CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quinta-feira, agosto 01, 2013

VISITA HONROSA


A visita do presidente eleito Washington Luiz, em 1926, levou o governo local a convocar todas as classes sociais e as forças econômicas para celebrar o evento. Abaixo, em cópia do centenário Jornal do Commercio, (*) reproduzo o cronograma traçado para a recepção.

Ao efetuar esta transcrição, quero lembrar a visita de outro presidente eleito da República, acontecido no governo de Constantino Nery (1904-07). Portanto, quem teria sido o primeiro presidente, no exercício do cargo, a visitar Manaus?

Descontado o ditador Getúlio Vargas, em 15 anos de governo, que efetuou uma visita em outubro de 1940,  ocasião em que proferiu o afamado “Discurso do Rio Amazonas”, prometendo a recuperação da região. Vale lembrar a presença, em Manaus, do presidente Juscelino Kubitschek, em 1957, para inaugurar a refinaria de Isaac Sabbá e a ponte com seu nome, ligando os bairros de Educandos e Cachoeirinha.


Dessa forma, a capital do Amazonas veio a conhecer o presidente do Brasil, mais de meio século depois da República.


O FUTURO CHEFE DO GOVERNO DO PAÍS
DÁ A HONRA DE SUA VISITA AO AMAZONAS 

O Amazonas goza hoje da grande ventura de hospedar, na sua capital, o eminente brasileiro, senador Washington Luiz Pereira de Souza, eleito, reconhecido e proclamado presidente da República para o próximo quadriênio (1926-30).
Efigênio Sales, 1929
Esta visita é de muita significação e deve ser tida como uma expressão promissora do progresso desta circunscrição nacional, pois demonstra acentuado empenho em conhecer de perto as necessidades regionais. Aliás, esse gesto patriótico, de bem servir à Nação, acentuando as privações de cada estado, revela o nobre intuito de aplicar, no seu programa, a todo Brasil a obra grandiosa que levou a efeito em São Paulo durante o seu profícuo período administrativo (1920-24).

Estadista de alto descortino, com uma visão que o conduz sempre a efetividade dos magnos problemas sociais em proveito das coletividades, certamente o seu olhar perspicaz, há de, num golpe de vista, aprender o que é o Amazonas, o que vale o Amazonas, de sentir que nele se esforece um comércio heroico a debater-se em aguda crise, pela depreciação dos produtos estaduais. Há de ver um povo laborioso e amável, pugnando, dentro da ordem e da paz, pelo seu desenvolvimento e grandeza.

E todos assim, resistindo até hoje, com coragem espartana, às inclemências inauditas de uma sorte madrasta, por parte da União, nesta terra em que o sol tropical calcina e as intempéries do clima martirizam, erguem-se num hino de esperança, para saudá-lo, convictos de que S. Exa., como um novo sol a despontar, irradie por estas plagas beneficamente de modo que os seus raios de ação projetem dulcíssima luz que suavize as nossas angústias, numa nova era para o Amazonas.

*

Às 5h30 partirá de nosso porto até a confluência dos rios Negro e Solimões, ao encontro do (paquete) Pará, uma flotilha composta de dezesseis embarcações, capitaneada pelo vapor Inca, que sob o comando do piloto José Travassos, conduzirá o presidente (atual governador) do Estado ou seu representante; o capitão dos portos e as demais autoridades federais, estaduais e municipais.

A flotilha é a seguinte: fila A - ímpar: Inca, capitânia; Contreiras; Tefé; Herman; César; Santa Lúcia e Geoft;  fila B – par: Aripuanã; Manauense; Gertrad; Hilario; Acimã; Corumbá; Cotinha e Zé Eugênio.

No Rio Aripuanã, irá à diretoria da Associação Comercial, o Tefé levará a diretoria e sócios da Associação dos Empregados no Comércio. As outras embarcações receberão as famílias e o povo em geral. Conforme recomendação do capitão dos Portos todas as embarcações surtas no porto embandeirarão em arco. Em Ponta Pelada, na rampa do Mercado, serão dadas salvas de morteiro de vinte e um tiros à aproximação do paquete Pará.

O senador Washington Luiz, após a atracação do navio, virá pelo roadway, a pé, até o arco alegórico simbolizando as portas da cidade, armado nas proximidades dos portões centrais da Manáos Harbour. Será saudado ali pelo prefeito Araújo Lima, que inaugurará a placa comemorativa da visita do eminente brasileiro ao Amazonas.

Praça do Comércio, em frente ao roadway da
Manáos Harbour, 1933
Do portão principal da Manáos Harbour, ao longo da avenida, até a esquina da Sete de Setembro, formarão em continência forças do Exército e da Polícia, alunos do Ginásio Pedro II, do Colégio Dom Bosco e da Legião dos Escoteiros. Dali, até o portão do Palácio Rio Negro estender-se-ão duas alas de alunos das escolas públicas e particulares, entoando hinos à passagem de S. Exa. e do cortejo.

Da varanda do andar superior do Palácio, os Drs. Washington Luiz e Efigênio Sales e demais membros do governo e autoridades assistirão ao desfile, falando, em nome das crianças, o menino Moacyr Dantas. Subirão pelo primeiro e descerão pelo segundo portão do Palácio, encaminhando-se a praça da Constituição (hoje da Polícia), onde se dissolverá o préstito.

*
Após um repouso, S. Exa. irá ao restaurante (ilegível), onde lhe oferecerá um almoço íntimo o presidente Efigênio Sales com sua família. Regressando ao Palácio Rio Negro terá a tarde reservada para conversar com o presidente Efigênio Sales sobre assuntos do interesse do Amazonas.

Às 20h, na avenida Eduardo Ribeiro, será apresentada uma marche aux flambeaux,  puxada por bandas de música, composta de todas associações e com os respectivos estandartes e da massa popular, encaminhando-se pela avenida Sete de Setembro até o Palácio, de cuja balaustrada, o Dr. Washington Luiz assistirá ao desfile e ouvirá os discursos do Dr. Álvaro Maia, expressando-lhe o sentir da população, e do popular Hemetério Cabrinha, em nome das classes operárias.

O préstito irá até a praça Visconde do Rio Branco (ocupada atualmente pelo IFAM, sucedâneo da Escola Técnica Federal), de onde retrocederá até à cidade em visita aos jornais.

*
O traje do desembarque para as autoridades é fraque e cartola. O préstito de desembarque obedecerá a seguinte ordem: 1º carro, landaulet  presidencial, com os Drs. Washington Luiz e Efigênio Sales e ajudante de ordens; 2º, mesa da Assembleia; 3º, presidente do Tribunal de Justiça; 4º, bispo diocesano e secretário; 5º, secretário-geral do estado e um oficial de gabinete e o secretário do Dr. Washington Luiz; 6º, prefeito da capital e secretário e outro membro da comitiva do Dr. Washington Luiz; 7º, Chefe de Polícia e secretário; 8º, diretor do Tesouro e secretário; 9º, comandante da Polícia e secretário; 10º, presidente da Intendência municipal; 11º, juiz federal; 12º, capitão dos portos;  13º, comandante do 27º BC; 14º, procurador Geral do Estado; 15º, comissão da Assembleia Legislativa; 16º, 17º e 18º, corpo consular; 19º, comissão da Assembleia Legislativa; 20º, comissão da Intendência municipal; 21º, delegado fiscal do Mato Grosso; 22º, delegado fiscal; 23º, inspetor da Alfândega; 24º, juiz substituto federal; 25º, procurador da República; 26º, diretor do Serviço Sanitário; 27º, administrador dos Correios; 28º, diretor  da Secretaria de Estado; 29º, diretor da Instrução Pública; 30º, diretor das  Águas; 31º, Imprensa Pública; 32º, diretor do Instituto Benjamin Constant; 33º, diretor das Obras Públicas; 34º, presidente da Associação Comercial; 35º, presidente da Associação dos Retalhistas; 36º, presidente da Associação dos Empregados do Comércio; 37º, presidente da Junta Comercial; 38º, presidente do Instituto Histórico; 39º, Guarda-Mor da Alfândega; 40º, procurador Fiscal do Estado; 41º, mesa da Santa Casa; 42º, diretoria da União Operária; 43º, chefe do Serviço de Recrutamento; 44º, delegado auxiliar; e outros cargos com outras autoridades e pessoas de destaque.

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Segundo dia:

De manhã - S. Exa. visitará o Seringal Miry; o Instituto Histórico; a usina Brasil-Hévea (agora, filial do atacadista Makro); e à tarde visitará a Prefeitura, a Assembleia Legislativa e o Instituto Benjamin Constant.

Às 20h comparecerá ao banquete de 200 talheres no Teatro Amazonas. Haverá quatro brindes: do presidente Sales a S. Exa. De S. Exa., agradecendo, ao presidente Sales, e do presidente da Assembleia ao presidente da República. Os camarotes serão distribuídos por convite, não havendo distinção de ordem e as galerias ficarão abertas ao público. A entrada para os camarotes será pela escadaria da rua José Clemente, sendo as portas principais destinadas aos convidados do banquete. O traje é de rigor.

Terceiro dia:

Pela manhã - visita à fábrica de cerveja (Cervejaria Amazonense), ao Ginásio (Pedro II), ao grupo escolar Presidente Bernardes e à Santa Casa de Misericórdia.
Às 14h30 haverá um passeio a Campos Salles, sendo ponto de partida o Palácio Rio Negro. De regresso, às 16h, haverá garden party  no sanatório Efigênio Sales, havendo convites especiais.

Às 21h, realizar-se-á  um espetáculo de gala no Teatro Amazonas, onde senhorinhas da nossa sociedade interpretarão arranjos da Geisha e da Mascotte, além de um ato de variedades, por artistas.

Quarto dia:

Às 8h, será feito no vapor Inca um passeio fluvial a Paricatuba, organizado pela Associação Comercial, visitando S. Exa., por essa ocasião, o serviço de bombeamento da Ponta do Ismael. Às 15h, visitará a Associação Comercial, assistindo em seguida, no Polytheama, a passagem das fitas No país das Amazonas  e No rasto do Eldorado. Às 20h, comparecerá S. Exa. ao grande baile que o alto comércio lhe oferecerá nos salões do Ideal Club.

*
O presidente do Estado, em portaria de ontem, designou o tenente-coronel (da Polícia Militar) Octavio Sarmento para servir como ajudante de pessoa e de ordem do presidente Washington Luiz.

*
O presidente do Estado, atendendo a alta significação política da visita ao Amazonas do eminente senador Washington Luiz Pereira de Souza, presidente eleito, reconhecido da República, para o quadriênio de 1926 a 1930; e considerando que, para maior regozijo público, devem tomar parte na sua recepção todas as classes sociais, decretou feriado o dia de hoje, em homenagem à chegada a esta capital do ilustre estadista.

*
O roadway da Manáos Harbour e as avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro desde ontem, apresentam festiva decoração.A ponte de desembarque está embandeirada e apresenta uma ornamentação de palmeiras. No meio do flutuante há uma flâmula, esticada de lado a lado, com os seguintes dizeres: Amazonas – Dr. Washington Luiz. No paredão, na parte interna, à mão direita de quem sobe, vê-se uma placa de mármore com estes dizeres:

A vinte de julho de mil novecentos e vinte seis aportou a esta capital, o Exmo. Sr. Dr. Washington Luiz Pereira de Souza, presidente eleito da República para o quatriênio a iniciar-se em quinze de novembro de mil novecentos e vinte seis, sendo presidente do Estado, o Exmo. Sr. Dr. Efigênio Ferreira de Sales, e prefeito da capital, o Exmo. Sr. Dr. José Francisco de Araújo Lima.
 
No ponto terminal do roadway ergue-se uma armação decorativa representando três entradas, simbolizando as portas da cidade. São três colunas pintadas de amarelo, com nomes cor de bronze, lendo-se na parte superior, horizontalmente, as palavras: Salve o Dr. Washington Luiz.

***
Curiosidade própria: onde andará a placa comemorativa?


Jornal do Commercio. Manaus, 20 de julho de 1926, constante da coluna Fazendo História, de 20 de julho de 1913.

sábado, julho 27, 2013

BRANCO (E) SILVA (1889-1959)

Três motivos me levaram a transcrever este artigo: apesar do texto muito simplório, o autor, por sua condição de oficial da Polícia Militar, todavia, com passagem pela prefeitura de Manaus, na condição de Prefeito (1951-52).

O segundo, a figura do artista plástico Branco Silva, cujo nome artístico já absorveu o conectivo “e”, do que resulta Branco e Silva pra lá e pra cá, ainda assim encontrado em alguns locais da cidade. A ilustração mostra um seu trabalho realizado em 1948.

Enfim, a notícia de que acabara de regressar do Sul, onde estivera em tratamento de saúde. A melhora certamente fora nenhuma, pois faleceu em 12 de fevereiro de 1959.

LENDAS E FATOS DA AMAZÔNIA

Edson Epaminondas de Mello (*)

Capa de livro elaborada por
Branco Slva, em 1948
Branco Silva, exímio mestre dos pinceis, apresenta-nos criações de seu espírito de escol, lendas e fatos do nosso folclore. Fatos, porque passados e vividos em nosso hinterland.
São quadros de beleza dantesca, que impressionam ao mais corajoso e a todos deixam um quê de inquietação no espirito, porque dá-nos a quase certeza de seus personagens terem vida.

Há meses, rabiscamos algo sobre “Um artista e um gênio”, publicado por gentileza de Aloisio Archer Pinto em um dos “lideres” da imprensa manauara.

Dentre as criações do ilustre mestre, falamos que estava em confecção – o Mapinguari. Monstro lendário, meio macaco, meio homem, trazendo no meio da testa estreita um só olho avermelhado. Animal cabeludo e disforme, idealizado pela inteligência do mestre, em acordo com informes vários, dados por mateiros e seringueiros.
Aterroriza pelo seu ar sumamente feroz.
Merece ser visto por todos os amazonenses, que assim conhecerão a mais temida lenda do vale verde, corporificada pela mente privilegiada de Branco Silva.

Com relação aos novos trabalhos de Branco Silva, assim se expressou ilustre visitante, vindo do Rio de Janeiro – “A natureza amazônica nos apresenta às vezes, inteligências tão privilegiadas e avançadas, que aquele que observa e estuda, fica sublimemente entusiasmado a ponto de acreditar, ser aqui, aonde correm as águas do Rio-Mar, o verdadeiro habitat dos gênios”.

Assim, nos depara, esse grande artista que aqui nasceu e aqui reside nos surpreendendo de quando em vez, com as suas exposições ou, como agora, com as suas já conhecidas lendas da Amazônia, e fatos ocorridos nas selvas misteriosas e longínquas de nossa terra.

Branco Silva, que acaba de chegar do Sul onde foi em busca de melhoras à sua saúde abalada, ainda convalescente do mal súbito que o atacou, vem de nos apresentar nova e bela exposição.

E assim, nessa enternecedora prova de apreço, vem por longas e sinceras frases, saídas de seu coração leal, até porque, filho de outras plagas glorificando o nosso velho e estimado mestre Branco Silva tornando-se, dessarte, credor de gratidão dos amazonenses, que por minha descolorida palavra dizem-lhe, obrigado, ilustre amigo desconhecido, por tudo que escreveste a respeito do nosso Branco Silva, porque lhe fizeste a justiça que seus próprios conterrâneos pretendem negar a seu reconhecido valor.

Há dias passados, tratando de assuntos profissionais com o Dr. Mário Jorge (Couto) Lopes, para variar nossa conversação, e falando sobre fatos do nosso Amazonas, lembramo-nos de Branco Silva. Disse-nos o Dr. Mário – “seu colega, encontrei-me dias atrás com o velho amigo Branco Silva, e achei-o outro; cansado, semblante de sofrimento; não é o mesmo Branco Silva, vivo, risonho e com ar próprio de quem confia sempre no futuro”.

Estivera doente o velho mestre e, ainda não de todo restabelecido, continua entretanto em seu atelier de trabalho, onde, tantas e belas vitórias há sempre conseguido para o Amazonas, tornando-o, por seus belíssimos quadros e motivos planiciários, conhecido não só no Sul do país, como também no exterior.

Teve o brilhante advogado uma lembrança sublime, que bem diz de seu caráter cristão: “Julgo que o governo do Estado devia premiar o nosso Branco Silva com uma aposentadoria, de pelo menos Cr$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros) mensais, de vencimentos, como reconhecimento do Amazonas ao velho mestre que, por muitas vezes, glorificou aqui como alhures o nome de seu grande Estado”.

Achei maravilhosa a ideia do Dr. Mário Jorge, e senti-me feliz, verificando que em nossa terra os verdadeiros valores intelectuais não são de todo esquecidos, sempre há no meio das atribuições de futebol e politica um Dr. Mário Jorge fazendo justiça a quem merece.

Visitemos, pois, o atelier de Branco Silva, vivendo um pouco de sua vida de alegrias e tristezas, em um ambiente onde sempre tem lutado pela grandeza e glorificação do Amazonas. Assistamos de perto o entusiasmo contagiante com que o mestre explica-nos seus trabalhos e suas criações.

Levemos ao insigne mestre em sua oficina de trabalho o nosso abraço amigo e, também, um pouco de conforto material, pagando a reduzida importância da entrada a fim de ajuda-lo em outros trabalhos, que pretende realizar. O atelier do mestre é para ele o reduto mais sagrado, onde muito tem sofrido e também onde muitas glórias conseguiu para seu nome e para nosso querido Amazonas; suas criações e seus belos quadros são a razão mais sublime de sua vida.

Abracemos ao mestre no recinto sagrado de suas criações, e também sua esposa, Dona Orientina Ruas da Silva, a querida e inesquecível professora de nossa primeira infância, a companheira indormida do estimado Branco Silva, em todas as alegrias ou tristezas, dizendo-lhes... parabéns, mestres... pelo muito que tendes feito pelo Amazonas e pela glorificação de seu nome, tornando-o conhecido até no exterior.

A Branco Silva e Dona Orica (sic), o nosso sincero abraço. 

(*)O Jornal. Manaus, 8 de novembro de 1958

sexta-feira, julho 26, 2013

PADRE ESTÉLIO DÁLISON

Padre Nonato Pinheiro (*)

Padre Nonato Pinheiro, 1952
Padre Estélio Dálison continua vivo no meu coração. Não consigo esquecê-lo, tão fortes foram os laços que nos uniram em vida. Nascido no Uruguai, na Colônia do Sacramento, veio para o Brasil no vigor da mocidade assimilando tão bem o português, que o falava e escrevia como se fosse sua língua materna, o harmonioso idioma de Cervantes. Em 1922, ano do meu nascimento, padre Estélio Dálison recebia o sacerdócio em Roma, com outros três salesianos. Em 1930, chegava a Manaus, logo dominando os círculos sociais e intelectuais com o esplendor de sua eloquência. O verbo caía-lhe dos lábios em cascatas de prata, em catadupas de ouro. Nesse mesmo ano recebia eu de suas mãos a primeira comunhão.

Tive duas convivências com o famoso filho de Dom Bosco. A primeira é concernente à quadra de estudante, de 1933 a 1938, no diretoriado do padre Lourenço Gatti, que sucedeu ao santo padre Pedro Ghislandi. Ensinava-nos Religião. Apesar da austeridade da disciplina, se nos instruía com segurança e profundeza na doutrina cristã, sabia divertir-nos com o seu bom humor, que era simplesmente fabuloso. De uma feita ouvi-lhe dos lábios: “No Brasil, para tudo se usam selos de educação e saúde, e não há saúde nem educação”... Doutra vez, assistindo a uma algarraza de colegiais, assim falou: “Na bandeira brasileira está escrito Ordem e Progresso. No coração do brasileiro leio Desordem e Regresso...”
Na segunda convivência já era eu sacerdote. Estávamos sempre juntos, como também pela circunstância do cargo que desempenhava, de secretário do Bispado, na administração diocesana do saudoso Dom João da Mata Andrade e Amaral. Quando este foi transferido para Niterói, lembro-me de que fui eu quem lhe deu a notícia da eleição episcopal de Dom Alberto Gaudêncio Ramos. Padre Estélio não conhecia o novo bispo, saído do clero secular da Arquidiocese de Belém. Aproveitou os nomes dos dois antístites para um trocadilho, que provocou risos ao próprio Dom Alberto: “Olhe, padre Nonato: para fazer uma mata, só muitos ramos...”

Ouvi magníficos sermões e panegíricos do padre Estélio Dálison. Os noivos da aristocracia social procuravam-no para abençoar as núpcias. Essas alocuções matrimoniais eram sempre cintilantes. Nos últimos anos de vida, proferiu duas soberbas orações gratulatórias: nas bodas de ouro sacerdotais do seráfico frei Domingos de Gualdo Tadino, capuchinho, e na 1ª Missa Solene do padre Mário Balbi, salesiano amazonense. Funcionei como diácono, e ainda retenho o texto da alocução: “Sacerdos – sacer dos, sacra dans” (Sacerdote  -- dote sagrado, dador de sacralidades).

Se no púlpito empolgava, na conversação fascinava. Era um encanto a palestra do padre Estélio: pela viveza, pelo humor, pela ironia. Quando completou 60 anos, anunciou que havia descoberto um meio de não passar dos 60. No ano seguinte, ao raiar o dia 24 de setembro, sua data genetlíaca, declarou: “Estou descendo. Hoje festejo meus 59 anos. Para o ano, 58...”. Padre Agostinho recebeu a notícia com uma boa risada.

Seus últimos anos foram de intenso trabalho. Além de diretor, era também o prefeito ou ecônomo do estabelecimento. E muitas vezes o vi na livraria do colégio, a vender o material escolar e as guloseimas. Um dia fui celebrar na igreja de Dom Bosco. Ao dirigir-me para o refeitório, surpreendi-o na livraria. Chamou-me: “Tenho um presente para você. É a pastoral do bispo X. Não sou lá grande admirador de Sua Excelência, e sei que o Espírito Santo às vezes se engana, leve a Pastoral para o seu arquivo eclesiástico”.

Padre Estélio foi um grande apreciador de laranjas. Gostava de saboreá-las pela manhã, antes do café. Enalteceu-me mais de uma vez o teor vitamínico da laranja, sua fruta preferida.

Já devo atingir o objetivo dessas linhas: revelar o poeta padre Estélio. Para muitos, sei que será realmente uma revelação. Padre Estélio foi poeta, e poeta primoroso. Poetava, porém, clandestinamente, sem exibir a ninguém a prata de copela e o ouro fulvo de sua finíssima inspiração. Transcreverei uma joia de seu estro poético, uma linda poesia sacra, cujos originais me foram confiados pelo meu dileto padre Agostinho, logo depois das exéquias solenes em sufrágio de sua alma, em que tive a honra de proferir a Oração Fúnebre.

Guardo a poesia desde 1949. Doze anos decorridos, tive a ideia luminosa de publicá-la, para maior conhecimento da inspiração e sensibilidade do autor, revelando ao Amazonas o poeta, pois só o conheciam como palestrador cintilante e orador primoroso.

Eis a formosa poesia, que demonstra e documenta a delicadeza de sua alma de esteta e a mira de seus sublimes ideais:

ASPIRAÇÕES

Ardem gotas de luares
nos altares
onde se esconde Jesus;
e luzem nos peitos crentes,
resplentes,
as alvoradas da Cruz.
 

Não quero a festa obscena,
que envenena,
como o beijo do traidor.
Quero o prazer puro e calmo,
como o salmo,
que rezo aos pés do Senhor.


Não quero os fátuos clarões
de ilusões
que matam para viver.
Quero afetos sem escória,
quero a glória,
quero vencer ou morrer!

 
Teria sido a única poesia do padre Estélio, em língua portuguesa? Não o creio. O artista certamente lapidou outras preciosidades para depois destruí-las num rasgo de insatisfação e humildade. Como quer que seja, Adriano Jorge e Péricles Moraes sabiam-no primoroso homem de letras. Este último revelou-me, mais de uma vez: “Tê-lo-íamos eleito para a Academia se o português fosse sua língua materna”.

Essas linhas são de comovida homenagem à sua prefulgente memória, cujo clarão jamais se extinguirá.

(*) O Jornal. Manaus, 31 de dezembro de 1961.

terça-feira, julho 23, 2013

VICENTE REIS: HISTÓRIA FACETA


Capa do livro
Este causo, contado pelo saudoso mestre Mário Ypiranga, já teve vários personagens. Acho que o último mais conhecido foi Leonel Brizola.
 

O VICENTINA
O Dr. (bacharel em Direito) Vicente Torres da Silva Reis era baixinho, comilão e apegado ao seu Jornal do Comércio, na época localizado do lado esquerdo da avenida de Eduardo Ribeiro, número noventa, mais ou menos onde foi a "Farmácia Barreira" quase à esquina da rua Henrique Martins. O fundador do jornal fora um jornalista português naturalizado.

Depois de instalado o jornal no edifício da mesma artéria, no "Açaizal," é que adquiriu as linotipos (a segunda frota, porque a primeira foi adquirida por Eduardo Ribeiro para equipar o Diário Oficial do Estado) que deram prestígio ao jornal mais lido no Amazonas e com sucursais na "Oropa”, França e Bahia.

Foi quando estava no apogeu da carreira brilhante de "jornalista festejado", que o Dr. Vicente Reis achou de entrar na política, pelo lado esquerdo, isto é, pela oposição. Candidato a deputado estadual foi eleito com "expressiva votação’’, mas a sua frásica politiqueira não o ajudou muito, arranjou inimigos que hierarquicamente vinham do governador ao mais baixo salafra da Polícia Civil.

O governador era então o "Vatapá de Suíças", codinome do médico Dr. Jonatas de Freitas Pedrosa, baiano de nação e dominado pela prole que ditava ordens no palácio e desordens na via pública. Ameaçado de pau e de ter a redação varejada pela polícia à paisana, o Dr. Vicente refugiou-se no lugar mais próximo do jornal e menos perigoso, que foi à casa do seu amigo o comendador Antônio de Matos Areosa, vice-cônsul de Portugal e representante-gerente das duas mais fortes companhias de seguros, a Sagres e a Aliança da Bahia, ambas em prédio de sua propriedade, situadas bem mesmo ao lado da polícia, à rua Marechal Deodoro.

Durante três dias e duas noites ficou o Dr. Vicente Reis homiziado ali, garantido pela circunstância de "território neutro", inviolável.

Mas o jornal chamava-o, não podia deixá-lo entregue à visão pouco esclarecida (esta sempre foi a opinião do jornalista à respeito do mérito dos seus devotados auxiliares) do Dr. Antônio dos Passos Gomes. Por isso determinou fugir logo que a noite baixasse. A casa nobre do comendador Matos Areosa ficava na rua de Vinte e Quatro de Maio, mística a do Dr. José Pais de Sousa Brasil, advogado, e muito perto da do deputado Dr. Antônio de Sá Peixoto, seu inimigo figadal, até à morte.

Fugiu. E como fugiu di-lo melhor as picuinhas que circularam em volantes impressos, depois da patuscada. Eu não sei se o leitor está a par de que o Dr. Vicente Reis havia escrito farsas que foram bem recebidas pelo público no Rio de Janeiro e servido de delegado-auxiliar na polícia daquela cidade, quando teve oportunidade de escrever um folheto versando a gíria dos ladrões daquela capital. Estava, portanto, o jornalista no seu metier.

A versalhada abaixo nos foi comunicada pelo Dr. Pais Brasil, quando professor de Direito Constitucional na Faculdade de Direito.

Vicente Reis, o embusteiro,
Escapou dos seus apuros
Porque usou o roupeiro
Da madame dos seguros.

O Vicente deputado
Que não gosta de biraias,
Escapou todo cagado
De chapéu, sombrinha e saias.

Com uma barriga de meses
E uns peitos monumentais,
O Vicentina das reses
Fugiu dos policiais.