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quarta-feira, julho 22, 2020

CARTA DE ORÍGENES MARTINS

Professores do Seminário: padres Ruas, Normando,
Juarez e o Dr. André Araújo e Orígenes Martins (1959)



Transcrevo a carta que recebi do professor Orígenes Martins, com a qual me agradecia o trabalho que executo em prol do saudoso padre-poeta L. Ruas. Ruas esteve em parceria com o Orígenes desde a refundação do Seminário São José, em Manaus, em março de 1943. Seguiram lado a lado até o curso de Filosofia no Seminário da Prainha, em Fortaleza.

Foi aí que Orígenes desistiu do caminho ao sacerdócio. Ruas seguiu em frente, passando pelo Seminário de Rio Comprido, no Rio. Voltaram a se encontrar em Manaus, quando, em 1954, Ruas recebeu o óleo sacerdotal e Orígenes nos deu o Instituto Christus, depois CIEC e o Ciesa.

Quando padre Ruas sofreu um extenso AVC, em 1992, foi Orígenes que se empenhou na recuperação do amigo-irmão. A luta terminou em 2000, com o falecimento de Ruas. Por influência de Orígenes, que fora secretário de Educação (1991-92), o governo crismou com o nome do amigo uma Escola Estadual no bairro do Zumbi.

Conversei algumas vezes com o professor Orígenes, quando me dediquei a escrever uma ligeira biografia de L. Ruas. E sempre que publicava algum livro com material do padre, entregava-lhe um exemplar. Orígenes Martins faleceu em 2016.

Este foi em resumo a motivação da carta.



terça-feira, maio 07, 2019

PROFESSOR ORÍGENES MARTINS


Padre-poeta L. Ruas

O falecido padre-poeta Luiz Augusto de Lima Ruas, que assinava seus trabalhos literários como L. Ruas, escreveu para todos os jornais de Manaus, existentes entre 1950-90. Ao rascunhar uma biografia deste poeta, acabei por olvidar do jornal A Gazeta, ou não tive acuidade para alcançar o período preciso.

Dias desses, no entanto, fui agraciado com páginas do autor de Aparição do Clown, nesse extinto matutino. Creio que ele o fez na temporada de setembro e outubro de 1963. Naquela circunstância ocorriam as eleições municipais, e um dos candidatos a vereador era o professor Orígenes Martins, diretor do colégio Christus. 
L. Ruas, amigo e eleitor do Orígenes, escreveu em sua coluna Ronda dos Fatos o seguinte panegírico, que vai lincado de A Gazeta (edição de 23 setembro 1963). Serve ainda como pequena autobiografia. As eleições ocorriam dia 4 de outubro, e acredito que o professor não foi bem-sucedido na política. Quanto ao colégio e outros empreendimentos, são outras histórias...

Recorte do artigo de L. Ruas - jornal A Gazeta, 1963
Creio chegada a hora de cerrar fileira em torno da candidatura do meu amigo o Professor Orígenes Martins. Venho, por isso, trazer publicamente minha contribuição de amigo e de eleitor à sua campanha que é minha também. Gostaria de fazer uma exposição de motivos que me levam a adotar a sua candidatura e, para isso, deveria abordar dois aspectos distintos  do meu candidato à Câmara Municipal: o primeiro, seria de caráter pessoal, focalizando o amigo; o segundo, seria de caráter público, focalizando o candidato. Ora, acontece que não serei capaz de realizar tal análise e separar dóis aspectos que, para mim, estão intimamente ligados e se confundem. Tentarei, portanto, fazer tal apresentação (se é que ela se faz necessária) dizendo do candidato o que eu sei do amigo.
1942 foi outro ano que ficou definitivamente fixado em nossa lembrança é em nossa vida. A partir de junho desse ano começamos a nos preparar para o exame de admissão que nos abriria as portas do Seminário São José que seria reaberto por D. João da Matta Amaral no ano seguinte como de fato o foi. No dia 19 de março de 1943 já éramos seminaristas e assistimos a reabertura do Seminário, solenidade que ficou marcada em nossas almas por um daqueles discursos incandescentes de D. João da Matta: “Se o Seminário de Manaus fechar de novo suas portas, eu irei como Agar para o deserto para não ver a morte do meu primogênito."
Em 1945, D. João da Matta inaugurava o primeiro pavilhão do novo Seminário na rua Emílio Moreira. Estávamos no terceiro ano do ginásio. Em 1948 concluímos o sexto ano. Éramos a primeira turma que seguíamos para o Seminário Maior.
Fizemos uma festa de conclusão de curso e foi nosso paraninfo o inesquecível Adriano Jorge que aí pronunciou seu “canto de cisne”, pois, dois dias depois, faleceu. Na véspera de sua morte o Orígenes foi à casa dele pedir o discurso. Ele ia passar a limpo. Depois nos entregaria...
A partir da esq. padres Ruas, Jorge Normando e Juarez Maia; 
desembargador André Araújo e professor Orígenes Martins,
no Seminário São José, ano 1962
Seguimos os cinco para Fortaleza. Cursamos Filosofia. No início do curso de Teologia ficamos reduzidos a quatro: Origenes deixava o Seminário. Foi uma surpresa e não teríamos aceito conformados se não soubéssemos se tratar de uma orientação segura e sincera como era a do Pe. Jorge Soares – um grande sujeito! A diferença de caminhos nos separou um pouco. Mas só fisicamente. A amizade era a mesma. Orígenes ingressou na Faculdade de Filosofia. Foi militante da JUC [Juventude Universitária Católica]. E conseguiu ser seu presidente. Tornou-se um líder estudantil.
Em 1952, eu segui para o Rio de Janeiro, a fim de concluir o curso de Teologia. Em janeiro de 1953 encontrei-me em São Paulo, no convento dos dominicanos onde fazia o noviciado um dos cinco, hoje, Frei Francisco Maria de Araújo, Prior do Convento das Perdizes que, recentemente, nos hospedou a mim e ao Orígenes. Foi um dos bons encontros da minha vida. Três caminhos diversos ligados pela amizade de vinte anos.
Àquela data, 1953, Orígenes viera de Fortaleza, por terra, ao lado do Roberto Carvalho Rocha, fundador do Instituto Christus de Fortaleza. Orígenes foi cofundador e o plano era fazer uma rede de institutos no Norte e Nordeste: pedagogia moderna e cristã.
Em 1954 nos encontramos, de novo, em Manaus. Eu estava concluindo o quarto ano de teologia e o Orígenes chegava de Fortaleza, para fundar o Instituto Çhristus do Amazonas. Idealismo! Largou uma porção de coisas boas lá em Fortaleza e veio pra cá. Cara e coragem. E só! Em agosto lhe nascia o primeiro filho, o Júnior. Em outubro, eu fui ordenado padre por D. Alberto Ramos. Como preparação para a abertura do Christus foi realizado um curso de Pedagogia. Finalidade: seleção de professores. E em fevereiro do outro ano, 1955, Manaus ganhava mais um colégio.
Depois tem sido muita luta. Quase sozinho, sem recursos, conservando ainda muito idealismo apesar das horas de desânimo diante das dificuldades que se amontoam, recomeçando sempre, Orígenes continua seu trabalho. Novo ainda, apenas, com um pouco mais de um lustro o Christus é, hoje, um dos colégios mais conceituados de Manaus. E indiscutivelmente Orígenes é um dos melhores professores de Manaus. Que o digam seus alunos do Instituto de Educação e da Faculdade de Fi1osofia. (De passagem, aos meus ex-a1unos do sempre lembrado IEA: o Professor Orígenes é o nosso candidato!). Nós que o conhecemos de perto, podemos dizer sem medo: é mesmo um professor por vocação assim como é um pai por vocação.
Mas nós não estamos lutando, unicamente, no desejo de uma vitória. Estamos lutando porque acreditamos na capacidade, na honestidade, na sinceridade do nosso candidato e de sua campanha. Não estamos acometidos pelo desespero da vitória. Não queremos uma vitória a qualquer preço. Queremos a vitória do Professor Orígenes pelo seu verdadeiro preço: o de um sufrágio consciente e democrático. Esta é a nossa luta. Este o nosso candidato. O meu candidato.

sábado, março 17, 2018

SOBRE SACERDOTES



Conheci os três últimos reitores do Seminário São José, enquanto funcionou na rua Emílio Moreira, e eu fora estudante daquele estabelecimento (1956-64): monsenhor João Alves da Costa, cônego Pedro Mottais e padre Jorge de Andrade Normando.
Monsenhor era pernambucano e dirigia a rica paróquia dos Remédios; o segundo, natural da França, desembarcou em Manaus, após passar em Tefé, e também foi vigário dos Remédios; o padre nasceu em Manaus, de família tradicional, após a ordenação, a qual estive acolitando a cerimônia, auxiliou a então paróquia de Itacoatiara.
Dos citados, padre Normando permaneceu mais tempo na direção do Seminário, creio que até o fechamento desta Casa, em 1967. Transferiu-se então para a capital paraense, de onde passou à Casa do Pai. É sobre este sacerdote que translado o texto de A Crítica (23 março 1963), marcando sua data natalícia.
 
Publicação de A Crítica, 23 março 1963
 A data de hoje é de grande expressão para o mundo local e religioso, no Amazonas. É que tem hoje sua data natalícia essa boníssima figura do clero amazonense, o virtuoso e digno padre Jorge Normando, Reitor efetivo do Seminário Arquidiocesano São José.Moço ainda, já desfruta de tão alto conceito pelas suas elevadas virtudes, esclarecida inteligência e preclaras virtudes, que vem sendo mantido no alto cargo, em nossa arquidiocese, de Magnífico Reitor do Seminário São José.
É admirável vê-lo ali, entre seus discípulos amados, entre a turba dos seminaristas, com seu ar patriarcal, sua cabeça um tanto grisalha, seus passos lentos e largos, sua magreza de asceta, meio triste e meio pálido, falando calmo, a batina pobre, humilde, modesto prestando o maior serviço à Igreja de Deus, na condução daqueles setenta rapazes para a função sagrada e divina do sacerdócio de Cristo.
Cercado de uma equipe de padres virtuosos, entre eles o padre Juarez, vice-reitor, — o padre Jorge Normando é, com alma e coração, a cúpula daquela cidadela mística, onde a oração, os estudos profundos, a meditação diária, o recolhimento, a vida religiosa, real e sincera, transforma homens, criaturas em seres extraordinários para o serviço de Deus, da Igreja e da Pátria Cristã, profunda e realmente brasileira.
Padre Normando nasceu para apóstolo das vocações sacerdotais. Para isso cercou-se de ótima equipe, tudo sob a orientação supervisora do Sr. Arcebispo [Dom João Souza Lima]. Entra em contato com sacerdotes, procura vigários, ausculta o povo, reúne pais, apela para as almas de Deus, tem profunda exaltação pelo sacramento da Ordem. Sabe que necessitamos de sacerdotes.
Conhece que também o problema do Brasil é um problema relacionado com padres bons e virtuosos. O homem sem sacerdote termina adorando os irracionais, disse o Cura D’Ars.
É por isso que a figura admirável do Padre Jorge Normando cresce, nesta época em que vivemos. O egrégio aniversariante quer esteja na missa, nos retiros mensais, nas meditações de seu breviário, no seu trabalho intelectual, na pregação diária, no confessionário, entre os seus irmãos de sacerdócio, — é sempre o mesmo boníssimo homem, santo, virtuoso, culto, discreto, modesto, simples, um exemplo, finalmente, exemplo edificante para a comunidade em que vivemos.Homens assim são reservas morais extraordinárias, homens de Deus ao serviço da coletividade brasileira, no cumprimento exato dos seus deveres, na luta contra o mal como pastor de almas, educador notável, apóstolo pela grandeza moral, como filho, como amigo, como irmão, em casa, no lar, no seminário, na sociedade.