CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, novembro 21, 2010

Memorial Amazonense XXXVIII

Novembro, 21


1889 – Na tarde desse dia, passado uma semana, a cidade de Manaus tomou conhecimento da Proclamação da República. A notícia foi trazida por uma delegação paraense que viajava no vapor Manaus, da Companhia Brasileira de Navegação, depois Lóide Brasileiro.

1936 – Assume a direção da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais, depois de Direito do Amazonas, o Dr. Feliciano de Souza Lima.

Lucy Mariano e Mendonça, 1994
1941 – Morreu na cidade do Rio de Janeiro, onde foi sepultado no cemitério São João Batista, o Dr. Cândido José Mariano que, na condição de oficial do Exército, comandou a tropa da Polícia Militar amazonense contra Canudos, em 1897. Nascido em Alfenas (MG) em 1870, desembarcou em Manaus em 1896. No início do ano seguinte, casou-se com Fanny Ribas, de família riograndense do sul, com quem teve dois filhos: Lucy e Floriano, em homenagem ao Marechal de Ferro, ambos em Manaus. Alcancei, em raro privilégio, entrevistar sua descendente Lucy (94 anos), no Rio de Janeiro.

1949 – Estabelecida a federalização da Faculdade de Direito do Amazonas.

Ponte JK. Jornal do Commercio. Manaus, 7 set. 1958.
Detalhes: o suíno (à esq.) e o Studbaker (ao fundo)
1957 – Realizada concorrência para a construção de nova ponte ligando o bairro de Educandos ao de Cachoeirinha. A vencedora foi a firma Otavio Bittencourt Pires. A ponte leva o nome de Juscelino Kubitschek, então presidente da República. JK esteve em Manaus para inaugurar esta ponte, além da Refinaria de Petróleo, de I.B.Sabbá, e o conjunto residencial que também leva seu nome,na Cachoeirinha.

2009 – Lançamento do livro Uma tela na parede, de Renato Augusto Farias de Carvalho, na Livraria Valer.

CRÔNICA DE L. RUAS

Ontem, na Universidade Federal do Amazonas, ocorreu a manhã lembrando o padre Luiz Ruas, saudoso professor da instituição. Para cumprir minha participação, voltei aos tantos recortes e livros vários, os editados e os inéditos. Nesse retorno ao L. Ruas, selecionei a peça abaixo incluída em seu livro Linha d´água: crônicas (Rio: Artenova, 1970). Não adianta buscar em livraria, talvez algum "sebo" possa atendê-lo.

Crônica

Luiz Ruas, na RG
Não vamos percorrer o caminho perdido pelos pássaros já mortos. Deixemos que apaguem os rastros das manhãs enobrecidas pelo perfume das mãos enlevadas pelos sonhos que fugiram das pálpebras vazias.
É muito cedo ainda. É muito cedo.
Não estamos de partida para a guerra. Esperemos que as corolas se abram com paciência e sem nos angustiarmos pelos frutos que colheremos sob a luz tranquila das tardes lilases.
Não. Não percorramos os caminhos perdidos.
Deixemos que as barcaças retornem, como pássaros flutuantes, de suas longas viagens, de suas noturnas fadigas, repleta dos dons que o mar lhes oferece. Aguardemos, de mãos vazias e simples, as pérolas e os peixes. Sentemo-nos nas praias. Vigiemos o mar. Abandonemo-nos ao vento que as espumas frias nos ofertam. Beijemos o vento com mansidão enquanto ele nos acaricia os cabelos.
É ainda muito cedo. Ainda estamos muito antes da hora fixada para a guerra.
Acompanhemos, sem fadiga, o caminho dos rios, dos córregos, das fontes. Abracemo-nos como irmãos aos troncos antigos das velhas árvores.
Há quem diga palavras de ternura com muito medo. Ouvi, certa vez, uma noiva dizer tantas palavras de ternura ao seu noivo e ele não teve medo de se comover. Ele não se julgava mais criança.
Embora tenhamos de partir muito cedo, é preciso guardar com ternura os ninhos não amadurecidos. Os pássaros virão depois do luar. Antes disso, acendamos a lareira, estendamos a toalha de linho branco sobre a mesa tosca, coloquemos os pratos de cerâmica, sirvamos o pão, o vinho, e, em silêncio, meditando nas chamas que sobem e descem e dançam como esbeltas bailarinas, comamos o peixe tenro que apanhamos nas águas tépidas do lago imóvel.
Ora, dir-se-ia que nos resta muito tempo para esperar. No entanto, muitos séculos decorreriam até que pudessemos nos sentar, de novo, à mesa e comer tanto silêncio.
Não sejamos fátuos. Mas não sejamos sôfregos, também.
A ternura tem sua medida. Mas só ela sabe a sua medida.
Sinto, agora, o ruflar das asas fenecidas. Elas se desdobram sobre o meu rosto e me fazem sonhar um sonho de tranquilas manhãs. Este é o desejo de todo o guerreiro no campo de batalha.
Quando brotarão as manhãs que eu plantei nos meus gestos apenas murmurados? Vejo as tardes, as manhãs e as noites como o agricultor examina com cuidado, os frutos pendentes das árvores plantadas por suas mãos de argila.
Eu apenas semeei o tempo. Ele me dá sonhos e fadigas.
Não percorramos apressados os caminhos perdidos pelos pássaros já mortos. Esperemos, com mansidão, que o tempo nos devolva os frutos e as flores que as manhãs, as tardes e as noites nos roubaram para sempre.
Depois, então, partamos para os campos de guerra.   

sábado, novembro 20, 2010

MANHÃ CULTURAL PADRE LUIZ RUAS

Assim mesmo, foi sob esta denominação que alunos do curso de Psicanálise da Universidade do Federal do Amazonas (Ufam) passaram a manhã deste sábado. Para abrilhantar a festa, convidaram a psicanalista e doutora em Comunicação e Cultura, autora dos livros Voz na luz e Vazio iluminado: o olhar dos olhares, Dinara Machado Guimarães que dissertou sobre o tema: "Os elos entre o cinema e a psicanálise". Se desejar mais informações, acesse http://www.apsicanaliseocinema.blogspot.com/

Estive presente, na condição de "curador" da massa literária do patrono da matinal. A comissão organizadora (Fabiane Aguiar, Paulo Victor e Fernanda Priscilla) deu-me nova oportunidade para revelar o saudoso mestre de Psicologia da Ufam, e de outros estabelecimentos de ensino, enfim, mostrar a participação daquele padre-poeta na vida de nossa Cidade, entre 1954 e 1992, quando parou gravemente atingindo por um AVC.

Dinara Guimarães (de branco), sendo entrevistada pelos ouvintes
Além da participação de L. Ruas (sua assinatura literária) no ramo das ciências humanas, teve atuação no Cinema, como mestre de tantos cineclubes que povoaram Manaus na década de 1960, e o Teatro, como diretor do Auto da Paixão, e ator no Auto da Compadecida, em nosso Teatro Amazonas.
Padre Luiz Ruas, identidade sacerdotal
No início deste ano, a Editora da Universidade (Edua) fez o lançamento de um livro por mim organizado, no qual reproduzi textos de padre Ruas publicados nos jornais de Manaus, que denominei de Cinema & Crítica Literária.
Devo também recordar a atuação dele como membro do clero amazonense, quando da instalaçao da Faculdade de Filosofia pela Igreja de Manaus, depois incorporada à Ufam. Nela, foi professor e diretor. Foi professor da Ufam até sua aposentadoria.
Estes predicados, certamente, impulsionaram aos jovens alunos de Psicanálise a dedicar a manhã de hoje ao finado professor de tantos alunos de nossa Casa de Ensino Superior.
Encerro com as palavras de um ex-aluno, o poeta Zemaria Pinto, lembrando um fato bem caracteristico do comportamento do mestre L. Ruas.


Zemaria Pinto
L. Ruas é um ícone da literatura amazonense. Figura controversa, suas aulas de Filosofia, no velho seminário transformado em Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), ao final dos anos 70, eram das poucas a manter a audiência em alta entre os futuros economistas, no meio dos quais eu, tímido por natureza e intimidado pela figura do mestre: a tez acobreada contrastando com a branca e densa cabeleira, o cigarro sempre entre os dedos e a língua permanentemente afiada. Diziam-se coisas do mestre: no mínimo, que era um padre comunista... Numa ocasião, alguém ousou tecer um comentário desairoso sobre a Teologia da Libertação. Se um pombo dos muitos que voejavam errantes pelo ICHL entrasse naquele instante, diria que era o próprio Espírito Santo que fora assistir ao mestre defender a luta de classes e o socialismo sob uma perspectiva cristã. Naquele momento, lamentei não ser cristão. Aliás, por muito pouco não me converto.

quinta-feira, novembro 18, 2010

MAESTRO NIVALDO SANTIAGO


Coral João Gomes Junior, regência do maestro Nivaldo Santiago

O programa  apresentado hoje pelo Coral João Gomes Junior cumpriu três partes bem distintas: na primeira, o maestro Nivaldo Santiago, fundador deste grupo, fez a regência. Na segunda, foi apresentado um video com indicações dos personagens que povoam o livro sobre o coral. Na terceira, o maestro Eli Soares, atual regente, conduziu o concerto com apresentação de um repertório clássico, acompanhado dos solistas Maria Augusta Bacellar, Priscila Vianna e Humberto Vieira.
Após a realização deste programa, o acadêmico Elson Farias, autor de Coral João Gomes Junior: uma aventura musical no Amazonas, passou a autografar o livro.

Nivaldo Santiago  havia completado a sua formação musical, quando desistiu de uma bolsa de estudos no Canadá para formar este coral. A Manaus dos 1950 era de uma grave pobreza. Mas aquele corajoso músico decidiu enfrentar.
Em seu discurso de agradecimentos, lembrou os quantos emprestaram ajuda ao empreendimento, dos governantes às pessoas simples, mas decididas. Alguns ainda coralistas atuantes.
Um desses colaboradores foi o padre Luiz Ruas. A participação deste sacerdote se fazia pelo jornal, onde suas publicações repercutiam. Amigo de Nivaldo Santiago, L. Ruas acreditou no amigo e seu projeto, e pode sentir com prazer a explosão musical produzida por esses abnegados coralistas.

Maestro Nivaldo Santiago, em Manaus
A 23 de abril de 1961, padre Ruas abriu o verbo em O Jornal e,  sob o título: Em torno de uma reportagem cínica, defendeu o Estado e seu amigo Nivaldo Santiago. Por outro lado, rebateu com fortaleza a reportagem cínica, publicada em O Cruzeiro, uma revista semanal já desaparecida, que vez ou outra cobrava para publicar.
Escrevo estas linhas no sentido de um protesto. Está claro que o meu protesto não vai sanar o mal que foi feito. Mas fica o meu protesto. E muito satisfeito eu ficaria se soubesse que ele teria despertado alguém ou alguns, pelo menos aqueles que se empenham verdadeiramente no seguimento do nível cultural do nosso Estado. Refiro-me aos homens de letra e de artes do Amazonas e, em particular, Manaus.

A “terra defraudada” de que falava Araújo Lima referindo-se ao Amazonas ou à Amazônia parece continuar no cumprimento do seu destino. Agora, porém, a defraudação toma novos rumos. Quando o Amazonas surgiu aos olhos dos aventureiros famintos de riquezas o roubo se processou nos tesouros de seu solo. A borracha encheu a mão de muitos de dinheiro que saindo daqui foram gastá-lo ou empregá-lo em outros lugares. (...)

Falo daqueles que têm ficado, embora muitas vezes lutando com feracidade e heroísmo contra as tentações dos grandes centros culturais onde fervilham as “panelinhas” que se outorgam o direito de determinar e impor valores que se colocam em relevo à custa de certas condições. Falo daqueles que têm acreditado nas possibilidades da inteligência amazonense e por conseqüência, numa cultura e numa arte amazonense, que hão de se impor daqui mesmo sem precisar pedir a bênção dos donos da cultura brasileira nem se integrar num outro qualquer campo cultural e artístico. É neste sentido que falo da nova cultura do Amazonas. (...)

E, ultimamente, a reforma do Teatro Amazonas, obra grandiosa do Governador, vem confirmar de maneira deslumbrante o que afirmamos. Porque a reforma do Teatro mais do que o valor real do empreendimento se reveste, para mim, de um significativo valor simbólico. Um governo que se volta para a arte e se preocupa com os valores artísticos de um povo é realmente um governo que sabe o que está fazendo. Entre esses testemunhos autênticos da nova cultura amazonense há uma iniciativa que merece especial relevo.

É a obra do maestro Nivaldo Santiago. Nivaldo chegou a Manaus há uns dez anos, podemos dizer, só com a cara e a coragem. Um músico querendo fazer música no Amazonas, quando já não se pensava aqui em coisas dessa espécie. Na época em que o Nivaldo chegou, uma atmosfera de descrença, um ceticismo doloroso e sombrio, fundamentado na realidade de um Estado colocado levianamente à beira de uma desagregação sócio-político-econômico, tomava conta de todos os espíritos.

Ainda ninguém acreditava que o Amazonas pudesse reconquistar o equilíbrio. Falar em cultura artística na ocasião era um luxo ou não passava de estroinice. Este foi o ambiente que Nivaldo encontrou em Manaus vindo da Europa e do Sul do País. Dava para qualquer um arrumar de novo as malas e escorregar Brasil abaixo para o Rio ou São Paulo. Mas o Nivaldo é um desses privilegiados da loucura artística. Não pensou, não mediu, não calculou. Ele tinha vindo para fazer música. E começou.

Ano após ano, meses após meses, dias após dias, o Nivaldo, sem dinheiro, sem meios, com um piano e uma sala velha na [rua] Visconde de Mauá, escondido na sua toca, sem se preocupar quase com a sua subsistência, coadjuvado por uns poucos da mesma espécie dele, começou um coral, o João Gomes Junior. “É preciso que a semente morra primeiro.” E a semente esteve realmente sepultada, quase apodrecida entre as quatro paredes mofentas do irrisório Conservatório da Visconde de Mauá, em boa hora cedido ao jovem músico pelo cônego Walter Nogueira, de acordo com Dom Alberto Ramos.
Foi ali que a semente morreu e viu rebentar viridentes suas primeiras folhinhas tenras. Depois todos sabem, vingou. Atualmente a planta regada com o suor e lágrimas do Nivaldo e de seus cantores, esses jovens heróicos, já está taludinha. Seu tronco já está firme. Já há esperança de flores e de frutos. Pois bem, nessa altura dos acontecimentos surge uma reportagem safada por todos os títulos. Para roubar todos os méritos desses jovens. Para passar uma esponja num passado de lutas e sofrimentos e se apossar dos trabalhos realizados. Impudicamente. Torpemente. Cinicamente. Qualquer explicação para o caso não é explicação.

O fato não passa de uma tentativa de espertalhões. E a revista O Cruzeiro é o responsável por isso. Mas a coisa não parou por aí não. Eles conseguiram matar dois coelhos numa só cajadada. Também o trabalho governamental foi atingido pelos finórios. Reforma do Teatro, Coral João Gomes Junior, tudo iniciativa de O Cruzeiro. O Amazonas é uma terra de bobocas. Se não fosse O Cruzeiro, não havia coral e, certamente, o Teatro já seria um montão de ruínas. Já vi muito cinismo na minha vida, mas tanto assim, não.


Agora eu pergunto o que foi que esses mocinhos de O Cruzeiro fizeram pelo Teatro e pelo Coral? Nada, meus amigos. Nada. Não. Fizeram uma reportagem a cores no valor de três milhões de cruzeiros. Nivaldo, os seus sacrifícios, o seu suor, as suas lágrimas, suas vigílias, seu trabalho, seu esforço, sua luta, sua fome, seus e de seus cantores foram vendidos por três milhões de cruzeiros? Não.


Tenho certeza que você não os vendeu. Você não os vendeu porque sabe do que se trata e porque sabe o que está fazendo. Atualmente você faz parte da cultura do Amazonas e você não venderia essa cultura pela bagatela de umas fotografias coloridas que roubam, que exploram, que avançam no alheio. (...)

Já chega de defraudadores. Que estes fatos nos sirvam de lição.