CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de junho de 2016

WALDIR GARCIA: HISTÓRIA

O texto aqui postado é de autoria do saudoso mestre da Escola Técnica Federal e juiz da Auditoria Militar do Estado, Waldir Garcia. Nascido em Silves (AM), registrou de sua cidade inúmeras histórias facetas. Esta é mais uma retirada de livro deste "saracaense".


NACIONALISMO À MODA SARACAENSE

A Missão do Saracá, núcleo de colonização portuguesa fundado no Amazonas por Frei Raimundo, da Ordem das Mercês, em 1663, foi palco do maior massacre indígena na América do Sul, tendo por algoz e principal executor o ferocíssimo Pedro da Costa Favela, que acompanhou Pedro Teixeira em sua memorável viagem de penetração até Quito. Ê o que nos revela a História.
A Missão do Saracá cedeu seu nome – graças a Joaquim de Melo e Póvoas, que criou vilas e alusitanou topônimos amazonenses – à atual cidade de Silves, onde ocorreram os fatos narrados a seguir.

É que a extinção das tribos dos Caboquenas, Bararurus e Guanavenas pelo famigerado genocida Pedro da Costa Favela, pela maneira desumana e cruel como foi feita, deixou mágoas perenes nos descendentes dessas tribos, a revolta interior transmitiu-se por herança, criando-se-lhes, enfim, cesuras incuráveis em seus sentimentos nativistas e telúricos.

No decorrer da segunda Guerra Mundial, os submarinos alemães e italianos, aliados fanáticos e que tinham Mussolini e Hitler a comandar as ações belicosas, afundaram vários navios nossos na costa atlântica brasileira, e, dentre eles, o Baipendy, do Loide Brasileiro, que costumava fazer a linha regular entre o Rio de Janeiro e Manaus. A notícia do afundamento do Baipendy revoltou Manaus: atearam fogo e saquearam casas de estrangeiros alemães e italianos, que se supunham mais chegados ao nazismo e ao fascismo, havendo verdadeira explosão de sentimento xenófobo.

A notícia de incêndios, saques e agressões a casas de alemães, italianos e japoneses chegou logo a Silves, onde, fazia anos, se estabelecera um italiano ainda moço, o comerciante Alberto Ianuzzi, que comprou de meu pai uma fazendola em frente à cidade: a Demanda. Ali Alberto fez progredir seu comércio, e era um tipo alegre, bonitão e conquistador pávulo das cunhantãs saracaenses. Vendia caro e praticava o escambo com sucesso, enriquecendo dia a dia. Por isso, os caboclos não o viam com bons olhos, porque: marupiara nos anos, estúrdio no comércio e soberbo nas reuniões sociais de que participava, era sempre o mais notado. Não gostava de vender fiado, e isso irritava ainda mais sua arisca freguesia.

A notícia da revolta ocorrida em Manaus contra alemães e italianos despertou, em Silves, nos descendentes dos Guanavenas, a hora da vingança. Vários elementos se reuniram e tramaram a ação de cunho nacionalista: Joaquim Turra e Bonrana, e outros mais, aliciaram companheiros para uma ação rápida e destruidora, verdadeiro golpe-de-mão recentemente aprendido em Manaus pelos últimos reservistas saracaenses egressos do 27º B.C.

Alberto foi avisado da trama preparada e prudentemente retirou-se para a casa de seu irmão Carlos Ianuzzi, residente no município de Itapiranga. Numa manhã de agosto de 1942, muito cedo, dezenas de montarias conduzindo os revoltosos armados de arpão, flechas, espingardas que funcionavam com espoletas "Pica-Pau" e rifles "papo amarelo", rumaram para a Demanda.

Em ali chegando, não encontraram Alberto e sua família e passaram à ação: mataram bois, carneiros, porcos, galinhas, fizeram churrascos, comeram. Beberam o estoque de cachaça "Jararaca" deixada na última viagem do Barão de Cametá. Saquearam o comércio e tocaram fogo na casa. Foi uma destruição total.

Chega a Manaus a notícia do saqueio e destruição da casa comercial de Alberto Ianuzzi. O Chefe de Polícia, Dr. Antônio Cavalcante de Oliveira Lima, credenciou o advogado Dr. Teves de Alencar Dias Pinto para investigar os fatos e instaurar inquérito policial. O advogado chega a Silves e inicia a investigação sumária. Vai indagando de um a um corno os fatos aconteceram, e depois de ouvir muitas evasivas, defronta-se com o caboclo Joaquim Turra, que lhe fez estas indicações.

Pergunta o advogado Teves: Quem foi que iniciou o ataque à casa do Sr. Alberto Ianuzzi e quem tomou parte nele? a que Turra responde: Sei que tomaram parte no ataque: o Sr. Tapiú e seus filhos Walter e Diquinho; o Sr. Benedito Mucuim; o Sr. Raimundo Macaco; o Sr. Manoel Boto e seu filho Tote Boto; o Sr. Bento Jabuti; o Sr. Manoel Socó; o Sr. Dico Jacaré; o Sr. Daniel Capivara e seu filho Zito Capivara; os filhos do Sr. André Guaríba; o Sr. Manoel Garça; o Sr. Armínio Onça; o Sr. José Pacu; o Sr. Manoel Suçuarana; o Sr. Joaquim Peixe-Boi; os netos do Sr. Chico Padre e outros.

E quem deu armas a essa gente toda, inquiriu o advogado-policial. Responde Joaquim Turra: Foi o Sr. João Rola...

Sabe-se que o advogado em missão policial, à míngua de maiores informes nominais para identificar os saqueadores, concluiu o inquérito sem poder indiciar os culpados em seus verdadeiros nomes, e o inquérito encaminhado à autoridade judiciária competente, por falta de base para a denúncia, foi arquivado, sem prejuízo do que dispõe o artigo 18 do Código de Processo Penal.