CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

5 de janeiro de 2014

RELÓGIO MUNICIPAL



Relógio Municipal, na década 1940
Referência da Praça da Matriz, o Relógio Municipal foi instalado no local em 1927. Portanto, há mais de oito décadas marca os passos e disciplina a rotina dos manauenses. Já deve ter perdido sua função primordial, a de marcar as horas, diante de tantos recursos a nossa disposição. Mas, uma frase, como um dístico, ornamenta o relógio. Poucos se dão conta de sua mensagem, até porque escrita em latim.
Doutor Antônio Loureiro, um austero estudioso de nossa história, de nossos costumes, trouxe em seu último livro a exata tradução da frase e, mais que isso, o seu significado. Significação que certamente continua a nos importunar, a cada minuto... 

Vulnerant omnes ultima necat (*)
Antônio Loureiro
No velho relógio, que há mais de setenta anos marca as horas de Manaus, está gravada essa frase insólita, escrita no mais puro latim, a língua falada, em Roma, e que espalhou por toda a Europa, originando pela sua natural evolução, as chamadas línguas neolatinas, entre as quais está a nossa.
Relógio Municipal, 1975
É uma torre branca e rósea, a cor do arenito de Manaus, o mesmo das pedras que um dia calçaram algumas das principais ruas da nossa cidade. Entre elas, a prodigalidade da natureza equatorial, ajudada pela falta de trânsito de veículos, fazia criar mato e capim, literalmente raspados pelas equipes de reco-recos do meu avô, que também foi calceteiro, ambas as profissões desaparecidas.
 
O reco-reco era um instrumento simples formado por um cabo de madeira, onde se fixava um arco de metal, usado para raspar as frestas do calçamento, por onde o capim brotara e crescera, produzindo este atrito um som característico, origem do nome da ferramenta e da profissão.
A torre quadrada do relógio tem ao todo quatro portas, no andar térreo, geralmente ocupado por um relojoeiro, o responsável pelo funcionamento do relógio de duas faces, que a encima e sobre o qual estão os sinos e as campainhas das horas.
Este relógio seria como tantos outros se não tivesse a magistral frase em latim, que a maior parte das pessoas comuns de Manaus já não conhece o seu significado.
Ela lembra a todos a curta duração das nossas vidas, medidas pelo tique-taque dos antigos relógios mecânicos e hoje pelo pulsar silencioso de um cristal de quartzo. Lembra-nos que, mais dias, menos dias, enfrentaremos um momento crucial, para o qual nunca estaremos preparados, a nos perturbar pela sua inevitabilidade, compensada pelo fato de não conhecermos a sua data exata. Daí a humanidade lutar sempre pela Esperança de melhores dias, aqui ou depois da morte. Essa é a sina de seres angustiados à procura da imortalidade.
A frase gravada em volta do mostrador do relógio do começo da avenida Eduardo Ribeiro, na bela língua dos césares, é – Vulnerant omnes ultima necat, traduzida em bom português como: “Todas (horas) ferem, a última mata”, em uma alusão ao fato da vida escoar inexoravelmente com o tempo, com as horas e de nos aproximarmos da morte a cada minuto, a cada segundo.
(*) Extraído de O Toque do Shofar: a Parúsia, volume 3. Manaus: Imprensa Oficial, 2013.
Antônio José Souto Loureiro é amazonense, médico, membro da Academia Amazonense de Letras e presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, autor de vários livros sobre a história do Amazonas. E mais, eminente membro da Maçonaria amazonense.