CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, novembro 15, 2024

MANAUS: LANCHONETE GO-GO

 Durante a construção do Manaus Shopping Center, que na verdade possuía apenas o cine Studio Center (inaugurado em abril de 1977) como centro de compras, o local onde funcionava o cinema Odeon contava ao lado com a lanchonete Go-Go. Acredito que essa tenha sido a primeira lanchonete completa de Manaus, mesmo em um ambiente bastante comprimido. Recordo dos equipamentos e do balcão onde os clientes eram atendidos. Também me lembro do proprietário, que creio ser israelense. O texto a seguir, eivado de elogios a empresa construtora, foi-me enviado pelo Ed Lincon extraído do Jornal do Commercio (09 de outubro de 1973), circulado há mais de 50 anos. 

Jornal do Commercio, 09 out. 1973

Para dar espaço suficiente e adequado à construção do Manaus Shopping Center, estiveram nesta cidade o Dr. Alfredo Cinci, diretor financeiro da Construtora Adolpho Lindenberg S/A (CAL), acompanhado do consultor jurídico João Roberto Ferrara, os quais vieram assinar a escritura definitiva de compra do setor onde funciona a lanchonete GO-GO.

MUDANÇA - Paralelamente, ao finalizar a operação, a Construtora Adolpho Lindenberg S/A obteve a absoluta concordância do proprietário da GO-GO, que imediatamente procurou um outro imóvel nas imediações da avenida Eduardo Ribeiro, para instalar-se em caráter efetivo. Desta forma, atendendo aos apelos de desenvolvimento da cidade, a GO-GO mudará brevemente do local que ocupa a título precário e a área será incorporada ao colossal edifício comercial que a CAL construirá no antigo Odeon, exatamente no ponto nobre de Manaus, esquina da av. Eduardo Ribeiro com rua Saldanha Marinho. Estando justa e acertada a mudança da lanchonete GO-GO nada mais impedirá a decolagem do majestoso edifício, aliás um dos muitos que a Construtora Adolpho Lindenberg vem construindo neste país e sempre com aquela indefectível pontualidade que tem caracterizado os seus lançamentos.

CONQUISTA DA AMAZÔNIA - Muito antes de partir para o centro comercial de Manaus, a CAL — como também é conhecida nacionalmente — já havia conquistado o Tapajós e Rio Negro, pois é ela a grande responsável por duas das maiores obras da Amazônia: o Hotel Tropical da VARIG, em Santarém, e o Hotel Topical da Ponta Negra, em Manaus, onde a associação de homens, equipamentos e o extraordinário know how que possui converteu em realidade o chamado sonho do ano 2.000, tal como os próprios amazonenses denominavam o empreendimento.

Concluindo o hotel de Santarém e alcançando agora a reta final no Ponta Negra, a Construtora Adolpho Lindenberg credenciou-se à admiração geral e dá certeza de que todas as suas obras são realmente entregues dentro do prazo a exemplo do que ocorreu com mais de 100 edifícios em São Paulo, dos quais os mais recentes são os da Conselheiro Antonio Prado, na avenida Faria Lima; Edifício Afonso Pena, na av. 9 de Julho; Edifício Morungaba, na alameda Santos e quase uma dezena no setor residencial paulista.

EFICIÊNCIA - Outro grande exemplo da eficiência com que trabalha a CAL está na execução rápida e impecável do contrato que assinou com o Ministério da Aeronáutica para efetuar toda a reforma civil do aeroporto de Manaus. Essa reforma se tornou urgente e necessária devido ao grande aumento de volume de trafego aéreo em nossa cidade, em face do fenômeno Zona Franca, e foi exatamente a CAL escolhida para realizar a tarefa por motivos bastante óbvios - em que pesaram certamente a sua tradição e idoneidade técnica- financeira.

É com essa mesma eficiência, que lhe dá uma liderança incontestável no ramo da construção civil, a ponto de ser atualmente identificada como a “Construtora da Elite”, a CAL parte para a aceitação do seu mais recente desafio no coração da Zona Franca: a construção e venda do mais sofisticado SHOPPING CENTER do Norte e Nordeste, a obra que passará a ser o cartão postal desta cidade.

quarta-feira, novembro 13, 2024

LIMPEZA PÚBLICA EM MANAUS

O recolhimento de lixo sempre foi (e será) um problema quase insanável. Uma das iniciativas da Prefeitura de Manaus ocorreu sob a direção do prefeito Frank Abrahim Lima (1972-75), quando aprovou a instalação de lixeiras coletoras na cidade. Este registro recolhi do Jornal do Commercio (09 out. 1973), que me fez lembrar destas cestas, porém, inexiste qualquer resquício delas, e de outros artifícios posteriormente implantados.

 

Recorte do mencionado matutino
 Dentro de aproximadamente 10 dias serão instaladas as primeiras cestas coletoras de lixo, cuja primeira partida está sendo esperada no início da próxima semana. Primeiramente serão colocadas 20 cestas coletoras em locais estratégicos da cidade, já tendo a Prefeitura Municipal de Manaus dado o seu apoio à iniciativa da PROMOVE, posto que as cestas, juntamente com os carros coletores de lixo, resolverão praticamente o problema de limpeza pública de Manaus. As cestas têm um formato de uma taça com um bojo embutido na peça principal, custando, cada unidade, cerca de dois mil cruzeiros, mede 90 centímetros de altura por 60 de largura e apresenta três faces, numa das quais está colocado o escudo da Prefeitura Municipal de Manaus. O moderno equipamento de apoio à limpeza pública pesa 15 quilos e tem capacidade para 18 litros.

Jornal do Commercio

A PROMOVE, firma encarregada da implantação das cestas, instalará as 20 primeiras dentro de breves dias, mas dispõe, por outro lado, de três anos para executar o projeto, que prevê a instalação de duas mil cestas em toda a cidade. Também durante o período de implantação a PROMOVE ficará incumbida de sua manutenção, contando, entretanto, com a cooperação da Prefeitura. necessário que o comércio local dê sua participação à iniciativa, fazendo constar nas duas faces restantes da resta o nome de suas firmas, colaborando para o êxito da promoção que é inédita no país.


domingo, novembro 10, 2024

POESIA DO DOMINGO

O poema deste domingo foi elaborado por Carlos Farias Ouro de Carvalho
(1930-97), consagrado ao amigo intelectual, desembargador André Araújo, tendo sido publicado há 55 anos, no Jornal do Commercio (19 out. 1969).
 
Recorte da página do JC, 19 out. 1969


Eis-me aqui.

Aqui. Sobre esta gávea de assombros,

carcomido de vento e de silêncio,

tão duramente cego ainda,

como no instante estúpido do espasmo

que me trouxe a este mar do não-saber.

Meteoro ignoto,

cumpro-me em rotas claras de estilhaços

Nesse buscar-se atônito e remoto,

ande a trilha das traças nas estantes

mais escurece o abismo dos instantes

distantes, do saber; mergulho inútil,

esse naufrágio em lagos bolorentos

rebuscando o esqueleto das palavras

nos seus sarcófagos frios e poeirentos.

De que serve a mecânica dos astros

esculpida nos riscos e equações

desses mapas de humana geometria

se sobre o pântano, a corola fria

do lótus guarda mais sabedoria  

do que todos os ciosos pergaminhos

que se hoje são, é porque ontem foram

sombra e ninho à margem dos caminhos?

 

OH! Os relâmpagos do caos, por essas messes,

que não sabemos, mas, em nós,

enfuna as bujarronas do viajar

por esses mares todos feitos de ar!

 

OH! Os relâmpagos do caos, por essas messes,

onde a inútil colheita apodrece

nos desastres da busca, palimpsestos

acolhendo em seu ventre, como cestos,

essa poeira vã dos cérebros aflitos

que as lunetas gastaram, pobres gritos

afogados nas noites desse lodo,

onde ainda orquestramos nosso engodo.

O melhor é gozar entre os crepúsculos

incêndio do festim, e nesse ir

de desastre em desastre, plantar musgo sobre

o muro da pálpebra, e dormir.  

sexta-feira, novembro 08, 2024

DOIS INTELECTUAIS AMAZONENSES: NONATO E ÁLVARO (1)

 
Meses após a morte do acadêmico Álvaro Botelho Maia, padre Nonato Pinheiro (foto), também acadêmico e membro do IGHA (Instituto Geográfico do Amazonas) publicou em O Jornal, (domingo, 19 de outubro de 1969), uma sinopse das obras do falecido. O alongado artigo vai aqui compartilhado em duas assentadas. Efetuei a atualização da ortografia e introduzi ligeiros detalhes, que espero não comprometam a obra do saudoso articulista.

Recorte do jornal indicado

Quando cursava humanidades no Ginásio Amazonense, Álvaro Maia, colaborando na revista AURA, costumava dedicar seus poemas à Ermila. Teria tido alguma colega ou amiga com esse nome? Tratar-se-ia de um nome fictício para ocultar um verdadeiro romance? Creio que meu amigo e confrade Cosme Ferreira esteja, em condições de dissipar a dúvida. O fato é que esse nome era uma constante nos versos do talentoso ginasiano.

No ano de 1915, a 22 de janeiro, conduzido pelas mãos amigos de Cosme Alves Ferreira Filho, Álvaro Maia ingressa no JORNAL DO COMMERCIO, como redator. Um ano depois, precisamente a 22 de janeiro de 1916, a bordo do vapor Bahia, viajava para o Rio de Janeiro. Regressou a 2 de abril do mesmo ano, a bordo do navio Ceará. Em 1917, verificou-se seu bacharelamento em Direito, na ex-capital da República. Estava formado. A flor de sua cultura e de sua sensibilidade de orador e poeta alcançava logo a plenitude do seu colorido e a pujança de sua inebriante fragrância.

O marco luminoso de seus triunfos intelectuais foi indisputavelmente sua famosa Canção da Fé e Esperança, pulquérrima oração proferida no Teatro Amazonas, em nome da mocidade amazonense, na solenidade do centenário da adesão do Amazonas à Independência Nacional. Foi um triunfo oratório de excepcional claridade, que a imprensa recebeu com estrepitoso alvoroço. A comissão promotora dos festejas era composta do coronel Bernardo da Silva Ramos, presidente do IGHA, professores Agnello Bittencourt, Manuel de Miranda Leão, coronel Antônio Bitencourt, padre José Tomás de Aquino Menezes, Drs. Aprígio de Menezes, Vicente Reis, João Batista de Faria e Souza, Arthur César Ferreira Réis, major Licínio Silva e jovens Aguinaldo Ribeiro, Antóvila Vieira, Cássio Dantas, Jorge Andrade, Galdino Mendes Filho e José de Alencar.

Em 1924, em sessão promovida pela Academia Amazonense de Letras, no Ideal Clube, saudou Álvaro Maia o eminente general João de Deus Menna Barreto. Discurso primoroso que o homenageado agradeceu com comovente oração. Como professor do Ginásio Amazonense, apresentou, no ano de 1925, duas teses de real valor, que lhe garantiram as cátedras de português (O Português-Lusitano e o Português-Brasileiro, léxica e sintaticamente considerados) e de instrução moral e cívica (A Bandeira Nacional como símbolo e emblema da Pátria). Não omitirei que, quando o Ginásio Amazonense passou a denominar-se Ginásio Amazonense Pedro II, foi Álvaro Maia o orador designado pela Congregação para falar na solenidade de 2 de dezembro de 1925, ocasião em que foi inaugurado o retrato do magnânimo Imperador. Presidiram a sessão o Interventor Federal Alfredo Sá e o diretor Prof. Plácido Serrano.

A 12 de julho de 1927, no Ideal Clube, Álvaro Maia proferia seu discurso - Após A Campanha..., na sessão cívica em homenagem aos implicados no movimento de 23 de julho de 1924. Em 1926, a 23 de julho, dirige uma carta aberta ao presidente eleito do Brasil, Dr. Washington Luiz, a pedidos dos estudantes Deoclides de Carvalho Leal, Arthur César Ferreira Reis, Rui Gama e Silva, Diogo Belfort Santos, João de Paula Gonçalves, Fernando Ribeiro, Mário Libório Pereira e José Freitas Ramos. Em novembro de 1930 estava nomeado Interventor Federal. Em agosto de 1931, publicou no Rio o folheto Em torno do caso do Amazonas. Já a 28 de janeiro desse ano havia publicado no JORNAL DO COMMERCIO seu trabalho - Em minha defesa, republicado depois em folheto, defendendo-se da matilha esfaimada que lhe ladrava aos calcanhares pelo crime de haver assumido o Poder Executivo de seu estado natal.

Em 1934, publicou seu discurso na Assembleia Nacional Constituinte, com o título - Panorama Real do Amazonas: A Voz Amazonense Que Se Levanta em Prol dos Luminosos Destinos do Berço Verde. Em 1942, Dom João da Mata de Andrade e Amaral realizava memorável Congresso Eucarístico Diocesano. Na sessão noturna de 3 de junho, convidado pelo zeloso Bispo, o Interventor Federal proferiu um soberbo discurso, na inauguração do monumento de Nossa Senhora da Conceição. Em 1944, saiu a lume a maravilhosa plaqueta Noite de Redenção, uma página de impressionante meditação. Data de 1945 seu belo folheto O Cântaro da Samaritana, enternecedora meditação evangélica. Seus livros de poesia e ficção aí estão, prenhes de emoção e encantamento, escritos por um homem de letras que moldou suas preferências mentais na escola dos egrégios mestres do estilo: Beiradão, Gente dos Seringais, Banco de Canoa, Nas Barras do Pretório, Buzinas dos Paranás, Nas Tendas de Emaus. Tive a satisfação de preencher a orelha de Buzina dos Paranás, a convite dos editores Sérgio Cardoso & Cia. Ltda.

Com paciência beneditina, percorri toda a coleção das revistas REDEMPÇÃO, de Clóvis Barbosa, e AMAZÔNIA, de Carlos Mesquita, e dei com numerosas flores literárias esparzidas pelo magnífico prosador e inspirado bardo. Asseguro que tais trabalhos dariam um ou mais volumes. Guardo-lhe com emoção um poema que me ofereceu publicado na página literária de O JORNAL, de 10 de maio de 1965, intitulado Latim Redivivo, cujos originais entregou a seu sobrinho Heliandro Maia. Esta relação está longe de ser completa. Foi um primeiro levantamento que empreendi para meu livro em preparo. Sua inteligência foi fecunda e admirável e sua pena surpreendentemente privilegiada. Como o sol, como os astros, como os parques e jardins floridos, passou a vida a esbanjar clarões, lampejos e a semear com mãos pródigas flores pelos caminhos, em troca dos espinhos que lhe atiravam os eternos invejosos, que não suportam remígios de condores nem cintilações de astros que incomodam...