CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

30 de maio de 2016

RAMAYANA DE CHEVALIER

Há 55 anos, este saudoso acadêmico e jornalista, além de oficial médico da Polícia Militar  do Amazonas, escreveu no periódico A Gazeta (29 maio 1961) o artigo aqui postado. Com a capacidade que lhe era peculiar, descreve os três amores de sua vida.
Scarlet Moon de Chevalier



Confidências suaves

TENHO diante de mim meus dois amores. Não é bem assim. Dois dos meus inúmeros amores. Elas se chamam Bárbara e Scarlet. Têm segredos como as outras, são misteriosas e lânguidas, gostam da vida. Observo-as, detidamente, como os meninos o fazem às bonecas, através das vidraças dos magazines luxuosos. Tenho sempre surpresas, quando as contemplo, sem que elas me vejam. Que universo existe no íntimo das flores? Gostaria de ser botânico, para apreciá-las melhor. Um desesperado e honesto botânico, como Ducke, para convertê-las em rainhas vegetais, destacando-as no meu herbário interior.

Sou um viciado do sentimento e não posso viver sem amar. Elas duas me dão emoções tão doces, tão suaves, que eu me transfiguro com o seu convívio. E há um segredo nessa convivência. É que eu descobri o mistério de Narciso, dentro dos olhos de Bárbara e Scarlet. Pelos crepúsculos mais vivos do Posto 6, ponho-me a mirar-me nesses lagos sonâmbulos, que contam histórias do meu passado, que me afagam como pelúcias, que me convidam à divindade.
O que vejo dentro deles? Serão iguais as suas paisagens? Não, meus dois amores são diferentes, uma da outra. São estrelas que fulgissem em céus diversos. Uma é morena, tostada de sol, de passo elástico como o dos antílopes, uma expressão comovente e uma tristeza distante sob as pálpebras. Assim é Bárbara. Muitas vezes a surpreendo mirando as nuvens, perdendo o olhar entre as estrelas, como se decifrasse o futuro das coisas. É a minha sibila. Quando quero adivinhar se há bom tempo no meu destino, é com ela que me consulto. Seus olhos de veludo, de uma expressão de mágoa simples, me conduzem à meditação e à prece.
Com Scarlet é diferente. Viajo nos seus olhos. Vejo asas de gaivotas, velas brancas, horizontes marítimos, palcos iluminados onde se dança a Ifigénia de Gluck, onde deslizam “ballerinas” mais leves do que pensamentos, mais puras do que sândalos. Não há presságios dentro dos olhos claros de Scarlet. O sonho, a beleza da vida, a placidez das horas ternas, tudo isso eu encontro dentro dos seus olhos vivos e alegres como festas juninas.

Adoro estudar o contraste dos meus dois amores. Saltitam dentro deles os sentimentos, lembrando imagens poéticas ou gestos de idílio. Quando me falam, elas mergulham nos meus nervos com a sabedoria dos pescadores de esponjas. Sabem onde me doem as feridas do destino, sabem onde me sorriem as saudades, sabem onde estão guardadas as minhas emoções mais vivas. E são imperativos esses meus dois crucifixos. Eu as ensino a querer uma das artes mais difíceis que há na Terra. Elas já sabem traçar esquemas, para conseguir o que desejam. Batem à porta do templo com segurança. E trazem sempre, de volta, o que aspiram.

Bárbara é líder, de nascença. Sabe comandar tão jeitosamente, que até eu obedeço, cabisbaixo. Prende-me pelo pescoço, gruda os olhos nos meus, fala baixinho, com um código secreto que ela aprendeu com os anjos. Scarlet é sonora, farfalhante, recorda um vestido de baile, luminoso e brilhante. Pede como quem é indiferente às coisas, como quem tem certeza de que eu não posso negar-lhe nada, nem mesmo as minhas horas de fadiga e de meditação. Quem pode recusar uma alegria a um amor profundo? Quando viajo pela Antiguidade Clássica, penso que certos tipos foram copiados dos meus dois amores. A ciranda dos minutos, a criação do mundo, a loucura dos heróis, o vaticínio dos oráculos, o determinismo dos frutos e das searas, a vaga corrida do sol na quadriga das nuvens, tudo isso foi copiado dos olhos e das almas de Bárbara e Scarlet.

Tenho um grande orgulho nelas, porque sempre me vejo espelhado na superfície mansa do olhar de uma, na manhã vibrante do olhar da outra. No silêncio do meu apartamento, vejo-as na parede, como pinturas murais. Uma, decisiva e franca, com um ar de sacerdotisa; a outra, leve e esvoaçante, como o pássaro azul de Maeterlinck. Gostaria que o coração da gente tivesse o destino das gaiolas, e elas nunca mais escapassem da minha adoração. Não tenho inveja de ninguém, por isso. Sou um milionário, tenho tudo o que desejo, sorrio com elas, entristeço ao seu lado, quando uma notinha má no colégio fez o de bruxa no seu teatrinho íntimo. Quem vale mais que duas alegrias sinceras e espontâneas?

Tenho uma tamanha fé em Deus, que estou sempre pronto a perder meus dois amores. Seria como se apagassem, da face da Terra, a luz que nos consola. Seria como se amputassem de todos os jardins, a rosa eterna. Seria como se roubassem à vida o seu sentido místico e delicado. Compreendo a dor dos que sentiram assim. Sei de como é penoso ficar sozinho, vendo o nosso amor partir, sem explicações, sem acenos, sem endereço, sem promessas.

Estou preparado, diante de Deus, para esse golpe. Se acontecer, ficarei buscando só nos olhinhos de uma. Se perder as duas voltarei às origens. Sim, porque elas vieram de um jardim humano, que as fecunda todos os dias com sua imensa ternura. Elas são minhas filhas. E há, no olhar de sua mãezinha, o segredo que as fez tão belas e tão meigas. Não sei se as amo porque sejam uma metade do meu sangue, ou se é porque são a metade do sangue dela, minha companheira incomparável. Talvez seja só por isso.


No fundo, sou enfeitiçado pela minha esposa, até hoje. Vivo procurando-a em todos os corpos, em todas as almas. Vejo-a em todas as conversas, em todos os destinos. Meus amores, que são três, terminarão sendo um no infinito da mulher que Deus me deu. Ou será que ela é que resume todas as outras? Será, mesmo? Sou um cara meio burro, pois passei vinte e sete anos para descobrir isso, essa verdade tão simples e tão universal. Afinal, agora eu sei porque vivo numa permanente lua de mel. Bolas! *