CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, agosto 10, 2020

FORMAÇÃO DE OFICIAIS NA PMAM

 Ensaio sobre a formação de oficiais na Polícia Militar do Amazonas, em sua primeira parte.


Quartel da Praça da Polícia, ocupado pela PMAM entre 1890 a 2002. Hoje, Palacete Provincial

A formação de oficiais concretizada na Polícia Militar do Amazonas suportou alentado atraso (e quanto!), ultrapassando várias fases até o estabelecimento de sua própria Academia, em 2002. Não obstante sua longa existência, posto que a corporação foi criada em 1837, antes mesmo da instalação da província amazonense. A indigência da província logo impôs a dissipação da Força Estadual, até que em 1876 esta foi recomposta e, desde então, segue assinalando sua respeitosa presença nos espaços amazonenses.

Cabe inquirir: como a corporação provia seu corpo diretivo, ou seja, como se organizava com os oficiais? No primeiro instante de sua organização, o Lugar da Barra, a denominação primitiva, crescia ainda na beira do barranco, cercada de igarapés e acolhendo aos muitos indígenas na sua ilharga. Distante de tudo e de todos, Manaus somente podia contar com o material e pessoal existentes, porém, escassos. A segurança pública era efetivada pela Força Terrestre, com uma marcante deficiência de pessoal. Reservado aos homens, poucos eram os voluntários para o serviço de policiamento, desse modo, restavam engajados os analfabetos e os arrivistas (alguns estrangeiros).

A extração do látex trouxe um descomedido alento ao território na virada do século 20, no qual a fortuna obtida impulsionou a administração pública em todos os rumos, atraindo imigrantes daqui e de além mar. Evidente que a Força Militar Estadual foi contemplada. Com a instalação da República (1889) e o usufruto da “fase áurea da borracha”, o estado do Amazonas tomou forte impulso. Vejamos apenas a evolução da Polícia Militar, então denominada Regimento Militar do Estado, título este conservado entre 1896 e 1906.

O corpo de oficiais era integrado por oficiais do Exército, em particular no comando, e de cidadãos escolhidos ou indicados ao governante, segundo lhe permitia a legislação, e, enfim, os provenientes da classe subalterna dos sargentos. No fundo mesmo, as promoções ocorriam devido a afeição e o compadrio (no linguajar castrense: a peixada). Portanto, inexistia a formação de oficiais.

Encerrado o boom da goma elástica (cerca de 1920), tendo a borracha mudado de continente, a derrocada tomou conta do Estado. Órgão estadual, a Força Pública foi no banzeiro, com a redução de efetivo e de soldo, e enfrentando um período desativada (1930-36), até alcançar o fundo do leito do igarapé na metade do século passado. Quanto aos oficiais: persistiam incorporados seguindo o preceito consuetudinário, com ligeira distinção, o acolhimento de oficiais R/2, sendo o primeiro deles formado no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), sediado em Belém (PA), turma de 1940; outros vieram do NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva) pertencente ao 27 BC, turma de 1942/43.

Além disso, é conveniente registrar que o primeiro oficial a concluir o CAO (Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais) foi o então capitão Omar Gomes da Silveira, na PMEG (Guanabara, depois RJ), em 1954. Este oficial, quando tenente-coronel, assumiu o comando-geral da corporação em 1967.

A promoção, que amiúde serve de pretexto para suspeita ou disputa acirrada entre camaradas, já continha regras fundamentais, algumas bastante vagas, todavia, cumpridas com rigidez. Inexistia nem a figura do oficial excedente nem do agregado, tão comum em nossos dias. Em 1952, a lei 21, ao estabelecer as “normas para o ingresso no oficialato da PM e para as promoções”, tornou-se um marco incisivo desse processo.

Em 1959, ao assumir o governo do Estado, o professor Gilberto Mestrinho nomeia coronel comandante da Polícia Militar ao doutor Assis Peixoto. Ao final desse ano, a corporação promove a seleção de candidatos ao CFO (Curso de Formação de Oficiais) da PM da Guanabara. São selecionados três moços: Pedro Câmara, Pedro Lustosa e Hélcio Motta. Tornam-se, pois, os primeiros alunos, adiante, os cadetes e, enfim, os oficiais da PMAM com formação apropriada.

Essa experiência exibiu à corporação o elevado proveito em enviar seus candidatos a oficiais para outras coirmãs, possuidoras de Academia. Era conveniente para ambos os lados, e a força amazonense aproveitou a ocasião. Adiante, com a instalação do Regime Militar (1964-85), que criou a IGPM (Inspetoria Geral das Polícias Militares) para gerenciar as polícias estaduais, em 1969, esse intercâmbio expandiu-se, tanto que onde houvesse escola, havia amazonenses. Espalharam-se pelo país inteiro e, tem mais, pelo continente, pois uma turma concluiu o CFO nos Carabineiros do Chile (1985).

sábado, agosto 08, 2020

DIAGNÓSTICO: TUBERCULOSE

 

     O título diz respeito à causa mortis de nossa mãe, nos idos de 1952. O diagnóstico foi passado por um médico-político (vereador), bastante folclórico na cidade: dr. Jorge Abrahim. Cuidou de dona Francisca (foto) a partir do ambulatório da igreja de Educandos, que o vigário, padre Antonio Plácido, construiu. Assim, a salvação do corpo e da alma estavam no mesmo local. Todavia, apenas fomos conhecer esse diagnóstico há cerca de dez anos, através da certidão de óbito. Tanto eu quanto o Renato, nos entristecemos fundo. Mas, que fazer? Renato não esquece a ausência da mãe, daí a crônica que hoje postamos. São passados 68 anos! 

TUBERCULOSE

Renato Mendonça

Após um ano que nasceu, a mãe morreu-lhe, e o deixou órfão com mais dois irmãozinhos, Henrique e o primogênito Roberto. O pai não quis se casar. Ainda jovem, aos 36, devia ter-lhe aparecido bons partidos, mas não quis. Ou não soube se casar. Essa é uma dúvida que ficou sem ser revelada. O certo é que não lhe faltou relacionamentos como jovem que era, é provável que muitos. E num desses, com a juventude dos vinte anos de Lindalva, gerou dois filhos: um menino, Raimundo, e uma menina, Sonia, num espaço de dois anos.

Não lhe cabe nenhum julgamento moral, apenas o registro, desse casuísmo do comportamento humano. O homem é um ser impuro, motivado também por um instinto masculino, viril, mesmo que esteja compenetrado com sua doutrina religiosa. Há sempre uma força que lhe cobra a satisfação fisiológica, e que se pode dizer, com o aval do desejo da alma. O certo é que cuidou de todos, à sua maneira, e dedicou atenção como um verdadeiro pai, quando lhe cabe uma responsabilidade duplicada.

Ele só conseguiu aprender a casar sete anos depois — veja bem, assim como Jacó, no Genesis, teve que esperar mais sete anos para casar-se com Doroteia. Talvez uma premonição bíblica, fundamentada na mística do número sete. E com ela, constituiu mais seis filhos: José, Miguel, Luís, Ronaldo, Ricardo e Carlos.

Quando deu por si, o garoto que ficou órfão com um ano, pedia a Deus que o fizesse sonhar com sua mãe para novamente ouvir a sua voz. Queria uma revelação de seus últimos momentos em terras longínquas, no arrabalde do Lago do Anveres, como se fosse um médium, ou como alguém que tem a capacidade de ver na “bola de cristal”. Mas, o momento sempre lhe foi negado pelo Criador, por uma razão óbvia: há situações em que é melhor ficar na imaginação, pois a sofreguidão é cruel. Ele queria, pelo menos, obter-lhe os pensamentos na sua situação de dor, porque o pai sempre se recusou a lhe contar. E por que se recusou? Será que ele teve esse momento diante dos olhos? Provavelmente, a doença, altamente contagiosa, a afastava de todos, talvez por isso o pai não pode testemunhar o momento fatal. E o seu ofício, longe de casa, na capital, também o impedia de ficar ao seu lado.

Por tudo isso, havia esse conflito de hipóteses na mente do garoto. Mas, intuiu, com ajuda divina, que ela, na sua solidão, afastada da família, vivendo sua dor do corpo e da alma, deitada na sua cama — ou na rede, como costumavam descansar os amazonenses —, renovou seu pedido a Deus: “que o Nosso Senhor, na sua santa benevolência olhasse pelos seus três filhos pequenos, com idade variando entre um e seis anos; que o jovem Manoel soubesse achar dentro da sua responsabilidade e retidão, forças para cuidar dos três sem ter que doar algum. E mais, pediu aos céus que todos fossem irmãos verdadeiros, que se ajudassem entre si, que tivessem uma convivência harmoniosa em seus corações. Que nenhum rancor ou ruído externo pudesse atrapalhar o amor fraternal, uma extensão do amor que ela deixava como herança. Que seus caminhos, embora diferentes, tivessem sempre a Luz Maior a alumiar todos os passos. E, ainda se lembrou de pedir saúde, e muitos anos de vida ao pai.”

Agora, que o garoto Renato se encaminha para os setenta anos, sente na alma que a mãe Francisca o quer afagar como antes da doença. Quer novamente lançar o olhar terno e compassivo; quer o abastecer com a luz dos seus olhos, e dirigir sua benção, infindável e pura.  Para o prover de amor, suprir o hiato de uma necessidade física e espiritual, longos anos em busca de paz, da paz maternal.

Renato Mendonça

quinta-feira, agosto 06, 2020

ODACI OKADA (1946-2010)

"O amor não conhece sua própria intensidade

até a hora da separação." Khalil Gibran

 A frase do profeta Khalil Gibran ilustra bem o momento em que todos estamos vivendo com a despedida do nosso querido Odaci de Lima Okada. Pois o homem ao encaminhar, escreve a sua história.

O Odaci, que para a sua esposa Calmi era simplesmente o "Oda", o seu "bem", o seu companheiro de uma vida inteira, de um casamento de quase 47 anos e o seu eterno namorado de uma união de mais de 50 anos.

O Odaci, que para os seus filhos Karla e Patrick sempre foi o pai amigo, amoroso, conselheiro, o porto seguro de todas as horas. O pai exemplo de honestidade, honradez e bondade.

O Odaci, que para o seu neto Matteus sempre foi o avô dedicado, atencioso, o avô que, enquanto teve condições de saúde, pegava o seu netinho na escola e não media esforços para desfrutar de sua companhia.

O Odaci que rapidamente conquistou a admiração, o amor e o respeito de seu genro Kalil e sua nora Mayra.

O Odaci irmão, o Odaci cunhado, o Odaci compadre, o Odaci padrinho, o tio "Oda", que humildemente conquistou o carinho e o respeito de toda a sua família, sempre com seu bom humor, seu sorriso fácil, suas piadas, seus conselhos e sua ajuda a quem precisasse.


O Odaci de inúmeros amigos, de muitas pescarias, de muitos karaokês, de muitos festivais de Parintins, de muita animação, de muitas festas do Garantido.

O Odaci, coronel Okada, que sempre exerceu com muita dedicação e honrou todas as atribuições e responsabilidades que recebeu durante a sua carreira militar. Período em que galgou muitos cargos de comando na Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Chefia da Casa Militar do Amazonas. Na sua profissão também conquistou muitos amigos, muitos companheiros, para os quais era carinhosamente chamado de "Kokadinha".

O Odaci, guerreiro de muitas lutas contra uma doença devastadora que, com seu exemplo de garra, determinação e amor à vida, impressionou e conquistou o carinho e a admiração dos seus médicos, enfermeiros, cuidadoras e de todos os profissionais de saúde que o ajudaram durante a sua jornada.

Todos esses Odacis são o motivo de nos reunirmos para expressar nossas eternas saudades. Hoje, o nosso Odaci de Lima Okada não possui mais forma, peso nem tamanho. Mas, o que ele foi está espalhado, vivo dentro de cada um de nós, em nossas boas lembranças.

Para finalizar, mais um trecho de Khalil Gibran:

"Adeus a vocês e à juventude que com vocês vivi.Ainda ontem nos conhecemos em sonho.

Vocês cantaram para mim em minha solidão, e com seus anseios construí uma torre no céu.

Agora, porém, nosso sono se foi e nosso sonho acabou, e já não é mais manhã.

O meio-dia chegou, e nosso breve despertar se tornou dia pleno, e devemos partir.

Se no crepúsculo da memória nos encontrarmos uma vez mais, falaremos juntos mais uma vez, e vocês cantarão uma canção mais profunda.

E se nossas mãos se encontrarem em mais um sonho, construiremos mais uma torre no céu."

Se estas são palavras obscuras, não tentem torná-las mais claras. Obscuro e nebuloso é o começo de todas as coisas, mas não o fim.

E quero que se lembrem de mim como um começo..."

 


sábado, agosto 01, 2020

CRÔNICA DE ANTEONTEM

O ACIDENTE 
Renato Mendonça

O pessoal retomava mais cedo do que de costume de outra Plataforma de Produção de Gás, localizada aqui no litoral do Rio Grande do Norte. Para ir até lá, só mesmo de barco. É como se fosse uma pequena ilhota de ferro no meio do oceano; também, como se fosse um sobradinho muito pequeno, composto só de quarto e sala. Os recursos de habitação são mínimos, apenas um minúsculo banheiro para as necessidades fisiológicas de evacuar, já que para fazer xixi ninguém usa. Como só têm homens trabalhando por lá, é mais fácil mijar direto no oceano Atlântico.

O pessoal vai de manhã, trabalha o dia todo e retoma à tarde, o mais tarde possível que as condições de mar permitem, normalmente às quatro da tarde. O transbordo matinal, a partir da Plataforma Central, onde ficamos albergados, é feito usando-se uma cesta — que comporta até quatro passageiros em pé —, que é içada pelo guindaste e depositada no convés de uma lancha. À tarde, no retorno dos trabalhadores, a operação é inversa, resgatando-os do barco.

Nessas plataformas pequenas, que fazem parte dos campos de Pescada e Arabaiana, esse transbordo é feito usando-se o "pulo do Tarzan", tanto para embarcar como para desembarcar. Explico: o barco aproxima-se ao máximo do atracadouro, o "peão" pega uma corda, cheia de nós, e se lança para alcançar seu objetivo. Nunca, nesses meses todos, ninguém soltou a corda. Parece até que Deus os conduz e dá força a esses destemidos peões. Vejo, com admiração, que gordos ou magros tem a mesma vocação para o pulo e nunca erram, como se uma força invisível os empurrasse.

A rotina deixa as pessoas experientes e confiantes. Tenho regozijo em ver que operários velhos, novos, carecas ou grisalhos adquirem o mesmo padrão depois de algum tempo. Quando sinto que alguém ainda não tem muita confiança, procuro elogiar depois de cada pulo. É uma forma singular de motivar e melhorar a carga psicológica para o próximo salto. É esse, talvez, o momento mais crítico e perigoso das atividades diárias.

Hoje, no retorno, com mar agitado, ao ser içado com a cesta, um dos quatro passageiros foi jogado contra a balaustrada — espécie de corrimão feito com tubo grosso, que cerca o barco — da lancha, bateu com as costas e caiu no piso do convés. Eu estava no alto, próximo ao guindaste que fazia o içamento e presenciei a cena; momentos antes, justamente o que se machucou acenou pra mim. Parecia um aviso.

Por um momento havia pensado em parar a manobra porque o mar estava bravo e a embarcação tinha um dos motores avariados. Mas, vacilei, e nesse segundo de hesitação o acidente aconteceu. O acidentado foi retirado pelo guindaste da outra plataforma, anexa à nossa, que opera como auxiliar de sondagem, usando a maca da enfermaria e levado, como emergência, de helicóptero até Guamaré e daí até Natal em ambulância da Petrobrás.

À noite, fiquei sabendo que nada de mais grave tinha lhe acontecido. Nenhuma fratura, apenas luxação. Josimar Rebouças — um velho soldador, aposentado, que retomou ao trabalho — passa bem.

Graças a Deus!

Alguns familiares já usaram este símbolo da Petrobras, outros ainda o carregam. Renato, meu irmão, foi o pioneiro, tendo trabalhado em plataformas no oceano, quando residiu em Natal (RN). Operou quando da implantação desses serviços, por óbvio, arrostando os riscos da profissão. Deles acaba de resgatar um fato acontecido em pleno oceano Atlântico, todavia, com final feliz. Como disse, o pequeno desastre ocorreu anteontem, em 4 dezembro de 1999.