CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de maio de 2016

NOTA PARA O CENTENÁRIO DO IGHA

Robério Braga, no IGHA, em 2002
Na passagem do sexagésimo aniversário do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, fundado em 1917, a Casa de Benardo Ramos recebeu de seu associado Robério Braga, publicado no Jornal do Commercio (março de 1978), o artigo aqui postado.

O INSTITUTO HISTÓRICO

1917 – 1978

Robério Braga


Os caminhos de uma entidade cultural são os próprios passos de seus dirigentes no decurso de sua existência e podem amplamente refletir o vigor da vida literária da cidade, e a imensidão de conhecimentos dos seus vultos mais significativos. Assim, a vida do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), desde 1917, até os nossos dias, tem sido para a cidade de Manaus, sua elite cultural, seu povo, seus estudiosos e pesquisadores, um símbolo e uma honra.

Fundado em 25 de março de 1917, na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Manaus, sob o comandamento de Bernardo Ramos, Agnelo Bittencourt e Vivaldo Lima, o IGHA chega aos nossos dias desfalcados de suas grandes figuras, sentindo profundamente a nova fase e forma de vida da sociedade amazonense.

Criado para divulgar a história e a geografia do Estado, da Amazônia e do Brasil, conservar a notícia histórica sempre viva na comunidade, o Instituto tem servido para sustentáculo da própria vida cultural de Manaus, esculpindo novos mestres e pesquisadores, apoiando tantos outros e procurando ser útil em todos os momentos de sua vida. O Instituto pelos seus dirigentes e membros no decurso de todos estes anos tem contribuído para as letras, ciência e história do Estado e da Pátria, missão que estava determinada no primeiro Estatuto, e na própria filosofia de sua criação.

Carregado de saudade como poucas organizações culturais no Estado, porque sempre ativo, o Instituto chega a esta nova data sentindo a falta de suas mais lutadoras personalidades, de seus maiores idealistas, apontados e vivenciados em todas as fases da vida da “Casa de Bernardo Ramos”. Não faremos desta crônica histórica uma página unicamente de saudade, mas diremos a falta que nos fazem, a nós dirigentes do Instituto de hoje o vigor físico e mental de muitos de nossos membros, senão de todos.

Dos fundadores perdemos o último, que foi Agnelo, o grande mestre da Geografia, o biógrafo perfeito, o pesquisador por excelência; dos presidentes vários já se foram desde Bernardo Ramos, símbolo maior da pesquisa científica em nosso Estado, até o benemérito Rodolfo Valle, partido depois que se foram Jobim, André Araújo, João Corrêa, Antônio Bittencourt, que dedicaram suas lideranças na comunidade sempre voltadas para a vida do Instituto.

É assim que vivemos a data presente. O dia 25 de março de 1978 está envolto em saudade, profunda tristeza, as faltas sentidas para uma dinamização atual do Instituto, porque as forças contemporâneas estão enfraquecendo com a sociedade, vislumbrando rumos que fogem ao deleite cultural, à pesquisa apurada, à dedicação diária ao Instituto, vividas por todos os que já partiram para a terra da beleza e do fulgor dos espíritos iluminados. Tudo isto porque o mundo está correndo demais, porque estamos sendo levados por ele para rumos que não dependem unicamente do nosso comando, que fogem até às nossas aspirações mais marcantes. Corre o mundo, correm os tempos, mudamos nós por imposição da necessidade de sobrevivência material e o Instituto cede lugar a estas aspirações novas que não casam com as suas verdades tradicionais, com a sua história, com a sua filosofia.
                                              
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Mas, uma verdadeira chama de amor, um instinto de valorização do passado ainda prende alguns idealistas àquela Casa, fazendo deles soldados de todas as lutas e honras, impondo a eles prontidão a qualquer momento, porque ali está um exército cada vez mais combalido pelos anos, pelos dissabores da vida, pelo descaso a que se tem relegado o Instituto, pela falta de condição de uma melhor atuação na comunidade, graças ao poderio econômico-financeiro que nos tem faltado. O exército que não está salvando o eterno, porque o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas é eterno, mas que está querendo ampliar as suas fronteiras, abrir as suas portas, receber os mais novos, dar a conhecer os seus arquivos, os artistas de seus membros, ter vida, porque viver é mais importante que existir, está sendo reduzido a cada ano, mas a bandeira estará hasteada e há de ter um novo cristão, um novo historiador, um grupo mais jovem que a faça permanecer de pé, sem quedar um só instante, para que não se manche a honra e a glória  de tantos homens de valor do nosso passado aos quais, sempre que nos lembramos, damos glórias e muitas glórias.

Mas, por onde (...) os membros do Instituto, os seus 40 poltronados, os seus correspondentes, contribuintes, beneméritos, parecem ter fugido de suas fileiras, parecem estar escondidos em seus afazeres diários, na busca do lazer por algumas horas para sustentação do equilíbrio emocional tão necessário na vida moderna. A estes alertamos para a importância de ser e existir do Instituto, seus valores e sua eternidade. Despertem para o que se passa hoje com o Instituto. Procurem os seus salões e sintam como nós, a saudade que será a de sempre, para com os antepassados daquela Casa. Consigam sentir também que o seu calor humano atual tem enfraquecido, faltando-nos esforços de outros companheiros para a perfeita existência do Instituto.

Assim fazemos pública a hora atual do Instituto, em nosso entender, aflitiva para todos que amam aquela Instituição, que aprenderam a frequentá-la, pesquisar e sentir o cheiro de saudade e saber que é desprendido de suas paredes, numa vibração sem limites.
                                              
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O Instituto está nos seus 61 anos e deverá chegar a novas marcas no tempo, vivendo momentos mais animadores porque este é um alerta para todos que se dedicaram àquela Casa, que acreditam na filosofia da Instituição, que deram seu trabalho, inteligência e horas de vida em favor da entidade; alerta, para que voltem aos seus salões, iluminem suas reuniões, abrilhantem suas solenidades, velem pela sua integridade, oferecendo as suas presenças dominicais, fazendo um estudo da vida e da importância do Sodalício na comunidade.


O alerta é uma clarinada vinda das alturas em que repousam os grandes construtores daquela obra, os que dedicaram também suor e trabalho diário em prol da efetivação do Instituto, sua valorização na sociedade, fazendo-o conhecido em todo o País e no estrangeiro, tornando-o sede dos maiores debates científicos sobre a nossa história e tradições, mas sempre unidos em favor do desenvolvimento e do bem da Instituição.