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quinta-feira, outubro 27, 2022

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (6)

 Novo tópico sobre o período provincial da Polícia Militar do Amazonas, compartilhado do livro Guarda Policial (1837-1889). A partir desse tópico, elaboro uma retrospectiva cronológica.

Lugar da Barra do Rio Negro

1840 Anistia e deposição das armas

Mediante proposição das autoridades provinciais, o Governo Geral, em 4 de novembro de 1839, concede anistia aos cabanos. Em consequência desta medida foi possível encerrar o período tenebroso da Cabanagem. Em 25 de março, “No décimo nono ano da Independência e do Império”, um faustoso acontecimento realiza-se na vila de Luseia, hoje Maués, município do Amazonas, diante do major (de 3ª classe do Exército) José Coelho de Miranda Leão, ocasião em que os anistiados combatentes finalmente depuseram as armas.

Encerrada a refrega cabocla, Miranda Leão, oficial com mais de 37 anos de serviço “sem nota”, prosperou na condição de comerciante, tendo sido eleito o 1º presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), empossado em 18 de junho de 1871.


1848 Comando Geral Militar do Alto Amazonas

Em ofício de 10 de abril, o tenente-coronel EB Albino dos Santos Pereira comunica ao comandante das Armas da Província, coronel Francisco José Martins, sediado em Belém (PA), sua posse no Comando Geral Militar do Amazonas. Havia substituído ao coronel reformado João Henrique de Matos (empossado em janeiro de 1847).

Santos Pereira aproveita ainda essa comunicação para descrever, entre outras notícias recorrentes, os entraves burocráticos alcançados, motivos para o descumprimento de incumbência regulamentar. Ou seja, remeter os “mapas, inventários e relações” sobre o pessoal e material encontrados.

Determinado a esclarecer o equivocado registro de que aquele tenente-coronel teria sido o primeiro comandante da Guarda Policial do Amazonas e, desse modo, da Polícia Militar do Amazonas, reproduzo o mencionado documento, acatando a reforma ortográfica vigente.

 

Ao Comandante das Armas

Tendo chegado a esta Vila no dia 30 do mês pp., e tomado posse do Comando Geral Militar no dia 1º do corrente, em observância das ordens de V.S. expedidas em ofício de 19 de fevereiro pp., assim o participo a V. Sa. como me incumbe o meu dever, e igualmente cabe-me a honra de comunicar a V. Sa. que me não é ainda possível remeter os mapas, inventários e relações que demonstram o estado do pessoal e do material existente na Comarca, por isso que ainda não estou de posse do arquivo do Comando; entretanto, tenho feito alterações que o bem da disciplina e outras circunstâncias têm exigido, e de que darei conta à V. Sa. em tempo competente

Deus guarde a V. S.

Albino dos Santos Pereira, tenente-coronel

Comandante-Geral Militar da Comarca

terça-feira, outubro 25, 2022

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (5)

Quinto tópico sobre o período provincial da Polícia Militar do Amazonas, compartilhado do livro Guarda Policial (1837-1889). A partir deste tópico, elaboro uma retrospectiva cronológica.

1835 

Cabanagem

Em 7 de janeiro, irrompe na cidade de Belém do Pará uma revolta popular essencialmente cabocla (caboclo aqui não é apenas uma configuração étnica, mas, sobretudo, cultural, (...) Neste sentido, caboclo, que sem constituir uma parcela considerável da população local, integraria a classe dos “libertos”, ou seja, a parcela revolucionária por excelência no movimento da Cabanagem, esclarece Vicente Salles), reconhecida na historiografia nacional por Cabanagem (1835-40). A tomada da capital paraense pelos cabanos impõe de imediato a derrubada do governo, com os inconsequentes assassinatos de Bernardo Lobo de Souza, presidente da Província, e do tenente-coronel Joaquim José da Silva Santiago, comandante das Armas. Assume o primeiro governador cabano, Felix Antônio Clemente Malcher (antigo alferes da tropa de linha envolvido, desde o início, nas articulações políticas. ... De caráter sombrio e impetuoso era severo, chegando à perversidade. Irritável, espírito pouco cultivado e de atitudes dúbias, segundo Arthur Reis), governo que não prosperou, advindo desse fracasso e da impetuosa repressão imperial uma torrente de lutas e de mortes.

Selo comemorativo do sesquicentenário da
Cabanagem (1985)

Acerca deste período insurrecional, Reis assim o resume: “A Amazônia (...) ia experimentar ou padecer uma das mais sangrentas aventuras políticas que se registraram no processo de politização do Brasil.” O ex-governador do Amazonas explica a causa: “A insatisfação das multidões nativas que se julgavam esbulhadas nos seus direitos desde o momento da Independência, que não se sentiam felizes no atendimento de suas necessidades materiais mais imediatas”. O impulso das massas, contudo, não conseguiu prontamente reabilitar os espoliados, talvez em decorrência de tenaz e profunda repressão imposta pelas autoridades. Na prática, ocorreu forte despovoamento, além de uma desarticulação econômica da região amazônica.

É no fragor desta insana disputa que pode ter surgido a primitiva força militar amazonense com a denominação de Guarda Policial (GP), aliás, pouco mais de duas dezenas de Guardas espalharam-se pela nossa hinterlândia. Assim, pois, a GP foi gerada com a destinação guerreira de aniquilar os cabanos, contudo, seus resultados se perderam nos banzeiros da informalidade.

1836

Lugar da Barra

Na tarde de 6 de março, a Barra do Rio Negro, hoje Manaus, foi tomada por um destacamento cabano sob a direção de Francisco Bernardo de Sena. Nessa condição, o lugarejo permaneceu até 31 de agosto. Na Comarca, segundo Arthur Reis (1989), várias foram as iniciativas promovidas por autoridades sabidamente civis em defesa da legalidade: de juiz, como o interino João Inácio Rodrigues do Carmo, e até de sacerdotes. O destaque incondicional pertence a Ambrósio Pedro Aires, o bravo Bararoá, alcunhado dessa maneira “em razão do Termo onde vivia”, o qual, “na direção de 77 guardas nacionais”, defendeu Mariauá (hoje Barcelos).

Afastados no final de agosto, ainda houve em 13 de novembro, de parte dos cabanos, outra tentativa para sobrepujar a Barra. Os legalistas, todavia, rechaçam em definitivo os seguidores de Francisco Angelim e Antônio Vinagre.  

Vila da Barra do Rio Negro (c.1848)

 

Brigadeiro Soares d’Andréa

Assume em 9 de abril o governo da província do Grão-Pará e o Comando das Armas o general-brigadeiro Francisco José de Souza Soares d’Andréa, barão de Caçapava (1781 Portugal-1858 Brasil).  Servia na Armada Imperial brasileira, quando foi convocado para debelar tamanho infortúnio, ou seja, a conflagração dessa imensa província, a mesma região que constitui a Amazônia contemporânea. O governo imperial fornece ao comandante Soares d’Andréa uma esquadrilha de navios da Armada, adequada à navegação pela rede hidrográfica amazônica.

Fornece igualmente ao presidente para auxiliar nesta intrincada missão, oficiais de diversas patentes do Exército. Entre estes, segundo Luís Lobo em História Militar do Pará, os tenentes: José Soares d’Andrea, filho do brigadeiro, e Albino dos Santos Pereira, apontado equivocadamente como o primeiro comandante da Polícia Militar do Amazonas,

Fac-símile da assinatura de Soares d'Andrea

Com o intuito de pronto sufocar o movimento rebelde e dar execução ao anseio imperial, Soares d’Andrea despachou, em 5 de julho de 1837, sob o comando do tenente-coronel Joaquim José Luís de Souza, a Expedição Militar ao Amazonas. Souza, entretanto, optou por acantonar em Santarém, cidade do médio rio Amazonas, de onde operacionalizou o emprego da tropa e tudo empreendeu para obstaculizar o avanço dos cabanos. Quem conhece o espaço geográfico da Amazônia sabe bem que, diante dessa decisão, a tropa permaneceu bastante distanciada da Comarca rio-negrense.

O governo do brigadeiro estendeu-se até abril de 1839, ocasião em que transmitiu o cargo ao presidente Bernardo de Souza Franco, visconde do mesmo nome, que se bacharelou pela Faculdade de Direito de Olinda, em 1835. Acerca deste bacharel, o jurisconsulto Clovis Bevilaqua, em História da Faculdade do Recife, rememorando o centenário da Faculdade pernambucana, destaca: “Nasceu em Belém em 1805 e faleceu no Rio de Janeiro em 1875. Deputado, senador, presidente de províncias, conselheiro de Estado, foi alta influência liberal”.

terça-feira, março 19, 2013

ARTHUR REIS E A CABANAGEM

Arthur Reis, 1927

A revista Cabocla, que foi criada e dirigida pelo saudoso jornalista Genesino Braga, em sua edição de julho de 1936 publica uma resenha do livro “Traços cabanos”, elaborada pelo jovem Arthur Reis (1906-93). Convém lembrar que este amazonense já se consagrara ao publicar, cinco anos antes, sua primeira obra – História do Amazonas. O texto, abaixo.
 

Título da resenha na revista Cabocla, 1936
 
A história da historiografia amazônica já oferece, à galeria nacional, uma série de figuras interessantes, que não têm sido devidamente apreciadas. Vindo de Mauricio de Heriarte, Braun, passando por sobre os vultos memoráveis de Bettendorf, José de Moraes, Jacinto de Carvalho, jesuítas que nos deixaram a notícia pormenorizada das façanhas da ordem de Santo Inácio, passando por sobre Berredo, o injustiçado cronista dos “Anais do Maranhão”, indo a Baena, Accioly, Rodrigues Ferreira, Sampaio, Lobo d´Almada, Aguiar de Andrade, Leonardo Ferreira Peres, André Fernandes de Souza, José Maria Coelho, Almeida Souto, chegamos a José Verissimo, Arthur Viana, João Lucio de Azevedo, Rayol, Santa Rosa, Marajó, Bento Aranha, Teodoro Braga, Sant´Ana Nery, Torquato Tapajós, Bertino de Miranda, Manoel Barata, Aprígio Menezes, Vilhena Alves, Faria e Souza, Inácio Moura, Braga Ribeiro e Palma Muniz, além de outros menores, que trabalharam os materiais com que teremos amanhã o grande panorama da evolução regional no quadro geral da civilização brasileira.

Panorama, no fim de contas, que estava tardando e deve ser traçado por nós do vale para evitar que se continue a referir à síntese dos quatro séculos que o Brasil já viveu, sem a necessária justiça à nossa contribuição, que nada tem de inferior a das demais províncias humanas do país.
Acresce, porém, que há ainda uma série de fatos que não foram convenientemente estudados, reclamando, por isso mesmo, a pesquisa nos arquivos, fase de penetração, de divulgação de documentos. Para isso, o departamento paraense na espécie magnificamente aparelhado, com abundante e razoavelmente catalogado material.

O desembargador Jorge Hurley, que preside com amor, entusiasmo, alto descortino a Casa do Pará, o Instituto Histórico de Belém, avisado estudioso da amazonologia, escritor de louvados e proclamados merecimentos, fidalgo do pensamento, atitudes francas, certo de que sem o conhecimento dessas fontes preciosas, fundamentais, não era possível dizer a verdade histórica, bom heurista, severo, meteu ombros à tarefa beneditina e nos está revelando, minuciosamente um mundo de novidades. Altas novidades, que nos esclarecem, que nos orientam, que nos explicam certos momentos da caminhada amazônica.

Jorge Hurley lançou-se ao esmerilhamento da “Cabanagem”, nas suas origens, nos seus episódios, nas suas consequências. No Arquivo de Belém fez colheita magnifica, selecionada. Escreveu, então, uma trilogia interessantíssima, de que nos manda o primeiro tomo sob o título “Traços cabanos”. São quinze capítulos estampando episódios da Cabanagem, a começar no desembarque de Andréa, o caso da escuna Clio, as façanhas de Jacó Patacho, o “Lampeão glebário”, assuntos que ficam definitivamente esclarecidos.

Há, todavia, em “Traços cabanos” referências aos meus mirrados, paupérrimos ensaios regionais. No capítulo “Os cabanos no Amazonas”, a referência vale quase como uma contestação. É que, na “História do Amazonas”, afirmei a morte violenta de Bararoá, no Autaz, a 6 de agosto. Hurley, com o ofício nº 31, de 23 de outubro de 1838, de Andréa ao Secretário dos Negócios da Guerra, encerra as dúvidas a respeito do incidente, que tantos prejuízos imediatos trouxe à ordem geral na Comarca do Amazonas.

Bararoá, pela descrição do futuro barão de Caçapava, foi morto pelos cabanos já no (rio) Madeira. É, assim, um tópico sobre o qual não se pode mais dizer em contrário. Só esse tópico. Porque, em torno da figura de Ambrósio Aires, há ainda outras lacunas desafiando pesquisas. Geralmente apontado como degredado político nordestino, envolvido no movimento democrático, constitucionalista, de 1824, aqui estaria cumprindo penalidade.

Ora, na relação dos que se viram às voltas com a justiça impiedosa, sangrenta das comissões militares de Dom Pedro I, não consta o nome do nosso herói. Sabemos apenas de Alexandrino Magno Taveira Pau Brasil, José Ferreira de Azevedo, frei Alexandre da Purificação, três patriotas daquela jornada cívica que aqui vieram padecer a culpa de suas atitudes políticas. Só esses três nomes aparecem. A não ser que Bararoá, revolucionário, ao fracasso do movimento, como o boticário Vicente Alves da Silva, aqui tivesse vindo parar como fugitivo.

O fato é que já o encontramos, em 1832, contra as nossas aspirações autonomistas, inteiramente ao lado do Governo do Pará, o que não ocorreria com frei Alexandre, que se bateu por nossos anseios libertários. Encontramo-lo, mais, nesse instante, como autoridade legal, no rio Negro. Criminoso político no exercício de funções militares, naqueles momentos de tantas paixões? Teria sido dos anistiados em 1831?!
Uma figura singular, surpreendente, esse Ambrósio Aires, rixento, bravo, terror dos cabanos.
* * *

“Traços cabanos” não é absolutamente uma obra que apresente os vinte anos de intranquilidade que vivemos sob o Primeiro Império e as Regências, com unidade, exposição circunstanciada, ou visão sintética. Estamos diante de um livro de episódios, documentados, que era preciso vir à luz como o foram. Como, de certo, o de Jacó Patacho, “Lampeão glebário”, imortalizado nas páginas de “O Missionário”, de Inglês de Souza.

A história da Cabanagem, serena, das origens ao seu epílogo, tem de ser feita ouvindo-se a palavra dos que a movimentaram e encontramos espalhada no noticiário dos jornais da época, em Belém e na Corte, na panfletária que circulou em massa e foi uma característica muito curiosa do Primeiro Império e das Regências, apreciando-se essa documentação preciosa que agora nos vai sendo confiada.

Ainda há pouco tempo, a 13 de maio, não se fez em Belém e no Rio de Janeiro, a comemoração festiva do centenário do fim da Cabanagem! E não sabemos tão bem que a tomada de Belém não encerrou o ciclo sangrento, como muito acertadamente assinalou, apoiado no que já afirmei documentadamente, Basílio de Magalhães, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro?!

“Traços cabanos” é uma contribuição feliz, para o conhecimento de nossa formação político-social. Jorge Hurley nos deu ali um farto cabedal de minúcias importantes.

Mando-lhe, com estas linhas, as minhas felicitações.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

PMAM: RETROSPECTIVA (Parte III)

NA PROVÍNCIA

Quando se anuncia que a Policia Militar do Amazonas (Pmam) possui 175 anos, isso soa incongruente com a idade do próprio Estado que, gestado em1850, nasceu dois anos depois, em 1º de janeiro. Dai o questionamento: como é que aquela instituição é mais antiga, no jargão militar, que o próprio Estado? Os esclarecimentos que aqui se expõe têm em vista aclarar e fundamentar notável  longevidade.
1º PRESIDENTE
PROVÍNCIA
O Jornal, 24 outubro 1948
Tudo começou no combate à Cabanagem, como já consagrado, a rebelião cabocla sucedida em Belém do Pará, em 1835, que se estendeu pela província, a hoje reconhecida Amazônia, por cinco anos. Reabilitada a capital paraense pelo presidente Soares d´Andrea, os cabanos se espalharam pelos rios e afluentes amazônicos, alcançando a povoação de Manaus (então Lugar da Barra do Rio Negro) em 1836. A província do Pará já dispunha da sua Polícia Militar (fundada em 1820), porém seu efetivo não era bastante para prover a segurança do território coberto pela imensa floresta amazônica.
Igualmente é notório que as forças militares imperiais estavam à frente da repressão aos cabanos, tanto que foi enviada a Expedição ao Alto Amazonas, cuja tropa sequer saiu do hoje delimitado território paraense, instalando-se em Santarém (PA). Também, que esses militares não dispunham de efetivo para combater os rebeldes. 

Então, para suprir tantas deficiências, o presidente Andrea tomou uma coerente iniciativa: autoriza a criação de força paramilitar, sob a denominação de Guarda Policial (GP), em qualquer povoação, conhecida por lugar, vila, paróquia, freguesia e adjacências. Para melhor disciplinar tais forças e estabelecer a conduta contra os rebeldes, Andrea baixa, em 4 de abril de 1837, as Instruções Gerais.
Esse fato não passou despercebido pelas autoridades amazonenses empossadas em 1852, pois, como registra em seu Relatório o presidente provincial do Pará, Fausto Aguiar, havia sido criados “no novo território 16 guardas policiais”, em obediência às Instruções Gerais, mas sem indicar o local e a situação de cada uma delas. Bastante compreensível essa situação, pois o estabelecimento de quaisquer dessas GP ficou adstrito à capacidade de cada região.

Se houve algum domínio sobre o efetivo, ou a direção, ou o armamento, este controle se perdeu nos escaninhos do tempo ou se encontra em arquivos em Belém (PA). Que outros obstáculos poderiam ainda ter contribuído para esse “esquecimento”? Dois me parecem substanciais: 1) o analfabetismo, que reduzia a número berrante os capazes de escrever; 2) a escassez de população, que obrigava a que todos os homens válidos servissem à Guarda Policial.

Quando da instalação da província do Amazonas, a situação da Segurança não passa despercebida, com detalhe para a Guarda Policial. O presidente amazonense, Tenreiro Aranha, confere a veracidade da presença de Guardas. Validando o citado relatório paraense, confirma o número indicado, igualmente sem definir outras situações, senão de que pequenos serviços eram prestados pela Guarda Policial. Sequer se refere à capital, onde se encontrava a administração, portanto, fácil de ser controlada.

Uma passagem é definitiva: ambos os relatórios confirmam a criação de alguma Guarda Policial no território amazonense, em decorrência das Instruções Gerais. De qualquer que tenha existido, não se tem notícia da localização ou de outro dado concernente à atividade policial. Ao contrário, tem-se registro do desaparecimento. Em 1876, o reaparecimento desse serviço enseja o início da contagem do tempo para a instituição, tanto que, em 1926, comemora o meio centenário. O registro dessa efeméride encontra-se no Diário Oficial e vai, para melhor percepção do leitor, reproduzido na terceira parte deste trabalho. (SEGUE)

sexta-feira, abril 09, 2010

Memorial Amazonense

Abril, 9



1836 – Assume o comando das Armas e a presidência da Província do Pará, o general brigadeiro Francisco José de Souza Soares d’Andrea. Sua posse ocorre em meio a rebelião da Cabanagem, com a missão de restaurar a província paraense, da qual pertencia a Comarca do Rio Negro, hoje estado do Amazonas.


1872 – Nasce em Grünberg, cidade da atual Alemanha, Theodor Koch. Morre em 1924, na vila Vista Alegre situada no Rio Branco, ao participar de expedição ao Amazonas. Notabilizou-se pelas pesquisas e publicações sobre os índios amazônicos. A transladação dos restos mortais foi prejudicada pela Segunda Guerra Mundial. Somente acontece em1953, para o cemitério São Batista, de Manaus. Koch-Grünberg é patrono de Cadeira do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, ocupada por Rui Alberto Costa Lins.


1916 – Morre no Rio de Janeiro, o pintor Aurélio Figueiredo, que visitou Manaus, ao menos em duas oportunidades. É autor dos quadros Imperador Dom Pedro II e Princesa Isabel, de 1888, existentes no IGHA; A Libertação dos escravos, exposto na Biblioteca Pública, e o Banho de Ceci, do acervo da Pinacoteca do Estado.

Na foto, pormenor do quadro de Dom Pedro II


1953 – Fundação do Clube dos Oficiais da Policia Militar do Amazonas  (Copmam). Seu primeiro presidente foi o coronel da reserva Jonas Paes Barreto. Ainda permanece funcionando, em sede própria na avenida André Araujo - Aleixo.

2003 – Morre, em Manaus, Paulo Herban Maciel Jacob, desembargador aposentado. Graduado pela Faculdade de Direito do Amazonas, ingressa na magistratura e é empossado desembargador em 11 Nov. 1964. Foi presidente da Alta Corte no biênio 1982-1983, quando assumiu ocasionalmente o governo do Estado. Pertenceu a Academia Amazonense de Letras, onde ingressou em 1969. Publicou vários títulos: Muralha verde, 1964, o primeiro; Dos ditos passados nos acercados de Cassianã, 1969, detentor do prêmio nacional Walmap, Um pedaço de lua cheia caía na mata, 1989, entre outros. Seu corpo foi sepultado no cemitério São João.

sábado, março 13, 2010

POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS (IV)

• Anistia e deposição das armas

Acatando proposição de autoridade provincial, o Governo Imperial, em 4 de novembro de 1839, concede anistia aos cabanos. A conseqüência dessa medida é auspiciosa, pois, possibilita encerrar o período tenebroso da Cabanagem. Em 25 de março de 1840, “no décimo nono ano da Independência e do Império”, o faustoso acontecimento realiza-se na vila de Luzéia, hoje Maués (AM), diante do major (de 3ª classe) do Exército José Coelho de Miranda Leão. Os combatentes finalmente depuseram as armas. Mas, as guardas policiais instituídas para o combate aos cabanos permaneceram ativas.
Miranda Leão, contando 37 anos de serviço militar “sem nota”, prospera na Província na condição de comerciante. Torna-se o primeiro presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), empossado em 18 Jun. 1871. Assume ainda a Assembléia Provincial, Morre em Manaus, c.1889, deixando ilustres descendentes.

sexta-feira, março 05, 2010

POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS (I)


A história desta corporação, em parte, se confunde com a tradição da província do Amazonas. Criada como Guarda Policial, ela surge ao tempo da Cabanagem para combater os “cabanos”, surge, pois, com destinação guerreira. Curiosamente, já teve três datas de criação: a primeira – 3 de maio de 1876, quando de sua reorganização, que perdurou por quase um centenário; a segunda – 26 de março de 1936, que durou cinco anos; e, a terceira – 4 de abril de 1837, em vigor. O motivo dessa distorção se deve a três fatores: não há qualquer registro da presença da Polícia Militar, enquanto vinculada ao Grão Pará. Depois, em 1936, a comemoração lembrava a restauração da Força Policial, que fora extinta pela ditadura de Getúlio Vargas. Enfim, pesquisa realizada na década de setenta consolidou a atual efeméride.
Para delinear esses e outros episódios que cercam a existência da Polícia Militar do Amazonas (Pmam), vou apresentá-los em ordem cronológica, em ligeira descrição. Começo agora.

• Cabanagem (1835-1840)

Em 7 de Janeiro de 1835, irrompe em Belém do Pará a revolta popular essencialmente cabocla, conhecida na historiografia nacional por Cabanagem (1835-40). A tomada da capital paraense pelos seus seguidores – os cabanos, comina de imediato com a derrubada do governo, seguida do inconseqüente assassinato do Presidente da Província, Bernardo Lobo de Souza, e do comandante das Armas, tenente coronel Joaquim José da Silva Santiago. Com isso, Felix Antônio Clemente Malcher (“antigo alferes da tropa de linha envolvido, desde o início, nas articulações políticas”) inaugura o governo cabano. Governo infecundo, no entanto, que acarreta, desse fracasso e da impetuosa repressão imperial, uma torrente de lutas e de mortes.
O historiador Arthur Reis resume assim esse período insurrecional: “A Amazônia (...) ia experimentar ou padecer uma das mais sangrentas aventuras políticas que se registraram no processo de politização do Brasil.” E explica a causa: “A insatisfação das multidões nativas que se julgavam esbulhadas nos seus direitos desde o momento da Independência, que não se sentiam felizes no atendimento de suas necessidades materiais mais imediatas”.
O impulso das massas, contudo, não consegue carrear prontamente recursos para os espoliados, certamente pela tenaz e profunda coerção das autoridades imperiais. Na prática, com a cabanagem ocorre forte despovoamento e grave desarticulação econômica da região amazônica.
É, pois, no fragor dessa disputa insana que surge a força militar amazonense; gerada com a destinação guerreira de aniquilar os cabanos.

• Lugar da Barra do Rio Negro

Na tarde de 6 de Março de 1836, a vila da Barra do Rio Negro, hoje Manaus, é tomada por um destacamento cabano sob a direção de Francisco Bernardo de Sena. Nessa condição, a Barra permanece até 31 de Agosto. Ocasião em que, leciona Arthur Reis, várias são as iniciativas promovidas por autoridades civis, por deficiência de militares, em defesa da legalidade: juízes, como o interino João Ignacio Rodrigues do Carmo, e até sacerdotes; destaque incondicional para Ambrósio Pedro Aires, o bravo Bararoá, alcunhado desta maneira “em razão do termo onde vivia”, o qual, “na direção de 77 guardas nacionais”, defende Mariuá (hoje Barcelos).
Os cabanos novamente tentam sobrepujar a Barra, a 13 de Novembro. Mas os legalistas rechaçam em definitivo os seguidores de Francisco Angelim e Antônio Vinagre.