CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

21 de julho de 2015

NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PMAM (2)

Cartão da Ponte de Ferro, quando de sua inauguração
Capítulo do livro Arquivo Aberto, no qual o autor descreve a situação precária do major Umbelino Albuquerque que, sofrendo de cegueira, residia sob a conhecida Ponte de Ferro, em um aglomerado que o governo do Estado com o Prosamim vem de desarticular.
  
COLÍRIO DA SOLIDARIEDADE

Visitei, há já alguns dias, o meu velho amigo Coronel Luiz Carlos Augusto, brilhante e digno oficial da nossa heroica e disciplinada Polícia Militar do Estado. Hoje ele se encontra reformado, justo prêmio aos seus inúmeros anos de bons serviços prestados à sua corporação e à ordem pública, vivendo em a sua chácara sita à rua Belém, afastado dos embates políticos: vida tranquila e confortável.
Conversamos amistosamente a respeito dos mais variados assuntos e recordamos, com nostalgia, aqueles tempos áureos quando Manaus, à sua opulência, o meu saudoso pai, seu amigo íntimo, sempre o procurava para conseguir junto ao Governo, àquela época, licença às funções dos arraiais populares. No decorrer do nosso cavaquear cordialíssimo lembrei-me perguntar-lhe por um amigo e seu colega de farda a quem, seguramente uns dez anos, não mais havia visto. A resposta foi para mim, das mais decepcionantes: Ele está cego! (...) 
E' triste ficar cego, é angústia o se sofrer com os olhos fechados. Doloroso, Senhor, o se caminhar ao encosto dos outros, tateando, caindo aqui e ali, apalpando com esforço às mãos trêmulas, sem equilíbrio próprio, sem apoio nas nossas naturais capacidades, enfim ignorantes dos traçados à palmilhar. A cegueira é noite escura e permanente, e, os nossos olhos, bússolas avariadas sem possibilidades para nos apontarem diretrizes certas ao destino certo. E soçobraremos em meio da tormenta... Vindita divina cruel ou justa? Quem poderá penetrar na inviolabilidade das coisas secretas ou invisíveis? Ficar cego é castigo ou merecimento? Calemos!... 
Por tudo isso a notícia constrangeu-me amarguradamente e ideias diversas se me tornaram em conflitos interiores, tumultuários. Cheguei, confesso, a sentir enfraquecer a minha concepção sobre a existência dos poderes divinos no entretanto, passada a crise emocional, fortaleci-me novamente à fé. Contudo, mesmo reconfortado do choque, não me conformei com a mudança tão brusca na vida de um homem bom, destemido e sempre cumpridor dos seus deveres disciplinares, embora alguma vez houvesse se revelado rígido e intransigente nas suas decisões quando nos postos de mando, porém, por ser bom cristão fazia-se, quando oportuno, fraterno e solidário para com as desditas dos castigados pela má sorte se, em as suas horas difíceis, o procurassem. E o meu grande amigo está, agora, completamente cego! 
Encontra-se sem a vista o meu velho companheiro de lutas, mas resistente e conformado. Pulsa-lhe o mesmo coração generoso com a mesma normalidade arterial. E' de se louvar, falam testemunhas insuspeitas, a sua fortaleza ou coragem humana por saber encarar o seu infortúnio sem lastimas, sem blasfêmias, sem rebeldias ou distúrbios psíquicos, ou, melhor, sem recalques. Quando lhe perguntam se não sente revolta, responde sorrindo e com aquela mesma valentia nordestina, dizendo: Se estou assim ou se mereci ficar cego, se me fecharam para sempre a vista, sem dúvida o foi por determinação emanada do alto e, se o meu mal é irremediável, resta-me suportá-lo resignadamente até o fim. Os fortes de espírito, sentencia Estevenson, não se confundem nem se atemorizam, continuam seu ritmo próprio, na ventura ou na desgraça. E assim há se conservado, na sua tragédia, o meu amigo impedido de se locomover à liberdade dos seus olhos.
Em 1939 acompanhei-o, a seu convite, até FONTE BOA na qualidade de seu secretário, por haver sido ele nomeado, pelo Governo de então, Delegado Especial a fim de apurar, naquele município, alguns fatos inconvenientes à ordem pública e administrativa. 
Porquanto seu auxiliar de confiança, observei cuidadosamente a sua conduta e norma para solucionar os acontecimentos. Conseguiu com prudência e habilidade admiráveis harmonizar tudo honestamente. Foram inúteis, no entanto, os acenos tentadores agitados pelos lenços sujos às mãos dos implicados e únicos responsáveis pelas anormalidades ali verificadas. Repelira-os, austeramente, por ser íntegro e inatacável. Forças superiores trancaram-lhe os olhos, cegaram-no, mas os homens inescrupulosos jamais conseguiram cegar-lhe a consciência: esta conserva-se, até hoje, normalmente iluminando-lhe a vida interior!
Os fortes, os dignos, os valorosos, os destemidos, os bravos e estoicos, com serviços prestados com sacrifício e honradez às instituições, ao Estado, à sociedade, à família e à Pátria, dolorosa verdade, recebem comumente o desprezo dos seus contemporâneos ou um drama físico irremediável. Vive agora o meu grande amigo na sua modesta casinha à sombra da velha e tradicional PONTE DE FERRO, com uma reforma mesquinha e insuficiente, ridículo e criminoso prêmio aos seus méritos, tendo ao seu lado apenas o conforto dos seus entes queridos, vidas de sua vida, aguardando sereno e corajoso o inevitável epílogo da sua angustiante tragédia.
Não me senti ainda capaz de forças para lhe fazer uma visita ou confortá-lo com o meu abraço de irmão espiritual, no entanto, nestas linhas escritas com a tinta da sinceridade ofereço-lhe, meu dileto e heroico amigo cego, a você Major Umbelino Albuquerque, embora sabendo não ser possível um milagre recuperador, o colírio de minha fraternal solidariedade!