CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, fevereiro 21, 2012

MEMÓRIAS DE MANAUS

Meu amigo Ed Lincon, conhecedor da história dos cinemas de Manaus, me enviou duas ilustrações: o Cine Palace (1965-73) e a primitiva igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Desconhecia essa habilidade do autor. Devo informar que a primeira reproduz uma foto de jornal, enquanto a segunda, é cópia de uma foto.

Cine Palace, av. Boulevar Alvaro Maia
A trajetória desse cinema já foi contada em recente publicação. Quanto a igreja dos Remédios, devo esclarecer que esta possuía sua frente para a atual rua dos Andradas, que como se sabe seguia para outra ribanceira.

Melhor explicação tem o saudoso padre Nonato Pinheiro, em Nótulas históricas da paróquia: a capela fazia fundos para a atual praça dos Remédios. No ano de 1870, graças ao zelo do padre José Manuel dos Santos Pereira, então vigário geral da Província e pároco da capital, auxiliado pelo presidente da Província, esta capela passou por notáveis melhoramentos, com sensível modificação da primitiva estrutura. 

A capela de 1870 (acima) e a atual igreja dos Remédios (abaixo)

Convém esclarecer que a igreja Matriz de Manaus sofreu um incêndio em 1850, restando unicamente a capela dos Remédios para o atendimento religioso. Dai, certamente, a dedicação do governo em restaurar esse templo.

Enfim, a igreja que hoje conhecemos, voltada para a praça, foi Dom Basílio Pereira, 4º bispo do Amazonas, que a inaugurou e benzeu solenemente, a 11 de setembro de 1927.  

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

MEMÓRIA AMAZONENSE

O segundo governador do Regime Militar – Danilo Duarte de Matos Areosa (1967-71) nomeou para dirigir o Depro (Departamento de Promoções), ao conhecido radialista e empresário Joaquim Marinho. Este órgão promovia o turismo no Amazonas, ou dava início ao movimento que a Zona Franca ajudou a expandir. Hoje, para dirigir esse importante segmento, temos uma secretaria de Estado.

Publicada em O Jornal, dezembro 1967
A foto de jornal mostra o governador Areosa, acompanhado de seu assessor, Marinho, além do gerente da então poderosa Varig, “dando comida” ao golfinho, em dezembro de 1967.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

POESIA... DE SEBASTIÃO NORÕES


Reportagem de A Crítica, 24 abril 1956
 Em abril de 1956, ocorreu o lançamento do primeiro livro deste poeta. Trata-se de Poesia frequentemente, que pode ser o primeiro livro gerado pelo Clube da Madrugada. Pode ser, porque outro poeta – Jorge Tufic, com seu Varanda de Pássaros, disputa esta primazia. Poesia... foi reeditada pela Editora Valer, na série Resgate, em 1996.

Apesar da contenda, aqui está o registro do feito de Norões, cujo evento aconteceu em 23 de abril, na Livraria Escolar, que existiu à rua Henrique Martins.

Norões nasceu em Humaitá (AM) em 1913, e realizou seus estudos secundários em Fortaleza (CE). Em Manaus, graduou-se pela Faculdade de Direito do Amazonas, na turma de 1936. Consagrou-se como professor de Geografia do Colegio Dom Bosco e Ginásio Amazonense Pedro II. Pertenceu a Academia Amazonense de Letras. Morreu em 1971.

Outro saudoso poeta, Farias de Carvalho, que esteve presente aquele acontecimento, escreveu a respeito uma efusiva crônica (abaixo), ressaltando a importância da obra inaugural do colega Sebastião Norões.

Primeira festa, uma grande lição

Farias de Carvalho

Pois é. Aconteceu no duro. Nem ceticismo. Nem indiferença. Maledicência. Má vontade criminosa. Nada empatou que o marco fosse plantado, como nada empatará que outros se plantem.
Farias de
Carvalho

O lançamento do livro do poeta Sebastião Norões foi uma festa magnífica. A primeira no gênero. Festa e lição. Festa para os que já a aguardavam ansiosamente. Lição para os céticos. Afirmativa de que no Amazonas já há uma nova consciência literária em formação, arrebanhando poetas e prosadores para mais perto da vida. Do homem. Seus problemas. Anseios. Lutas. Vitórias e esmagamentos. A prova é a poesia de Norões. Que é mesmo “frequentemente”. Poesia salpicada de vivencias e de mensagens. De caminhos. De “emoção recordada em tranquilidade”.

Nos seus sonetos e poemas, pujantes de vida e de realidades humanas, o poeta não se deixou ficar pendurado em nenhum balcão pegajoso de limo, com a guitarra a espelhar raios de lua. Simples, poeta de carne e osso como outro homem qualquer, falou de infância e de mar, de santuários e estatuetas, tudo com o gosto bom das colinas simples. Nada de trabalhos dourados. De ourivesaria. Que o povo, de pés descalços e barriga inchada só vê joia nas vitrines.

Poesia só. Frequentemente. Inteiramente. Poesia sabendo a si mesma. Banhando a todos. Os que creem. Combatem e esperam. Assistem cheios de revolta e horror a “Rosa se despetalando”. Sob os pés do mundo. Bárbaro. Material. Inconsciente e brutal.

Jornal do Comércio,
26 abril 1956
O livro do poeta Norões marcou uma fase na reintegração da Rosa. O início da recuperação total das correntes culturais do Amazonas. Agora, dentro da nova concepção e da nova era, o Brasil vai conhecer a verdadeira literatura da taba. Já se pode afirmar, depois de trinta anos de mentalidade reacionária, que as nossas letras ressuscitam. Voltam ao mundo. E o berço foi o livro do poeta.

Agora é cuidar da criança. Dar-lhe, para que sobreviva, o alimento que vem do cérebro e do coração dos homens que pensam um Amazonas novo. Integrado na clareza do momento. Na realidade do mundo em que vivemos. Carregado de paz e de amor. Pronto para a aparição que o resto do País reclama.

Vamos continuar o trabalho. E obrigado, Norões, pela primeira estaca.

Publicada no Jornal do Comércio, 26 abril 1956

domingo, fevereiro 12, 2012

CABO DE POLÍCIA

Estátua do cabo zuavo que sempre "protegeu"
 a PMAM contra a greve
A greve dos policiais nos estados da Bahia e Rio de Janeiro seguem acumulando debates. E a atividade espúria de associações de classe vai sendo esclarecida. Aquilo que no primeiro instante parecia um centro recreativo, ou foi criado para tal finalidade, vem se transformando em sindicato, e pior, copiando suas mazelas.

Conversando com interessados no assunto, houve quem me lembrasse do cabo Anselmo, que ludibriou a esquerda e, em seguida, as forças opressoras. Talvez ele tenha sido um produto da movimentação dos sargentos, que o presidente Goulart apoiou com veemência, em 1964.

Outro fato exemplar primevo: um comandante dos fuzileiros da Marinha que se passou para o lado dos amotinados e, creio, foi carregado em triunfo. Tal qual aconteceu com o general Gonçalves Dias, pateticamente transformado em liderança de baderneiros.

A presença de cabo na condução de greves, já deu eleição a um cabo da PM mineira. Agora, estão ai o cabo Daciolo e o ex-cabo Prisco botando “pra quebrar”... e incendiar. Com tanto desaforo, conseguem mesmo é abalar a disciplina e a hierarquia das corporações.

No Amazonas, em 1999, o então governador Amazonino Mendes aposentou coronéis “incompetentes”, e promoveu jovens oficiais. O fato produziu uma reviravolta na direção da corporação que, acredito, seja uma das causas de tantos desentendimentos que, na última década, conturba a força estadual.

Bem vemos o que acontece quando um membro da corporação, de baixa hierarquia, um cabo de polícia, conduz movimento reivindicatório. E ainda falando da Segurança no Amazonas, aqui há uma figura bem estilosa, trata-se do sargento Pereirinha, do clube dos sargentos.

Para encerrar a conversa sobre tão desagradável acontecimento, fui buscar uma crônica de Manoel Bessa (Jornal Velho: crônicas.Manaus: Nortgraf, 2001), na qual o autor “ilustra” a importância do cabo de polícia.

O sobrinho da rapariga
Manoel Bessa

Foi numa festa lá num pé de serra do Ceará. Quatro "cabras valentes" na porta, desarmando o "macharal" e barrando os "furões". Só entrava quem pagasse duzentos réis (réis mesmo, porque ainda não havia nem cruzeiro nem real). Foi quando apareceu um baixinho invocado e foi peitando a cabroeira. "Vou entrar e não pago, porque sou autoridade". E antes que houvesse uma reação, deu suas credenciais. "Sou sobrinho da rapariga do cabo do destacamento da polícia". Falou, e a porta foi logo se abrindo.
Manoel Bessa, 1958

Pode ser piada, mas revela a mentalidade de uma época. Quando eu exercia o cargo de juiz auditor militar na nossa PM [AM], certa vez comentávamos entre os oficias superiores alguns frequentes atos de arbítrio de nossos soldados. O coronel Pedro Câmara, com aquele seu humor inteligente, lembrou o dito de um seu amigo: "Se eu tivesse as amantes que minha esposa diz que tenho, o dinheiro que meu vizinho pensa que tenho e a autoridade que um soldado de polícia julga que tem, eu seria o dono do mundo".

Na verdade, a história de nossas PMs tem lances interessantes. Normalmente nasceram como verdadeiras milícias, macaqueando a estrutura de organização piramidal do exército, como forças públicas a serviço dos governos estaduais.

No sertão do Brasil, cada surra em político contrário ao Governo garantia uma promoção. Os oficias eram de "tarimba" e só tinham alguma formação quando vinham do Exército, para poder ocupar um posto superior. Depois surgiram as academias, cada vez melhor estruturadas, nada deixando a desejar em relação às academias do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Aqui no Amazonas, os primeiros "cadetes" apareceram com as reformas empreendidas na PM nos governos de Plínio Coelho [1955-59] e Gilberto Mestrinho [1959-63]. Hoje, quase todos estes já estão usufruindo sua justa aposentadoria, como coronéis. No período da Revolução de 64, se iniciou um processo de desvio na formação de nossos oficiais PMs que eram treinados mais para enfrentar uma possível guerrilha urbana (o que nunca ocorreu) do que para manter a ordem pública.

Isto pode ter contribuído um pouco para distorcer a visão de alguns, que passavam a olhar o "civil" sempre com desconfiança. Inclusive só um oficial da ativa do Exército podia ocupar o cargo de comandante-geral de uma corporação policial militar no País. (...)

Tenho certeza que nossos atuais oficiais, uma verdadeira elite, em razão do alto nível de suas academias, devem estar refletindo sobre isto. Nem o cabo (muito menos o sobrinho da rapariga do cabo), nem o coronel, estão lá para mandar e desmandar.

Têm hoje a grande responsabilidade de ajudar a reverter o clima de insegurança que infelizmente domina a sociedade civil. E para tanto necessitam flexibilizar seu excesso de militarismo, o que permitirá uma maior identificação com as comunidades, a cujo serviço se destinam.