CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de outubro de 2016

TV MANAUARA

Penso que raro é o amazonense hoje que viu falar deste empreendimento. A instalação da primeira emissora de TV em Manaus, intitulada de Manauara.

Este diminuto registro foi garimpado em O Jornal, de abril de 1966, portanto, há exatos 50 anos. Como é do conhecimento geral, a história da televisão no Amazonas começa em 1969, com a TV Ajuricaba. 

Recorte de O Jornal

Inaugurada a TV Manauara Em solenidade que contou com a presença do Governador Arthur Reis e de sua esposa, senhora Graziela da Silva Reis, presidente da Legião Brasileira de Assistência, do coronel [PM] Themistocles Trigueiro, Chefe da Casa Militar e Chefe de Polícia, de nossa diretora, jornalista Maria de Lourdes Archer Pinto, autoridades e pessoas convidadas, foi inaugurada a tarde de ontem a TV Manauara, empreendimento que orgulhece o nosso Estado, pelas perspectivas que nos oferece.
Desde ontem já existem os telespectadores amazonenses, que encontram na televisão Manauara momento de prazer.
Os flagrantes mostram o Sr. Ataliba Santos, diretor-geral da TV Manauara, quando discursava perante as autoridades, e a Primeira Dama do Estudo, dona Graziela da Silva Reis, quando cortava a fita simbólica, inaugurando a televisão amazonense 

24 de outubro de 2016

MANAUS: 347 ANOS

Para relembrar a cidade nascida na margem esquerda do Rio Negro, que segue crescendo com afinco, para isso, enfrenta com determinação os desafios casuais. 
Nesta data, Manaus, a capital do estado do Amazonas, comemora 347 anos de existência, ainda que inexista registro formal deste evento.  
Parabéns pra você!






Roadway de Manaus 

Restaurante Chapéu de Palha, já demolido

Edifício ainda existente, abrigando no térreo uma loja TVLar

Cruzamento da avenida Sete de Setembro e rua Joaquim Nabuco


23 de outubro de 2016

ANÚNCIOS DE MANAUS DE ONTEM







DISCURSO DE POSSE (2)

Quadro da Princesa Isabel,
do acervo IGHA
Terceira parte do meu discurso de posse ao ingressar no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, em 4 de novembro de 1994.

DE ONDE VENHO E PARA ONDE VOU

Venho do Seminário São José, quando ainda situado na rua Emílio Moreira, 6
01, bairro da Praça 14 de Janeiro, onde obtive consolidada formação humanista e religiosa. Desta, resulta meus intensos agradecimentos à Deus por este ato de bondade de Vossas Excelências, que me consentiu ocupar a Cadeira 24, patronada por Frei Gaspar da Madre de Deus.

Do meu antecessor, Dom João de Souza Lima, tive o privilégio de, na condição de seminarista menor, acolitá-lo nas solenes festas religiosas em nossa secular Catedral e outros templos, como na sagração da Igreja de São José Operário, dos padres salesianos, no entroncamento das ruas Visconde de Porto Alegre com Ramos Ferreira.

Aproximo-me deste sodalício, vindo do Quartel da antiga Praça da Constituição, local onde se perfilou em 8 de novembro de 1897, o 1º Batalhão do Regimento Militar do Estado, comandado pelo tenente-coronel Candido José Mariano, combatente distinguido na Campanha de Canudos, cujo centenário já estremece a Nação por força da obra imortal de Euclides da Cunha - Os Sertões.

Acerca do comandante Candido Mariano, venho arregimentando recursos para muito breve editar uma biografia do herói de muitas campanhas, além de participante da fundação de Sena Madureira, no estado do Acre.

Procedo ainda do outrora quartel do Canto do Quintela, onde se aprestava o Corpo de Bombeiros de Manaus. Em nossos dias, transmudado em sede do Museu do Homem do Norte. Oh! tempos difíceis, tempos heroicos. Melhor dizer, tempos oportunos para que os bombeiros demonstrassem toda a dedicação pela Cidade e o desprendimento para enfrentar o perigo. Ali compreendi os objetivos primordiais deste serviço, aprendi a servir com devotamento, acreditando que cada singela tarefa, executada por um simples camarada, traz benefício coletivo. Assimilei, senhor comandante do Corpo de Bombeiros, que o heroísmo escolta cada comboio, em cada chamada, a mais rotineira possível.

Ingresso na Casa de Bernardo Ramos com modesto trabalho literário dado a lume, todo ele volvido à divulgação da história da Polícia Militar do Amazonas, instituição criada ainda no período imperial que, desde 4 de abril de 1837, presta segurança à sociedade amazonense. Corporação, entretanto, que foi capaz de abrigar homens de diversas virtudes. Os fatos revolucionários, dos quais teve participação coerente, talvez prestem às reminiscências uma revelação com tal miopia, com certa visão disforme.

A instituição da segurança estadual abrigou alguns membros deste sodalício: Ramayana de Chevalier, coronel médico, escritor de méritos, jornalista de nome nacional; Octavio Sarmento, tenente-coronel comandante interino em 1920, fundador e membro da Academia Amazonense de Letras; Álvaro Botelho Maia que, ao regressar a Manaus, graduado em Direito, exerceu a função de Juiz Auditor de Guerra, com o posto de capitão, e cuja biografia dispensa maiores comentários; Djalma Batista, intelectual de nomeada, serviu temporariamente no posto de capitão médico da Policia Militar, quando do comando do coronel Gentil João Barbato (1941-45); Gonzaga Tavares Pinheiro, aposentado coronel, que em 1932, ainda capitão, era prefeito nomeado de Itacoatiara, onde protagonizou a célebre disputa contra as forças rebeldes vindas de Óbidos (PA), pugna conhecida nos compêndios regionais como "Batalha Naval de Itacoatiara"; Djalma Vieira Passos, oficial superior da PMAM, igualmente intelectual de recursos, com várias publicações editadas e comprovado efetivo desempenho seja na Assembleia Legislativa do Estado seja na Câmara Baixa do país.

Assumo a Poltrona 24 rememorando a escola inspiradora de meu hábito pelos livros - o Seminário São José de Manaus, orientado pelos padres diocesanos, enquanto lá estudei. Homenageio a este estabelecimento, recordando dois de seus Reitores: ao Padre Jorge de Andrade Normando, de tradicional família amazonense, que vive atualmente em Belém do Pará, servindo a comunidade, como auxiliar da paróquia de Santo Antonio de Lisboa. É-me igualmente justo recordar ao padre Antonio Juarez de Moura Maia, na condição de ecônomo por longos anos, a quem devo inúmeras provas de amizade, capazes de me conduzir pelas sendas da cidadania e da dignidade. Reverencio a este aqui e agora, na pessoa de seu representante, o tenente-coronel Raimundo Pereira da Encarnação, por esta oração. A propósito, padre Juarez Maia acaba de ser agraciado com o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre, cidade onde reside e exerce seu múnus sacerdotal.

Quero assumir neste instante solene um compromisso para com a Casa de Ensino mais antiga do Estado, o Seminário São José. À proximidade de seu sesquicentenário, porquanto fundado pelo bispo do Pará - Dom José Afonso de Moraes Torres, em 18 de maio de 1848. Neste estabelecimento, entre 1956 e 1965, tive o ensejo de caminhar pelas letras e pelos clássicos nacionais, igualmente pelo verbo do autor de Aparição do Clown, padre Luiz Ruas, poeta laureado que, vitimado por acidente vascular cerebral, se conforta com as orações de seus ex-discípulos e fieis paroquianos, como agora em que aproveito para rogar ao Altíssimo por sua recuperação.

Escrever a História do Seminário São José constitui-se, pois, um compromisso sagrado que estabeleço com a arquidiocese de Manaus, no instante em que assumo a Poltrona 24, ontem ocupada por Dom João de Souza Lima, a quem solicito o devido entusiasmo para meu melhor desempenho. Que Deus, igualmente, me ilumine!

APELO

Suplico aos presentes para que não se assustem com o estado das instalações, nem imaginem descaso para com a edificação, pois, conheço a dedicação do Senhor Presidente e do Secretário-Geral, Dr. Gera1do dos Anjos, na busca incessante por uma solução para o problema. Apelo, enfim, às autoridades: concedam uma, mais uma ajuda a este Instituto. Para que sirva assim de atração aos jovens estudantes da cidade de Manaus, cuja presença efetiva possibilite a renovação de seus quadros.

AGRADECIMENTOS

Enfim, senhores acadêmicos, meu sincero agradecimento pela acolhida singela a este garimpeiro dos arquivos regionais, que opera com a sofreguidão de quem parece ter partido com atraso. Sou grato particularmente ao autor de Gazeta do Purus que, ao relatar a fundação e o fausto da “Princesinha do Iaco”, me ensinou a admirá-la e me fez aprofundar nos encantos acreanos. Ao Dr. Antonio Loureiro, a minha continência regulamentar.

Na pessoa do comandante-geral – sou reconhecido à Polícia Militar do Amazonas, fonte de inspiração e tema de meus relatos, cuja saga, cuja história prometo divulgar. Este será meu propósito na Casa de Bernardo Ramos. Que todos saibam que, onde se encontrar um policial militar, no ponto mais isolado do território amazonense, ali certamente se escreve um conto de heroísmo e abnegação.

O derradeiro agradecimento (pela ordem de nobreza) vai para o peruano de Caballococha - Manuel Mendonça Malafaya, fundador da dinastia proletário dos Mendonça. Vindo de Iquitos para Manaus, sabe Deus como!, acreditando topar com o Eldorado, serviu por décadas na firma J. G. Araújo & Cia. Ltda. Apenas alfabetizado, confiou-me que a educação sempre foi o caminho altaneiro para o sucesso. Em razão dessa premissa, obrigou-me a estudar com afinco, prometendo por prêmio a vitória como a que acabo de alcançar. A ele dedico com ardor filial esta noite.

Repito como ocorria, ao final de cada discurso no Seminário São José:
Deo gratias (graças a Deus)!

Manaus, 4 de novembro de 1994.

Roberto Mendonça
 

21 de outubro de 2016

DISCURSO DE POSSE (1)

Como praxe, no IGHA, elaborei o discurso de posse, que aqui vai publicado.


DO SODALÍCIO E DO ÚLTIMO OCUPANTE DA CADEIRA

Para aqueles que nesta solenidade são neófitos, registro um pouco do caminho histórico percorrido por este sodalício. Desejo salientar que foi com estímulo e coragem que varões distintos e ilustres fundaram o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, a 25 de março de 1917, quando na governança estadual o Dr. Pedro de Alcântara Bacelar (1913-17), o qual, num gesto digno de reconhecimento e gratidão por todas as gerações, concedeu a Casa de Bernardo Ramos, consoante o Decreto nº 1.191, de 18 de abri1 de 1917, o usufruto do imóvel que ainda agora serve de sede a este colegiado.

Sinto-me de alguma maneira abençoado ao assumir a Poltrona cujo meu antecessor foi o segundo Arcebispo do Amazonas - Dom João de Souza Lima.
Concluído o curso primário em sua cidade natal, João viajou para Recife a fim de cursar humanidades, curso que foi realizado no edifício que hoje abriga o Colégio Estadual de Pernambuco. Aos vinte anos, acolhendo o chamamento divino para o sacerdócio, matriculou-se no célebre Seminário de Olinda. Todavia, para concluir os estudos teológicos, foi transferido para o Seminário Central de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Enfim, recebeu a ordenação sacerdotal – “sacerdos in aeternum”, na cidade de Pesqueira (PE), em 12 de novembro de 1939.

Dez anos depois, em 14 de maio de 1949, foi eleito pelo papa Pio XII bispo auxiliar de Diamantina (MG), tendo assumido suas funções pastorais em 6 de novembro daquele ano. Nessa cidade, terra natal do presidente Juscelino Kubitscheck, Dom João travaria conhecimento com a eminente personalidade, de quem se tornaria amigo.

Em 9 de fevereiro de 1955, foi transferido para a diocese de Nazaré da Mata (PE), onde se manteve como bispo diocesano até 16 de janeiro de 1958, data de sua promoção a arcebispo do Amazonas. No dia 24 de maio, festa de Nossa Senhora Auxiliadora e, naquele ano, véspera da solenidade de Pentecostes, tomava posse na Catedral de Manaus, como o arcebispo, sucedendo a Dom Alberto Gaudêncio Ramos, que foi membro deste Instituto.

A extensão desta arquidiocese, que compreendia todo o território amazonense, levou Dom João a pleitear junto à Santa Sé a criação de Prelazias. Seu empenho foi acolhido, tendo o Vaticano determinado a instalação das Prelazias de Humaitá, em 16 de junho de 1961, e as de Itacoatiara, Coari e Borba, em 12 de julho de 1962. Em nossos dias, a arquidiocese se restringe à capital do Estado e a pequena zona interiorana, permitindo ao metropolita intensificar as tarefas pastorais.

Em seu governo arquidiocesano, Dom João adquiriu a Rádio Rio Mar, propendendo com a aquisição melhor e mais amplamente divulgar a doutrina e os atos religiosos, alcançando as regiões mais distantes de seu território pastoral. Coube a este Prelado a instalação do Centro Maromba, destinado a promoção de eventos coletivos, ali onde hoje funciona o Seminário São José. Compete-lhe, todavia, a sombria imputação do fechamento do Seminário São José, situado à rua Emilio Moreira, causado pelo arrefecimento de vocações sacerdotais e de forte crise na Igreja.

Por cerca de 23 anos, Dom João dirigiu a arquidiocese de Manaus, tendo renunciado em 25 de abril de 1981, quando se transferiu para Salvador (BA), onde faleceu no Hospital Espanhol, em 1º de outubro de 1984.

Competentíssimo orador desta agremiação, padre Raimundo Nonato Pinheiro registrou, ao proferir o discurso de recepção deste pontífice, em sua posse na Cadeira de Frei Madre de Deus.
Em vossa eleição, guiou-nos o alto quilate que vos caracteriza a inteligência, aberta a todas as ondulações da luz, e a cultura, opulentada nas tradicionais e ubertosas tetas dos estudos clássicos, que, digam lá o que disserem, continuam a ser os alicerces insubstituíveis de toda grande e verdadeira cultura.
Como quer que seja, como premiar-vos os talentos, quis o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas glorificar a Igreja, de que sois pontífice; essa Igreja-Mãe, essa Igreja maternal, que parturejou a civilização cristã, criadora e inspiradora de tantos e repetidos benefícios que a humanidade vem usufruindo há vinte séculos de História!

Registro, finalmente, os merecidos títulos recebidos pelo 2º arcebispo do Amazonas: Cidadão do Amazonas, nos termos da Lei nº 32, de 26 de setembro de 1961, e Cidadão Honorário de Manaus, consoante a Lei nº 969, de 30 de julho de 1970. (segue)


20 de outubro de 2016

DISCURSO DE POSSE

Detalhe da Sala Arthur Reis, no IGHA
Há quatro décadas tomei assento no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, ocupando a Cadeira 24, cujo patrono é Frei Gaspar da Madre de Deus. Ocorreu em novembro de 1994, quando sucedi a Dom João de Souza Lima, que fora por décadas pastor da Igreja amazonense.

Como é de praxe, elaborei e li o discurso de posse, que deve ter a divulgação na Revista da Casa. Como até o presente tal procedimento administrativo não se consumou, tomei a iniciativa de fazê-lo no meu Blog. Assim vou proceder por três postagens.

Senhor Presidente
Comendador Junot Carlos Frederico,

Demais autoridades
Senhoras e Senhores

Os desígnios divinos e a magnanimidade de Vossas Excelências consentiram esta solenidade pontilhada de luzes, sobretudo das intelectuais de seus dirigentes, para abrir-me em definitivo as portas desta nobre Instituição. Neste instante, em que me incorporo aos ilustres membros desta Casa de Cultura, acatando a convocação para “sagrar-me cavaleiro de uma cruzada de cultura regional, por graça da cordial confiança e complacente consideração dos integrantes deste silogeu”, especialmente de seu presidente, comendador Junot Carlos Frederico, cujo trabalho na direção do Museu de Numismática, hoje instalado no quartel do comando-geral da Polícia Militar, bem muito nos aproximou. A proximidade foi iniciada pela conversação singela e pelo interesse mútuo na pesquisa; depois, pelo incentivo e pelo devaneio em promover o Museu Tiradentes – que me cabia a direção, com formato atualizado e, acima de tudo, dinâmico.
Detalhe da entrada principal do IGHA

O rendimento desse trabalho ensejou a proposição de meu nome para integrar esta Casa. Atitude efetivada pela fidalguia de seu digno presidente que, em duas oportunidades, abriu-me as consagradas portas do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA): a primeira, quando me permitiu a leitura de livros e obras raras do acervo, com as regalias de veterano membro; esse manuseio, essa busca incessante pela veracidade histórica, acredito, inoculou-me o vírus da pesquisa. A segunda, ocorre neste momento solene, quando adentro pela porta faustosa, conduzido pela aceitação dos componentes do IGHA, entusiasmados embaixadores dos fastos amazônicos, para tomar posse na Cadeira 24, cujo patrono é Frei Gaspar da Madre de Deus.



DO PATRONO

Nascido Gaspar Teixeira de Azevedo, na cidade de Santos (SP), em 1699, descendia das mais antigas famílias instaladas nas cercanias vicentinas. Seu pai – Domingos Teixeira de Azevedo, era coronel do Regimento de Ordenanças de Santos, e, seu avô, fora capitão-mor de São Vicente, hoje município de São Paulo.
A morte de seu genitor modificou a destinação da família, pois, dos seis filhos de Domingos, apenas dois (inclusive duas irmãs) não ingressaram em ordens religiosas. Assim, em 1715, ao professar na Ordem dos Beneditinos, na cidade de São Salvador (BA), Gaspar tomou a designação de Madre de Deus.
Em Salvador, mais de duas décadas adiante, em 15 de agosto de 1732, quando foi ordenado sacerdote, já obtivera transcendência entre os irmãos religiosos, motivo pelo qual foi enviado para a sede provincial, no Mosteiro de São Bento (RJ). Licenciado em filosofia e teologia, por exigência de sua formação profissional, lecionou estas disciplinas na própria congregação. Transferido para a cidade de São Paulo (SP), foi provincial do mosteiro da Ordem.
Em 1746, encarou um encargo nobilíssimo para sua irmandade: defender os direitos do mosteiro beneditino de Santos (SP) e do santuário de Nossa Senhora do Monte Serrat, em contestação pelos carmelitas. Para cumprimento desta obrigação, redigiu Dissertação e Explicações, calcando sua tese em bem fundamentados conhecimentos da história da capitania de Santos.
Três anos depois, defendeu teses de Teologia e História, ocasião em que recebeu o título de Doutor. Nessa ocasião, declinou do cargo de abade de São Paulo, por não desejar se retirar do Rio de Janeiro. E mais. Na capital baiana, foi eleito membro da Academia Brasílica dos Renascidos (1759).
Enfim, frei Gaspar da Madre de Deus aceitou o encargo de abade do convento do Rio de Janeiro, assumindo em 2 de outubro de 1763. Durante sua gestão, que durou três anos, este abade promoveu consideráveis melhoramentos, essencialmente na biblioteca e no arquivo do convento.
Este encargo foi encerrado devido sua elevação ao cargo de abade provincial dos Beneditinos no Brasil, no qual se manteve por um triênio, quando então, aos 70 anos, se recolheu ao mosteiro de Santos. Ainda retornou por breve tempo ao Rio de Janeiro, como mestre de noviços.
Quando recolhido ao claustro de Santos dedicou-se completamente às investigações históricas. Para bem conduzir suas pesquisas, dedicou-se “em visitar os arquivos, a coordenar a enorme messe de documentos trazidos do Rio de Janeiro e da Bahia, a traduzi-­los e comentá-los”. Não somente os de Santos, mas também os das cidades do litoral paulista, tanta dedicação o fez alcançar a capital, a cidade de São Paulo.
Notabilizou-se pela investigação nos arquivos que manuseou, inicialmente no Rio de Janeiro, onde colheu elementos valiosos para suas obras, quase todas inéditas.
Frei Gaspar escreveu inúmeras obras, não sendo conveniente destacar a mais notável. Somente para ilustrar este panegirico, relembro: Memórias para a história da capitania de S. Vicente, publicada em Lisboa (1797), e Notícia dos anos em que se descobriu o Brasil e das entradas das religiões e suas fundações (1784).

A importância deste religioso para o entendimento da história pátria se tornou incomensurável, seja pela sua competente formação religiosa, seja como hábil administrador de uma respeitável congregação religiosa que se espalhou pelo Brasil, seja, enfim, a do mestre de História que soube recolher com avidez nos documentos então circulantes as melhores e bem conceituadas asseverações sobre nossa História. Foram esses admiráveis atributos, estou convicto, que conduziram os dirigentes do IGHA a outorgar-lhe o patronato da Cadeira 24.


Frei Gaspar da Madre de Deus morreu em sua cidade natal, aos 81 anos, em 1800.