CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de junho de 2015

GUERRA DO PARAGUAI (1865-70)

A Guerra do Paraguai segue promovendo debates. Ainda nesta semana, pode-se ler na revista Veja artigo sobre o assunto, onde o autor destaca a Batalha do Riachuelo, vencida pelo Brasil há 150 anos, em 11 de junho de 1865.
Distintivo de Voluntário
da Pátria

Escreve o articulista: “Nas salas de aula brasileiras, a Guerra do Paraguai é frequentemente retratada como uma injusta ação militar contra um país pacifico, patrocinada por interesses imperialistas ingleses. Essa versão não tem nenhuma base histórica”.

Entretanto, como tudo isso começou. Basta lermos abaixo a versão esposada por um contemporâneo daquele desastre sul-americano. Quando os minguados sobreviventes dos “voluntários” do Amazonas aqui desembarcaram, receberam justas homenagens. Parte dessas, estão descritas no Archivo do Amazonas (Ano I, vol. I, nº 4, de 23.abr.1907).

Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, filho do fundador da província do Amazonas, autor do trabalho abaixo, denomina aos voluntários de heróis, afinal estavam retornando do conflito. Tantas décadas depois, após estudos e estudos sobre a conflagração, autorizam a mudança no tratamento dos voluntários.
Ainda no texto, parece-me que o autor trocou o parentesco dos Nery citados. Marcelino era o pai de Silvério (major, que frequentou o campo de batalha, onde foi ferido na perna), que foi pai de Silvério (governador) e Constantino, entre outros.

DATA MEMORÁVEL

Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha

A 25 de julho de 1870 de volta do Paraguai, depois da terminação da guerra declarada de surpresa, a mais afrontosa ao Brasil, pelo tirano Solano Lopez, ferindo-nos na honra nacional, desembarcaram no porto de Manaus 55 bravos amazonenses, glorioso resto da grande falange de voluntários da pátria, que partiram do Amazonas para desagravar a Nação ultrajada tendo por divisa: vencer ou morrer!

O comandante deste punhado de heróis, que seria Benjamin ou Luiz Antony, se não morressem ambos no campo da honra, defendendo com as armas na mão briosa e denodadamente a sacrossanta causa da pátria, foi o valente e brioso capitão do exército Marcelino José Nery, natural do Pará, filho do não menos valente e brioso major Silvério José Nery e irmão do muito ilustre tenente-coronel do estado-maior de 1ª classe do exército, governador deste Estado, Dr. Antonio Constantino Nery.

Desembarcando na cidade de Belém este mesmo contingente de voluntários da pátria a 15 de julho do mesmo ano, o Diário do Gram Pará, na sua edição de 16, escreveu a seu respeito o seguinte: “Aquartelaram ontem no quartel de artilharia 55 voluntários amazonenses, as preciosas relíquias das legiões com que contribuiu o Amazonas para a desafronta da honra nacional ultrajada por Solano Lopez, e para a grande obra da redenção do povo paraguaio; vão para Manaus no vapor Belém”.
A sua chegada nesta capital foi rejubilosamente festejada pelo povo e pelo governo.
O presidente da Província, general Miranda Reis, o presidente do município, Dr. Canavarro, o vigário-geral, Pe. Dr. Santos Pereira, a imprensa representada pelo tipÓgrafo e escritor Cunha Mendes, grande número de cidadãos, e a Sociedade Ateneu das Artes, donde nascera a Emancipadora do Amazonas, representada por mim, como seu fundador, cheios do mais vivo entusiasmo, com alocuções análogas  manifestamos a gratidão da pátria a esses beneméritos amazonenses e o “jubilo, como disse o Comércio do Amazonas, na sua edição de 28, de que se achavam possuídos  por verem restituídos aos seus penates esses poucos que restavam da grande legião de romeiros da liberdade com que concorreu a província do Amazonas para debelar a ignorância, o fanatismo e a escravidão em que jazia mergulhado o desditoso, hoje feliz, povo do Paraguai.

O discurso do representante do Ateneu das Artes, sendo proferido na porta da igreja, em frente dos voluntários, sem os vivas ao imperador, ao conde d’Eu, ao presidente da Província, que substituíram por conta e risco do Comércio do Amazonas, os levantados à Nação Brasileira, à República e à Soberania do povo, resultou ao orador a intimação ali mesmo, de prisão por ordem do presidente, que uma hora depois ficara sem efeito.

No mesmo dia 25, também tinha sido intimado da sentença que o condenara no processo de responsabilidade de imprensa, que lhe movera Clementino José Pereira Guimarães, achando-se este na administração do Amazonas na qualidade de vice-presidente.

O discurso, “que em nome do Ateneu das Artes proferiu, como noticia o Comércio do Amazonas, o ilustrado senhor Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, na porta da igreja de Nossa Senhora dos Remédios, em frente dos voluntários da pátria”, foi o seguinte:

Amazonenses que, da mais arriscada quão gloriosa cruzada, voltais cobertos de glória ao seio dos vossos penates; distinto e brioso paraense que ao vosso nome juntais o honroso título de artista, que vos confere a arte de Gutemberg, a quem foi dada a honra de comandar a tão denodados patriotas ao fim desta cruzada da liberdade, para onde cada cidadão se fizera um soldado, cada soldado um bravo, cada bravo um mártir à santa causa da pátria; recebam nas poucas palavras que neste momento vos ditam meu coração, em nome do Ateneu das Artes, dessa instituição popular, cuja divisa é a instrução e  a caridade, um voto do mais cordial e mais sincero reconhecimento, que vos tributa pelo heroísmo com que sempre vos prestastes nos combates em prol da liberdade, do direito, da justiça e da lei.Brasileiros, a vossa santa abnegação pelo amor da pátria só nos espartanos, nos valorosos companheiros de Leonidas no desfiladeiro de Termópilas, poderá achar exemplo.
A vossa abnegação pela pátria vos fez esquecer não só a família, como vos conduziu a que em holocausto oferecêsseis vosso precioso sangue à sua sagrada causa, contanto que se levasse de vencida à ponta de baionetas ou a fogo de fuzis e de bombardas a sanha do despotismo, que do divino rosto da liberdade havia apagado a luz para um povo inteiro, já que outros meios mais humanos, mais razoáveis, foram completamente baldados!
Fostes daqui em avultado número e apenas regressais poucos, mas bravos, para melhor atestardes às vindouras o heroísmo daqueles cuja glória permanecerá para sempre gravada na história, a fim de memorar valorosos feitos com que souberam eles proceder nos mais renhidos combates contra inimigos denodados, e nos quais tinham a mais gloriosa morte em sacrifício da vitória que para a pátria alcançavam.
Cruzados da liberdade, a pátria agradecida vos tece mil louvores como prova da mais inequívoca gratidão, e vos estende os braços para neles vos receber, qual mãe estremecida à idolatrados filhos, que, cegos pelos seus extremos, e o mais ardente amor, não trepidaram um só momento em ir afrontar perigos eminentes para defendê-la de um ultraje!
Diante do extermínio que a tudo parecia destruir qual seria a mãe que não se suporia órfã de seus caros filhos?!A vossa dedicação pela pátria vos tornou merecedores de honroso acolhimento que ela voz faz nesse momento.
Voluntários da pátria, a vossa missão está terminada, repetem milhões de bocas desde aqueles longes do Prata até as nossas recônditas florestas do Amazonas; mas o patriotismo e a religiosa devoção que observais pelas liberdades, de certo que bradarão mais alto, que essas bocas: ainda não!E não. A pátria ainda clama pelos auxílio de seus filhos, e, a vós, mais do que qualquer outro, porque já sabeis como se leva a liberdade a inóspitas e estrangeiras gentes, incumbe atender-lhe as queixas, para que nós então guiados pelo vosso desapego à vida em prol da sua causa vos possamos imitar.Assim como de vós exigiu ela, que levásseis a liberdade a um povo escravizado e fanático pelo despotismo, e fostes pronto em aceitardes o honroso mandato, com mais razão hoje suplica-vos alcanceis a de filhos seus, vossos irmãos, que gemem sob o jugo da mais negra e mais aviltante escravidão!
Escravidão! Triste condição a que chega o homem: o escravo não tem direitos a alegar, desde que não é mais senhor de si, não tem vontade, e é obrigado a sempre obedecer, sofrer calado, trabalhar e viver sem honra! E quantos brasileiros não vivem reduzidos a semelhante estado de degradação e envergonhados ocultam o nome de sua nacionalidade.
Cidadãos, cruzados da liberdade, vós jamais podeis sentir em vossos ouvidos o ecoar das queixas de tantos infelizes nossos irmãos, do vosso grêmio com desprezo sob o bárbaro e desumano jugo da escravidão.
A vós, pois, voluntários do Amazonas, ainda resta o sagrado dever de tomardes a iniciativa da emancipação desses nossos irmãos, que trazem estampados na fronte o estigma da escravidão, e a nós o de seguir o vosso exemplo.Viva a Nação BrasileiraViva a RepúblicaViva o bravo general CâmaraViva o Exército e a Armada brasileiraViva os voluntários do AmazonasViva o brigadeiro OsórioViva a soberania do Povo.


Quando publicou este discurso, o jornal Comércio do Amazonas mudou três desses vivas: o de Nação, para Sua majestade o Imperador; o de República, para S. A. o Conde d’Eu; e do Povo, para Exmo. Sr. Presidente da Província.