CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, setembro 08, 2013

MANAUS: ANOS 1930 (2)


Praça do Comércio (hoje desfigurada), em 1933
Ainda seguindo as páginas do Amazonas: aspectos socioeconômicos (1930-1939), escrito por José Lopes da Silva (Manaus: SESC/AM, 1995). No capítulo abaixo, o autor descreve a situação de Manaus na década de 1930, observando diversas situações, algumas bem curiosas. 

MANAUS DOS ANOS TRlNTA 

A Inspetoria de Veículos oferecia o seguinte cadastro em 1936: automóveis de aluguel, 55; automóveis particulares, 58; caminhões, 71; bicicletas, 161; motocicletas, 4; carrinhos de bagagem, 42; carrinhos de frutas, 4; carroças, 22; carros de gelo, 6; animais de cangalhas, 115; cavalos de sela, 10 e 22 cavalos de corrida.

Outra evidência do início da década se constituía nos meios de comunicação escrita e falada, específico para o interior do Estado, na divulgação de informes de interesse governamental; e aquele, exercitado pela iniciativa privada constante de jornais e revistas e do Diário Oficial como órgão inerente aos atos e procedimentos do Poder Público, inclusive com edição aos domingos.


Em verdade, o veículo oficial se apresentava com dupla função: a de editar os atos oriundos do Poder Judiciário e de oferecer informações locais e nacionais, transcrição diversas de origem pública e privada, além dos programas de diversão. "Muito grato ficarei prezado amigo se numa das vagas do serviço sanitário ou da profilaxia ocorridas com a saída de Paulo Cerqueira fosse aproveitado o doutor Moraes Rego. Abraços. Efigênio” (nota: tratava-se de um telegrama do senador Efigênio Salles ao presidente Dorval Porto – Diário Oficial, 5 de outubro de 1930).

Outra interessante noticia reproduzia o bilhete seguinte: Rio de Janeiro, 12 de setembro (de 1930). "Meu caro Raimundo Moraes. Recambiado de Madri, onde não estou desde julho passado, recebi aqui o País das Pedras Verdes, que acabei ontem de ler. Como felicita-lo por mais essa obra-prima? V. é de fato um grande escritor e, além disso, um escritor inconfundível. Ex corde. Luís Guimarães.


Outro anúncio, esse de caráter mercantil exercido pelo próprio órgão: "Venda de hoje em diante (10.10.30) lindos álbuns do Brasil, ilustrados, encadernados, dourados a fogo. Próprios para fino presente a preço de Rs. 10$000 quanto cobramos por exemplar, chega ser irrisório. Pedimos ao publico para vir ver o famoso trabalho”.  Tratava-se, portanto, de uma originalidade que os tempos modernos não admitem mais o seu emprego, da mesma maneira, em noticiar os filmes que seriam oferecidos pelos cinemas Odeon, Politeama e Popular, sempre no horário noturno das 8h30, discriminando tanto o elenco como o número de partes de cada exibição.

Os convites naturais aos responsáveis de Na. Sa. de Nazaré em benefício da construção de uma capela, iniciativa de frei José de Leonissa, pároco de São Sebastião, "obreiro incansável da Fé e da Igreja”: “Ontem vieram a esta casa, a Sra. Emília de Castro Santa Cruz e senhorita Maria Cruz  Valdez, a convidar o nosso diretor para mordomo dos solenes festejos que a religião de Manaus promove em honra e benfazeja santa. Tais solenidades que constam de novenário e de quermesse em benefício  da capela de Nossa Senhora de Nazaré prometem revestir-se de desusado brilho”.
Faculdade de Odontologia, edifício atualmente integrado à
igreja de Nossa Senhora dos Remédios

A comunidade manauara servia-se do horário oficial adotado pelo Governo, de conformidade com o decreto específico, que indicava o Relógio Municipal situado à Praça Osvaldo Cruz como seu informante, após os melhoramentos elaborados pela administração Araújo Lima, assim como a partir de 3 de outubro de 1931 a 31 de março de 1932, assumia-se a "hora da economia da luz" (versão antiga do Horário de Verão) em cumprimento ao Decreto n.º 20.466, do Ministro da Justiça.
 
Outros acontecimentos comunitários:
 
• as audiências públicas na Interventoria Federal eram realizadas nas segundas e últimas quartas-feiras das 10 às 12 horas e na primeira e terceira terça-feira, de todos os meses, das 20 às 22 horas, sendo proibida a audiência às senhoras no horário noturno.

• no período de maio/dezembro de 1932, o Posto Lactométrico de Manaus aprovou para consumo os seguintes produtos: 839.470 litros de leite, 9.703 quilos de manteiga, 5.705 quilos de queijos e condenou 11.209 litros de leite pela sua má qualidade.

• o consumo de carne vermelha obtida do abate no Matadouro Municipal apresentou o seguinte resultado no ano: 15.384 bovinos com 2.418.700 quilos; 8.046 suínos com 387.500 quilos; 996 ovinos com 13.600 quilos e 89 caprinos com 750 quilos.

• embora sob promessa da realização da primeira viagem aérea para o dia 20 de outubro de 1933, ao Dr. Waldemar Pedrosa, Interventor interino, a Panair de Brasil somente realizou no dia 25, chegando de Belém às 16horas, cujo regresso ocorreu na manhã de 28 do referido mês.

• a iniciativa do jornalista Jorge de Andrade de solicitar ao funcionalismo estadual, voluntariamente, a doação de um dia de vencimento por mês, para auxiliar o Estado a cumprir seus compromissos externos, era um dos destaques do Diário Oficial do Estado, em virtude da adesão que "continuava a merecer o apoio de tão alevantada ideia".

• o trabalho benemérito da Cruzada Nacional da Educação sob a administração do Dr. André Vidal de Araújo, para cujo empreendimento a Associação Comercial contribuiu com 500 cartas de ABC, 500 tabuadas, 12 dúzias de lápis "Especial", 10 caixas de giz "Victória", 2 resmas de papel almaço "Victória" e 35 volumes de publicações diversas.

• Edezio de Freitas editava o primeiro Guia Turístico de Manaus, contendo inúmeras fotografias de edifícios e trechos de nossa urbe.

• a instalação da Sociedade dos Amigos das Árvores com o escopo primordial de incentivar o culto e proteção das árvores, concorrendo, também quanto possível, para evitar as devastações das nossas reservas florestais, já bastante desfalcadas pela imprevidência humana.
 
• algumas autoridades do início da década: Dr. Vicente Telles de Souza, diretor da Escola Normal; comandante Braz Aguiar da Marinha Nacional; Prof. Marciano Armond, prefeito de Manaus; Dr. Odilon Conrado, delegado Fiscal; Prof. Plácido Serrano, diretor de Instrução Pública; Dr. Jatyr Pucu de Aguiar, diretor da Repartição das Águas; Desembargador Hamilton Mourão, presidente do Tribunal de Justiça; Dr. Júlio Nery, Fiscal Federal de Ensino; Dr. Francisco Pereira, secretário-geral do Estado; Prof. Felismino Soares, secretário da Escola Normal; Dr. Gentil Bittencourt, secretário da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais.

• a Escola Royal , direção de Hylma e Zenir de Medeiros Raposo, realizou exames finais em 1º.11.30, com a presença do Prof. Agnello Bittencourt, na qualidade de presidente da Banca Examinadora, da senhorinha Sylvia Carneiro dos Santos e do Dr. Admar de A. Thury, examinadores, do Dr. Álvaro Maia, como paraninfo. Diplomados: Leonilda de Carvalho Barroco
Adrião, Plínio Ferreira dos Santos, Cecília Silva, Guilherme Marques de Souza, Gilberto Queiroz Rodrigues, Maria Fernandes Ferreira, Aurélia Albano Romero e Laura Couceiro.

• a nova diretoria da União dos Proprietários de Alfaiatarias de Manaus apresentava a seguinte composição: presidente - José M. Figueiredo; vice-presidente - José Bezerra; 1º secretário - Manuel Arraes P. Barreto; 2º dito - Guilherme Johnson; tesoureiro - José Mafra Filho. Diretores: José Alves Ribeiro do Souto e Nicolau Miguel; Conselho Fiscal: Inácio Coelho, Miguel Antônio da Silva e Assírio de Aguiar Silva.

• a Sociedade Portuguesa Beneficente tinha a seguinte administração: Presidente da Assembleia-Geral, comendador Joaquim Gonçalves de Araújo; 1º Secretário, barão Joaquim de Machado e Silva; 2º dito, José Corrêa dos Santos. Diretoria: Francisco da Silva Mattos Cardoso, presidente; Joaquim Pereira de Moraes Carneiro, vice; João Travassos Vinagre, 1º secretário;
Armando Arnaldo Ferreira de Miranda, 2º dito, José Pinheiro Vieira, tesoureiro; José Pereira Manarte, adjunto e Joaquim Pinto da Silva Junior, como procurador.

• concluíram o ensino secundário no triênio de 1934 a 1936, no Ginásio Pedro II e no Colégio Dom Bosco, 84,51 e 60 alunos respectivamente, enquanto na Escola Normal colocou a disposição da sociedade no mesmo período: 48, 52 e 53 professores de 1º grau.

• o ensino comercial no ano de 1936 apresentou um quadro de134 concludentes preparados pela Escola Solon de Lucena, Colégio Dom Bosco, Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, Instituto Benjamin Constant e Escola Prática Senador Lopes Gonçalves.

• o curso superior nos anos de 1934 a 1936 teve a seguinte performance: Faculdade de Direito, 17 advogados, Faculdade de Farmácia e Odontologia, 66 profissionais e Faculdade de Agronomia, 16 agrônomos.

• a Santa Casa de Misericórdia atendeu 1.331 internações, sendo 772 do sexo masculino e 559 mulheres, enquanto o movimento do Hospício Eduardo Ribeiro foi de 23 homens e 22 mulheres, segundo o relatório do governador, Dr. Álvaro Maia, perante à Assembleia Legislativa do Estado no ano de 1936, com referência a assistência hospitalar sob a responsabilidade do Poder Público.

• a estatística criminal expressada pelo Estado, no ano de 1936, ofereceu o seguinte desempenho: 18 defloramentos, 22 estupros, 1 rapto, 4 atentados contra o pudor, 33 homicídios, 4 tentativas de homicídios, 44 lesões corporais leves, 18 lesões corporais graves, 2 castigos imoderados, 16 crimes culposos, 1 calúnia, 1 dano, 11 furtos, 2 estelionatos, 3 roubos 1 desacato, totalizando 182 contravenções e crimes.

• ocorreram em 1936: 21 suicídios, sendo 15 diurnos e 6 noturnos, tendo como causas presumíveis: amores/3, alienação mental/3, revés da sorte/4, doenças diversas/2, desgostos de família/2 e sem qualquer possibilidade de presunção/7. Os locais do infortúnio apresentaram como ambiente: casas de família/17, baia do Rio Negro/2 e casas de prostituição/2.

• a movimentação aeroportuária constituída de aeronaves, embarcações interioranas, navegação de cabotagem e de longo curso no ano de 1936, exibiu a seguinte performance: 55 aviões, 86 motores, 394 lanchas, 357 vapores e 56 paquetes, sendo sua procedência do interior (621), outros Estados (240) e do exterior (87).

sábado, setembro 07, 2013

BANDA DE MÚSICA DA PMAM: 120 ANOS (8)

Recorte de A Crítica, 7 setembro 1993
Há 20 anos, no Dia da Pátria, o jornal A Crítica publicou um texto de minha autoria sobre a Banda de Música da Polícia Militar do Estado, que completava o primeiro centenário. Lembro ainda, foi no tempo em que este matutino abria suas páginas para todos os colaboradores, sem distinção de tema e tamanho do texto.
Aquela publicação, confesso agora, deu-me grande satisfação ao ver minha primeira investida na literatura bem sucedida. Vou repetir o texto, porém com as correções que o tempo e as pesquisas me obrigaram a fazê-las.



A Guarda Policial (hoje Polícia Militar do Amazonas) reinstalada em 26 de abril de 1876 prosperou, ainda que claudicante, quer pela necessidade de efetivo, quer pela expansão da tropa pelo interior, porém, até o advento da República, a (banda de) Música ainda não fora nela organizada. “Julgo que a criação de uma música no Corpo Policial seria já oportuno”, ambicionava o comandante deste corpo, major Tertuliano Mello, em relatório de 5 de agosto de 1888.
Com a instalação do estado do Amazonas e, mais, com a presença de governantes militares na primeira década de sua existência, a Força Policial foi amplamente impulsionada.

Recorte do livro de assentamentos de regente
 
Em 1892, ao tomar posse no governo, o tenente Eduardo Ribeiro recebeu um substancial relatório da Comissão que apurou o Tesouro Estadual. Por intermédio deste, foi informado que, por ofício de 25 de janeiro, a Casa J. H. Andresen, por seu representante na Europa, José Cláudio Mesquita, havia recebido através do London Bank Limited, a quantia de sessenta e oito contos de réis, destinada à aquisição de armamento para a tropa e de instrumental para a Banda de Música do Batalhão de Polícia. (Trata-se da primeira denominação imposta à PMAM no governo republicano.) Diante do exposto, quatro anos depois, o anseio do comandante Tertuliano afigurava-se realizar.

A realização foi confirmada pelo major Raimundo Afonso de Carvalho, comandante do Batalhão Militar de Segurança (segunda denominação), em relatório de 3 de junho de 1893. Todavia, em razão deste comandante não ter apontado o dia efetivo da criação, mas, com sua exposição apenas delimitou o período, entendo que, admitir a data deste revelador documento como de tão grata efeméride para os integrantes da Banda, é, pois, justíssima. 

A adoção desta sugestão permitirá à garbosa corporação musical aproveitar o ano do centenário (1993) para os merecidos festejos. As autoridades estaduais, à frente o comandante da Polícia Militar, hão de propiciar esse privilégio. Afinal, a secular organização, raras são as que ultrapassam essa idade, ainda projeta venturoso futuro, reiterando as palavras plenas de euforia do coronel Afonso de Carvalho.

O nominado, além de comandante da Polícia Militar, no ciclo de governo de Eduardo Ribeiro, foi deputado no Congresso Estadual e, sendo seu presidente, assumiu o governo do Estado, em 1907. Há muito deveria ter sido homenageado pela corporação militar estadual, a ocasião parece propicia, quando se celebra a primeira centúria da Banda de Música. A meu ver, é supinamente merecido denominá-la de “Coronel Afonso de Carvalho”. 

Criada a banda, a corporação militar à qual esta se incorporava teve oportunidade de ampliar o quadro de músicos. Em 1897, no governo de Fileto Pires, constituía-se no Regimento Militar do Estado, composto de dois batalhões, dos quais, o 1.º, sob o comando do tenente-coronel Cândido José Mariano, seguiu em 4 de agosto para combater os conselheiristas em Canudos.
Nesse mesmo ano, pelo Decreto n.º 203, de 30 de outubro, foi dado regulamento provisório para as bandas de música dos batalhões de polícia do Estado. Sim, cada batalhão dispunha de uma banda.  Suponho que o provisório se tornou definitivo, uma vez que, na transposição do século, mandava a lei que o regimento tivesse “um inspetor-geral das bandas de música, com uma gratificação arbitrada pelo governador”. Em outro relatório, sabe-se que “mantinha o Estado duas bandas de música nos dois batalhões, mais tarde, porém, houve V. Exa., por bem, mandar organizar uma terceira banda para o Corpo de Bombeiros”. Esta chegou a funcionar, porém teve vida efêmera. 

Encerrado o fausto produzido pela exploração da borracha, a metrópole regrediu e, conjuntamente, a corporação musical.  Perseverou, contudo, servindo à Força Policial, assim como às farras de Manaus; prestou as ordens de estilo na recepção às autoridades visitantes, do mesmo modo que animou os ágapes oferecidos a estas; acompanhou as procissões religiosas; compareceu ao Teatro Amazonas para preencher o intervalo das peças em exibição. Realizou passeio (desfile) pelas ruas centrais, com acompanhamento do batalhão policial. Até que a Revolução de 1930 extinguiu a ambas: a Força e a Banda.

Esta ainda prosseguiu sob o patrocínio da prefeitura local, porém foram anos difíceis, porque os componentes desta, para sobreviver e alimentar o seus, tocavam pelas esquinas em busca de donativos. Era intitulada de a “banda dos abandonados”.

Pesquiso para estabelecer os nomes dos regentes da Banda, especialmente os anteriores à cessação em 1930. Marcio Páscoa concluiu e publicou trabalho sobre a Música no período áureo da borracha, do qual me louvei para esclarecer alguns pontos negros.

Nesse sentido, transcrevo o convite publicado em Diário Oficial do Estado (18 fevereiro 1894) convidando para assistir a banda de música do Batalhão Militar de Segurança, sob a regência do hábil professor Aristides Bayma, às quatro horas da tarde, no coreto do jardim da Praça da República (atual Pedro II). Aventurei-me a indicar este professor como o primeiro regente da Banda coronel Afonso de Carvalho. Não foi. O primeiro foi Cincinato Ferreira da Silva. 

Para recordar, relacionei alguns regentes, cuja relação ainda se encontra incompleta: tenente Albino Ferreira Dantas, pernambucano de Quipapá, o qual em janeiro de 1944 circulou pelo Nordeste em busca de músicos. Seu sucessor foi o tenente José Arnaud, de Sobral-CE, que assumiu em 3 de julho de 1945. A seguir, o tenente Mirtillo Fricke de Lyra, alagoano, nomeado em 1950. Sua gestão durou apenas um ano, sendo substituído pelo tenente Nicanor Puga Barbosa, cuja família (pai e irmão) emprestou à mesma Banda a força dessa arte. Veio, então, tenente Joaquim Henrique de Souza, regente entre 1954-60. No ano seguinte, a regência coube ao capitão (da PM do Pará) Manoel Belarmino da Costa.
Então, a Polícia Militar implantou uma novidade, contratou para esse serviço ao maestro Dirson Costa, em 1962. O tenente Ernani Puga conduziu os músicos entre 1962-67, restando-lhe a primazia de brindar a corporação com o arranjo de seu hino oficial. Foi seguido pelo tenente Raimundo Alves Bezerra, de Fortaleza-CE, por quase dez anos (1967-76), que trouxe de sua terra alguns dos músicos que dirigiram a Banda. Hoje, a regência cabe ao tenente José Antônio Valério da Silva.  
 
Banda de Música apresenta-se no coreto
da Praça da Polícia (foto de Carlos Navarro) 

Enfim, para rememorar um “regente” popularíssimo, protagonista de desfiles memoráveis, valho-me do saudoso escritor Artur Engrácio: “Como disse, ele não perdia um desfile de tropas da Polícia Militar. Nas datas das comemorações cívicas daquela corporação, era o primeiro a chegar ao quartel. De um pedaço de vara fazia a sua batuta e, iniciada a marcha, punha-se à frente da banda de música manejando imponente o seu instrumento de maestro improvisado”.
O Bombala foi essa figura excêntrica. Em seu nome, cumprimento aos maestros, regentes e músicos da Banda de Música Coronel Afonso de Carvalho pelos 120 anos de sonoridade derramada sobre o Amazonas.

terça-feira, setembro 03, 2013

CORPO DE BOMBEIROS: CORONEL ALCANTARA (2)


Coronel Alcântara, no
Senabom, em 2006
Estou ultimando um trabalho literário sobre o Corpo de Bombeiros do Amazonas. Para complementar esta retrospectiva, entrevistei o coronel BM Franz Marinho de Alcântara (1952-) que por mais de seis anos exerceu o comando do CBMAM. A conversa ocorreu em junho de 2006 e, para melhor entendimento, o coronel Alcântara preferiu uma conversa contando com a presença do chefe do Estado-Maior, coronel BM Marcos Antônio Rodrigues Ferreira (1957-). Assim, foram dispensadas perguntas prévias. Em resumo, o ex-comandante dos Bombeiros efetuou um momentâneo relato de seus empreendimentos. Aqui e ali, houve uma intromissão, seja do autor seja do chefe do EM.

 
Quartel central dos Bombeiros,
em Manaus

Franz Marinho de Alcântara – (depois de um telefonema) Onde a gente estava? Sim, no caiaque. Mas, há outro projeto, o do AST (Auto Salvamento Terrestre), de fabricação alemã. Parada, há quase 15 anos, esta viatura, tração 4x4, foi totalmente reparada, inclusive com a novidade do alongamento do chassi. A ideia inicial era conseguir por doação um QT (veículo militar) junto ao Exército, mas as negociações não deram resultado. Então, lembrei-me de nosso AST alemão, que depois de reparado e alongado, recebeu uma carroceria copiada do QT. O objetivo inicial era transportar tropa para combate em incêndio florestal, além de busca de pessoas perdidas na mata. No entanto, na estiagem de 2005 funcionou com sucesso transportando alimentos, cestas básicas e água potável. Tem mais, as motocicletas...

Motocicleta equipada -  lançamento do comando
do coronel Alcântara
Roberto Mendonça – ...como as motocicletas foram empregadas?
FMA – Comecei empregando motocicletas CBX200, no centro da Cidade. Instalamos um PB (Posto Básico) na rua Marechal Deodoro, de 8 às 18h. Sempre que acionados pelo 193, enviávamos a solicitação por rádio para o pessoal do posto, que combatia o incêndio com extintores. O índice de incêndios na área diminuiu bastante, hoje é quase nulo. Mas, não se deve apenas ao trabalho dos motociclistas, em paralelo houve um trabalho preventivo. As motos foram altamente positivas. Mas, as vistorias técnicas, sem cunho punitivo, apenas fiscalizador e orientador, surtiram efeito. Buscamos despertar na sociedade uma consciência preventiva. Ao final, elaborávamos um laudo que indicava as falhas a ser corrigidas, os pontos positivos, tudo isto chegava a custo zero ao proprietário, inquilino ou síndico. 
Também fizemos muitas palestras para o pessoal do comércio, organizamos brigadas de incêndio. As brigadas tinham apoio do CDLM (Centro de Diretores Lojistas de Manaus). A aplicação destas iniciativas levou-nos à redução drástica de incêndios no Centro.

Resolvido o Centro, passamos às estradas, com os Bombeiros na Estrada! E, já no primeiro dia, salvamos uma vida. Tratou-se de um jovem acidentado na estrada Manaus-Itacoatiara, próximo à empresa Brastemp. Como o CBM somente dispõe de duas unidades de salvamento, o comando elegeu, na AM-010, os dois locais onde mais ocorrem acidentes: na entrada da Cidade Nova e entre os quilômetros 27 e 35. Como funciona: de hora em hora as motocicletas se deslocam pela estrada em marcha de patrulhamento. A ação foi positiva.
Certo dia, por pouco os patrulheiros assistiam a um acidente. Um jovem, que dirigia um Pálio (veículo da marca Fiat) chocou-se frontalmente com uma Kombi, no km 32. Os Bombeiros, que ouviram os ruídos da colisão, chegaram prontamente e tomaram as providências para o salvamento. Curado, este jovem, por recomendação do médico assistente, sem entender muito, veio ao Quartel agradecer-nos o milagre.

O governador Eduardo Braga, tomado e estimulado pela eficiência da operação, concedeu ao Corpo de Bombeiros cinco motocicletas de 1.000 cilindradas. Com estes potentes equipamentos, o Corpo de Bombeiros do Amazonas passou em todo o território nacional, quiçá no mundo, a ser o único Bombeiro a prestar escolta de autoridades.
A seguir, veio-me a preocupação com pessoas que se perdem na mata. Para este trabalho, empenhei motocicletas modelo motocross. O primeiro a comandar uma operação deste tipo, usando uma motocross, foi o tenente Sulemar Barroso, oriundo do Exército, por sua experiência na selva. Ao final, em relatório, este oficial me comunicou da acertada escolha da moto, pois que, em apenas três dias, percorrera 550 quilômetros. Suas vantagens: cobre grande área em menor tempo; poupando...

RM - ... e a comunicação?
FMA -- Sim, na selva fechada não funciona, precisa se deslocar para área aberta. Mas, trabalhamos com o sistema Globosat. Poupando a energia da tropa. Circula pelos ramais distribuindo informação e colhendo informes dos moradores. Na sua circulação, a motocross deixa marcas de pneus na selva, com isso, há chances do motorista e do elemento perdido acompanhá-las. Outra vantagem é o ruído do motor que, já testado, alcança quatro quilômetros. Estes são os projetos alternativos, mas no Senabom...

RM -  ... quando será o próximo Senabom?
FMA – O organizador do Senabom exige minha presença com o projeto das motocicletas. Apesar de tê-lo apresentado ano passado, o organizador, como disse, exige que o apresente ao Brasil, pois ele é o marco para nós, Bombeiros! É preciso que ele venha para abrilhantar nosso...

(O Senabom mencionado aconteceu no Rio de Janeiro, em julho de 2006, coordenado pelo Corpo de Bombeiros daquele Estado. Estive presente e assisti a desenvoltura das motos e outra "máquina" conduzida pelo coronel Alcântara).

RM – ... este projeto já foi copiado?
FMA – Já. Os Bombeiros do Rio e de São Paulo, por exemplo. E mais, Roberto, este projeto me deixa satisfeito, muito satisfeito. Em função dele, já fui entrevistado pelas TVs da Alemanha, do Japão e da Itália... e, veja, os jornalistas viram a ação dos Bombeiros na rua Marechal Deodoro e perguntaram sobre. Como os soldados informaram que a ideia fora do comandante, as TVs estiveram comigo.

Há outro detalhe: em uma reunião do Conselho Nacional de Comandantes de PMs e Bombeiros, em São Paulo, pude desfrutar o sucesso da minha criação. Coronel Jair Pacca, comandante dos Bombeiros/SP, estava presente. Os comandantes e eu viajávamos em um ônibus do CB por uma avenida de São Paulo, quando deparamos com uma moto acidentada e o motoqueiro no chão. O ônibus parou. O coronel Cristian, comandante dos Bombeiros/RS, prontamente desceu e deu assistência ao ferido. O motorista do ônibus informou ao 193. Em três minutos (!) chegaram as motocicletas do CB. Solicitei, então, ao coronel Cristian que deixasse o atendimento para os Bombeiros.

Diante de uma plateia de comandantes gerais, nem assim os Bombeiros intimidaram-se. Em dez minutos, a unidade de resgate começou a ser ouvida. Chegou em 14 minutos. Bastou 30 segundos para colocar o ferido no interior e sair. Meu projeto estava aprovado e mais, salvando vidas em São Paulo e outros estados do País. Orgulhoso, perguntei-lhes a opinião sobre o projeto. O coronel Cristian confessou ter desacreditado de sua eficiência, porém agora se declarava entusiasmado. Iria ao governador, tão logo regressasse para solicitar a compra de motos e, assim, implantá-lo em Porto Alegre. Eu estava recompensado.

Tem mais: o projeto das motocicletas está patenteado, patenteado em meu próprio nome. E por ele recebi inúmeras e vantajosas ofertas. Sigo convicto de que o que executei não foi para angariar fortuna, mas para salvar vidas, como já acontece pelo Brasil a fora. A força empresarial vem atuando.
Neste sentido, o coronel Sampaio, ex-comandante dos Bombeiros/SP, editor da revista Incêndio, pediu-me notícias sobre o projeto. Enviei-lhe vários recortes de jornais. Ele os tomou e com eles elaborou uma entrevista, apenas, contou-me depois, os empresários não querem ver a revista circulando com a matéria.

RM – E a revista circulou?
FMA – Circulou. Quando peguei a revista, fiquei surpreso com minha foto na capa e três ou quatro páginas de entrevista.

RM – Vamos conversar sobre a expansão dos Bombeiros.
FMA – Quando cheguei, encontrei 392 homens e três viaturas de combate a incêndios operando. Detalhe: as duas escadas (AE) com defeitos mecânicos. Uma escada é de fabricação de 1974 e a outra, de 1986. Tínhamos o comando-geral aqui em Petrópolis, e mais, o 1.º Batalhão de Incêndio, que depois foi transformado em 1.º BIF/MA, de Florestal e Meio Ambiente, interessado em recolher cooperação de órgãos preocupados com o meio ambiente. Nada consegui. Funciona no Distrito Industrial. Com esta unidade combatemos dois grandes incêndios, em Barcelos: em 2003, com 220 km2 de floresta queimada, sob o comando do tenente-coronel Max; em 2004, foram 312 km2 consumidos, sob o comando do tenente-coronel Almeida.
Também encontrei o Batalhão de Bombeiros Especial (BBE), que hoje funciona em aquartelamento situado na Manaus Moderna. (este quartel, a fim de permitir a implantação do Parque Jefferson Péres, foi transferido para as proximidades do elevado de Flores). Outros locais de atendimento: no próprio Aeroporto Eduardo Gomes, que cuida da segurança de aeronaves; Posto da Rodoviária, onde existiu esta unidade da PMAM, no complexo de Flores. No interior: em Itacoatiara e Manacapuru, com unidades de bombeiros urbanos. Além disso, o convênio com os aeroportos de Tefé e Tabatinga.

Hoje, que tem o CBMAM? Além do encontrado, instalei o Posto Soldado Sobrinho, na entrada do aeroporto, como usualmente se diz; o Posto do Zumbi, bairro da Zona Leste, onde funcionava uma base da Cosama; e mais dois Postos do CIS, um na feira da Panair, em Educandos, e outro, na Grande Circular, também Zona Leste.
E, no interior, a unidade de Parintins. Em resumo: temos 695 homens para atender em nove pontos na capital e três, no interior. As viaturas de combate são em número de 14, mais a AEM 17. Ainda há a AEM 01, como não funciona a escada, serve apenas para condução de personagens diversos. É preciso assinalar que também adquiri botes de alumínio e infláveis e motores de popa. Também os jet sky...

RM - ... esse material era empregado em salvamento em praia, que agora será empregado o caiaque...
FMA – ... o Jetsky é muito bom, só que por seu tamanho, 1200 cil., ele bebe demais, ficou muito custoso. Devo comprar um de menor capacidade, de 550 cil., pois atende perfeitamente ao serviço e com um tanque de combustível passa um dia na praia.

RM – Fale para nós acerca dos mergulhadores.
FMA – Os mergulhadores do Corpo são, para nossas águas, os melhores do mundo! Já vi mergulhadores especializados europeus recusarem mergulhar no Amazonas. E os mergulhadores do CBM fazem este serviço. Alguns fatos para ilustrar: uma senhora do interior nos procurou implorando que os Bombeiros encontrassem o corpo de seu filho, que havia se afogado. Pelas informações, vi que era quase impossível. Mas, diante dos apelos maternos, os mergulhadores seguiram para o local. Antes de sair do meu gabinete, presente o coronel Marcos, a senhora afirmou com total convicção: “Eles vão achar!”

Cinco dias depois, nada. Mas, um sargento da equipe à noite sonhou o local do acidente. Para os colegas do serviço, isto se tornou motivo de chacota. Contudo, seguiram o sonhador e, quando este indicou o local, foi obrigado a mergulhar. Lá estava apenas a ossada, pois a quantidade de piranhas e outros peixes haviam descarnado o cadáver. A mãe voltou a este quartel e, entre lágrimas, deixou em uma placa seu reconhecimento.
Outro fato envolve o prefeito de Novo Aripuanã e o governador Eduardo Braga. Certo dia, esse prefeito pediu-me desesperadamente que os mergulhadores fossem ao município, a fim de encontrar o corpo de um afogado. Ponderei de diversas formas, mas tive que ceder. Mandei a equipe. Lá, ela foi levada ao local, onde se empenhou ao máximo. Ao final da tarde, o cadáver foi encontrado.

À noite, o governador Eduardo Braga chegou à sede do município e, em plena praça pública, elogiou aos mergulhadores, mas os desafiou para nova missão. É que sua equipe perdera vários e preciosos equipamentos no naufrágio de uma canoa. Levados ao local, os Bombeiros voltaram ao trabalho e, no dia seguinte, apesar dos 20 metros de profundidade, encontraram o material submerso. Em contato comigo, o governador não mediu elogios aos mergulhadores.
RM – Uma palavra final.
FMA – Lembro somente o que foi realizado de positivo, somente recordo as boas realizações. Tenho o maior respeito pela tropa que comando, toda ela empenhada na realização de nossos projetos.

Nota – coronel Marinho de Alcântara deixou o comando do CBMAM em 2007, depois de mais de seis anos à frente desta corporação.

segunda-feira, setembro 02, 2013

CORPO DE BOMBEIROS: CORONEL ALCANTARA


Estou ultimando um trabalho literário sobre o Corpo de Bombeiros. Para complementar esta retrospectiva, entrevistei o coronel BM Franz Marinho de Alcântara (1952-) que durante cinco anos exerceu o comando do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas. A conversa ocorreu em junho de 2008. Para melhor entendimento, coronel Alcântara preferiu conversar, contando com a presença do chefe do Estado Maior, coronel BM Marcos Antônio Rodrigues Ferreira (1957-). Assim, foram dispensadas perguntas prévias. Em resumo, o ex-comandante dos Bombeiros efetuou um momentâneo relato de seus empreendimentos. Aqui e ali, houve uma intromissão, seja do autor seja do chefe do EM.

Tenente Alcântara, ao ingressar
na Polícia Militar 
Roberto Mendonça (iniciando a conversa) - Em que condições o senhor assumiu o comando do Corpo de Bombeiros?
Franz Marinho de Alcântara - Em uma tarde de março de 2001, fui chamado ao quartel pelo coronel Mael Sá, então interventor nos Bombeiros. Surpreso, pois já estava consciente da minha transferência para a reserva, nada mais esperava. Sem saber do assunto, aqui cheguei e, acompanhado do então tenente coronel Marcos Ferreira, fui recebido pelo comandante que, sem perguntas ou explicações, me passou um molho de chaves do quartel, afirmando que a partir daquele instante, eu havia assumido o comando do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM). Disse-lhe: Não, coronel, não é assim não! E tentei argumentar, mas o coronel Sá foi incisivo, assegurando-me que já havia conversado com o governador Amazonino Mendes, que aceitara a indicação. E mais, minha nomeação já se encontrava no periódico oficial.

Coronel Marcos Ferreira,
posando com o sino
histórico, no quartel dos
Bombeiros
RM – O secretário de Segurança era...
FMZ – ...o vice governador Omar Aziz, que substituía Klinger Costa. Então, deixei de argumentar, para me preparar para a batalha. No dia seguinte, 23 de março, reuni os oficiais e, após dar-lhes ciência do decreto governamental, dei início ao trabalho. Tudo passava por dificuldades. As viaturas, a base de sustentação de um serviço de Bombeiros, estavam paradas. Apenas três tinham condições de emprego. O pessoal, notadamente os praças, diante das controvérsias, pois não entendiam o rumo que tomava a corporação, pensavam em retornar à Polícia Militar. Enfrentei os desafios, que não foram de maneira alguma simples.
Alguns dias depois, preparado um Relatório sobre a situação da instituição, procurei o governador do Estado.
Suas palavras foram duras: não há verbas para recuperar as viaturas. Houve, confesso aqui, um momento de desânimo de minha parte. Pensei desistir. Ao mesmo tempo, pensei que não podia abandonar o desafio. Se eu aceitara o comando, por que fugir? De retorno ao quartel, decidi: vou voltar e recuperar as viaturas. Todas as viaturas!

RM - E quantas viaturas o Corpo possuía? 
FMA - Possuía 10 viaturas de combate a incêndios na capital, e mais duas em unidades do Interior (Itacoatiara e Manacapuru). Um pouco depois, desloquei uma para o quartel de Parintins e ficamos mais reduzidos. Como se sabe, estas viaturas estão divididas por lote de aquisição. Temos um, adquirido na Alemanha, ainda em 1974, portanto com mais de 30 anos funcionando. Outro, adquirido há cerca de 20 anos, no governo Gilberto Mestrinho (1983-87). Por tanto, o sucateamento era quase total. Lembro-me de que consertei viatura parada, inservível, há mais de 10 anos, e mais, encontrei veículos com guia de recolhimento para a SEAD (secretaria de Estado da Administração), com finalidade de ser leiloados.
Ora, se não havia dinheiro para adquirir, como me assegurou o governador, essa dificuldade me impunha o compromisso de recuperá-las. E, foi o que fiz, ao longo de alguns anos, claro. O orçamento era o maior entrave, por isso, somente em 2004, acabei de recuperar todas as viaturas. São estes os carros de combate que estão operando, acontece que estes, já deram o que tinham que dar. Assim, diante dos obstáculos existentes: de um lado, a Cidade crescendo extraordinariamente e, de outro, os Bombeiros não acompanhando em todos os sentidos essa evolução, passei a buscar junto à sociedade projetos alternativos.
Possuo uma filosofia de trabalho que busco passar para os subordinados, a de que, a missão confiada aos Bombeiros Militar, por menor que seja, deve ser realizada da melhor maneira possível. Este deve ser o diferencial.

Para isso, procurei investir no homem. Este foi um dos grandes desafios, por entender que o homem precisa ser estimulado, estar bem física e mental para desempenhar suas atividades. Em especial, a atividade de Bombeiros, que exige por demais do pessoal. Conversei bastante com todos. Precisava demonstrar a eles por que viera comandar o Corpo. Precisava resgatar a auto-estima da tropa. Em grande parte, consegui. Quando cheguei, encontrei a tropa desmotivada, desorientada e muitos agradeciam a minha presença no comando, porque estavam querendo retornar à PMAM, porque temiam o rumo que o Corpo de Bombeiros estava tomando.

RM – Um parêntese. Em sua opinião, que saiu confuso na separação dos Bombeiros?
FMA – A separação foi importantíssima. Agora, a forma como foi procedida, um pouco desastrosa e traumática, deixou feridas na Polícia Militar. Até hoje, passado 8 anos, ainda percebo estes traumas. Tanto que, em situações que podem ajudar, eles obstacularizam para o CBM. E o CBM, somente não voltou para a PMAM, devido ao pedido do interventor, coronel Mael Sá. Os falatórios desanimadores que circularam, à época, serviram-me de estímulo, tanto que trabalhei e trabalhei para demonstrar que tínhamos capacidade de administrar o Corpo de Bombeiros com competência. Aqui está o resultado!

Hoje, o Bombeiro é outro. Não só resgatamos a auto-estima da tropa, como reconquistamos o respeito e a confiança da sociedade. E mais, depois de conquistarmos este prestígio a nível local, o fizemos nacional.

RM – Licença, coronel. Depois voltamos aqui. Mas, fale dos projetos alternativos.
FMA – Temos alguns projetos. O primeiro é o da Motocicleta Pioneira, que já é uma realidade nacional, copiado a nível nacional. Com ele participamos do SENABOM, em 2004, quando fizemos uma expusemos o projeto para todo o Brasil. Na ocasião, demonstramo-no na arena da Expo, onde, sem falsa modéstia, nosso estande foi o mais visitado. Ali, o Brasil aplaudiu o Corpo de Bombeiros do Amazonas...

RM – ... diria que este projeto teve mais repercussão nacional, que local.
FMA- _ Muito mais. Tanto que, fui premiado em vários estados do Brasil, mas muito pouco na terra, como a ratificar o adágio: santo de casa não faz milagres. Basta observar a estante de troféus existente no comando geral, para confirmar a exatidão de minhas palavras.
Instalei o projeto da Motocicleta, visando atender o grande número de incêndios na Manaus Antiga. Ali se encontram prédios centenários, de fácil combustão, com rede elétrica precária e em locais de acesso embaraçoso. Ali, sempre que acontecia um incêndio, era um problema. Então, trabalhamos na prevenção, de sorte que hoje naquele espaço os sinistros são de pequena monta.

RM – Que outro projeto o CB desenvolveu, coronel Alcântara?
FMA – Foi o projeto do Hovercraft, destinado à prevenção e salvamento aquático, para ser utilizado, sobretudo, em pântanos e outros alagados. Foi construído inteiramente em nossas oficinas, desde o casco. Mas, devido ao valor bastante elevado, vem sendo produzido de forma mais lenta.

RM – Pergunto se está funcionando, pois as características de nosso interior são bastante diferentes do que vimos na aplicação, esclareço, pela TV.
FMA — Penso um pouco mais adiante. Disse ao governador (Eduardo Braga): se tivessemos mais desses veículos, quando da estiagem que atingiu o Amazonas, ano passado, não teríamos tido tantos prejuízos. Apenas um detalhe, ainda falando da estiagem. Quando sobrevoamos a região, observei varias balsas encalhadas, isto fez com que a produção regional se perdesse. Na hipótese da existência do Hovercraft, que circula sobre uma pequena lâmina de água ou até sobre a terra, teríamos salvado grande parte da produção. Diante da enorme soma de dinheiro para concluí-lo, transformei-o em aerobarco.

Marcos Ferreira — Quero acrescentar que o investimento em pesquisa é importante, quanto gasta a Nasa para manter este setor? Todavia, poucos têm compreensão de que a pesquisa em órgão público deve ser estimulada. Nos Bombeiros, o comandante a estimula, tanto que instalou a Diretoria de Ensino, Instrução e Pesquisa (Deipo), que vem cumprindo a contento seu objetivo.
FMA — Entre outros projetos, quero falar de um, que até o adjetivo de audacioso: o da construção de carros. Projetamos e construímos viaturas de combate a incêndio aqui, no Corpo de Bombeiros do Amazonas. Já construímos duas, sendo uma para combate a incêndio de pequeno porte e outra, para grande porte. É um projeto audacioso, inédito, não apenas para os Bombeiros do Amazonas, mas para os do Brasil.
No país, quando os Bombeiros desejam adquirir viaturas, buscam as fábricas, informam suas necessidades e recebem prontas. No nosso caso, construímos para a realidade regional, testando nossas necessidades. Entretanto, nem aqui se acreditava na consecução deste projeto. Então reuni oficiais e demais praças para colocá-los a par do empreendimento, de que, se realizado, seria nossa redenção. O próprio presidente da comissão – coronel Reginaldo Lima, ao final, confessou que não acreditava no projeto, mas que trabalhou, porque viu meu brutal entusiasmo, minha enorme empolgação.

Ai está o resultado: uma viatura com um tanque de 600 litros, com uma bomba de alta pressão e baixa vazão, empregada com sucesso em acidentes com veículos. Se houver incêndio, os Bombeiros apagam; se houver pessoa presa nas ferragens, resgatam com o desencarcerador; se houver necessidade de limpeza da pista, também há material. Pequena, de grande mobilidade, a viatura vem fazendo sucesso.
A outra viatura: o ABT 18, equipado com tanque para 5000 litros de água, com uma bomba de 750 galões/minuto. Vem sendo a viatura mais importante para nosso trabalho. Acabamos com o improviso, que era levar os Bombeiros em uma gaiola. Pensamos: se nós obrigamos aos outros ao cumprimento de varias exigências de segurança, temos o dever de dar o exemplo. Por isso, instalamos a cabine dupla, onde o homem dispõe de segurança e conforto. 

MF – Desejo lembrar que temos estimulado todos os componentes do CBM, no sentido de que encaminhem ao comando qualquer projeto...
FMA – ... o exemplo mais patente desta iniciativa foi o projeto Caiaque, do soldado H. Moraes (José Helio Cardoso de Moraes), destinado a prevenir e salvar vidas nas praias e balneários, em especial, na praia da Ponta Negra. No primeiro instante, na piscina do quartel, treinamos uma equipe sob a supervisão do tenente Sulemar (do Nascimento Barroso), do sargento Liberato (José Fernando Liberato Fernandes), campeão amazonense de remo, do autor do projeto e mais soldados.
Determinei que o treinamento fosse encerrado na Ponta Negra, no final de semana, a fim de testá-lo na prática. Na quinta-feira, na Ponta Negra, testávamos o projeto, quando fomos testados. Uma pessoa resolveu nadar até um bóia de sinalização, há cerca de 600 metros, e estava se afogando. A equipe prontamente alcançou o afogado, realizando o salvamento conforme treinamento. Diante desta demonstração ao vivo, entendi que o projeto Caiaque estava plenamente aprovado. Salvar vida, não tem preço! Por isso, mandamos construir três caiaques, com algumas modificações para adequá-los ao serviço, e breve estarão nas praias.  (segue)