CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, fevereiro 22, 2022

POLICIAMENTO DE TRÂNSITO EM MANAUS (1)

A fim de melhor harmonizar o entendimento sobre a evolução do policiamento de trânsito em Manaus, convém uma exposição de apropriados antecedentes: a circulação de automóveis em Manaus era bem diminuta na década de 1950. Todavia, com a instalação de montadoras de automóveis no Brasil, o número foi crescendo paulatinamente e, por óbvio, exigindo mais cuidados com o tráfego, cuja maior evidência eram os primitivos ônibus de madeira. Antecipando o Detran (Departamento de Trânsito), funcionou por décadas a Delegacia de Tráfego, seguida da Delegacia Especializada de Trânsito (DET), ambas instaladas à rua José Paranaguá esquina da rua Floriano Peixoto, nas proximidades do quartel da Polícia Militar do Amazonas (PMAM). Nessa esquina, não obstante o crescimento de veículos, operou a primeira sede do Departamento Estadual de Trânsito (Detran).

Ônibus na "estação" diante do Tabuleiro da Baiana

A partir de 1964, com a instalação do Governo Militar, e com a PMAM se renovando, esta Força tomou novos encargos, um dos quais em relação ao trânsito, tendo incumbido à 2ª Companhia de Fuzileiros (2ª Cia Fzo) o controle do fluxo de veículos. É conveniente esclarecer que a reduzida Força Estadual – cerca de trezentos homens – operava com a equivalência de um batalhão do Exército. Desse modo, no quartel da Praça da Polícia existia a 1ª companhia, que cuidava das guardas em geral; a 2ª, já circunstanciada; e a 3ª, intitulada de Grupamento de Policiamento Ostensivo (GPO), que abrigava o policiamento do “Cosme-Damião”; o pessoal de administração, mecânicos e artífices, mais os integrantes da Banda de Música estavam sob o guarda-chuva da Companhia de Comando e Serviços (CCSv).

Em fevereiro de 1967, o governo federal de Castelo Branco restaurou a Zona Franca de Manaus. Mediante esta inciativa, o porto de importação atraiu para a capital amazonense um número respeitável de nacionais e estrangeiros. Além de lojas de todas as dimensões, a locomoção desses visitantes redimensionou a circulação de carros na pacata cidade, tanto que determinou novel recorte de policiamento, em geral.

Na ocasião, o controle do trânsito efetuado pela Segunda teve um comandante assaz cumpridor de metas (caxias, em linguajar da caserna): tenente Ruy Freire. Exigente no trajar, exigia o mesmo dos subordinados, que tiravam serviço em pontos fixos e móveis da cidade, todos dotados do temido “talão de multas”. Ao tempo, cada policial cuidava de resolver os problemas encontrados, pois, não havia como contactar com o quartel. Afora o sargento “rondante”. As artérias mais preocupantes, em decorrência do comércio que carecia de carga e descarga e pela aglomeração de fregueses, situavam-se em redor do Mercado Público. Outra bastante agitada, era a rua Marechal Deodoro (antes de se tornar exclusiva de pedestre).


Quartel da Polícia Rodoviária, hoje dos Bombeiros

Essa operacionalidade prosperou até 1971, por conta de um episódio grotesco que apressou a implantação de nova etapa de policiamento. Em Manaus, atuava a Polícia Rodoviária, subordinada à Divisão de Trânsito do extinto Deram (Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas), cujo aquartelamento situava-se diante do entroncamento do atual elevado de Flores, localidade onde em nossos dias opera o Batalhão de Bombeiros Especial (BBE). Próximo ao final de dezembro de 1970, um guarda rodoviário altercou-se com o comandante-geral da PM, coronel EB Maury Silva, amigo do governador Danilo Areosa. Este, ao conhecer o fato, sancionou a lei 1.011, de 31 de dezembro, criando o Batalhão de Policiamento Especial para cumprir o policiamento urbano e rural de trânsito, florestal, rodoviário nas estradas estaduais, entre mais atribuições, e, com este regramento, extinguiu a Polícia Rodoviária do Deram.

O batalhão foi instalado de imediato, posto que foi agraciado com “o acervo patrimonial, inclusive as viaturas” do suprimido órgão controlador. Ainda que desse modo premiado, somente em 1 º de fevereiro de 1971 assumiu o comando o tenente-coronel Pedro Lustosa, que o transferiu para o capitão Ruy Freire, em 25 de março, a fim de assumir a chefia da Casa Militar do governador João Walter. Ruy passou ao tenente-coronel Helcio Motta, menos de um mês depois; Helcio foi até novembro daquele ano, quando passou ao major Osorio Fonseca, que o conduziu até a data do desmembramento. (segue)

sexta-feira, julho 16, 2021

RONDA DOS FATOS, DE L. RUAS

Às voltas com a revisão do livro Ronda dos Fatos, que organizo com os textos do padre-poeta L. Ruas publicados em sua coluna de mesmo nome, esbarrei com a página aqui compartilhada. Escreveu ele sobre o trânsito de Manaus, em setembro de 1963, no extinto matutino A Gazeta. Há quase 60 anos. Imagino sua angústia em nossos dias.

L. Ruas, em sua RG

A Ronda da Morte 

CONTINUAMOS a sofrer, diariamente, o impacto de acidentes de trânsito que arrastam atrás de si os despojos trágicos de uma vitória macabra. Em que pesem as medidas tomadas, inclusive e principalmente, pelo Excelentíssimo Senhor Governador do Estado, salientando-se a colaboração valiosa da Polícia Militar do Estado, os desastres se sucedem quase sem interrupção. Parece-me que só há uma solução: intensificar a fiscalização estendendo as medidas de fiscalização aos pedestres.

Não há quem não fique chocado com a brutalidade de um desastre como o ocorrido na manhã de ontem. Um verdadeiro absurdo! Mal se pode calcular a violência do baque sofrido pela Rural tamanha foi a consequência. E o saldo? Um jovem pai de família, contando apenas trinta e sete anos de idade, estendido no asfalto, banhado em sangue, morto, deixando doze crianças na orfandade...

Diante da morte não há mais solução. Resta-nos pensar nos que estão vivos. Vamos pensar nas crianças que vão para a escola ou que estão voltando para casa. Que os pais tenham mais cuidado com seus filhinhos. Evitem o mais que puderem deixá-los à solta no meio das ruas e das estradas. Se puderem, acompanhem-nos na ida e na volta da escola. Pensemos nos pais de família que vão ou voltam de seus trabalhos preocupados com o sustento dos seus lares. E que os pais de família, motoristas ou pedestres, pensem nas suas famílias e nas famílias dos outros. Os primeiros dirigindo com mais cuidado, não querendo bancar os ases do volante, fazendo acrobacias desnecessárias quando não fatídicas.

É sempre melhor e mais humano perder um minuto na vida do que a vida num minuto. Ou fazer com que os outros a percam. Os pedestres, por sua vez, se convençam de que as ruas e as estradas foram feitas para os veículos. O pedestre deve andar nas calçadas e quando é obrigado a atravessar a rua que o faça com cuidado, observando os sinais de trânsito onde os houver e onde não, observando cuidadosamente. Olhe para um lado e para o outro. Veja se vem algum carro. E só então atravesse. E atravesse o mais depressa que puder.

Pensemos nas mães de família que são obrigadas a deixarem o interior de suas casas, às vezes, para cuidarem de problemas ou da saúde de um filho ou mesmo para se distraírem. Pensemos nos jovens. Nas moças e nos rapazes em pleno esplendor da vida. Que coisa bela a vida! E a vida dos jovens, então! E as moças e os rapazes pensem também, no futuro. Em tudo o que a existência lhes reserva e não se deixem massacrar pelas rodas traiçoeiras dirigidas pela morte.

Burlemos a morte. Façamos uma campanha de consciência simultânea à campanha de fiscalização. Não é possível que não nos perturbemos vendo e sabendo a morte, todos os dias, de pessoas conhecidas, de amigos, de parentes. Façamos uma campanha contra a morte em favor da vida. Não consintamos que a morte nos surpreenda na sua ronda fatídica e traiçoeira. E estupida. Mas não basta que os soldados da PM multem, apreendam carteiras, prendam motoristas. Isto é necessário, mas não é tudo. É preciso que saibamos respeitar os outros, o nosso próximo, e respeitá-lo, principalmente, naquilo que é a sua maior riqueza: a vida. Mas, para que saibamos respeitar os outros é preciso que nos saibamos respeitar. Respeitemos os nossos direitos. Respeitemos a nossa vida. 

quinta-feira, abril 18, 2019

ÔNIBUS DE MANAUS: PEQUENA HISTÓRIA


O episódio de trânsito abaixo descrito aconteceu em 1963, na praça da Matriz, também conhecida por estação dos ônibus. Não muitos coletivos. Mas todos construídos segundo os anseios do proprietário e a “tecnologia” regional. Diante da foto, a amostragem é patética.
A direita, vê-se detalhe do posto de gasolina Texaco, existente aos fundos dos Correios. Pode-se ainda distinguir a silhueta dos Armazéns J. G. Araújo, que um incêndio, em 1990, destruiu.



A postagem provém da publicação do matutino A Gazeta (de 14 dezembro 1963). Sob o título de A CIDADE EM FOTO, o matutino colhia aspectos bem distintos, alguns caricatos, da cidade que começava a sair do marasmo. Prestes a adentrar o regime militar de 64, que, para nossos gaudio, revigorou a Zona Franca de Manaus. 

TUDO AQUI É TRÂNSITO  
A carrocinha de refresco ficou na contramão e o ônibus cara-chata teve que esperar a vez para passar, mas o próprio dono do pequeno veículo dirigiu o trânsito, coisa que ele conhece muito bem, por ser guarda-de-trânsito aposentado. É o “Caneco Amassado”, um dos remanescentes da Inspetoria de Tráfego, e que sabe de cor-e-salteado a estória dos ônibus da cidade.
Daquele primeiro, de fabricação sulina que apareceu e depois foi vendido para a Força Pública (nome antigo da Polícia Militar); conheceu aqueles de um cidadão, salvo engano, por nome Bohadana, que a “Manáos Tramways” comprou para evitar concorrência. E viu Adelelmo Marques, o Dedé, meter no tráfego o “Periquito da Madame”, um caixote em cima de um chassi, se tornar de fato e de direito o verdadeiro pioneiro do transporte coletivo automotor da cidade.Viu os ônibus crescerem, feitos aqui mesmo em Manaus, pelo Damasceno, o “velho” Pires, Lamego e outros; “Gilda”, “Perna de Pau”, “Fracasso”, “São Cristóvão”, os “Manaus”.
Uma dificuldade, os ônibus de Educandos subirem a “Baixa-da-Égua”, até que o Stenio [Neves] apareceu na Prefeitura, e resolveu o problema. Praça 14 pela Major Gabriel e Leonardo Malcher, sem dar o circular. E os coletivos foram aumentando e tomando conta da cidade. Começaram com passagem a dois cruzeiros e hoje já está em 30 [cruzeiros].
Mas sem esquecer o “Zepelin” feito pelo Barata e vendido ao Moleiro aquele ônibus gigante, que o Zildo Naveca, no tempo o “Pequenino” e hoje diretor da Transportamazon, guiava. E esses carros bonitos, últimos modelos, da Transporte. A estória dos ônibus é tão comprida, que é bem melhor ficarmos por aqui, olhando o “Lamego” e o “Aurora”, e a carrocinha do “Caneco Amassado”.
Nota: Acrescentei posteriormente a foto abaixo para melhor entendimento
A estação de ônibus, vendo-se a sede dos Correiros e o relógio e o JG.