algumas autoridades do início da década: Dr. Vicente Telles de Souza, diretor da Escola Normal; comandante Braz Aguiar da Marinha Nacional; Prof. Marciano Armond, prefeito de Manaus; Dr. Odilon Conrado, delegado Fiscal; Prof. Plácido Serrano, diretor de Instrução Pública; Dr. Jatyr Pucu de Aguiar, diretor da Repartição das Águas; Desembargador Hamilton Mourão, presidente do Tribunal de Justiça; Dr. Júlio Nery, Fiscal Federal de Ensino; Dr. Francisco Pereira, secretário-geral do Estado; Prof. Felismino Soares, secretário da Escola Normal; Dr. Gentil Bittencourt, secretário da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais.

• a Escola Royal , direção de Hylma e Zenir de Medeiros Raposo, realizou exames finais em 1º.11.30, com a presença do Prof. Agnello Bittencourt, na qualidade de presidente da Banca Examinadora, da senhorinha Sylvia Carneiro dos Santos e do Dr. Admar de A. Thury, examinadores, do Dr. Álvaro Maia, como paraninfo. Diplomados: Leonilda de Carvalho Barroco
Adrião, Plínio Ferreira dos Santos, Cecília Silva, Guilherme Marques de Souza, Gilberto Queiroz Rodrigues, Maria Fernandes Ferreira, Aurélia Albano Romero e Laura Couceiro.

• a nova diretoria da União dos Proprietários de Alfaiatarias de Manaus apresentava a seguinte composição: presidente - José M. Figueiredo; vice-presidente - José Bezerra; 1º secretário - Manuel Arraes P. Barreto; 2º dito - Guilherme Johnson; tesoureiro - José Mafra Filho. Diretores: José Alves Ribeiro do Souto e Nicolau Miguel; Conselho Fiscal: Inácio Coelho, Miguel Antônio da Silva e Assírio de Aguiar Silva.

• a Sociedade Portuguesa Beneficente tinha a seguinte administração: Presidente da Assembleia-Geral, comendador Joaquim Gonçalves de Araújo; 1º Secretário, barão Joaquim de Machado e Silva; 2º dito, José Corrêa dos Santos. Diretoria: Francisco da Silva Mattos Cardoso, presidente; Joaquim Pereira de Moraes Carneiro, vice; João Travassos Vinagre, 1º secretário;
Armando Arnaldo Ferreira de Miranda, 2º dito, José Pinheiro Vieira, tesoureiro; José Pereira Manarte, adjunto e Joaquim Pinto da Silva Junior, como procurador.

• concluíram o ensino secundário no triênio de 1934 a 1936, no Ginásio Pedro II e no Colégio Dom Bosco, 84,51 e 60 alunos respectivamente, enquanto na Escola Normal colocou a disposição da sociedade no mesmo período: 48, 52 e 53 professores de 1º grau.

• o ensino comercial no ano de 1936 apresentou um quadro de134 concludentes preparados pela Escola Solon de Lucena, Colégio Dom Bosco, Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, Instituto Benjamin Constant e Escola Prática Senador Lopes Gonçalves.

• o curso superior nos anos de 1934 a 1936 teve a seguinte performance: Faculdade de Direito, 17 advogados, Faculdade de Farmácia e Odontologia, 66 profissionais e Faculdade de Agronomia, 16 agrônomos.

• a Santa Casa de Misericórdia atendeu 1.331 internações, sendo 772 do sexo masculino e 559 mulheres, enquanto o movimento do Hospício Eduardo Ribeiro foi de 23 homens e 22 mulheres, segundo o relatório do governador, Dr. Álvaro Maia, perante à Assembleia Legislativa do Estado no ano de 1936, com referência a assistência hospitalar sob a responsabilidade do Poder Público.

• a estatística criminal expressada pelo Estado, no ano de 1936, ofereceu o seguinte desempenho: 18 defloramentos, 22 estupros, 1 rapto, 4 atentados contra o pudor, 33 homicídios, 4 tentativas de homicídios, 44 lesões corporais leves, 18 lesões corporais graves, 2 castigos imoderados, 16 crimes culposos, 1 calúnia, 1 dano, 11 furtos, 2 estelionatos, 3 roubos 1 desacato, totalizando 182 contravenções e crimes.

• ocorreram em 1936: 21 suicídios, sendo 15 diurnos e 6 noturnos, tendo como causas presumíveis: amores/3, alienação mental/3, revés da sorte/4, doenças diversas/2, desgostos de família/2 e sem qualquer possibilidade de presunção/7. Os locais do infortúnio apresentaram como ambiente: casas de família/17, baia do Rio Negro/2 e casas de prostituição/2.

• a movimentação aeroportuária constituída de aeronaves, embarcações interioranas, navegação de cabotagem e de longo curso no ano de 1936, exibiu a seguinte performance: 55 aviões, 86 motores, 394 lanchas, 357 vapores e 56 paquetes, sendo sua procedência do interior (621), outros Estados (240) e do exterior (87).