CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, setembro 19, 2026

REABERTURA DA PONTA NEGRA - 50 ANO0S

 Hoje eu aprendi que a Rodovia BR 319, que, nos dias atuais, passa por reparos, foi aberta à circulação em março de 1976, ou seja, há 50 anos. No mesmo ano festivo para Manaus, também aconteceu a inauguração do Aeroporto Eduardo Gomes e do Tropical Hotel Manaus. Para relembrar mais um momento de comemoração pelos 50 anos, o prefeito Jorge Teixeira, em setembro daquele ano, reabriu ao público a praia da Ponta Negra, devidamente recuperada. 

Jornal do Commercio, 21 setembro 1976

Com um show aéreo proporcionado por aviões da Força Aérea Brasileira e perto de trinta mil pessoas, participaram domingo, pela manhã da programação de reabertura da nova praia da Ponta Negra. Informalmente, o prefeito Jorge Teixeira de Oliveira presidiu a solenidade de reabertura daquele logradouro público, que contou ainda com a presença do governador do Estado, em exercício, João Bosco Ramos de Lima, do coronel Alfredo Bruno Menescal, comandante da Base Aérea de Manaus e outras autoridades. Falando na oportunidade, o prefeito Jorge Teixeira de Oliveira agradeceu a presença do grande público banhista e disse entre sorrisos: “Vocês nada têm que agradecer, nós apenas cumprimos com a nossa obrigação”.

O governador em exercício também falou no momento e sem ser prolixo afirmou, em meio ao seu improviso: “Esta é mais uma oportunidade de provarmos o grande trabalho que vem sendo desenvolvido pela Prefeitura de Manaus”. Também ressaltou o trabalho realizado pelo prefeito Jorge Teixeira, anunciando que dentro de mais 30 dias, todo o projeto de urbanização da Ponta Negra estará efetivamente concluído. “É mais uma alternativa que o governo oferece ao povo para seu divertimento”, frisou o vice-governador, recebendo os aplausos da multidão.

Como homem simples, o prefeito Jorge Teixeira se misturava com o povo, vestindo uma bermuda branca. Ficou provado a grande popularidade que o prefeito desfruta junto ao povo que o aplaudia incessantemente, numa das maiores manifestações populares já vista em Manaus. Todos faziam questão de apertar as mãos do prefeito Jorge Teixeira, em meio aos empurrões e explosões de euforia. Enquanto uns davam vivas ao Prefeitão, outros improvisavam meios de saudá-lo, cantando, acompanhados por violões e batidas de caixas de fósforos.

Espontâneo, o prefeito Jorge Teixeira mostrava-se sempre sorridente, parando aqui e acolá, para receber os cumprimentos da grande massa. E pela primeira vez, os banhistas amazonenses sentiam-se protegidos pela presença de salva-vidas, colocados em áreas estratégicas, prontos para entrarem em ação a qualquer momento. O deslocamento de salva-vidas para a praia, foi uma colaboração da Polícia Militar do Amazonas, atendendo solicitação do prefeito. Dentro de mais alguns dias, toda a extensão da praia e estrada de acesso, receberá iluminação a mercúrio. tornando o logradouro mais magnífico e belo. Após a inauguração da praia, ficou provado também que o povo sabe retribuir as grandes realizações governamentais, aplaudindo os governantes, gritando seus nomes, numa explosão sincera de agradecimento e sensibilidade.

 

segunda-feira, agosto 10, 2026

MEUS OITENTANOS (13)

FASCÍCULO 13

Ao retornar das férias, em início de 1975, fui lotado no comando-geral em atividade burocrática. Em março, Henoch Reis assumiu o governo do Estado e, em abril, o coronel Mário Ossuosky, o comando da Força Estadual, no qual permaneceu pouco mais de quatro anos, constituindo-se, portanto, no comando mais duradouro no Governo Militar. Construiu e reformou várias instalações; ampliou o efetivo para atender o interior; estimulou o crescimento dos clubes sociais, enfim, ampliou com vantagens a legislação policial. Seu ato corriqueiro de convidar oficiais para o almoço em restaurante da cidade estimulou o surgimento do CVC – clube dos velhos coronéis, que segue se reunindo no almoço da última sexta-feira do mês.

Quartel da PM na Praça da Polícia, sem data

O desarranjo familiar havia se instaurado e, diante do quadro, cuidei de buscar onde morar. A residência do Morro estava desocupada, então aproveitei para nela me abrigar, obrigando-me a custear arranjos na casa, em primordial construindo um banheiro interno, a fim de descartar a “casinha” no fundo do quintal.

Após três anos distante da faculdade, desde que frequentei o CAO em Fortaleza, voltei aos estudos, porém, o sistema de créditos fez estender por alguns anos a conclusão do curso. Foi necessário bastante empenho, pois havia perdido o entusiasmo, a turma inicial com o bloco de estudos e de zorras na periferia do Mercado Adolpho Lisboa. Pouco lembro de como levei os estudos, mas consultando o Histórico Escolar percebi meu relaxamento, sendo aprovado em várias disciplinas com o índice mínimo (5); após ser agraciado no início do curso com a Ordem dos Cobras. Somente me recordo que, em 1979, estive fora de Manaus e, em 1980, enfrentei as disciplinas básicas, como Estudo de Problemas Brasileiros e Línguas. Os calouros de 1980 não entendiam como eu estava ali, se estava encerrando o curso. Outro detalhe: as aulas eram ministradas no antigo prédio do Seminário São José, onde vivera nove anos, então ocupado pelo ICHL.

Prédio do Seminário em reparos pela Uninorte,
após a saída do ICHL 

* * *

Duas obras portentosas distinguiram Manaus em 1976: a inauguração do Tropical Hotel Manaus, empreendimento da Varig, em março; e do moderno aeroporto Eduardo Gomes, em julho, ocasião em que o Ponta Pelada foi transferido para a Base Aérea. Na condição de chefe da 4ª Seção, encarregada do registro de bens e dos imóveis, entre outros encargos, prosseguia em atividade no comando da corporação. No começo do ano, foi decidida a contratação de funcionários civis, com ênfase no elemento feminino. Entre outros entraves, surgiu a questão da assinatura das CTPS, estranhamente restou à seção que dirigia, com a exclusão da Diretoria de Pessoal. A fim de cumprir a atribuição, dirigi-me à repartição do Detran, que funcionava no mesmo quarteirão do quartel, dirigida por oficial da PM e dispondo obviamente de departamento de pessoal. Recebido pela chefa Raimundinha e sua auxiliar C. Cordeiro, fui me inteirando dos pormenores trabalhistas e ali retornei em várias ocasiões, sempre que surgia uma dúvida funcional, ou interessado na ajuda cada vez mais afetuosa da auxiliar.

Nessa ocasião, tendo obtido a separação conjugal pelo desquite, ato judicial existente até o ano seguinte, estava livre para nova paixão, no entanto, já havia substituta. E a minha situação afetiva iria se complicar ainda mais com a admissão das funcionárias em 4 de abril. A dezena de celetistas foi distribuída pelas seções do comando-geral, e a Leda Maria foi classificada na 4ª seção. Designei-a para a função de efetuar os registros do pessoal civil, o que me deixou aliviado. Inegável que a presença feminina, rompendo a corrente machista mais que centenária, promoveu um alvoroço no corpo policial. Há registro de casamento de uma delas com um oficial, eu me contive apenas namorando a minha estagiária.

Em junho, completei 10 anos de atividade policial, adquirindo o direito à licença-prêmio (6 meses). Não me recordo qual a motivação, mas me empolguei com o anúncio de emprego no Tropical Hotel e, melhor, porque a vaga era de comprador. De pronto, imaginei os ganhos que poderia usufruir, como havia desfrutado na tesouraria da PM. Com a finalidade de conquistar a vaga, busquei o “padrinho” Luiz Pinheiro, coronel reformado, que trabalhava na Varig há anos. Ainda hoje guardo o cartão de visita com que me apresentou ao Sr. Carvalho Leite, CEO da Companhia Tropical de Hotéis da Amazônia, em Manaus. Com tamanha recomendação, consegui a vaga, passei então a providenciar a CTPS, que foi emitida em 23 de julho. A seguir, veio a contratação em 6 de agosto, com salário de Cr$ 4.000 por mês, no cargo de Comprador.

Cartão pessoal do coronel Luiz Pinheirinho.

CTPS ☝e contrato de
trabalho 👇


Ao me apresentar no hotel, contudo, soube que a contratação havia sido anulada, por motivo de que o comprador titular, o português Mário Bento, não mais seguiria para Recife, pois o empreendimento nordestino da Varig fora cancelado. Dessa maneira, meu contentamento não se consumou e, caso quisesse permanecer empregado, teria de aceitar a subchefia; o recém-chegado não titubeou: “Ajoelhou, tem que rezar.” Frequentador daquele quartel centenário, o hotel me deixou deslumbrado por diversas razões, como certamente haveria de impressionar a qualquer viajante; erguido à margem do rio Negro, em trecho da praia da Ponta Negra, exibia uma arquitetura moderna, embora não dispusesse de elevadores, de modo que a circulação era realizada a pé. Além do centro comercial com lojas de conceito, havia uma boate aberta ao público nos finais de semana, onde muito me fatiguei. Outro relevante pormenor era a quantidade de colaboradores em número superior a 800, somados o pessoal de hotelaria e os operários empregados na conclusão da edificação. Para atender a esse movimento de pessoal em rodízio de hora em hora, o Tropical pôs em circulação entre o hotel e a Praça da Polícia, no Centro, um ônibus caracterizado da empresa, importado dos Estados Unidos.

Esforcei-me ao máximo para me adaptar ao novo ambiente; apesar dos esforços, capitulei perante interesses mesquinhos de auxiliares e intrigas pessoais envolvendo minha companheira CVC, também funcionária do hotel. No final do ano, o titular das compras, Mário Bento, saiu de férias e permitiu que eu assumisse a seção, ocasião em que passei a conhecer mais de perto os dirigentes do estabelecimento. Aproveitei para circular por todo o hotel e, ao fim, conheci-o por completo. Guardei na memória a figura do espanhol Diego, gerente geral, a ponto de ter empregado seu nome no filho que nasceu posteriormente. Aproximava-se o término da licença-prêmio e havia expectativa na corporação: se eu me mantivesse no Tropical e optasse por sair da PM, abrir-se-ia uma vaga para promoção. Cercado dessa dubiedade, festejei a chegada de 1977, residindo na rua Amazonas, no Morro. (segue)

sexta-feira, janeiro 06, 2023

CATALINAS: ADEUS

 Nascido em Alagoinha (PB), em 1913, e falecido em Manaus (AM), em 2010, Waldemar Baptista de Salles chegou ao Amazonas muito moço, tendo realizado o curso primário no Colégio D. Bosco e o secundário no mesmo colégio e no Ginásio Amazonense Pedro II. Diplomado contador pela Escola de Comércio Sólon de Lucena; engenheiro-agrônomo pela Escola de Agronomia de Manaus; e bacharel pela Faculdade de Direito do Amazonas, onde foi professor assistente. Foi procurador e secretário estadual da Fazenda.

Eleito para a Academia Amazonense de Letras, cadeira 40, foi empossado a 25 de julho de 1969 na presidência de Djalma Batista, saudado por Mendonça de Souza.

Além de farta produção esparsa nos jornais de Manaus, Salles publicou os seguintes títulos:  Pétalas Rubras, 1956; Aspectos Geográficos do Amazonas, 1966; Uma Voz Dentro da Noite, 1975; Geografia Econômica do Amazonas, 1971; O Amazonas: o meio físico e suas riquezas naturais, 1967; Nosso Tempo, 1980.

De sua produção em jornais, compartilhei esta postagem sobre o lendário avião Catalina, publicada em A Crítica (24 julho 1984), sinalizando “a despedida dessa aeronave da região amazônica”.
 

Fragmento do referido jornal


A região amazônica é imensa. Conhecê-la e conquistá-la tem sido um trabalho duro, cansativo, pleno de heroísmo e dedicação. Nesse desbravamento, já se referia o engenheiro Leopoldino Cardoso Amorim Filho em relatório publicado em Manaus – 8 de novembro de 1972, tratando de pioneirismo e desenvolvimento. Ele nos afirmava: "2 – a aviação continua com sua característica de pioneirismo e aqui também representada pela Força Aérea, pelos táxis-aéreos, pelas empresas de transporte regular, por aviões particulares e helicópteros: profissionais, homens idealistas, outros imbuídos do espírito de aventura, todos unidos como nos velhos tempos, executando as tarefas que lhes são atribuídas através do transporte aéreo".

Atualmente esta cidade de Manaus, encravada na selva imensa, é servida por aviões Bandeirantes; a jato, de diversas companhias, sem contarmos as pequenas aeronaves, que fazem as linhas para o interior do Estado, cruzando municípios distantes, pousando às vezes em campos inadequados, onde a experiência do comandante é fator importantíssimo no cumprimento de suas atividades e missões. Porém, há muitos anos, entre os diversos tipos de aviões, que integravam as várias companhias, existiam os chamados "Catalinas", usados pela extinta Panair do Brasil S/A, e pela FAB, aparelhos esses que levantavam voos e pousavam no aeroporto da Ponta Pelada.

Eram aviões anfíbios, porque pousavam em terra e em águas tranquilas e prestaram, na região amazônica, grandes e inestimáveis serviços. Viajar de navio, lancha e motores pelos inúmeros rios da área continua sendo uma tarefa demorada e exaustiva. E, anteriormente, para abreviar as distâncias e atender compromissos inadiáveis, fossem eles de interesse público ou particular, os “Catalinas” resolviam a situação.

Antigamente para se ir de Manaus ao Sul do país, de avião, antes do jato, era muito demorado e cansativo. Os aviões quadrimotores rumavam de Manaus com escalas em Santarém, Belém e, no pinga-pinga danado, pelo litoral. Os passageiros entravam na aeronave às sete horas da manhã e chegavam ao Rio de Janeiro à noite.

Quantas vezes, de férias na repartição, não fizemos este trajeto. Era preciso paciência e tempo. Em Belém do Pará chegávamos na hora do almoço. Desembarcava todo mundo e, depois de uma hora, reiniciávamos a viagem de novo, no mesmo avião, para o Rio de Janeiro, onde, lá pelas oito ou nove horas da noite, desembarcávamos no aeroporto Santos Dumont. Uma verdadeira prova de resistência, paciência e coragem.

Mas, em nossa região, usados pela Força Aérea Brasileira, na sua difícil e gloriosa missão de desvendar os recantos da pátria, os aviões "Catalinas" desempenhavam papel importante, de reconhecida utilidade. O povo, na sua ironia cabocla, os chamava de "pata choca", pelo tamanho das asas e volume, bojudo, meio lento, comparado com os atuais aviões a jato, que encurtam as distâncias.

Um saudoso Catalina em operação, em algum rio amazônico

No regresso a mesma escala, de Parintins à Manaus, passando por Maués, onde o desembarque era em canoas, lanchas e pequenas embarcações, que ficavam rodando em torno do hidroavião. E, em dias da semana passada, conforme já noticiaram a imprensa e a televisão, os “Catalinas” se despediram da região amazônica, na qual serviram durante mais de quarenta anos, cruzando fronteiras, firmando a nacionalidade, integrados na aviação civil e na Força Aérea Brasileira, cruzando os céus do Brasil. Na realidade foram os pioneiros e inestimáveis serviços prestaram a todos nós, que vivemos na terra dos grandes rios, imensas paisagens, e enormes distâncias...

terça-feira, dezembro 13, 2022

DESASTRE DO PP-PDE: 60 ANOS (2)

 Como enunciado na postagem anterior, nesta data de 1962, o Constellation PP-PDE passou o dia em reparos no aeroporto de Val de Cans, em Belém. Os passageiros embarcados no Nordeste com destino a Manaus foram acomodados, pois o voo somente teve prosseguimento ao final da noite.

Desse modo, quando do check-in em Belém, tomaram assento no avião 43 passageiros e 7 tripulantes, a mesma tripulação desde a saída do Rio.

A Gazeta, Manaus, 14.12.1962

Embarcaram em Belém (PA)

Ermindo Fernandes Barbosa (industrial); Candido Acciai (italiano); Sirio Simoni, José Haroldo Andrade; Maria Luísa Chauvin Chase e 5 filhos (Paulo Eugenio, Mauro Bernardo, Luísa Helena, Doris e Carlos Otávio); Maria América Farias Miranda; José Luís Nunes Pinto (médico), a esposa Maria Pinto e a filha Nair Pinto; Aline Linhares Teixeira e 2 filhas (Aline e Ângela Ester Linhares Teixeira); Kassen Merahim; Hugo Macario de Brito (engenheiro); Norbert Mannicke (alemão); Walter do Nascimento Meguins e Pedro Alves Ferreira (da Petrobras); Mauricio Samuel Ohana; Elias Jocayed; Jackson de Albuquerque Pinto (tenente aviador); Amaro Alves da Rocha; José Ribamar Nascimento Santos (sargento EB); Youssef Makarem; Aymoré de Paula e Souza (jornalista) e José Roberto Blanco.

Em trânsito do Recife (PE)

– Emília Benassuly Cohen e a filha Jannete Abraham Cohen (8a);

de Fortaleza (CE)

João Ivan Paiva; Ana Benita Peres Pontes; Peggy Blanche Farrance (inglesa); Geralda Santana Marques; Joaquim Cordeiro da Cruz; Milton Matos Rocha (deputado estadual do Acre) e seu filho João Alberto Pinheiro Rocha; Waldomir de Holanda Cavalcante e dois familiares (não identificados) e Pedro Vieira de Castro.

Os tripulantes:

A partir da esquerda: Fernando e
Simonidas - comissários, e Barcelos -
copiloto (Última Hora-PE, 16.12.1962)

Dalvo da Costa – comandante / Kenir Barcelos da Silva – copiloto / Orlando Medeiros Paiva – rádio telegrafista / Wander Ottoni de Souza – mecânico de bordo / Fernando Davi Fonseca / Rui de Almeida Pereira / Simonidas Jesus da Silveira – comissários. 

Todos a bordo, a aeronave da Panair do Brasil decolou às 23h (GMT local) com destino ao aeroporto Ponta Pelada, hoje Base Aérea de Manaus, onde infelizmente não aterrissou. (segue)

segunda-feira, dezembro 12, 2022

DESASTRE DO PP-PDE: 60 ANOS

 Nesta data, há 60 anos, decolou do aeroporto do Galeão com destino a Manaus, escalando pelo Nordeste, o Constellation PP-PDE da Panair do Brasil. O destino da aeronave seria interrompido a cinco minutos do aeroporto de Ponta Pelada, matando todos os 50 ocupantes ao se desmantelar na selva. A penúria de nossa cidade, assim como de organismos federais, fez com que os destroços fossem alcançados em incompreensíveis 10 dias.

O Constellation em aeroporto não identificado

A fim de melhor compreender o fato, devo explicar que ao tempo uma viagem tão longa não era alcançada no mesmo dia. Desse modo, o PDE depois de cruzar o Nordeste escalando em quase todos os estados a partir de Maceió, aterrizou em Belém no final da noite de 12 de dezembro de 1962.

Por motivos não elucidados, o avião passou o dia imediato no hangar do aeroporto Val de Cans em reparos. Os registros de periódicos nada acrescem sobre esse impasse, somente que o avião voltou a decolar para Manaus cerca das 23h local. A previsão da viagem era de três horas, no entanto, ao se aproximar do Ponta Pelada desapareceu na selva. Outra observação: no ensejo, o contato entre uma aeronave e o centro de controle era realizado pelo rádio e o telégrafo, daí a importância de um rádio telegrafista na tripulação.  


Logo da Panair do Brasil

Ainda recordando este trágico acontecimento: pensar em uma viagem à noite pela região era autêntica aventura. A fim de apoiar o meio de contato acima comentado, somente existiam duas bases na região: em Santarém (PA) e Itacoatiara (AM), após isso era a escuridão e os extensos perigos da floresta. E foi o que aconteceu com o Constellation PP-PDE que, construído na planta da empresa em Burbank (USA) em 1946, desapareceu nas cercanias de Manaus doze anos depois.

Sobre este desastre – o maior ocorrido na Região Norte – escrevi neste espaço, quando do cinquentenário, algumas páginas. A maioria compilada dos jornais manauaras da época. Neste ano de 2022, estimulado por questionamentos diversos, estou ultimando um livro que, lamentavelmente, sairá no próximo ano.


domingo, outubro 30, 2022

DESASTRE DO CONSTELLATION PP-PDE

 A retrospectiva que escrevo sobre o acidente recebeu o ponto final. Para isso, visitei o CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva), onde no Memorial encontra-se parte de uma Asa desta aeronave. Além de ter dialogado com o capitão Morais Guimarães, que me prestou honrosa colaboração. As fotos da visita são de autoria do genial Carlos Navarro. 

Foto do avião sinistrado em aeroporto não identificado, nem data



Junto a Asa no Memorial e a conversa (abaixo)
com o capitão Morais Guimarães



quinta-feira, maio 26, 2022

AVIAÇÃO NO AMAZONAS: NOTAS

 Às voltas com o desastre do Constellation da Panair do Brasil ocorrido em 1962, revisitei vários arquivos: das Forças federais e estaduais, da agência local da Panair, do Deram e de outros órgãos, como a Petrobras. No Arquivo Público encontrei a Exposição do interventor Álvaro Maia ao presidente Getúlio Vargas, referente a 1942. Nele, Maia registra os primeiros "voos" nessa área.
Capa da Exposição

Dois detalhes sobre o assunto: a Panair do Brasil já voava de Belém a Manaus com o hidroavião Catalina desde 1937. A pista do futuro aeroporto de Ponta Pelada será construída nesta época para facilitar o transporte da borracha, em apoio aos Estados Unidos na Guerra (mas isto é outra história).

NAVEGAÇÃO AÉREA

Intensificou-se a navegação aérea neste último ano, tanto para o interior do Estado, ligando vários rios e municípios, como para o resto do país e para os Estados Unidos. Abrem-se campos de aviação em Manaus, Fonte Boa, João Pessoa [atual Eirunepé]; as demais sedes principais são atingidas por hidroaviões.

Além das linhas comuns da Panair para os rios Madeira e Solimões, também sobrevoados pelos aparelhos da "Rubber Corporation", temos comunicações aeroviárias com os municípios dos rios Negro e Juruá. O Purus é beneficiado pela linha recém-inaugurada da Cruzeiro do Sul, em conexão com a Panair.

As primeiras viagens de Miami à Manaus, por aviões cargueiros, realizam-se com êxito, assim como as viagens experimentais entre Manaus e Talara, no Peru, entroncando o Vale Amazônico às rotas da Panair, ao longo do Pacífico. O Amazonas torna-se efetivamente o centro de ramificações aéreas na América do Sul, conjugando linhas para os Estados Unidos e Argentina, para o Pacífico, e o Atlântico, as quais se unem, por sua vez, às empresas de navegação aérea em todos os países sul-americanos.

Mapa aeroviário do Amazonas (1961)

Anuncia-se, por outro lado, uma linha entre Manaus e Rio de Janeiro, pelo interior do nosso país, escalando, possivelmente, em Cuiabá e Goiânia. Já se realizaram experiências nesse sentido, por aviões nacionais. Evidencia-se a necessidade imperiosa da máxima aprendizagem do Aeroclube do Amazonas, do qual já saíram as primeiras turmas de pilotos, cuja instrução se completa em outros Estados por falta de aparelhos de postos avançados.

Prestigiado pelo senhor doutor Salgado Filho, ministro da Aeronáutica, doutor Avelino Pereira e demais membros da Diretoria do Aeroclube se esforçam para dotar o Brasil de novos pilotos. O campo do Aeroclube encontra-se no bairro de Flores. O Estado tem procurado incentivar o programa dessa patriótica associação. Alguns alunos brevetados prestam serviços no próprio Aero Clube e em companhias comerciais.

É difícil resolver os problemas da Amazônia, tanto os de administração como os de ordem econômica, tanto os de saúde como o de desbravamento, sem a navegação aérea. Planície recortada de rios paralelos, com uma população extraordinariamente esparsa ou nucleada em lagos e terras firmes, apresenta os obstáculos da distância e do tempo, vencíveis pelo avião.

Comunicações de trinta e quarenta dias, perturbadas pelas florestas ou pelas cachoeiras, são resolvidas em horas de aviação, como sucede nos municípios acreanos e nos rios Negro e Branco. A supervisão do Governo Nacional solucionou esse problema.

Rio amazonense e seus afluentes e nenhuma habitação

segunda-feira, outubro 22, 2018

NOTA AUTOBIOGRÁFICA (2)


PARA CONCLUIR A NOTA ANTERIOR, RELEMBRO O DIA 29 DE AGOSTO DE 1968. 

Autor, no quartel da Rádio Patrulha
Dia 29 de agosto: ao amanhecer no quartel da PM, em Brasília, soube que tomaria uma carona o mais cedo possível para o aeroporto, pois, a partir do desfecho da incumbência policial planejada, ninguém podia prever nada. Fazer o quê? Sujeitei-me à oferta, não obstante embarcar somente depois do meio-dia para Manaus. Os destroços observados em São Paulo na véspera, acumulados com a preparação policial para a desocupação da Universidade de Brasília (UnB), constituíam para o coitado do tenente caboclo um inferno.
No aeroporto, com a chegada dos passageiros vindos da cidade o burburinho se avolumava, e assim fiquei sabendo de mais detalhes da operação policial na Universidade. Estranho, quando os estudantes invadem as dependências da escola, são chamados de ocupantes; no entanto, quando a Força Policial em cumprimento à ordem judicial desocupa as mesmas dependências, tornam-se invasores. É desse modo que a desocupação cinquentenária hoje é conhecida: Invasão da Universidade.

Enfim, um quadrimotor DC-4 (da VASP ou VARIG) aterrissou para, nessa escala, recolher os passageiros com destino ao aeroporto de Ponta Pelada. Enfim, lá fui eu… Depois de um mês fora de casa, avido por retornar para os parentes e a namorada, conduzindo uns poucos mimos, que mais desejava era que aquele avião voasse o mais rápido possível, para me afastar daquele tormento que havia presenciado no país de 1968.

O Ponta Pelada possuía uma acanhada estação, inaugurada em 1954. Como em todo Brasil, em Manaus a aeronave estacionava no pátio interno e os passageiros desciam as escadas e, aturdidos pela canícula, caminhavam rápido em direção à estação de desembarque. A Zona Franca de Manaus principiava a atração sobre investidores e, ao mesmo tempo, sobre aproveitadores. Dessa maneira desembarquei, recolhi a mala no terminal e tomei um táxi na empresa do amigo-vizinho Almeida, dirigindo-me à residência de meus pais, à rua Amazonas, nº 29, no bairro Morro da Liberdade, confinante com o aeroporto.
A tarde, porém, ainda reservara outras emoções, e a próxima seria brutal. Já a partir da esquina dessa rua percebi uma movimentação estranha à porta da casa dos “velhos”. Descendo do táxi, observei na sala, pelo tamanho do caixão, o velório de criança. Logo imaginei que um dos sobrinhos de minha madrasta – Dona Dora, estaria acolá. Todavia, qual não foi minha aflição quando esta, em prantos, me acolheu, falando da morte do filho, de meu irmão Ronaldo Cesar, aos onze meses de idade.

Ronaldo Cesar, 1968
O nome deste irmão dispõe de sua historieta, que bem cabe neste relato. Nasceu no ano anterior, quando eu frequentava um curso militar no Rio de Janeiro. Acercando-se seu nascimento (agosto), e como todos os filhos do seu Manuel Mendonça possuem um nome duplo, os pais promoveram um sorteio para a escolha do registro deste herdeiro. Para tanto, cada filho lacrou sua proposta, tendo eu enviado por carta minha contribuição. Acabei vitorioso. Mas, por que escolhi este apelido? Simples: para homenagear um amigo, o capitão homônimo, colega de curso. Além disso, fui escolhido para padrinho do irmão.

Por tudo isso, em instantes, fui levado da euforia do regresso para a severidade da morte, mais ainda, deprimido por não ter socorrido ao irmão. Soube enquanto o velava que sua mãe foi mal tratada no pronto socorro que recorreu. Em suma, eu poderia ter contornado esse trauma, porém, nosso pai, católico fervoroso, nos confortava com a máxima: “foi o desígnio de Deus”.

Verdadeiramente, para mim, constituiu um dia inolvidável!

NOTA AUTOBIOGRÁFICA (1)


Autor, no NPOR, em 1965


Assumo que não me lembrei dos pormenores, afinal são passados 50 anos. No entanto, lendo o Correio Braziliense em edição virtual, fui alertado para o cinquentenário da invasão da Universidade de Brasília pelas forças militares, ocorrida em 29 de agosto de 1968. E o que essa data revela de extraordinário para mim?

Esse dia foi marcante para mim, tendo pernoitado no quartel da Polícia Militar do Distrito Federal, aguardava a carona para o aeroporto, a fim de retornar à Manaus, onde, ao entardecer, deparei-me com outro desastre: o velório de um irmão.


Essa passagem abre-se no ano anterior, quando, em função do curso militar realizado no Rio de Janeiro, vivenciei o embate sustentado pelo Governo Militar.

Aos 21 anos, jovem tenente da Polícia Militar do Amazonas, aproveitei essa estadia para reencontrar parte da família materna. E, de outro modo, estimular o anseio próprio por viagem aérea, afinal o rio Negro nos impede de utilizar outra alternativa de locomoção rumo ao sul do país.

 

Assim, em julho do ano seguinte, aproveitando as férias regulamentares, fui a São Paulo, mais precisamente à cidade de Santos, para o convívio dos parentes. Sem ideia de valores, ou mesmo porque era complicado a aquisição de passagens, adquiri somente o trecho Manaus-Brasília-Manaus. Consumando a ligação entre a Capital Federal e a de São Paulo, de ônibus.

Ao final do período de férias, embarquei em Santos e desembarquei em São Paulo, para encarar o ônibus com destino à Brasília. A rodoviária paulista estava localizada no centro da cidade, próxima ao temido DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Era tempo de forte inquietação, de um lado, com prisões pelo organismo policial e, de outro, pelos ataques e atentados de parte de militantes contrários ao governo.

Para minha maior inquietação, na noite anterior, o DOPS havia sido atingido por bombas e outros apetrechos. Circulando pelas adjacências desta delegacia em direção à rodoviária, senti aumentar a adrenalina e, desse modo, o consequente desejo de prontamente alcançar Manaus, a pacata capital amazonense. Em presença desse panorama, com mostras da destruição espalhadas pelo chão, pelas vidraças da delegacia estilhaçadas e algum vestígio de fogo, tratei de embarcar.


Para melhor saber das notícias, somente existiam os jornais e o rádio, devo ter-me socorrido do Estadão para, durante a longa viagem, inteirar-me da situação. À tarde, chegava à Capital Federal, desembarcando na rodoviária tatuada, assim como os transeuntes, pela poeira avermelhada do Centro-Oeste. Localizada no início do plano piloto, hoje serve como terminal do transporte urbano.

Recorri a minha condição de oficial da PM amazonense para, visando economizar na hospedagem e transporte, buscar o quartel central da PMDF onde fui abrigado. O jantar aconteceu com colegas de farda brasilienses, em número avantajado para o serviço normal. Esse efetivo foi o primeiro alarme que me ocorreu sobre a motivação da tropa aquartelada. Adiante, no alojamento, os buchichos dos tenentes deixaram-me sabedor da envergadura da missão designada para o dia imediato. (segue)


segunda-feira, julho 16, 2018

AVIAÇÃO NO AMAZONAS

Apenas para ilustrar a futura história da aviação no estado do Amazonas, e lembrar as extintas empresas de navegação aérea.

Observe os horários e o tempo de voo de Manaus ao Rio de Janeiro. 

Este compartilhamento foi sacado do matutino A Gazeta, de agosto de 1955.  

Boa viagem.