CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, novembro 01, 2019

7ª CIA FRONTEIRA: TABATINGA (1960)

Magdala, 1960

Vez por outra recebo algum e-mail, em função deste blog, que me incentiva em prosseguir publicando esses papeis amarelados pelo tempo. Foi o que me ocorreu com essas duas “cartas eletrônicas”, oriundas do Rio para me falar do rio Solimões. Ou melhor, de Tabatinga, “bem ali” na fronteira com a Colômbia e o Peru. Não há muito que acrescentar, pois a remetente – dona Magdala Domingues da Silva, conheceu junto com o marido, o então tenente Ivar Leonardo Soares Costa, a dureza imposta pela imensidão e as distâncias amazônicas. Apenas falando de nossos dias, imagine isso há 60 anos passados.
Entre colchetes, acrescentei pequenas explicações em atenção aos mais novos.
Obrigado pelo incentivo. Selva, dona Magdala!

7ª Cia Fronteira - Tabatinga - 1960
  24 julho 2019
 Senhor Coronel RobertoBuscando elementos dos idos de 1960 sobre o GEF [Grupamento de Elementos de Fronteira] e seu comandante o Coronel (na época) Darcy Lázaro deparei com seu blog que me trouxe lágrimas de saudade.Sou viúva de um oficial que acompanhei à 7ª Cia de Fronteira em Tabatinga.
O lema da Cia. era "Marcamos os limites da pátria. Há que ser forte".Infelizmente o Brasil é um país sem memória. Vivi ali naquela clareira aberta na floresta, às margens do espetacular Solimões minha lua de mel colaborando com meu tenente idealista com quem dividi sonhos de uma vida feliz que durou 54 anos.Consegui algumas fotos da época em que era construído o novo aquartelamento, pois o antigo já estava condenado a desaparecer, pela erosão comum na região. Então vivi a Amazônia e esperei meu amado que participava das marchas comandadas pelo coronel DarcyLázaro. Hoje vejo o besteirol que jogam sem dó sobre a nossa Amazônia, sempre rapinada, cobiçada, com aquela biodiversidade fenomenal, a vida pulsando em cada folha caída, araras voando em duplas, macacos, cobras, enfim, um colosso inenarrável.Não se fala mais no GEF e nem na 7ª Cia, e isso me entristeceu. Encontrar seu blog foi um sopro de ar puro em minha dolorosa saudade da honeymoon divina que vivi na Amazônia.Atrevi-me a escrever-lhe. Desculpe a audácia.Saudações cordiaisMagdala Domingues da Silva.
SELVA!! PS - Prosseguindo a leitura de seu blog deparei-me com referências da Manaus de 1960, como o Fazano lanches, situado na rua Eduardo Ribeiro... [Há uma publicação no Blog sobre este lanche]Meu fisioterapeuta é manauara e é a única pessoa com quem posso trocar figurinhas de uma época linda para mim. E o Hotel Amazonas? [desapareceu, virou galeria]. E os “banhos”? 
30 julho 2019
Prezado coronel Mendonça

É minha intenção responder-lhe com calma sobre o assunto Tabatinga e Amazônia que tanto me motiva.Entretanto, estou assoberbada com um problema de saúde que tem requerido idas a médicos e exames e outras coisinhas muito enjoadas. Este período vai passar e então vou poder me concentrar no que mais gosto atualmente, que é escrever e trocar ideias com pessoas "normais", inteligentes e não lavadas cerebralmente... Pode rir à vontade, pois está difícil.Encontrá-lo foi uma lufada de ar puro, acredite. Tenho umas fotos que são interessantes e consegui salvá-las no computador, mas não sei ainda como enviá-las, mas temos tempo, vou descobrir.Isto que me manda hoje vou ler com calma e já me emociono, acredite. Vou degustar. Só preciso de tempo e da abstração que no momento me falta para "curtir" sossegadamente.Meu marido saudoso era, na época, o tenente Ivar Leonardo Soares Costa. Já estava servindo em Tabatinga desde junho de 1959 e casamos em 1º de janeiro de 1960, quando então o acompanhei para o Alto Solimões e vivemos nossa honeymoon inesquecível em Tabatinga.Continuarei a narrativa e os comentários depois, OK?Obrigada de coração e me aguarde.Este papo amenizará a dor e a saudade de minha inestimável perda e o enfrentamento de longos dias vazios onde falo até sozinha, com minha sombra buscando sua orientação e amor cuidadoso.  
Cordialmente Magdala

quinta-feira, outubro 31, 2019

CASAMENTO DE PIAUIENSES

Aristides Rocha

A coluna social do Jornal do Commercio (11 novembro 1906) divulgou o casamento de Aristides Rocha, nascido em 1882 no Piauí, e graduado pela Faculdade de Direito do Recife, em 1907, ao lado de dois irmãos (Análio e Carlos Alberto) da noiva. Na condição de político pelo Amazonas, encerrou a carreira como Senador. Foi ainda professor e diretor da Faculdade de Direito do Amazonas, entre 1937-42, falecendo em 1950.

Simplicio Rezende, pai da noiva
Sobre a noiva - Pergentina de Rezende, pouco se sabe. Apenas que era também nascida no Piauí, portanto, conterrânea do noivo. Que era filha do conceituado advogado piauiense Simplício Coelho de Rezende, igualmente oriundo da Faculdade de Direito do Recife. Por questões políticas em seu estado, este se mudou para Manaus, onde exerceu a advocacia e foi professor e diretor da FDA. Residia em elegante chalé ainda hoje existente na Praça dos Remédios. Outro detalhe sobre o casarão: quando do Bombardeio de Manaus (1910), foi ele atingido, que forçou ao causídico proprietário recorrer à Justiça para as indenizações.

A festa do casamento, portanto, deve ter sido do arromba.

Tópico do mencionado jornal
Casamentos 
Realizar-se-á amanhã o enlace matrimonial do sr. dr. Aristides Rocha com a senhorita Pergentina de Rezende, filha do provecto advogado do nosso foro, sr. dr. Simplício Coelho de Rezende.
O ato civil será efetuado no Palácio da Justiça, às cinco horas da tarde, e o religioso logo após, na Catedral.
De ambas as cerimonias serão testemunhas as exmas. sras. d. Laura Rosa de Rezende Rubim, Philomena Tavares Pedreira e Marieta Pedrosa da Câmara, e os srs. exmo. Desembargador Benjamim de Souza Rubim, dr. Manoel José Ribeiro da Cunha e farmacêutico Joaquim Gonçalves Pedreira, por si e como procurador do exmo. sr. general Gregório Taumaturgo de Azevedo.
Para assistirem à realização desse brilhante casamento, o sr. dr. Coelho de Rezende e sua exma. esposa d. Cândida Nimpha de Mello Rezende, assim como o sr. dr. Aristides Rocha, convidaram todas as pessoas de suas relações nesta Capital, e, certamente, o elegante palacete da praça dos Remédios regurgitará, amanhã, de exmas. famílias e distintos cavalheiros, tendo-se ocasião de notar ali o escol da sociedade amazonense, tão largo é o círculo das amizades cultivadas pelos jovens noivos e suas ilustres famílias.

PS. Mantive em parte a redação do colunista, própria da época para indicar as personalidades.

POLVILHO SILVA FERRAZ

Parece estranho em nossos dias afeitos à propaganda televisiva, afinal os jornais impressos estão em fase de mudança, todavia, no início do século passado era comum – em jornais (único meio de comunicação), a declaração de médicos acerca de algum medicamento. Servia de anúncio. Outros profissionais também eram usados, assim como literatos, compondo em versos.


A postagem compartilhada do jornal Amazonas (junho de 1906) exemplifica o enunciado, em que o sempre lembrado dr. Alfredo da Matta atesta a eficiência de certo polvilho.

Alfredo Augusto da Matta, doutor em medicina pela Faculdade de Medicina e Farmácia da Bahia, diretor da Higiene Pública do Estado do Amazonas, ex-médico adjunto [do] Exército Nacional, clínico interno do Hospital da Santa Casa de Misericórdia e da Sociedade Portuguesa Beneficente de Manaus etc. etc.
Atesto que tenho empregado em minha clínica, sempre com excelente resultado, o Polvilho Antisséptico Silva Ferraz, em casos de eritema, principalmente no intertrigo, e em outras afecções cutâneas, o que afirmo in fide gradus. 
Manaus, 23 de agosto de 1903 
O Polvilho Antisséptico Silva Ferraz é o específico soberano para o tratamento radical das erupções da pele, (...)

segunda-feira, outubro 28, 2019

AMÉRICO ANTONY (1895-1970)

Matéria do Livrornal, julho 1978

Américo Antony, o autor de mil poemas, morto em 1970, somente conseguiu em vida publicar um livro: Os sonetos das flores (1959). Cinco anos depois, o Conselho Estadual de Cultura autorizou um levantamento dos poemas produzidos esparsamente por Antony. Encarregou-se desse mister o saudoso poeta Jorge Tufic que, auxiliado pelo promotor público Geraldo dos Anjos, divulgou parte deste trabalho no Livrornal, de 1978.

Convém esclarecer que este periódico era produzido por Tufic, portanto foi o amigo quem deu divulgação apenas a uma cronologia. A catalogação dos sonetos ficou pelo caminho, pois não houve colaboração de membro da família, possuidor de vasto material. Desse modo, não se concretizou o “proposito do Conselho em prestar sua justa homenagem a um dos maiores poetas do Amazonas.” Nunca mais se falou de Américo Antony.


CRONOLOGIA DE AMÉRICO ANTONY

1895 — Nasce em Manaus, a 23 de setembro. São seus pais, o engenheiro civil João Carlos Antony e Maria Lima de Amorim Antony. Descende de duas figuras notáveis na antiga Província do Amazonas: Henrique Antony, filho de Ajacio, na Córsega, e do comendador Alexandre Paula Brito Amorim. Sua origem materna mais remota procede “Manao-Camandri”, principal da maloca de Mariuá, hoje Barcelos. Segundo o general Dr. Aurélio de Amorim, uma filha de “Camandri” teve, com um português da comitiva de Furtado de Mendonça, uma menina, que veio a ser avó de D. Lina Ferreira, antepassada de Antônio Brandão de Amorim, o famoso autor das Lendas em Nheengatu e em Português e, também, de Américo Antony.
1900 — Segue com os seus pais para a América Central, viajando depois a família para a Europa, visitando várias cidades: Porto, Lisboa, Genova, Milão e Zurique. Após uma ligeira estadia em Paris, Américo seguiu com sua mãe e irmãos para a Inglaterra. Matricula-se no Saint Georger's College, em Waybridge, Survey, com os Joseph Phite Fathers. Concluindo os estudos de nível secundário, regressou a Manaus, onde pouco se demora encaminhado por seu pai aos cuidados do médico e educador Dr. Eugênio Gomes de Matos, no Rio de Janeiro. Matricula-se na Faculdade de Medicina, desistindo do curso. Leciona na Escola Berlitz e dedica-se ao esporte de natação. Regressando, novamente, a Manaus, ocupa-se no ensino particular da língua inglesa. Começa a publicar os seus primeiros poemas.
1917 — Adriano Jorge publica a crônica Um poeta de 20 anos, no jornal “A Imprensa”, transcrevendo os melhores sonetos de Américo Antony desse tempo: A Fonte – Canção Campestre – Dolce Ritorno e Depois da Primavera. Acrescenta: “Vê-se bem que não exagero ao afirmar incontestável e inconfundível talento, a delicadeza da emoção e as superiores qualidades de esteta de raça que fazem de Américo Antony um verdadeiro e belíssimo poeta”.
1925 — A revista “Redempção” publica, em seu número de dezembro, os sonetos Nova Messe – O Igapó – Os Tucanos e Aos índios canoeiros do Amazonas.
1926 — A 17 de junho é nomeado pelo professor Plácido Serrano, diretor do Ginásio Amazonense, para reger, como substituto, a cadeira de Inglês. Casa-se, a 11 de outubro, com a senhora Altamira Espínola.
1927 — Nasce o seu primogênito, Marco Aurélio, a 5 de dezembro.
1929 — Publica na revista “Amazônida” nº 28 o soneto Vitória Régia, dedicado a Adriano Jorge, e traduz o poema O Balão da Menina, da inglesa Mary Woods, extraído do livro Sunshine & Solitude. A 9 de julho, nasce sua filha Isis.
1932 — Obtém o grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito do Amazonas.
Capa do Livrornal, julho1978
1934 — É nomeado, interinamente, para exercer o cargo de Promotor do 2° Distrito Criminal da Comarca de Manaus, a 12 de março, sendo depois promovido na comarca de Lábrea, pelo Ato n° 3.983, de 7 de agosto.
1935 — Não chega a tomar posse na Promotoria Pública da comarca de Barcelos, por haver sido tornado sem efeito o Ato n° 4.532, de 1º de fevereiro. A 5 de outubro, e homologado o seu desquite amigável, pelo Juiz de Direito, Dr. Manoel Anísio Jobim.
1937 — Serve na Secretaria Geral do Estado.
1938 — Removido da comarca de Lábrea para a Promotoria de São Gabriel da Cachoeira, por Ato nº 254, de 25 de janeiro.
1939 — Publica a Canção Uanána, nos números 3 e 4 da revista “Baricea”.
1941 — Posto em disponibilidade, a 22 de setembro, por haver sido extinta a comarca de S. Gabriel.
1942 — Os norte-americanos Rose e Bob Brown, antigos diretores da revista "Brazilian-American, do Rio de Janeiro, publicam o livro Amazing Amazon. A respeito de Américo Antony, escrevem: “Raoul Broteher Amerigo was a good a storyteller and imaginative artist. For months we talked over a five-paneled screen he was going to paint for us with the Amazon flowing through and all regional motifs in place, tajás, garças, jacarés legends, indians, but it never came to anything. He lives among indians now, far up on the Rio Branco where he is a federal judge.” Américo Antony publica naquela revista o artigo: “Sucuri hunt in South American”.
1943 — Conferência no Instituto de Etnografia e Sociologia do Amazonas, fundado por Nunes Pereira, sobre os costumes dos índios da região do alto rio Negro.
1944 – Ramayana de Chevalier publica, em o jornal “A Tarde”, edição de 23 de dezembro, o prefácio para o poema Conory, livro inédito de Américo Antony.
1945 – Eleito para a cadeira nº 8, que tem como patrono o amazonólogo Torquato Tapajós, da Academia Amazonense de Letras.
1946 — Péricles de Moraes publica na Revista da Academia Amazonense de Letras uma apreciação literária sobre Américo Antony, intitulada “Um animador de símbolos mitológicos.”
1953 — A 17 de fevereiro, estando em visita à casa dos pais do seu amigo Jorge Tufic, na avenida Joaquim Nabuco, 329, conhece Maria Isis Almeida de Souza, em cujo perfil descobre traços da antiga civilização incaica. Tornam-se íntimos e passam a conviver sob o mesmo teto, na rua Japurá.
1954 — Nasce em Manaus, a 6 de junho, seu filho Alexandre Magno.
1955 — Aproveitado na comarca de Manacapuru. A 2 de agosto, é comissionado como Assistente da Promotoria Militar.
1957 — Nasce em Manaus, a 9 de marco, seu filho Siddarta Gautama.
1958 — Comissionado, a 29 de agosto, na 2ª Promotoria de Justiça da Comarca de Manaus. A 6 de setembro, é aposentado como Promotor de Justiça de 1ª entrância. Inscreve-se na seção amazonense da Ordem dos Advogados do Brasil.
1959 — Nasce em Manaus, a 25 de julho, sua filha Hileia Amazônica.  
A 14 de julho, toma posse da cadeira n° 28, da Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é Aníbal Teófilo, sendo recebido pelo acadêmico Nonato Pinheiro Filho. A revista do sodalício, em seu n° 9, publica o poema Peã, dedicado ao acadêmico Moacyr Rosas. E impresso em Manaus o seu primeiro livro: Os Sonetos das Flores, na editora Sérgio Cardoso & Cia. Ltda.
No mesmo número da revista, vem a lume o mais festejado poema de Américo Antony – A ronda dos cisnes, dedicado a Heliodoro Balbi. Por não acolher alguns conceitos do escritor Péricles de Moraes, o poeta faz publicar na página de anúncios comerciais do Jornal do Commercio uma pequena declaração sobre a autenticidade de sua poesia. A 30 de janeiro, é tornado sem efeito o ato de 17, do mesmo mês, mandando servir na Promotoria da Comarca de Barcelos, por motivo de saúde.
1960 — Com grave problema de saúde é recolhido ao hospital da Sociedade Beneficente Portuguesa, em Manaus, em outubro.
1962 — Sócio efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. 1968 — A Revista da Academia Amazonense de Letras publica os versos: O Caminho que fala – O Jaguar e a Lua – A alegria de conhecer-se a própria origem – O oceano e a Yara.
1970 — Falece, em Manaus, no Hospital da Sociedade Beneficente Portuguesa, a 18 de agosto. A 23, o acadêmico Nonato Pinheiro, na edição domingueira de O Jornal publica, a seu respeito, o artigo intitulado: Uma figura desconcertante de Aedo.
1974 — Instalada a “Biblioteca Américo Antony” na Fundação Dr. Thomas.
1975 — Resolução do Conselho Estadual de Cultura, recomendando a publicação pelo Estado do Amazonas da produção poética esparsa de Américo Antony.
Autores do trabalho