CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quinta-feira, dezembro 03, 2015

ARISTÓTELES ALENCAR

Semana passada, em busca de dados sobre as primeiras turmas do NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais do Exército) em Manaus, deparei com o nome do aluno Aristóteles Conte de Alencar. Pertenceu a segunda turma, cuja formatura ocorreu em 25 de agosto de 1945.
Também encontrei seu nome entre os bacharéis da FDA, turma de 1943. Portanto, quanto ingressou no NPOR estava recentemente graduado em Direito.
Sei mais que seu filho - Aristóteles - é medico cardiologista, pertencente aos quadros da Polícia Militar do Estado. E que montou seu consultório no imóvel onde residiu seu genitor, cuja referência encontra-se na calçada, no Largo de São Sebastião (foto).
O texto abaixo, sacado do Jornal do Commercio (29 fevereiro 1972), conta um pouco mais do saudoso professor Aristóteles Conte de Alencar.


Educadores de ontem e de hoje
Aristóteles Conte de Alencar, o nome focalizado hoje – A sua vida como professor

Filho do falecido professor João Luiz de Alencar e de Dona Raimunda Ferreira de Alencar, Aristóteles Conte de Alencar fez seus primeiros estudos em sua própria terra natal: Amazonas. Porém, no decorrer de 1926, em Sergipe, onde esteve, em companhia de sua família em visita aos seus avós paternos, estudou no Colégio Tobias Barreto, de Aracajú, e, posteriormente, em São Cristovão, antiga sede do próspero e culto Estado sergipano, cursou o Grupo Escolar Vigário Barroso, no qual fez a segunda série, em curso de nível primário. 
Ao regressar a Manaus, matriculou-se no então Grupo Escolar Presidente Arthur Bernardes, hoje com a denominação de Euclides da Cunha [bairro da Cachoeirinha], onde completou definitivamente o curso primário.
Então ingressou no antigo Ginásio Amazonense Pedro II, que nos dias atuais tomou o nome de Colégio Estadual do Amazonas, onde fez todo o curso secundário. Em curso superior, o professor Conte de Alencar estudou inicialmente na Faculdade de Direito de Niterói, mas, em virtude de seu antecipado regresso ao nosso Estado, à maneira do que tinha acontecido anos atrás, o Prof. Aristóteles teve que transferir-se para a nossa tradicional Faculdade de Direito do Amazonas, onde recebeu o grau de Bacharel em Direito, no ano de 1943. 
Aristóteles Conte de Alencar iniciou-se no magistério em 1936, no Colégio Cardeal Leme, do Rio de Janeiro, quando de um convite feito pelo então lente de Português e Francês do referido colégio, Prof. Edmundo Fernandes Levy. Para o então neófito professor Aristóteles Alencar, era o seu “batismo de fogo” no professorado, mister tão honrado, mas nem por isso sempre afortunado.
E dessa feita o Prof. Alencar mostrou valor, competência, desprendimento, saindo-se com galhardia dessa dura prova. A Escola Técnica de Comércio Solon de Lucena foi um dos primeiros educandários em que o professor Conte de Alencar emprestou seus serviços como preceptor. Nesta escola ocupa as catedral de Matemática Comercial, Matemática Financeira e Elementos de Estatística. 
Ingressou no Instituto de Educação do Amazonas, ainda na profícua administração de Leopoldo Amorim da Silva Neves, por convite do saudoso mestre Abílio de Barros Alencar para substituí-lo no IEA, e até hoje continua como guieiro de gerações e gerações que passam pelos bancos escolares do estabelecimento de ensino do Alto da Avenida.
Atualmente o Prof. Aristóteles Conte de Alencar leciona ainda nos seguintes educandários: Escola Normal Rural Benjamin Constant; Escola de Comércio Dom Bosco; Escola Técnica de Comércio Brasileira, além de ensinar, particularmente, em sua residência, Matemática e Estatística.
Depois de colhermos boa parte da vida escolar e vida no magistério do professor Aristóteles Conte de Alencar, inquirimos o mestre sobre diversos pontos da educação e da instrução em nossos dias, ainda assim com a adoção dos modernos métodos pedagógicos. A respeito do assunto em tela o professor Conte de Alencar assim se expressou: “A adoção, no Brasil, dos modernos métodos pedagógicos, como consequência do atual desenvolvimento de sua civilização, sob todos os aspectos, vem apresentando dia a dia reais progressos em nosso campo educacional. O governo brasileiro, por sua vez, vem encarando esse relevante problema com demonstrado interesse, procurando adaptá-lo à realidade de nossa complexa formação social”. 
Diz mais adiante o professor Alencar: “Havia, de fato, uma necessidade inadiável para a modificação, pelo menos do nosso sistema pedagógico, até então modelado pelos tradicionais métodos de ensino, os quais, sob vários aspectos, não mais consultavam ou obedeciam aos ditames do imperativo do momento presente. A tendência, portanto, era a busca para a tentativa de um outro sistema de ensino, mais apropriado ao nosso ambiente sociológico. Surgiram, então, os tão discutidos métodos pedagógicos, ditando novos princípios e novas leis, tudo estabelecido através de experiências concretas”. (...) 
Nesse ponto — palavras do repórter — estamos de pleno acordo com o mestre, posto que o professor e o método se identificam e quase nunca se desassociam, surgindo daí as correlações entre esses dois fatores de importância vital e de predominâncias acentuadas no ensino. São dois pontos básicos, inseparáveis, e, se assim não fosse, tornar-se-iam (ambos: o preceptor e o método) improdutivos, ineficazes, contraproducentes.
Conclui o ilustre mestre: “Dentro de meu ponto de vista situo-me entre aqueles que julgam perfeitamente que todo professor deve achar o seu próprio método, inteiramente pessoal e original, mas, uma vez adquiridos os seus princípios gerais, cabe a cada um descobrir as modalidades daquele que melhor convenha ao seu temperamento e esteja de acordo com a sua personalidade, contando que a sua vocação pedagógica possa ser realizada da melhor maneira possível. 
Em nossos dias, os problemas da educação, na maior parte, dos países, tornaram-se, de certa maneira, similares; as soluções apenas são influenciadas pela diferença de tradição e de cultura peculiares a cada um” 
.
Chegamos por fim, ao termo dessa rápida biografia do professor Aristóteles Conte de Alencar, um mestre que de fato merece o mais alto galardão como preceptor de muitas gerações de jovens, no seio dos quais encontra amiúde a gratidão, como um tributo aos seus imensos esforços em favor do ensino e da instrução no Brasil.



quarta-feira, dezembro 02, 2015

PARTIDO COMUNISTA & TEATRO AMAZONAS

Nosso Teatro Amazonas já serviu para tantos usos, para tantas solenidades e tantos festejos (alguns despropositados). Há 70 anos, o Partido Comunista do Brasil efetuou sua instalação, em Manaus, no palco dessa casa de espetáculos.
O fato deve ter causado certo frisson na sociedade local, como se pode inferir do texto abaixo, colhido em periódico de então.(*) Essa articulação dos comunistas talvez tenha levado a Igreja a se prevenir, instalando a Liga Eleitoral Católica (veja post anterior).


Recorte de O Jornal

Instala-se hoje, às 20 horas, no Teatro Amazonas,
o comité estadual do Partido Comunista do Brasil
O significado original da cerimônia – Reivindicações de vanguarda do Partido

Realiza-se hoje, às 20 horas, no Teatro Amazonas, a instalação oficial do Comité Estadual do Partido Comunista do Brasil, no Estado do Amazonas. Já tivemos oportunidade de registar o crescimento dessa organização como força política, que não pode mais ser ignorada por propósitos deliberados de relutância reacionária. 
O JORNAL é, antes e acima tudo, um veículo da realidade, um espelho fiel dos acontecimentos locais, com um programa resoluto de criar a sua tradição de honestidade jornalística, básica para a vitalidade da sua empresa. Quando noticia surto de crescimento de qualquer facção, seja ela qual for, tenha a cor que tiver, O JORNAL não procede se não fundamentado no seu princípio de repor os fatos nos seus devidos lugares e trabalhar no sentido de conquistar a confiança do público. 
Foi dentro dessa norma que noticiou, ontem, a instalação do Partido Comunista, prevendo para essa cerimônia um êxito além de toda a expectativa. Trata-se, de fato, de um acontecimento singular. Como toda gente sabe, o Partido Comunista concentra em seus quadros, preferentemente, as camadas do proletariado, pessoas simples e humildes dos bairros, que nunca entraram em casa de espetáculos como o Teatro Amazonas. 
Essa circunstância imprime à instalação do PC em aspecto de revolução democrática-burguesa digna de ser assistida. É um fato histórico, impressivo para as nossas memórias, eloquente de colorido, robusto na sua expressividade popular, que concorrerá, sem dúvida, para atrair o público, já amadurecido na compreensão daquilo que se impõe pela sua força de originalidade. 
Segundo estamos informados, os oradores do Partido Comunista ventilarão as necessidades mais imediatas e mais sentidas da nossa terra, as reivindicações amazonenses em limites objetivos, sob o critério justo da sua praticabilidade.
 (*) O Jornal, 15 de setembro de 1945

LIGA ELEITORAL CATÓLICA

Ao final da II Guerra, a movimentação política no Brasil agitava-se gravemente. Esse movimento, como sabemos, impulsionou a deposição do ditador Getúlio Vargas.
Dom João da Mata

A Igreja católica engajou-se na conjuntura e decidiu colaborar com a reorganização do país. Para isso, criou em nível nacional a Liga Eleitoral Católica (LEC), destinada a orientar os eleitores. Nada de candidatos da instituição, apesar de fervorosos e distinguidos católicos. Tanto aqui (os irmãos Ruy e André Araújo, para não entediar a relação) quanto pelo país, veja que a direção nacional cabia a Alceu Amoroso Lima.

Dom João da Mata, então bispo do Amazonas, reuniu sua grei e acatou a orientação da LEC brasileira. O resultado das providências do metropolita foi extraído de O Jornal, edição de 5 de agosto de 1945.

Liga Eleitoral Católica

Recorte do periódico

Às 17 horas de ontem, em sessão solene, no Salão de Atos do Colégio D. Bosco, em meio ao mais vibrante entusiasmo da numerosa assistência, foi oficialmente instalada entre nós a Liga Eleitoral Católica. 
Presentes membros do clero secular e regular, delegações da Ação Católica e de todas as associações religiosas da capital, fez o Sr. Bispo Diocesano leitura do seguinte telegrama, recebido do Rio:
Autorizados Exmo. Metropolita comunicamos vossencia instalação ontem LEC pt Gravidade momento vg responsabilidades católicos urgem trabalho intensivo alistamento orientação consciência eleitores pt Aguardamos indicação nomes constituição Juntas Regionais outras sedes episcopais Estado pt Respeitosos saudações (a) Hildebrando Acioli presidente vg Alceu Amoroso Lima secretário-geral pt" 
Obedecendo àquelas diretrizes indicara para ali os nomes dos membros da Junta Estadual: Presidente – Dr. Jatir Pucú de Aguiar, Secretário – Prof. Fuet Paulo Mourão, Tesoureiro – Sr. Antonio de Meneses Cunha. 
Recebeu o Dr. Jatir Pucú de Aguiar o seguinte telegrama que o credencia presidente da LEC e aprova os demais membros da Junta:Confirmamos nomeação pessoas indicadas autoridade episcopal Junta Estadual necessário intensificar alistamento inscrever LEC já alistados pedimos endereço essa Junta pt (a) Hildebrando Acioli vg presidente LEC, Alceu Amoroso Lima vg secretário pt 
Fez Dom João da Mata, a seguir, feliz explanação da finalidade da LEC, exortando os presentes ao dever cívico-religioso que, com a oração constitui a arma invencível contra o inimigo que se arregimenta. Ressaltou, mais uma vez, que a LEC não é partido político, não apresentando candidatos, pois sua missão é orientadora apenas do eleitorado católico. 
Sob aplausos gerais foi empossada a Junta Estadual, acima nomeada, sendo designadas como responsáveis pelo serviço da secretaria-geral, no Abrigo Redentor: Maria de Miranda Leão e Maria Júlia Lima. Foram, de início, criados 9 postos eleitorais, sendo 7 nas paróquias da Capital, 1 em Adrianópolis e o último no Círculo Operário. 
Nomeou o presidente da Junta Estadual as seguintes Juntas Paroquiais: 
Catedral: Moisés Lindoso [ordenado sacerdote em 1956], Maria Ruth Meneses e Aida Tapajós.
São Sebastião: Francisco de Oliveira Régis e Milton da Silva.
Remédios: Artur Virgílio Filho [pai do atual prefeito de Manaus], Eloisa Belfort dos Santos e Araci Montenegro.
Educandos: José Alencar, Rosa Castelo Branco de Alencar e João Martins de Araújo.
São Raimundo: Ismael Benigno [patrono do estádio da Colina], Pedro Bernardino de Sena e Raimundo Maia.
Santa Rita [Cachoeirinha]: Antonio Weimar Freitas, Jovino Ribeiro Neto e Francisco Cruz Silva.
Nossa Senhora Aparecida: Francisco Rebelo de Souza, Raimundo Ferreira Santiago e José Afonso [um dos dirigentes dos bombeiros voluntários].
Círculo Operário: José de Teixeira Pinto, Egídio Scardino e Jamaci Bentes de Souza [pai do escritor Marcio Souza].
 
Amanhã, às 17 horas, na sede do Abrigo Redentor, onde funciona o secretariado-geral, convocadas pela Junta Eleitoral, reunir-se-ão as Juntas Paroquiais.  

segunda-feira, novembro 30, 2015

PRIMEIRO AMAZONENSE NA FAB

Asp Of Afranio Aguiar
A postagem abaixo foi extraída do periódico local O Jornal, datado de 20 de agosto de 1944. Nele informa com bastante entusiasmo a formatura do primeiro amazonense a ingressar na Força Aérea Brasileira (FAB). 
Trata-se de Afranio da Silva Aguiar, certamente integrante da primeira turma de aviadores brasileiros, pois, a FAB teve início em 1941.

Recorte de O Jornal, 20 agosto 1944

Conforme noticiamos, realizou-se no dia 12 do corrente, na capital do País, com a presença do Exmo. Sr. Presidente da República [Getúlio Vargas], do ministro da Aeronáutica [Joaquim Pedro Salgado Filho] e outras altas autoridades, militares e civis, a cerimônia da declaração de aspirantes a oficial aviador de 1944 — Turma "Coronel Fontenele".
Dessa turma faz parte o jovem Afranio da Silva Aguiar, o primeiro amazonense a diplomar-se, como oficial aviador, na Escola de Aeronáutica.O aspirante Afranio da Silva Aguiar nasceu nesta capital e é filho do Sr. Pompeu Lino de Almeida Aguiar, chefe da firma proprietária da Papelaria Velho Lino, e de sua Exma. esposa, D. Eulalia da Silva Aguiar, figuras estimadíssimas de nossa sociedade. 
Tendo cursado, com brilhantismo, a Escola de Cadetes de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o aspirante Afranio da Silva Aguiar, que se destinara à carreira do Exército Nacional, prestou concursos, alcançando aprovações plenas, escolheu a Aviação para prestar os seus serviços, com o maior devotamento de brasileiro patriota. 
Convém assinalar que o jovem amazonense Afranio da Silva Aguiar, que sempre alcançou altas notas em todos os seus cursos, elevando, desse modo, o nome de seu Estado natal, fez-se por seu exclusivo esforço e dedicação aos estudos, motivo por que são mais realçados os parabéns, que lhe têm sido endereçados e à sua digna família.