CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

3 de outubro de 2016

HISTÓRIA DO INSTITUTO HISTÓRICO (1)

Anotações colhidas em Os Espiritanos no Brasil - 1885-1950, de Henrique Wennink, cssp (Belo Horizonte: Casa Provincial, 1985), para a história do IGHA, que em breve completa seu primeiro centenário.

Trata-se do padre Constantino Tastevin, que serve de patrono à uma cadeira desse Instituto. 


Pe. Constantino Tastevin (1880-1962)

Pe. Tastevin é mais conhecido por suas obras do que como pessoa. Valeria a pena, arrumar e organizar as informações sobre a pessoa e a importância dele, tanto para o conhecimento científico cultural sobre os povos indígenas da Amazônia e da África, como também para a pastoral missionária no meio deles.

Aqui no Brasil, o CIMI mostra sempre mais interesse por ele. Na Casa Mãe da Congregação em Paris, encontram-se, no Arquivo, várias grandes caixas, cheias de anotações do Pe. Tastevin, mais ou menos desorganizadas.

Nascido a 21.02.1880 em Constant (França), emitiu seus primeiros votos a 1º.10.1900; foi ordenado sacerdote a 02.04.1905; e morreu em Paris a 25.09.1962.

Sua atuação missionária se dividiu entre a Amazônia (1905-26), com publicações sobre os índios entre 1907 e 1930 (e também nos anos 1949 e 1955), e a África, com publicações sobre as mais variadas culturas (de Angola, Senegal, Congo, Ruanda-Urundi, Kenya, Kilimandjaro, Bagamoyo, Gabão, África Central, Madagascar, Ilha Maurício) entre 1931 e 1954.

A respeito de sua teoria de a língua malgaxe estar na origem das línguas africanas, surgem, de fato, objeções metodológicas. Parece que sua obra científica sobre a cultura dos índios da Amazônia ganhou a maior estimação, como se comprova das muitas decorações e prêmios que ganhou:

Condecorações:
* 1920: Médaille d'or Bonaparte Weyze
* 15/10/24: Palmes d'Officier d'Académie
* 30/3/25: Médaille Crévaux médaille d'or
* 1927: Chevallier de la Légion d'honneur
* Set-out 1928: Médaille d'or du Prix Louise-Bourbonnaud (de la Société de Géographie)
* 1937: Officier de l'Instruction Publique
* 10/12/50: La Croix d'Officier de la Légion d'Honneur.

Jovem missionário, Pe. Constantino Tastevin partiu, em novembro de 1905, para a "Missão" da Boca do Tefé, onde foi encarregado das crianças da Escola Profissional. Passou também pouco tempo para dar uma ajuda na escola profissional de Paricatuba.
Sua atividade missionária no Amazonas ficou interrompida pelo período de novembro de 1914 até novembro de 1919, quando foi mobilizado, durante a primeira guerra mundial. 
O resto de seu tempo no Amazonas, ele passou fazendo viagens pelos rios até os cantos mais afastados do Amazonas, fazendo ministério pastoral, preocupando-se, também, com as construções, por exemplo, de capelas, e visitando as tribos indígenas.

Em 1925, ele podia escrever que tinha visitado quase todos os índios da área do Rio Juruá e tinha estudado suas línguas, costumes e crenças; constatou que havia 1.500 índios, divididos em 40 tribos, com oito línguas e vários dialetos.

Chamado "o grande missionário do Juruá" (BG junho de 1912), que percorria toda a região do Alto até o Baixo Juruá, com todos os seus afluentes, visitou, também, várias vezes outros rios, como por exemplo o Japurá.

Impressionantes são já os nomes, que falam de suas desobrigas, sobretudo, quando a gente se dá conta das distâncias, das circunstâncias e dos meios de transporte que caracterizam estas viagens: o Meio-Solimões e seus afluentes; o Baixo e Alto-Juruá; o Rio Tarauacá (afluente do Juruá), até o Alto-Tarauacá; Rio Japurá; o Rio Muru; o Rio Envira; o Rio Jutaí etc.

Para dar uma pequena impressão, eis alguns trechos de relatórios de suas viagens: "Pe. Tastevin é o grande missionário do Juruá, tendo feito muitos mapas dele, e é universalmente conhecido. Dia 1º.01.1911 escreveu ao Superior Geral que, desde 14.12.1910, estava esperando um vapor para subir até o Cruzeiro do Sul (território do Acre, Alto-Juruá).

Em São Felipe (hoje Eirunepé) lhe ofereceram um terreno, prometeram ajuda para construir uma casa e um hospital... Celebrou a festa de Natal em São Filipe, enquanto todas as autoridades da cidade cantaram a Santa Missa..., cantando o Te Deum... Fazem um abaixo-assinado para pedir um padre. Todo mundo assina, inclusive aqueles que têm pouca influência: todos maçons... e católicos...

Dia 09.01.1911 chegou a Cruzeiro do Sul [AC]... Conforme uma notícia de 06.02.1912, ele acabou de voltar para o Juruá, acompanhado por Pe. Fritsch, para subir até o Tarauacá, cuja parte superior, dentro do Acre, foi confiada à Prefeitura de Tefé na reunião dos prelados do Amazonas de 1º.09.1912, em Manaus, da qual fora nomeado secretário.

Em 1913-1914 fez duas viagens no Alto-Juruá (BG 29,23243). Conforme carta de 1921, Pe. Tastevin, depois de quatro meses de desobriga no Juruá, queixa-se da crise da borracha, a única indústria e do aumento de preços de alimentos europeus; o dízimo em uso no Brasil, que dificulta o ministério...

O Japurá é o rio menos populoso de todos os nossos rios; ele passou nove dias com os canamaris, tribo índia, nunca visitada, sobre os quais encheu dois cadernos de notas interessantes, suas lendas e crenças; devia deixá-los depois de nove dias, por causa de doença do pequeno remador e falta de comida... Os canamaris mudaram para um outro acampamento a 30 km de distância, nas águas do Jutai. (Um relatório da viagem do Pe. Tastevin no Japurá foi publicado em Les Missions Catholiques, de Lyon...).

Pe. Tastevin acabou de voltar do Japurá com boa saúde... Em 1923, Pe. Tastevin comprou em S. Filipe uma casa e um horto, ao lado do terreno da igreja... Encontrou em Carauari a pequena capela arruinada...

Pe. Tastevin, oficialmente ligado ao Baixo Juruá (1.600 km), percorreu três vezes o Japurá (800 km), em seguida as cascatas na Colômbia, onde nunca aparece um padre colombiano; administrou três vezes o Médio Juruá (700 km), depois da partida do Pe. Dornic; duas vezes o Baixo Tarauacá (500 km); o Rio Liberdade (500 km), que a partir da metade para cima não tinha sido administrado há 18 anos. O Meio-Juruá compreende ainda o Rio Gregário (600 km), o Ipixuna, o Lagoinha e o Campinas (300 km cada), e o Aciraua.

Em 1924 visitou, no Alto-Tarauacá, o Rio Muru (400 km) e o Jordão (150 km), onde naufragou. (...). (segue no próximo post)