CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

14 de novembro de 2013

À SOMBRA DOS IGAPÓS (3)


GE Marechal Hermes (extinto), sede do NPOR
Nesta crônica de Waldir Garcia, sacada de seu livro À sombra dos igapós (Manaus: Imprensa Oficial, 1987, com ilustrações do artista Edemberg Jr.), o autor descreve a esdruxula situação de um integrante do NPOR. Como se sabe, esta unidade de ensino do Exército foi inaugurada em  Manaus, por ocasião da II Guerra Mundial. Mais precisamente, em 1942, portanto, há mais de 40 anos. No entanto, esteve desativado entre de 1945 a 1965.

O personagem desta página é o saudoso Vicente de Mendonça Júnior, que depois de desistir do curso, conquistou em 1949 a graduação na Faculdade de Direito do Amazonas. Tornou-se um advogado competente, tendo prestado serviço ao governo do Estado.  

Relembrando o NPOR, aproveito o ensejo para convocar seus integrantes para organizarmos um dicionário com os nomes dos ex-alunos.  

A DIREITA VOLVER DE MENDONCINHA
Mendoncinha sempre foi estúrdio e pávulo. Quando jovem, integrava o time de futebol, que denominaram de Itacoatiara, ao lado de Benjamim, João e Paulo Onety. Surravam no futebol, com frequência, ao Amazonas Futebol Clube, onde pontificavam os famosos jogadores Secundino e Parimé, que enalteceram o esporte bretão na Velha Serpa.
Mendoncinha quando veio para Manaus estudar, trouxe também o carinhoso epíteto de "Tim-Tim", mas aqui, pouca gente sabia disso, pois o singular apelido foi conquistado graças à forma como imitava a Matintaperêra, nas proximidades do aningal do Jauari, quando amedrontava os supersticiosos moradores para ficar a sós com uma cutuba que ali residia.

Em 1942, a Segunda Guerra Mundial continuava acirrada na Europa e na Ásia. Fundado o NPOR de Manaus, nele ingressaram os estudantes em idade de prestar o serviço militar, inclusive Mendoncinha, que, por sinal, aluno inteligente, obtinha notas elevadas em Topografia e Serviços Gerais, menos na prática de Educação Física, Ordem Unida e Tiro, porque quando jogador de futebol em sua terra natal, e no "Olho Mágico", aqui em Manaus, time organizado por Domingos Mourão e o português Antônio Coimbra, e que, nos domingos, treinava no campo do Parque Ajuricaba, onde o time chegava às sete da manhã, no saudoso bonde da linha de "Flores", Mendoncinha sofreu uma potente pancada no joelho esquerdo, danificando-lhe o menisco, contusão que o fez ficar diminuído em sua movimentação. Um reumatismo impiedoso, fê-Io sofrer ainda mais, até hoje.
Aconteceu que certa vez, no NPOR, num exercício de Ordem Unida, comandado pelo tenente Aníbal Gurgel do Amaral, as vozes de comando eram dadas assim: PeIotão, sentido! Ordinário, marcha!" E depois de alguns passos cadenciados, vinha a segunda voz de comando:
"Direita.a.a.a - Volverrr!" Todos voltavam para a direita, menos Mendoncinha, que saía em direção oposta.

O tenente Aníbal chamava Mendoncinha à ordem, corrigia-o severamente. Segundo tempo. As mesmas vozes de comando se repetiam. Agora, assim: "Esquerda.a.a., Volverr!" e Mendoncinha voltava-se para a direita. Isso irritava bastante o instrutor, que resolveu fazer uma parada para ensinar individualmente Mendoncinha, sob as vistas hilariantes e galhofantes de seus colegas Roberto Caminha, Octávio Mourão e Francisco Monteiro de Paula, o "Salgadinho".
Na praça São Sebastião, o tenente Aníbal desenhou na calçada o itinerário a marchar, e com flechas indicativas da direita e da esquerda. E começou a dar as vozes de comando, e Mendoncinha sempre errando.
O tenente irritou-se demais, e já bastante encabulado com a atuação do aluno, voltou-se para Mendoncinha e disse: "78 – esse era o número dele – você até parece recruta de Itacoatiara! De onde você é, 78?" - Mendoncinha respondeu trêmula e pausadamente: "Sou de ltacoatia... a... a... a... ra, seu tenente."

O tenente Aníbal puxou os cabelos e disse, desabafando sua irritação: "Eu logo vi... i... i... i, 78?! Só podia ser, não é?" A que Mendoncinha respondeu convicto: "É, seu Tenente... e do bairro de Jauari"...
Dias depois, noutra instrução de tiro ao alvo, a posição determinada pelo instrutor, tenente Facó, era de joelhos. Todos os fuzis, nas mãos dos alunos, em posição de tiro. Mendoncinha ao lado de Agobar, não conseguiu ajoelhar-se, em virtude do malfadado reumatismo, mas agachou-se, para ficar na posição de tiro. O tenente instrutor ao inspecionar a posição dos alunos, notou que Mendoncinha não estava ajoelhado, mas agachado, e determinou: "Seu 78, não atrapalhe a instrução! Saía daí! Mendoncinha, muito triste e acanhado, saiu do local e nunca mais voltou ao NPOR.
Foi cumprir o serviço militar no velho 27º BC, onde chegou até à graduação de cabo.