CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, julho 22, 2011

Convite & Convite (IV)

- Convido a todos a prestigiar a entrevista de Antonio Loureiro, na TV Cultura - Manaus.
Antonio Loureiro dará entrevista no programa VIVA MEMÓRIA, apresentado pelo publicitário Durango Duarte.
É uma das novidades da programação da TV Cultura do Amazonas, Viva Memória é um programa ao estilo talk-show.
Dr. Antônio Loureiro

O objetivo da produção é resgatar e preservar a memória de Manaus. O programa - de uma hora de duração - terá como convidados pessoas com mais de 70 anos, que têm, ou tiveram, destaque na sociedade manauara e irão compartilhar com a audiência os acontecimentos que marcaram época na cidade.

Apresentação: Durango Duarte
Exibição: quarta-feira, 27 julho, - 23h 
Reprise: domingo, 31 julho, - 12h30

JÂNIO QUADROS E O AMAZONAS

No próximo mês, a renúncia do presidente Jânio Quadros completa 50 anos. Quero lembrar o evento que, bem ou mal, não ocorreu. Anunciado para 31 de agosto, também há quase 50 anos, o presidente JQ tinha programado comparecer a VI Reunião de Governadores. Era governador do Amazonas Gilberto Mestrinho.

Para esta assembleia, o governador Mestrinho preparou um longo memorial, com as Reivindicações do Amazonas. Entre outras exigências, tratou de moradia popular para desativar a Cidade Flutuante, situada em frente a Manaus.

Visão aérea da "Cidade Flutuante"
e um mapa da situação (abaixo)


Sob o título de habitações populares, GM solicitava recursos para “a construção de 500 casas destinadas a outras tantas famílias residentes em habitações acumuladas, sob a forma geral de ‘flutuantes’, sobre as águas que contornam a cidade de Manaus”.

Na justificativa, GM delineava “o aspecto médico-social constituído pela habitação chamada “flutuante”, misturada à outra, palafítica, sempre em aglomerados distribuídos às margens e sobre as águas que cercam e semicruzam a cidade de Manaus”.

Ainda para consolidar a exposição, acusou a existência de 1.389 habitações, distribuídas dessa maneira: 1.260 residências; 83 pontos de comércio e 46 mistos (comércio e pequenas oficinas). Outro detalhe relevante: a predominância entre os ocupantes de pessoas reconhecidamente pobres, vivendo nas “piores condições de saúde”.
Aspectos da "cidade" onde as piores condições
se reuniam

Nas casas precárias, a convivência de pessoas e animais

Crianças "divertiam-se" nas águas poluídas
Enfim, coexistiam na Cidade Flutuante “a precariedade de meios de subsistência, a contaminação endemo-epidemica e os mais primários interesses nem sempre legais”. Era uma mistura sulfurosa.
Para os mais jovens, esta “cidade” desapareceu cinco anos depois, no governo de Arthur Reis, o primeiro governante do Regime Militar no Amazonas.

quinta-feira, julho 21, 2011

Jânio da Silva Quadros

No próximo mês, completam 50 anos a renúncia do presidente Jânio Quadros. Aconteceu no Dia do Soldado, após a parada militar, em Brasília (DF), quando o primeiro mandatário encaminhou o documento renunciando ao mandato.

Capa do documento com as
Reivindicações do Amazonas

O desenrolar da história nacional já conhecemos de cor e salteado. Lembrando que o episódio mais destacado do período foi o Regime Militar, que dirigiu o País entre 1964-1985.

Quero lembrar um evento que, bem ou mal, não ocorreu. Anunciada para 31 de agosto a 2 de setembro de 1961, também há quase 50 anos, o presidente JQ tinha programado comparecer em Manaus (AM) à VI Reunião de Governadores. O Amazonas era governador por Gilberto Mestrinho, que assumira o Executivo em janeiro de 1959.


A propósito, escrevendo um texto sobre os Bombeiros do Amazonas, lembrei essa reunião. No escrito, destaquei a presença em Manaus do destacamento precursor, guiado pelo então major Leônidas Pires Gonçalves. Este oficial depois, quando general, conduziu o Comando Militar da Amazônia e, no governo de Collor de Mello, o Ministério do Exército.

Para esta assembleia, o governador Mestrinho preparou um longo memorial, com as Reivindicações do Amazonas. Não somente destacou as dificuldades do Estado, mas indicou recursos em especial financeiros para a saída. Listou diversos aspectos, da educação, da moradia para acudir os moradores da Cidade Flutuante; da energia elétrica; dos hospitais e outros.
Usina da CEM em construção no bairro de Aparecida, Manaus
Destacarei aqui a questão da energia elétrica, quase definida com a construção da usina no bairro de Aparecida. Eufórico, Mestrinho assegurava que “com a conclusão das obras da Companhia de Eletricidade de Manaus (CEM), programadas ainda para o corrente ano, a capital amazonense terá totalmente resolvido o seu problema energético”.

Na próxima postagem, destaco o reclamo para sanar o bairro fluvial, em frente a Manaus.

quarta-feira, julho 20, 2011

Ildefonso Pinheiro (final)

por Francisco Bacellar,

pai do poeta Luiz Bacellar,
publicado no livro Uma Vida...
(Manaus: Editora Sérgio Cardoso, 1963)

Reverencia a terra em que se fez homem e que ama com ternura -- aí está o Edifício Manaus mirando o dileto rio de águas negras e misteriosas. Não esquece a terra que lhe serviu de berço -- vemos o Edifício Fortaleza -- símbolos vivos do seu reconhecimento; frutos da sua iniciativa. Ambos ostentam em suas paredes quadros artísticos e conceitos de boa moral, atestando a inclinação para o belo e o caráter dogmático do seu proprietário.


Passo a passo vai aperfeiçoando os seus conhecimentos. Com as suas publicações permanentes no "Jornal do Comércio", onde ele pontifica os seus ensaios sobre economia, finanças, história, biografias, crítica, sugestões, conselhos e até política, vai publicar Uma Vida..., que, de fato, não dizem dos seus feitos, nem seus sofrimentos, nem suas alegrias; é, apenas uma faceta do caráter desse homem extraordinário.

Do menino criado de favor ao estivador, de mordomo do Ideal ao homem de negócios de hoje, soube Ildefonso sempre fazer-se respeitar. Exerceu todos os seus variados misteres desde o mais humilde, com dignidade elevada -- jamais foi humilhado, jamais foi aviltado ou vilipendiado. A sua personalidade sem arrogância, o seu procedimento comedido "impunha o respeito e mantinha a simpatia".

Qual a força, e poder, a magia que produziu este milagre?...

* * *
Ildefonso, criança ainda. aqui chega em companhia dos pais e de sua irmãzinha. Não vieram tangidos pelos flagelos nem em busca de melhoria de vida -- prestigiosa família cearense, dos Pinheiro de Fortaleza, nos seus pagos gozavam de todo o conforto. Vieram a chamado de um parente, o Dr. Solon Pinheiro, irmão do pai de Ildefonso, advogado de nomeada a serviço da maior potência financeira da Amazônia de então -- B. Antunes & Cia. Segue a família para o Javari onde lugar de confiança espera o pai.

Em 28 dias, o beri-béri galopante cava três sepulturas nos ínvios barrancos e um menino de apenas quatro anos de idade, inopinadamente despojado de tudo o que representa meio de sobrevivência e proteção acha-se, pequenino e só, no seio da maior e mais densa floresta do universo. E' o nada frente ao tudo -- é o ponto em face do infinito. O menino não chora; ignora a extensão da sua perda - E' um bem-aventurado. Não luta, ignora o perigo. Já é um vencedor. Não se atemoriza; ignora também que ele próprio é um eleito, um escolhido.

A Providência Divina estende sobre ele a sua proteção -- o destino massacra-o com satisfação, argamassa-o, esmurra-o e, finalmente, o amolda. O destino não se engana com o material. E' de boa estirpe e possui o estofo da boa progênie. A marca da qualidade flutua-lhe no sangue, fixa-se na medula dos ossos, prepondera na índole, no gênio, e é por isso que o menino Ildefonso é hoje o Sr. Ildefonso da Silva Pinheiro, feito a sua própria custa, "sem medo e sem mácula", "impondo-se ao respeito e mantendo a simpatia".

Jornal do Commercio, Manaus, 16 jun. 1912
Nota própria:
Político cearense oposicionista, Dr. Solon Pinheiro veio para Manaus escapando da perseguição de Accioly, então governador do Ceará. Advogado competente, aqui se estabeleceu com escritório a rua Joaquim Sarmento, 18. Aqui se reuniu aos colegas, muitos dos quais seus conterrâneos.
A ilustração veiculada no Jornal do Commercio, de Manaus, identifica a perseguição imposta aos adeptos de Solon Pinheiro, o "pinheirismo".
Solteiro, afortunadamente casou-se com Rosa Pereira da Silva, filha do advogado Agesilau Pereira, que fora presidente da província do Amazonas. Tiveram cinco filhos. Mas, Solon Pinheiro morreu inesperadamente em 24 de setembro de 1917.