CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, maio 14, 2014

COMANDANTES-GERAIS DA PMAM


1.   PERÍODO PRÉ-PROVINCIAL | 1837-1852 (*)
Lugar da Barra, hoje Manaus, 1865
A Polícia Militar do Amazonas tem a sua inauguração como ocorrida em 1837, ao tempo da Cabanagem e, portanto, antes da elevação do Amazonas à categoria de Província. Com a denominação de Guarda Policial, esta instituição existiu independente em várias localidades amazonenses, sem que se conheça qualquer dado consistente de seus dirigentes. Por isso, é estranho e até implausível que se designe qualquer comandante.

2.   PROVÍNCIA DO AMAZONAS 1 | 1852 – 1876 

Instalada a Província em 1852, a presidência não conseguiu manter as Guardas Policiais encontradas por ocasião de sua independência. Por isso, estas subsistiram até o final da década de 1850. Também não se conhece o nome de qualquer dos comandantes. A Guarda Policial somente seria reativada ou inaugurada de fato e de direito em 1876.

Outra particularidade é que não há fotografia dos comandantes até 1889.
 

3.   PROVÍNCIA DO AMAZONAS 2 | 1876 – 1889

1.   Severino Eusébio Cordeiro,
tenente reformado do Exército | 1876-77 

Era natural do Pará e nascido em 1816. Incluído no Exército, como praça, aos 17 anos. Dois anos depois, irrompe em Belém a Cabanagem e, sendo “excluso” pelo governo intruso, apresentou-se em Macapá. Marchou pelo interior da Província paraense combatendo os cabanos, motivo decisivo para, ao retornar à sede, ser promovido a 2º tenente, em dezembro de 1839. Neste posto, passou destacado no Maranhão e por distritos do Pará, até ser transferido para a Guarnição do Amazonas, em novembro de 1851, aos 35 anos.

Desembarcou em Manaus junto com o primeiro presidente da Província, Tenreiro Aranha, de quem se tornou ajudante de ordens, na instalação desta província, em janeiro de 1852. No ano seguinte conquistou sua reforma, porém, seguiu servindo ao governo provincial e, mais que isso, residindo em Manaus.

Nessa conjuntura foi alcançado em maio de 1876, aos 60 anos, para inaugurar a Guarda Policial do Amazonas; na direção desta permaneceu até agosto do ano seguinte.  

2.   José Leonílio Guedes,
tenente do Exército | 1877 

Não há indicação de sua naturalidade, tão pouco o local de nascimento. Apenas que em 13 de agosto de 1877, a presidência da Província o nomeou comandante da Guarda Policial (GP), com o posto de major. Assumiu o comando no dia imediato. No mês seguinte, entre os dias 11 e 26, esteve em comissão nas cidades de Itacoatiara e Vila Bela (hoje Parintins). Mais adiante, no período de 11 a 18 de dezembro, esteve licenciado por motivo de saúde.

Nos afastamentos acima, respondeu pelo comando o capitão da GP Francisco Soares Raposo, natural do Maranhão, que serviu na Guarda entre agosto de 1877 e maio seguinte.

Em 18 de fevereiro de 1878, Guedes foi exonerado do comando da Guarda, “por conveniência do serviço público”.
 
(*) Parte de material sobre a história da Polícia Militar do Amazonas, em elaboração.

terça-feira, maio 13, 2014

NOVO RETORNO


Faculdade de Direito do Amazonas
Sem muitas promessas. Depois de novas broncas, pedidos e sugestões, retomei o Blog. Recomeço com um texto do saudoso escritor Waldir Garcia, que tudo sabia sobre o município de Silves (AM), onde nasceu.
No presente texto, Garcia relata a caminhada do finado advogado Perseverando da Trindade Garcia, que ainda hoje deve desfrutar de um recorde: completou a Faculdade de Direito do Amazonas, então na Praça dos Remédios, aos 70 anos.
Tive um prazer redobrado, pois fui contemporâneo do Perseverando naquele período. De fato, devido a idade, ele representava esse desejo de conquistar um troféu. Não se intimidava com os mais jovens e indagava aos mestres com aquele linguajar característico do interiorano amazonense. Outro colega, Mael Sá, sabia imitá-lo à perfeição.

 
Perseverante e Perseverando (*)

Uma das personalidades mais destacadas da família Garcia é, sem dúvida, o cidadão Perseverando da Trindade Garcia. Nascido em 10 de janeiro de 1903, na então Vila de Silves, filho do cidadão Raimundo Nonato
Garcia e de Dê Margarida Farias de Almeida Garcia, ambos amazonenses e já falecidos. Perseverando é
, na sua família, o exemplo típico do cidadão perseverante, firme, constante nos seus ideais, fazendo jus, assim, ao nome que acertadamente lhe foi dado por seu saudoso genitor.

Estudou o ABC com o professor Francisco Assis e Silva, um paraibano inteligente e culto, padrasto do desembargador Zózimo Severino de Leiros, que tinha, em Silves, no principio do século, uma escola particular, frequentada, dentre outros alunos, pelos silvenses Alcebíades de Leiros, AImerinda Garcia, Josefa Garcia, Francisco Afonso, Otílio Garcia e Zoroastro de Leiros.

Em 1913, Perseverando passou a frequentar a Escola Mista de sua terra natal, regida pela professora Zolima Marques Garcia, e a partir de 1914, matriculou-se na Escola Pública de Silves, regida pelo professor João Pedro Garcia, sob cuja orientação terminou seus estudos primários.

Concluindo o curso primário em 1919, foi nomeado interinamente para exercer o cargo de secretário da superintendência Municipal, no qual permaneceu até 1929, servindo, assim, a sucessivas administrações.
Em 1922 foi nomeado, também interinamente, agente do Correio, em cujo cargo conservou-se até 1935, após nele se ter efetivado. Com a transferência da sede municipal para a Vila de Itapiranga, em 1931, passou a exercer o cargo nesta localidade, onde contraiu núpcias com a prendada senhorinha Tereza Panza, de cujo consórcio houve 10 (dez) filhos: América do Sul, Auri, Maria da Graça, Maria Margarida, Álvaro, Lázaro Nazaré, Paulo José, Marcílio Dias e Perseverando da Trindade Garcia Filho, além de Aderbal.
 
Em 1935 candidatou-se ao cargo de prefeito, pelo antigo Partido Popular Amazonense, liderado por Álvaro Maia, tendo sido eleito por expressiva votação, assumindo o novo cargo em 1 º de fevereiro do ano seguinte. Com o golpe de Estado de 10 de novembro de 1937, foi mantido no cargo, do qual foi afastado em 1945, para voltar em 1946 e ser novamente afastado em 1947.

Em 1951 foi convocado para a Assembleia Legislativa, suplente de deputado que era, eleito pela legenda do Partido Social Democrático, no pleito de 1950. Em 1954 foi eleito vice-presidente da Assembleia Legislativa, e como tal assumiu duas vezes o governo do Estado, em virtude de impedimento do presidente, sendo a primeira vez eventualmente, em dezembro daquele ano, e a segunda, em caráter permanente, com a renúncia do Governador Paulo de Grana Marinho, em janeiro de 1955, tendo, inclusive, transferido o governo ao eleito Plínio Ramos Coelho.

Durante sua estada no interior do Estado, foi diretor do jornal O Alfinete, editado em Silves e de propriedade do jornalista Antônio Duarte Beltrão. Como Solicitador, apaixonado que sempre foi pelo Direito, advogou nos termos de Urucará, Urucurituba, Silves e Itapiranga.

Foi desportista, fundador do Saracá Futebol Clube, de sua terra natal. Quando moço, foi o "almofadinha” de sua terra, tal a elegância e o aprumo do trajar.

Sua grande meta era bacharelar-se em Direito. Perseverou, e muito, para alcançar' o seu grande ideal. Resolveu fixar residência em Manaus, e aqui, em 1969, termina o Curso de Madureza, feito no Colégio Estadual do Amazonas, e logo após matricula-se na 1ª série da Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas, onde se graduou em Direito, em 1973, aos 70 anos de idade, como o mais idoso dos formandos de sua turma. Presentemente é advogado militante, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Amazonas sob nº 692.

Perseverando perseverou tanto, que medrou graças à sua perseverante atividade, várias posições: secretário da Superintendência Municipal, agente do correio, prefeito municipal, deputado estadual, governador do Estado, advogado.

É este cidadão simples, modesto, perseverante, que atende pelo nome de Perseverando da Trindade Garcia, que completa 80 (oitenta) anos de idade no dia 10 do mês fluente, sob o calor da amizade de sua esposa e filhos e os aplausos carinhosos de seus parentes e admiradores.
 
(*) Extraído do livro À Sombra dos Igapós, publicado por Waldir Garcia, em 1987. Por isso, não sei indicar a data do falecimento de Perseverando Garcia.

terça-feira, março 25, 2014

GOVERNO MILITAR: 50 ANOS (1)


As impressões sobre esse acontecimento já veem sendo discutidas, pois o cinquentenário ocorre dia 31 próximo (segunda-feira). Vou comentar aqui (depois de longa ausência) sobre o assunto até a data indicada. Sei que há muito a discutir ou revelar.

As impressões sobre esse acontecimento já veem sendo discutidas, pois o cinquentenário ocorre dia 31 próximo (segunda-feira). Vou comentar aqui (depois de longa ausência) sobre o assunto até a data indicada. Sei que há muito a discutir ou revelar.

Tive duas opiniões sobre como proceder: uma, recolher a descrição dos mais velhos, da “melhor idade”, dos que viram a mudança de governo. Ou seja, onde andava você quando o governo de João Goulart foi substituído pelo dos generais? Para tanto, vale lembrar os prós e os contra. 

A segunda proposta veio de meu amigo Herbert Ribeiro, apreensivo com minha ausência. Em telefonema para exigir minha volta, contou-me de suas inquietações a meu respeito. -- Será que o blogueiro “atravessou o rio Negro” e nem me avisou? Ainda não, amigo, vou assistir em junho os jogos na Arena. Herbert propôs que eu recolhesse as publicações dos jornais locais, referente ao episódio. Vou cumprir.

Começo com meu depoimento.

Padres e seminaristas no Seminário
São José, no início dos 1960
Em março de 1964, ia completar 18 anos e estudava no Seminário São José, localizado na confluência da rua Emilio Moreira  com a rua Ramos Ferreira, que já abrigou o ICHL-Ufam e hoje, os futuros advogados da Uninorte. Já em final do curso secundário, possuía o encargo de preparar um briefing semanal para os colegas. Para isso utilizava jornais do Rio (Jornal do Brasil e Globo), que chegavam em Manaus com três e até quatro dias de atraso. Com isso, é fácil entender o distanciamento de Manaus com a capital da República. 

Apesar do fato, eu estava bem informado dos acontecimentos nacionais, em especial, a situação do governo de Jango. Confesso que torcia contra seu governo, devido ao meu engajamento na Igreja, que para demonstrar sua posição promovera a “marcha contra”. A outra questão dizia respeito ao temor ao comunismo, sentimento que a igreja divulgava com ardor.

Outra fonte de informação partia dos professores. Lembro bem do padre Luiz Ruas e do professor Carlos Eduardo (ambos inveterados fumantes), e mais o professor Origenes Martins. Todos com intensa militância política junto a Ação Católica, com mais destaque junto aos estudantes. Um dia, eles não apareceram para as aulas. Passaram os dias, nada. Então, soubemos que os mesmos estavam “de férias”, ou seja, estavam devidamente em segurança, pois as prisões se sucediam. Detalhe: padre Ruas, na época, passou 40 dias recolhido ao xadrez do 27 BC, atual 1º BIS, no bairro de São Jorge. 

Portanto, a minha primeira recordação é a melhor possível, pois, na condição de estudante, passei dias sem professores. Na direção do seminário a tensão era concreta, mas não foi incomodada.

No dia 31 e seguintes, depois que a notícia da derrubada do governo adentrou o colégio, interessei-me por detalhes. Esses detalhes somente eram conseguidos no radioamador existente na Casa, manipulado pelos padres Onias Bento e Tiago Braz e pelo professor Amarílio Pinto. As rádios locais pouco ou quase nada ofereciam, por isso, o mais indicado era recorrer à Voz da América (como indica o título, órgão de divulgação do governo norte-americano). Certamente, como indicam as publicações atuais, este governo colaborou com o golpe, por isso as notícias eram as mais alvissareiras. (segue)

quarta-feira, janeiro 29, 2014

IMPRENSA OFICIAL DO AMAZONAS (2)




Mário Ypiranga,
1976
Em 1986, o lembrado professor Mário Ypiranga Monteiro publicou uma plaqueta intitulada – Notas sobre a Imprensa Oficial do Amazonas, que aqui reproduzo a segunda parte.

O prédio apropriado seria levantado na então rua Municipal (atual avenida Sete de Setembro), no lugar das casas contíguas ao conhecido Sá Mané. E o primeiro diretor da Imprensa Oficial, foi o doutor Pedro Freire. Mais tarde, já no governo Constantino Nery, o restante do terreno seria ocupado pelo magnífico prédio da Biblioteca Pública.
 
Falar da Imprensa Oficial do Estado sem apelar para a sua função dispensadora da cultura é não dizer nada, enquanto o seu mérito maior não seria apenas editar diariamente o Diário Oficial e os documentos emergidos do âmbito da administração pública. E o fez pelo menos em 58 anos de consecutiva atividade. Mas não é só isto.
Diário Oficial, arquivo geral
 
A Imprensa Oficial, criada a partir de uma consciente noção de realidade social como órgão de divulgação maior do Estado, para satisfazer a esse requisito teria que constituir na realidade uma fonte geradora de economia, como o foi realmente.

Para isso o governo dotou-a do equipamento gráfico mais sofisticado que as fábricas europeias, alemãs, francesas e italianas produziam, e também as americanas, enriquecendo o esforço de comunicação. Linotipos, impressoras, máquinas de fabricar envelopes, daguerreotipia, equipamentos completos de encadernação, sortimento variado de fontes e matrizes de cobre, estanho e bronze, para resistir anos, realizar o que na época nenhuma casa impressora de Manaus faria, em concorrência.

As obras gráficas saídas das oficinas da Imprensa Oficial eram louvadas e não foram poucos os prêmios obtidos em exposições nacionais e internacionais, com diplomas que antigamente eram exibidos ostensivamente pelas paredes da sala da Diretoria.

Ao lado das oficinas de composição com suas mesas de mármore para montagem, suas máquinas luzindo de novas e de bem cuidadas, havia a oficina de encadernação bem aparelhada, capaz de competir com qualquer casa no gênero do país, porque à testa das secções e das oficinas havia gente competente, especializada. Da oficina de encadernação saíram todos os volumes encadernados que se encontram no Arquivo Público e os que foram devorados no lastimável incêndio da Biblioteca Pública.

A decadência da atividade gráfica da Imprensa Oficial começa quando administradores sem escrúpulos ou sem força moral para coibir abusos silenciam diante dos desmandos da política oponente. A Imprensa Oficial alcançou em determinada época tal estado de debilidade material que mandava compor as chapas do Diário Oficial em outras oficinas. À altura de 1937-38 a situação era tão delicada que qualquer pessoa poderá sem esforço averiguar a defasagem pelas páginas impressas do próprio órgão oficial.

Naquela altura a Imprensa Oficial teve dois diretores de mérito: Mitrídates Alves de Lima Corrêa e o doutor José Luís de Araújo Neto, todos dois poetas e ambos jornalistas e acadêmicos (ver Nota). Na administração deles o Estado reformou quase todo o material gráfico, mas é de justiça salientar que também na administração do escritor Raimundo Morais, anterior a daqueles outros, a Imprensa Oficial ainda podia honrar-se de poder editar obras importantes, como as do próprio autor de Na Planície Amazônica, Cartas da floresta etc. Por essa época é editado o volume de versos do poeta Raimundo Monteiro, livro que originou a desavença entre Raimundo Morais e Péricles Moraes, que por coincidência não eram parentes, tornando-se inimigos de sangue e fogo.

Centenas de obras, boas e más, foram feitas na Imprensa Oficial, mas ainda perdura na lembrança dos bibliómanos a edição monumental do Diário Oficial comemorativa do centenário da Independência do Brasil, onde colaboraram quase todos os grandes nomes da intelectualidade amazonense da época. Uma edição que recomendava o talento e a capacidade do operariado público faminto. Porque estávamos na administração Rego Monteiro, em 1922, e o funcionário estadual e municipal passava fome e miséria.

Grandes nomes passaram pela Imprensa Oficial, em várias épocas, tais como Alcides Bahia, José Chevalier Carneiro de Almeida, José Pais de Azevedo, Washington Melo, Raul de Azevedo, Ferreira Sobrinho (o poeta do jumento), Thaumaturgo Vaz, geralmente pessoas mais chegadas à cultura geral que simplesmente burocratas.

Houve naturalmente a separação, o desmembramento da Imprensa Oficial da Biblioteca e Arquivo Público, quando as três repartições, por medida de economia, foram agregadas numa só. Mas depois do Estado Novo um golpe de política bem dado separou-as porque não havia nenhuma justificativa que autorizasse a esdrúxula vinculação.

Aos poucos foi a Imprensa Oficial recompondo-se da sua debilidade e o patrimônio passou a ser enriquecido com a aquisição de novas impressoras e outras máquinas sofisticadas. Mas acreditamos, sem que nisto haja nenhuma crítica, continuar mal instalada uma repartição que exigia maiores espaços para uma maior capacidade de produção. Ano após ano, com o avanço da técnica gráfica, outras máquinas serão exigidas, mais equipamentos e mais operários e almoxarifados, depósitos, garagens etc., e as instalações ficarão exigindo sempre desafogo.

O prédio, por sua vez, não possui condições de higiene e nem ventilação suficiente, pois era antigo colégio particular e residência. São aspectos que precisam ser olhados com simpatia, apesar de que administrações passadas tentaram sem muita convicção reformular o ambiente. Existem em Manaus prédios devolutos a espera de serem ocupados depois de exigente adaptação. Quem escolheu aquele local para instalar um organismo em progresso não teve a ideia de que um dia o patrimônio material estaria exigindo espaço mais dilatado.

Notas:
José Luís de Araújo Neto foi eleito, mas não tomou posse na Academia Amazonense de Letras.
A atual sede da Imprensa Oficial encontra-se à rua Dr. Machado - Centro