CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, novembro 03, 2015

SANTUÁRIO DE BORBA (2)


Prossigo com a reprodução do folheto Histórico da Igreja de Santo Antonio de Borba. Este folheto, sem identificação expressa de autoria, foi serviço da Imprensa Oficial, em Manaus, deduzindo-se da sigla D.I.O. 1946, gravada na capa.


O mesmo engenheiro Silva Coutinho, diz que viu em Borba os grossos alicerces de uma Igreja que os jesuítas começaram, mas que não foi concluída... e continua: "o fato de não concluir-se a igreja, parece provar que os jesuítas estiveram em Borba até a sua extinção, no Brasil. Mais uma prova de que a igreja atual não é a primeira dos jesuítas.” 
Até 1755, pertenceu a igreja de Borba aos jesuítas, mas investido Mendonça Furtado, por Carta Regia de 3 de março de 1755, do poder de criar a Capitânia de São José do Rio Negro, hoje estado do Amazonas, e de elevar à categoria de Vila a aldeia de Trocano, o que fez em janeiro de 1756, dando-lhe o nome de Borba, a Nova, iniciou uma feroz perseguição contra os beneméritos jesuítas. 
O superior da missão, Anselmo Eckart, retirou-se para a aldeia de Abacaxis onde residia seu irmão de hábito, o padre Runderfela. Da igreja dos jesuítas existem, ainda, uma imagem de São Francisco Xavier e uma outra do Crucificado. Esta última foi reincarnada no ano de 1938. O engenheiro Silva Coutinho as viu em 1861. 
Com a retirada dos jesuítas, passou Borba para os Carmelitas. Frei André Prat (vol. 1 p.35), na sinopse dos lugares e aldeamentos dos índios, fundados e cristianizados pelos Carmelitas, traz: do Rio Madeira, Borba. Ano da fundação: 1755.
No mesmo volume, p.50, frei Prat cita o capitão Antonio José Landi, arquiteto da igreja do Carmo de Belém... Sua eccelencia (Francisco Xavier Mendonça Furtado) mi condusse con se alla fondanzione della Villa di Borba, posta nel Rio Madeira. Nel principio de genaio de 1756 ritorniano a Mariuá.
 
É provável que Mendonça Furtado tivesse trazido consigo carmelitas de Barcelos (Mariuá), para substituir os jesuítas em Borba, e que a Ordem do Carmo tenha aceito a missão de Borba em 1755. 
Na Matriz de Borba existe, ainda, um triângulo para o ofício das Trevas, que só pode ter sido dos carmelitas, visto os jesuítas não rezarem o Ofício no Coro. Deve também ter sido dos carmelitas uma pequena imagem de N. S. do Carmo, existente na Sacristia. Os carmelitas, porém, não ficaram sempre efetivos em Borba. O que se conclui, à luz dos documentos, é que os carmelitas ficaram com a missão do Madeira, sendo, porém, o vigário da paróquia até 1838, um clérigo secular. Nem era permitido que os frades fossem párocos. 
Em Borba faleceu e foi sepultado (provavelmente na igreja, conforme o costume da época), frei José das Chagas, apóstolo da Mundurucânia, fundador de Parintins, Canumã, São José do Matari, Sapucaioroca. Era homem de vida santa e abnegada. Veja-se cônego Bernardino de Souza, na comissão do Madeira (2ª parte, pp. 28 e 83). Também, em Borba, faleceu em 28 de maio de 1838, o segundo de nome, frei José Alves das Chagas. 
Foi quem abençoou o casamento do maior herói brasileiro do Amazonas, Vitor da Fonseca Coutinho com dona Izabel da Fonseca Zuzarte, em 10 de junho de 1832. Era o alferes Vitor da Fonseca Coutinho, coronel comandante superior da Guarda Nacional, filho do capitão Francisco Benedito da Fonseca Coutinho e dona Ana de Goes. Nasceu o alferes Vitor, em 12 de abril de 1812. Foi batizado na Igreja de Borba. Teve do seu casamento 11 filhos, um dos quais, foi monsenhor Francisco Benedito da Fonseca Coutinho. 
Com a morte de frei José Alves das Chagas, foi nomeado em 1838, superior da missão de Borba o carmelita frei José (ou Vicente) de Carvalho Pena (Frei André Prat, v. II, p. 64.). Parece que nesse ano de 1838 foi extinta a Missão, pois o Livro dos Batizados de 21 de outubro de 1838 a 14 de março de 1840, traz assinado: "Vigário interino — José Vicente de Carvalho Pena", que só pode ser o mesmo frei José (ou Vicente) de Carvalho Pena. 
Depois deste, regeram a paróquia até dezembro de 1863 cinco vigários, por espaço de 23 anos, sempre por pouco tempo. O padre Paulino dos Santos Ferreira Mar, sucessor do frei Pena, foi trêsvezes vigário e cada vez por poucos meses. 
Em agosto de 1847, houve visita pastoral, feita pelo bispo do Pará, D. José Afonso de Moraes Torres. Desta, como de diversas outras vezes, estava Borba sem vigário, pois ocorrem atos paroquiais feitos pelo Vigário-geral Antonio Manuel Sanches de Brito e pelo secretário cônego Antonio dos Reis de Macêdo. Pelas determinações e proibições feitas por escrito pelo bispo, vê-se que não era muito edificante o estado da paróquia. 
Depois de D. José [Afonso], estiveram na Matriz de Borba, em visita pastoral, o bispo-mártir D. Antonio de Macêdo Costa, D. José Lourenço da Costa Aguiar, primeiro bispo do Amazonas, D. Frederico Costa, D. João Irineu, D. Basílio Pereira e D. João da Mata. (segue)

segunda-feira, novembro 02, 2015

DIA DOS FINADOS



Flores para meus finados mais próximos.


Manuel e Francisca
Mendonça (pais)
Victoria Malafaya (avó)
Dona Dora (segunda mãe)
Vicente e Adelaide (avós maternos)
Graça e Betão Mendonça
(esposa e filho)
Ronaldo Cesar (irmão)











domingo, novembro 01, 2015

SANTUÁRIO DE BORBA (1)

Reproduzo o folheto Histórico da Igreja de Santo Antonio de Borba. Este folheto, sem identificação expressa de autor, foi serviço da Imprensa Oficial, em Manaus, deduzindo-se da sigla D.I.O. 1946, gravada na capa.

Igreja de Santo Antonio de Borba (reprodução)


A Igreja de S. Antonio de Trocano, hoje cidade de Borba, foi fundada, segundo o padre Serafim Leite, em História da Companhia de Jesus, “ao mesmo tempo que a missão homônima, pelo jesuíta padre João de Sampaio, o maior missionário do Rio Madeira, cujo nome se perpetua na limnografia da região com o Lago do Sampaio ou o lago do Padre Sampaio." 
Até 1740, existia Santo Antonio das Cachoeiras, mas, às instâncias dos superiores do Pará, para que fosse a sede das Missões do Madeira transferida para mais perto, já em 1743, surge Trocano, sob o mesmo orago, Santo Antonio. De 1741 a 1743, não há catálogos jesuíticos. Provavelmente, ou desapareceram durante a perseguição pombalina ou depois, pela desídia dos zeladores do Arquivo do Pará (Artur Viana, Anais do Pará IV, p.302) ou talvez não tenham sido escritos no período desses dois anos, visto a incerteza do estabelecimento definitivo nesses anos da sede da missão. 
Segundo Silva Araújo (pp. 62 e 63), a missão estabeleceu-se provisoriamente depois das Cachoeiras, na foz do Jamari, em Canuã no Ji-Paraná, na foz do Baeta e, por último, em Borba. 
Em 22 de Janeiro de 1743, falece Sampaio no engenho de Ibirajuba, tendo baixado de Trocano, já alquebrado. Substituiu-o como Superior, o padre Manuel Fernandes. Em 1744 é Trocano sede da missão. Em 1751, padre Aleixo Antonio S.J. trouxe para ela muitas índios do Rio Negro. Já tinha boa casa de residência para os padres. 
Em que mês tenha-se dado início aos trabalhos da fachada da igreja, não sabemos. O local da primeira igreja, parece ter sido o mesmo da de hoje e está com a fachada voltada para o igarapé, porto de então, onde ficavam em seguro as canoas e outras embarcações. 
A igreja atual, porém, não é mais a primeira, construída pelos jesuítas nem a que talvez fosse edificada para Matriz, quiçá por ordem de Mendonça Furtado. 
D. Frei Caetano Brandão, bispo do Pará, que de 19 a 21 de setembro de 1788, esteve em Borba, em visita pastoral, referindo-se à igreja escreve em suas Memorias: “A mesma Igreja está coberta de palha, as paredes esburacadas e negras; o pavimento de terra solta; os altares nus e com bastante indecências, pobríssima de ornamentos e alfaias”. 
No tocante à igreja espiritual diz: “Em tudo a mesma deformidade...”. Nos assentamentos de batizados de outubro de 1838 até 1840, lê-se: "na paroquial igreja do glorioso Santo Antonio de Araretama."
Atenuados os estos de nacionalismo exaltado, que por alguns anos grassou por toda a Amazônia, Borba voltou a ser chamada pelo seu antigo nome.
Assim, no fim dos assentamentos de 1840, o Visitador Silva (não sabemos se regular ou se diocesano), escreve: Visto em ato de visita... Borba, 18 de maio de 1840. 
Nos assentamentos de batizados até 28 de maio de 1853 o Vigário Colado Antonio Ferreira da Silva Franco escreve: "nesta paroquial Igreja de Santo Antonio de Borba." Em 25 de junho do mesmo ano, de 1853, o mesmo vigário escreve: "em uma capela ereta, em casa particular, por se achar, a Matriz arruinada... logo no seguinte assentamento, feito aos 30 de agosto de 1853, o mesmo vigário colado escreve: “em a casa que serve de Matriz”.
Em 23 de dezembro de 1869 ocorre o primeiro assentamento: "nesta paroquial igreja de Santo Antonio de Borba." O vigário interino, padre Francisco Benedito da Fonseca Coutinho. 
Em 1861, o engenheiro J. M. da Silva Coutinho, no relatório sobre alguns lugares da província do Amazonas, especialmente do Rio Madeira, tratando de Borba, escreve: "A Matriz atualmente em construção tem 50 palmos de frente, por 150 de fundo. Serve de matriz uma casa particular, acanhada, com alpendre para poder acumular os fieis... há por enquanto a coberta de telha e os moirões formando o esqueleto das paredes. O teto foi mal construído e, por isso, abateu em alguns pontos. Aconselhei ao vigário, que mandasse fazer 4 tesouras para evitar a ruína de todo o edifício"... De fato a igreja atual é muito larga, para o telhado. 
Mons. Coutinho, anos depois da estada do engenheiro J. M. da Silva Coutinho, a fim de evitar a ruina da igreja, mandou construir arcadas de boa alvenaria pelo mestre português Antonio Joaquim Pereira, que faleceu em Borba a 11 de fevereiro de 1939. (segue)

CORONEL PEDRO CÂMARA (1939-2015)



Nascido no Rio Grande do Norte, em 1939, morreu nesta quarta-feira, aos 76 anos, o coronel PM da reserva Pedro Câmara, vitimado por um colapso cardíaco. O velório foi realizado no quartel central do Corpo de Bombeiros, entidade que este oficial comandou quando o Estado absorveu este serviço em 1973. O sepultamento ou a “semeadura”, como define a igreja que o falecido professava, ocorreu no final da manhã no cemitério São João Batista, com a tropa da PMAM cumprindo o cerimonial militar.

Aspecto do velório ocorrido no quartel central do Corpo de Bombeiros

Câmara, antes de desembarcar em Manaus, cresceu no Acre, onde sua família se instalou atraída pela fortuna da borracha regulada por ocasião da Segunda Guerra. A família Câmara de marcante religiosidade possui, entre seus membros, pastores e dirigentes da igreja Assembleia de Deus.

Em Manaus, ao tempo do serviço militar, Câmara foi engajado no 27º BC (Batalhão de Caçadores), aquartelado na praça General Osório, hoje sede do Colégio Militar de Manaus. Naquela unidade militar prestou concurso para ingresso no CFC (Curso de Formação de Cabo), sendo aprovado com brilho. Dessa maneira, antes da conclusão do serviço militar obrigatório, era o cabo Câmara. Sempre bem alinhado, uniforme impecável, conhecedor dos regulamentos e exigente extremado. Era um militar “caxias”.
Ainda na caserna do 27 BC enfrentou a seleção para o curso de sargento que, não obstante ter sido aprovado, não conseguiu vaga. 

Entre outros entreveros, esse acelerou seu desligamento ao final do período compulsório. Aprovado em concurso, passou a funcionário da Chefia de Polícia, órgão encarregado da Polícia Civil. Nesse emprego foi alcançado por um edital da Polícia Militar.

Aos 21 anos, foi selecionado junto com mais dois Pedro (Lustosa e Falabela, que desistiu da empreitada) e o Helcio Motta, para integrar a turma de cadetes na EFO (Escola de Formação de Oficiais) da então PM da Guanabara. Tratou-se de iniciativa pioneira do doutor-coronel Assis Peixoto, no comando da PMAM: promover a formação de oficiais de escola. Ao término do curso (1960-62), Câmara estava em primeiro lugar entre os amazonenses e, diante desse valor militar, deve ser considerado o primeiro Cadete da história da Força Estadual.

Ainda tenente, em 1965, foi nomeado comandante do CIM (Centro de Instrução Militar), a pioneira iniciativa da corporação para capacitar os praças. Funcionava no Piquete, a edificação centenária que abrigou como a denominação indica uma tropa de Cavalaria. E ainda, servia de referência para os moradores do bairro da Praça 14. Nesse local, no momento, funciona o CPM (Comando de Policiamento Metropolitano), guardião do portão do Piquete. Tenente Câmara permaneceu pouco tempo na direção, porém, o bastante para que os colegas jocosamente identificassem o CIM por “Câmara Instrui Meganhas”.

Ainda que sem qualquer cacoete para qualquer esporte, Câmara organizou delegações esportivas. De oficiais, conduziu equipes de futsal (ao tempo, futebol de salão) ao interior do Estado. Tefé, Manacapuru, Maués, Parintins e Itacoatiara foram palcos desses encontros. Bons resultados esportivos e ótimos causos essas excursões ofereceram, talvez o melhor tenha ocorrido em Coari. Na quadra, faltava um dos bons jogadores, o então capitão Ruy fora nomeado “carcereiro” do delegado. Explico: Câmara havia determinado a detenção deste – tenente da reserva, alcunhado de Rabo Fino.  

Outro bom causo: Câmara adquiriu um Fusca, branco, se não sou traído pela memória. Nada de excepcional, senão que esse objeto de desejo era da fábrica alemã. E, como o condutor aqui e ali bateu com vontade o alemão, tomou a alcunha de um lutador de “telequete”, modismo da TV da época.

Economista, Câmara foi graduado pela Faculdade de Ciências Econômicas, antes que essa fosse incorporada à Ufam. Matemático competente, essa competência o capacitava a elaborar tabelas de vencimentos, sempre que a comunidade policial (ainda não operava o clube-sindicato) buscava melhorar o soldo.

Quartel do CBMAM em preparativos para o cortejo fúnebre

Em 1973, major Câmara assumiu o comando do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar, ocasião em que este serviço passou à órbita do Estado. Nada entendia desse serviço básico, mas era excelente administrador, preocupando-se até com o “pimentão” consumido no rancho. No ensejo, aproveitou a chance e viajou a Paris (FRA) para um aprendizado sobre bombeiros. Fez o estágio e o fez bem, aclimatando-se de tal maneira ao espírito parisiense que, ao regressar, os colegas o tratavam de forma espirituosa por Pierre Camarrá.

Em seu comando desembarcou a primeira escada de socorro que, por hábito, foi alcunhada de “magirus”. Comandante Câmara usou e abusou dela. Fazia-a arvorar (elevar seu dispositivo) e, do alto, de binóculo em punho, apreciava a movimentação na praia de Cacau Pirera.

Um dia, em pleno expediente, inspecionando o terreno do quartel, encaminhou-se para os fundos onde havia (ainda há) uma caixa d’água. De repente, ouviu-se um tiro naquela direção. Acorrem vários bombeiros, imaginando um desastre com o chefe. Mas eis que, guapo, Câmara os recebe com aquela pachorra: “pensaram que eu havia me suicidado!?”.

Enfim, “dirigia” a AVC (Associação dos velhos coronéis), que se reúne na última sexta-feira de cada mês para discutir assuntos burgueses: saúde, soldo e bom apetite. Dirigia sem contestação, afinal, apenas cabia-lhe indicar o restaurante do mês. Outra determinação: apenas seu aniversário era comemorado, porque acontecia a 31 de janeiro. Ou seja, estava sempre próximo do encontro ou no mesmo dia. A vaga está aberta.

Chegou, porém, o dia da indesejada. Ele já havia suplantado alguns procedimentos cirúrgicos, e seguia mostrando a força e a determinação do nordestino vitorioso. Sua fleuma, marcada pela entonação de voz, era própria. Tudo planejava e calculava meticulosamente. Por isso, creio que até a forma de “atravessar o rio Negro” foi encomendada.


Foi-se na madrugada, quando nós, amigos e parentes, esperávamos pelo novo dia. Filho! Até outro dia, na eternidade.