CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, junho 04, 2010

BOMBEIROS DO AMAZONAS (IV)

Os Bombeiros no Governo de Eduardo Ribeiro (1892–1896)



Ou por usual providência, ou por previdência em salvaguardar o Tesouro, o Governador interino Borges Machado instala a Comissão de Exame do Tesouro Estadual para apurar as contas de seu antecessor (Thaumaturgo de Azevedo), limitando a investigação ao período de 1.º de janeiro a 29 de fevereiro. No Relatório desta, endereçado ao governador Eduardo Ribeiro, encontram-se medidas tomadas para a revitalização do serviço de Bombeiros.
§ 120 - Com a compra do material necessário para o serviço da extinção de incêndios.
Por conta desta verba foi entregue a José Cláudio Mesquita, representante da Casa J. H. Andresen, a quantia de 17.000$000 por efeito do ofício do ex-presidente do Estado, em reservado, sob o n.º 67, de 25 de janeiro último, mediante saque à vista contra o London H. Bank Limited para ser ali entregue ao encarregado de fazer na Europa a compra de material para a companhia de bombeiros e hidrantes para o serviço de incêndios.
Ainda no mesmo documento, encontra-se relacionado o suprimento mais avultado que levou o fornecedor de armamento para os bombeiros: “pagamento feito a Braga & Ventilari pelo fornecimento de 21 rifles, com 2.000 balas” - R$ 68.000$000 (sessenta e oito contos de réis).
É simples concluir: o corpo de bombeiros em via de implantação seria totalmente importado: os equipamentos, da Europa, e o pessoal, por falta de outros recursos, de fornecedores nordestinos.
A 23 de julho de 1892, o Congresso dos Representantes promulga a Constituição do Estado, reempossando Eduardo Ribeiro, alcunhado de Pensador, para o quatriênio seguinte. Com sua posse, os políticos arrefeceram os ânimos talvez pelo modo como este alcançou o Poder Executivo.
A ordem parecia estabilizada quando, na virada desse ano, foi abortada uma quartelada contra o governador. À frente desta intervenção, oficiais do Exército e alguns graduados do Batalhão de Polícia.
A sedição apenas arrefeceu. No final de fevereiro de 1893, sucedeu o definitivo entrechoque em derredor do poder político. Dentre outros, pelejavam na trincheira dos sediciosos, o general comandante do distrito militar; o major Constantino Nery, futuro governador, e o alferes Adolpho Lisboa, futuro prefeito da capital do Amazonas. No reduto do governador, a força militar estadual.
Este abusado movimento militar promoveu aflitivos dias para a população. Mas, tendo o Governador vencido, o Estado auferiu a edificante administração de Eduardo Ribeiro, ainda hoje fulgurante.

Mas, e os bombeiros? Os bombeiros já funcionavam como unidade militar, subordinada ao Batalhão Militar de Segurança. O Governador, que havia completado a aquisição de material e de pessoal, em 21 de fevereiro de 1893, nomeia novo comandante: João Lemos, tenente do Exército, que, servia em Manaus, por isso estivera ombreado com o Pensador por ocasião da insurreição descrita.

Uma palavra derradeira acerca deste oficial: por ocasião da campanha de Canudos (1897), Lemos comanda um batalhão da Polícia Militar do Pará contra os conselheiristas. Assim, tanto aqui, quanto acolá, encontra-se incorporado à história das polícias militares amazônicas.
Em 20 de junho, o comandante Lemos apresenta Relatório ao Governador. Abaixo, excertos deste documento:

Quartel: O edifício onde está aquartelada a companhia não é vasto, nem pode satisfazer as exigências que a instalação de um estabelecimento desta ordem reclama; mas não dispondo o Estado de outro prédio para onde possa removê-la convenientemente, e, atentas a conveniência da sua localização no centro da cidade, e a probabilidade de com mais alguma despesa fazê-lo atingir as proporções de um bom quartel, me parece conveniente e até econômica a permanência da companhia no mesmo edifício que atualmente ocupa.

Material: O material técnico vindo da Europa e fornecido pela casa Lhand Mason & Co, consta do seguinte: cinco veículos, sendo uma bomba manual, uma bomba química, um carro para condução de pessoal e dois carros de água.
Pessoal: Presentemente consta o pessoal de 58 praças de pré e dois oficiais, e mais cinco inferiores do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (adidos a mesma companhia), que estão comissionados neste Estado, com o fim de auxiliarem a instrução técnica da companhia; faltando para o seu estado completo três oficiais e 60 praças.
Vejamos detalhes do pessoal liberado pelo então Corpo de Bombeiros/DF para subsidiar o congênere amazonense. Em 1892, o Governador Eduardo Ribeiro entendeu-se com o ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, Antonio Paulino Limpo de Abreu (1829-1904), cujo Ministério dirigia os Bombeiros do Distrito Federal. No Arquivo Público estadual, encontra-se o ofício do comandante do Corpo de Bombeiros/DF, coronel Ernesto Gomes Carneiro, de 9 de janeiro, apresentando os subordinados.

Tenho a honra de apresentar-vos o 2.º sargento Francisco de Paula Vieira; furriel Carlos Adeler; cabo de esquadra Eduardo Augusto Ribeiro; e os soldados Rodolpho Steiniger, Augusto Índio de Siqueira e José Luiz de Souza Moura, todos do Corpo de meu comando que por ordem do cidadão ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, transmitida em ofício da Diretoria de Viação, de 7 do corrente, para a cessão em comissão no Corpo de Bombeiros deste Estado.(...)

Embarcados no Rio a 2, os bombeiros federais desembarcaram aqui a 26 de janeiro. Logo após o primeiro segmento da sublevação, cometido no réveillon de 1892. A situação política de Manaus fervilhava, relembro. Em fevereiro, o governador sobrepujaria a disputa definitiva, contando entre outros com os federais.

Os Bombeiros, livres desse percalço político, remataram a consolidação do serviço contra incêndios, sob o comando do major João Lemos. Diante do melhor desempenho, os visitantes receberam do governo substancial estímulo: a promoção. Os sargentos, ao posto de alferes, e os demais, à graduação de 2.º sargento. Assim se realiza a consolidação do Corpo de Bombeiros.

Apesar de todos os encantos, a missão federal permaneceu pouco mais de seis meses na cidade. Um a um foram voluntariamente pedindo para voltar: o sargento Francisco de Paula Vieira, a 23 de junho; o bombeiro José Luiz de Souza Moura, a 14 de julho; o cabo Eduardo Augusto Ribeiro, a 16 de agosto. Apenas o alferes Carlos Adeler permanece um pouco mais, mas deixa alguns registros desabonadores.

Bisbilhotices observadas: A presença de um homônimo do Governador, o cabo Eduardo (Augusto) Ribeiro, que deve ter padecido algumas chacotas. Outra, o bombeiro Índio, que deve ter sido o primeiro a ser escolhido para integrar a missão, também deve ter propiciado boas gargalhadas.

No Estado, por esses aditivos foi reorganizado o Corpo de Bombeiros. Houve a conjunção de ajudas militares; o comando de oficial do Exército e a presença de graduados bombeiros federais. E, mais uma vez, sob a determinação de Eduardo Ribeiro.

Os Bombeiros, até então ocupando edificações inadequadas, ocupavam o primeiro quartel, ainda assim, arrumado na atual rua Marechal Deodoro. Sobre este aquartelamento, todavia, nada mais foi informado. Era muito pouco, urge aclarar a localização. A informação é insuspeita, porque registrada em Mensagem do Governador Fileto Pires, de 4 de março de 1897.

O Corpo de Bombeiros ainda está localizado no arruinado prédio a rua General Deodoro, porém o chefe do Departamento da Justiça já contratou um novo prédio, atualmente em construção, para alojá-lo convenientemente. O material de Bombeiros reclama uma reforma radical no intuito de habilitá-lo convenientemente a prestar os serviços a que se destina. (segue)








quinta-feira, junho 03, 2010

Memorial Amazonense XXIII

JUNHO, 3



1901 – Morreu em Paris (FRA), Frederico José de Santana Nery, barão de Santana Nery, autor de Le pays des Amazones (1885). Era filho do major Silvério José Nery, e nascido em Manaus, em 1848. Estudou no Seminário São José da mesma cidade, depois em Paris, no Seminário Saint Suplice, onde se formou em letras e ciências. Mais adiante, conquistou o título de doutor em Direito, na cidade de Roma.


Ao tempo de sua morte, governava o Amazonas seu irmão, Silvério Nery (detalhe: tanto o pai quanto o irmão possuíam o mesmo nome). Foi este irmão que providenciou o traslado dos restos mortais do barão para o cemitério local de São João Batista.

O governo do Estado inaugurou também o busto do mesmo barão na praça Osvaldo Cruz, ou dos Bondes, no jargão popular. Mas, na reforma do Centro Histórico promovida pelo Prefeito Jorge Teixeira, o monumento desapareceu.




1909 – Nasceu em Belém (PA), Adalberto Ferreira do Valle. Realizou os estudos secundários em Belém e Manaus, e obteve graduação na Faculdade de Direito de São Paulo, em 7 de setembro de 1931. No ano seguinte (10 junho), fez sua inscrição na OAB/AM. Homem dinâmico e empreendedor, Adalberto Valle conseguiu financiamento para, em 7 de abril de 1951, inaugurar o Hotel Amazonas. Durante anos, foi o mais conhecido e frequentado hotel da Cidade. Participou ainda da instalação da Refinaria de Manaus e da Brasiljuta.


Morreu em São Paulo, em 6 de fevereiro de 1963, após encerrar o mandato de deputado federal pelo Amazonas (1959-1963).

quarta-feira, junho 02, 2010

Lembrança familiar

Desejo recordar o falecimento de dona Doroteia Mendoza, minha madrasta, ocorrido em 2 de junho de 1992. Quando ela casou com meu pai, já encontrou o kit completo, ou seja, começava cuidando de três filhos. E gerou cinco outros. Quem assina o texto é meu irmão:


Dora e Manoel Mendoza,
em Santos (SP)
Renato Mendonça   

Lembrei-me do aniversário de Dona Doroteia — um dos meus anjos, já exaltados em crônicas anteriores — que nos deixou há dezoito anos.

Pessoa maravilhosa com quem convivi intensamente dos oito aos 18 anos. Depois o acaso tratou de nos afastar. Era minha madrasta — palavra que sempre detestei pela aspereza da pronúncia e porque parece trazer no seu bojo um sentido cruel e uma falta de carinho no tratamento. Esse substantivo não lhe caía bem. Não teve o carinho e afeto específico de uma mãe biológica, porque além de mim teve outros tantos para criar. Ela, porém, compensou com a dedicação e o zelo típico das pessoas de bom coração, sem deixar que eu notasse alguma discriminação pelo fato de ser adotivo.


Contribuiu enormemente na minha educação e me apoiou nas horas mais difíceis. Era uma mulher ativa, excelente dona-de-casa e cozinheira. Dona de uma determinação fora do comum.


Decidimos — eu e meus irmãos da primeira geração — mudar seu nome de tratamento para simplesmente Dona. O nome mais curto nos aproximava bem mais. Depois, com o passar dos anos, carinhosamente a chamávamos de Doninha. O diminutivo lhe engrandeceu ainda mais e nos colocou sob sua proteção. Nos últimos anos de vida ainda voltou a estudar, e concluiu o curso secundário.


Ela morreu precocemente, vitimada por um câncer no pulmão sem nunca ter experimentado um cigarro. São os desígnios de Deus! Não vamos cobrá-lo nenhuma explicação, é claro. Ela foi embora, mas deixou lições e ensinamentos. Fatos pitorescos que ficaram gravados no nosso álbum de recordações.


Num dia de minha infância, quando ainda se criava galinha no quintal ou para comer ou para vender — quando a situação estava preta —, acidentalmente pisei em um pintinho, quebrando-lhe a perna. Fiquei apavorado, quando vi a fratura exposta. Levei-o até ela, imaginando que o pintinho seria sacrificado. Na mesma hora ela tentou tracionar a perna do animal para recolocar o local da fratura em situação de “engessar”. O pintinho “berrava”. A tentativa foi improdutiva porque, passado algum tempo, o tendão havia se comprimido. A alternativa encontrada foi cortar o pedaço de ossinho que sobrava. Em seguida, ela pegou dois palitos de fósforo e fez uma tala. Devolveu o pinto à mãe, como se fosse coisa bem natural.


Para minha surpresa, meses depois aquele pintinho tornou-se o galo do terreiro, e não teve qualquer sequela. As pernas do animal ficaram rigorosamente iguais. Milagre? Não sei.
Da esq. Renato, Henrique, Manoel (pai) e Roberto,
ao fundo, Isabel e Vilma, em Barra Mansa (RJ)

E assim levou sua vida. Alegre, sempre disposta. Gostava de, aos domingos, preparar comida especial. Um pouco gorda, não se incomodava com o detalhe. Não fazia dieta e, sempre que havia oportunidade, compartilhava conosco da “caipirinha” ou da cervejinha, apenas para ficar mais alegre.


Nos últimos anos, duros anos de vida, vi a Dona perdendo peso, fustigada pela devastadora doença e pelas internações. Não se entregou em nenhum momento. Tinha sempre a esperança e a fé de curar-se. Era católica fervorosa.


Deixou-nos um legado: a alegria de viver e a resignação com as adversidades da vida, que ela nunca reclamava. Que Deus a guarde em um lugar de refrigério, de luz e de paz. Assim seja!

terça-feira, junho 01, 2010

Deu em O JORNAL

Para recordar dois eventos que preencheram o dia 1º de junho de 1960. O primeiro, a visita de Maysa (ex-Matarazzo, como sublinhava o periódico), que cantou no cinema Politeama, no início da noite, e no Atlético Rio Negro Clube, para a elite da cidade.
Apesar de precária, a foto de O Jornal (2.6.1960) permite observar que a cantora Maysa já não possuía as formas que encantaram o industrial Matarazzo. Devo lembrar que a Rede Globo realizou uma minisérie sobre a saudosa Maysa.



A segunda nota diz respeito a inauguração da escola de datilografia Olivetti, com máquinas dessa marca. Isso mesmo, de datilografia! Bom lembrar que, naquele tempo, era essa o engenho que dominava os escritórios e escolas. Os concursos públicos, como hoje ocorre com a digitação, exigiam dos candidatos certificado e um determinado número de toques. Daí as escolas de datilografia.
O Jornal, 2 junho 1960
A escola Olivetti pertencia ao ex-vereador (depois governador) Rafael Faraco, e estava situada à rua Luiz Antony, 379. Ao evento compareceram Dom João de Souza Lima, arcebispo do Amazonas; o empresário Emídio Vaz de Oliveira, representante da Olivetti; o deputado Arlindo Porto; o doutor Bernardo Cabral, chefe da Casa Civil do Governador Gilberto Mestrinho, que cortou a fita simbólica (foto), e o tenente PM Nathan Lamego de Oliveira, ajudante de ordens do governador.

Na ordem, Rafael Faraco, tenente Nathan, Arlindo Porto,
Dom João de Souza, Bernardo Cabral, Emídio Vaz de Oliveira e
o cônsul da Itália. O Jornal. Manaus, 2 junho 1960

Rafael Faraco nasceu em Parintins (AM) e foi eleito deputado estadual. Quando na presidência da Assembleia Legislativa, assumiu o governo do Estado em substituição temporária ao Governador Danilo Areosa (1967-1971).