CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

19 de setembro de 2016

AMAZONAS: SUA HISTÓRIA (2)

O AMAZONAS É ASSIM - 2ª parte (*)

Quando Portugal, na primeira metade do século XVI, dividiu o Brasil em capitanias ou províncias desiguais, o Amazonas não foi incluído, e só depois de 1636 se estabeleceu na embocadura do imenso "mar de água doce" a Capitania de Joanes, hoje Ilha de Marajó.
Embarcações no porto de Manaus, 1970

Quem primeiro descobriu o Rio Amazonas foi o espanhol Vicente Yanez Pinzon, companheiro de Colombo, que explorou a costa no Norte do Brasil e reconheceu o estuário. Em 1519, Gonçalo Pizarro, irmão do conquistador do Peru, partiu do Pacífico em busca do Eldorado que, embora hoje no domínio da fantasia, empolgou a imaginação e credulidade da Europa por meio século.

Pizarro não foi longe, mas o seu lugar-tenente Orellana, traindo-o, quando a sua expedição estava nos maiores apuros, abandonou-o. Depois de ter descido o Amazonas, com alguns homens, e chegado ao Atlântico, Francisco Orellana seguiu para a Espanha, para onde levou maravilhosas lendas, grandemente exageradas como de costume. Entre elas contava-se a das mulheres guerreiras (também atribuída a Gonçalo Pizarro, que teve de explicar as causas do insucesso da sua expedição), de onde o grande rio tirou o seu nome – Amazonas, dado depois ao maior Estado do Brasil.

Um século depois, outro espanhol, Juan de Palácios, partindo de Quito, no Equador, chegou à confluência do Rio Napo com o Amazonas, continuou até a entrada do Rio Negro e foi morto pelos índios. Os companheiros que se salvaram conseguiram alcançar Belém, fortaleza fundada pelos portugueses no estuário.

Dirigida pelo capitão-geral Velho de Carvalho, partiu de Belém, rio acima, uma expedição em 1637 que, depois de um ano de quase incríveis aventuras, chegou a Quito, em 1638. Espanha e Portugal estavam então sob uma só coroa, e os pioneiros foram entusiasticamente recebidos. Esta foi a primeira expedição bem sucedida na travessia do continente, nesta latitude, de leste para oeste, e a sua ousadia e sucesso estão no mesmo nível do colossal trabalho dos brasileiros, na última metade do século XIX, no Amazonas.

Voltando a Belém, em 1639, Pedro Teixeira, chefe da expedição, levantou um marco na foz do Rio Napo, como sinal da ocupação do país pelos portugueses – fato que, devido à separação entre Portugal e Espanha, no ano seguinte, foi um dos principais argumentos aduzidos por Portugal para provar o seu direito a toda bacia do Amazonas até aquele ponto.

Em 1625, os holandeses estabeleceram uma feitoria no [rio] Xingu, um dos afluentes do [rio] Amazonas, mas foram, com outros aventureiros, gradativamente expulsos pelos portugueses, que conseguiram alcançar o completo domínio do rio, cuja livre navegação fecharam aos estrangeiros. Só depois de 1867 o Amazonas foi de novo franqueado ao mundo.

Até 1822, quando o Brasil se fez independente como Império, o território, agora conhecido por Amazonas, fazia parte da Capitania do Pará, com uma sub-capitania em São José do Rio Negro, estabelecida em 1755. O primeiro governador, Joaquim de Melo Póvoas, fez de Barcelos o seu quartel-general, no vale do Rio Negro, acima da cidade de Manaus, sendo Barcelos uma das muitas povoações fundadas pelos jesuítas nessa região.
O terceiro governador, Manoel da Gama Lobo [d’Almada], transferiu a sede do governo para a Barra do Rio Negro, hoje Manaus – capital do Estado do Amazonas –, então uma simples vila missionária.
Depois da Independência, em 1822, os habitantes de Rio Negro bateram-se pela sua autonomia e estabeleceram um governo provisório; mas, tendo sido subjugados, foi Rio Negro de novo incorporada, em 1832, como comarca da Província do Pará. 
Contudo, continuaram a protestar e, em 1850, conseguiram uma lei que separava da Província do Pará a Comarca de Rio Negro, elevando-a à categoria de Província sob a denominação de Amazonas, em 1° de janeiro de 1852. A vila da Barra do Rio Negro, elevada a cidade, que por uma vizinha tribo de índios foi de novo batizada com o nome de Manaus, ficou sendo a sede governo.
Até 1853, a navegação do Amazonas era feita por batelões, que levavam muitas semanas a chegar ao Rio Negro, tendo o governo central sistematicamente proibido a navegação a vapor naquele rio. Contudo, em 1852, o Visconde de Mauá, o mesmo homem que dirigira a construção da primeira estrada de ferro no Brasil, obteve um monopólio de navegação no Amazonas, e nesse mesmo ano foi organizada a Companhia de Comércio e Navegação, com o capital de 4.000 contos de réis.
Vinte anos mais tarde, depois de ser franqueada ao mundo a navegação no Amazonas (1872), essa Companhia se transformou na Companhia de Navegação a Vapor do Amazonas, pertencente aos ingleses, que tão bons serviços prestaram no desenvolvimento da região.

Depois passou ela para o domínio do governo brasileiro com o nome de Serviços de Navegação da Amazônia e Administração dos Portos do Pará (SNAPP), mais tarde, já no governo da Revolução de 31 de março de 1964, transformada apenas em Empresa de Navegação da Amazônia Sociedade Anônima (Enasa).

De 1872 em diante o progresso passou a ser rápido e, por volta de 1874, começou a linha subsidiada de vapores entre Liverpool e Manaus, outra para os Estados Unidos e ainda outra para o Rio de Janeiro e portos de escala, em 1884.
Então Palácio Rodoviário, 1970

Em 1889, com a proclamação da República, a Província tornou-se o autônomo Estado do Amazonas, dirigido por um governador e uma Constituição própria. 
Vale recordar o barão Sant'Anna Nery, na sua maravilhosa obra A Terra do Amazonas: — "A causa e efeito do desenvolvimento do comércio no Estado do Amazonas é a facilidade do transporte. Em 1872 entraram 51 vapores; em 1906, o número atingiu 1.248".
A franquia do colossal rio foi o ponto de partida do progresso do Amazonas, aumentado pela sua subsequente independência do Pará.
(*) Extraído do Almanaque Municipal Brasileiro, ref. ao Amazonas, 1970