CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

6 de junho de 2015

GREVE - POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS

Coronel Lustosa
Em 1988, em acelerada redemocratização, correu boatos de que a Polícia Militar faria greve. Seu comandante-geral, coronel Pedro Rodrigues Lustosa, oficial destacado pela firmeza na condução da tropa, mandou reproduzir em Boletim da corporação o Editorial abaixo.
A corporação acaba de enfrentar esse problema. Não sabemos como foi contornado, mas a sociedade deve ter confiado mais naquele comando.

BOATOS DE GREVE POLICIAL MILITAR (*)

Com algumas insistência vem sendo noticiada na imprensa de que estaria em processo de gestação uma greve no sistema policial do Amazonas, ora atingindo praças da Polícia Militar do Estado, insatisfeitas com o último reajustamento salarial, ora policiais civis como protesto contra mudanças que seriam executadas na Seseg, visando melhor operacionalidade do aparelho policial. Se o povo brasileiro já não estivesse farto de tantas greves, umas reivindicatórias, outras meramente políticas, tingindo os mais diversos setores da vida nacional; até o Poder Judiciário, o noticiário de greve no sistema policial amazonense poderia francamente ser posto de lado.

Mas o fato de que estaria em curso uma greve na Polícia Militar do Estado merece uma apreciação pelo absurdo, pelo mais alto grau de insubordinação que constituiria um movimento grevista de policiais militares fardados e armados.



A Polícia Militar do Estado é uma corporação de muitas e gloriosas tradições de brio, coragem e honradez. Alcançou, nos dias atuais, elevado grau de profissionalização em matéria de segurança pública e aparelhamento material. Se em sua história há lances de bravura, de heroísmo e desprendimento, nunca houve, o fastígio dos dias atuais. Nem em tempo algum seus integrantes, cumprindo os deveres a qualquer custo, auferiram os vencimentos e vantagens que hoje desfrutam, pagos rigorosamente em dias. Em várias oportunidades, ao longo de sua história, a Polícia Militar do Amazonas partilhou das dificuldades do funcionalismo estadual com vencimentos atrasados, sem que deixasse de cumprir o seu dever, sem exemplos de rebeldia.
Bandeiras em uso na PMAM

Não seria agora, quando tem no seu comando um dos mais ilustres oficiais, o coronel Pedro Lustosa, formado no calor das próprias aspirações da nova Polícia Militar, que alguns de seus elementos iriam rebelar-se contra o Poder Constituído do Estado, num triste exemplo de indisciplina e total desconhecimento do dever que tem todo policial militar. Uma Corporação armada que rege por regulamentos militares desconhece o intuito da greve, um recurso eminentemente civil dos trabalhadores assalariados. Os que portam armas para defesa dos cidadãos e da ordem, das instituições ameaçadas; e que tem um compromisso de cumprir o dever mesmo com sacrifício da própria vida, podem chegar às quarteladas, à revolta militar, crimes que estão previstos no Código Penal Militar. O policial-militar, nos últimos quinze anos, conquistou até foro especial nos crimes resultantes da missão policial.

Diante da posição destacada que ocupa a Polícia Militar na segurança pública do Estado, pela noção de dever e zelo com que vem sendo comandada pelo coronel Pedro Lustosa, podemos tranquilizar a sociedade amazonense como destituídos de fundamentos os boatos de qualquer manifestação grevista por parte de nossos policiais-militares. Numa corporação de mais de 5.000 homens é normal que haja algum descontentamento, até por questões disciplinares, uma vez que o homem é a medida de todas as coisas, como disse um filósofo grego. Mas não ao ponto de gerar discórdias, desobediências, omissões no cumprimento do dever policial militar, com a subversão dos princípios hierárquicos que sustentam a Corporação. Seria o cúmulo do absurdo para a sociedade que paga a remuneração da Polícia Militar para ter proteção e segurança verificar a corporação de braços cruzados, fugindo ao seu dever. 

(*) Transcrição de Editorial – Seção Opinião – Jornal do Comércio, 8.jan.1988