CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, outubro 22, 2022

DESASTRE DO PP-PDE: PASSAGEIROS MORTOS (1962)

A relação conhecida lista 43 passageiros, sendo 27 masculinos e 14 femininos, e mais dois não identificados, pois constam na relação de passageiros somente como familiares de Waldomir (Waldemar, na lista de passageiros) Holanda. Como a lista de passageiros menciona, ainda em nossos dias, o primeiro nome e o último sobrenome, para completar os espaços recorri ao 1º Cartório de Registro de Pessoas Naturais, onde foram expedidas as certidões de óbito. Por fim, tomei a iniciativa de relacionar os ocupantes do avião pelo aeroporto de embarque.

Lista de passageiros
do PP-PDE

Embarcados em Belém (PA)

1.      Ermindo Fernandes Barbosa

“Líder do comércio e da indústria, foi uma das mais graves e das mais sensíveis perdas do Amazonas no desastre do Constellation PP-PDE da Panair do Brasil.” As anotações seguintes foram compartilhadas de periódicos locais que, como se podem observar, foram generosos com o industrial.

Ao falecer, Ermindo Barbosa estava viúvo e deixava três filhos: Edith Fernandes Barbosa, o professor Ernani Barbosa e a senhora Ercilla Barbosa Venâncio. Enfim, era irmão do comerciante Francisco Barbosa.

2.   Cândido Acciai

de nacionalidade italiana, era membro das indústrias Acciai que seguem operando derivados metálicos. Quem sabe estivesse chegando em Manaus para contato comercial.                                        

3.   Sírio Simoni

sem anotação

4.  José Haroldo Andrade

sem anotação

5. Maria Luísa Chauvin Chase e 5 filhos

esposa do engenheiro Nicholas Chase, viajava com os filhos: 6. Paulo Eugenio; 7. Mauro Bernardo; 8. Luiza Helena; 9. Doris e 10. Carlos Otavio Chauvin Chase. A família visitava a tia Olenka Chauvin de Menezes, delegada do IAPC (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários). O engenheiro desembarcou em Manaus no mesmo dia, viajando na delegação do presidente da Panair do Brasil. Dias depois, alcançados os destroços do avião, obteve benevolência para visitar o local. Soube enfrentar o quadro com bravura, ainda que extremamente emocionado, tendo sugerido ao tenente chefe da equipe de resgate o sepultamento coletivo na clareira aberta. A opinião benfazeja, porém, não prosperou. Os restos mortais da família foram sepultados no cemitério São João Batista local.

Convite publicado em Jornal do Commércio, 12 jan. 1963 


11. Maria América Farias Miranda

acompanhante da família Chase, moradora de Belém onde foi sepultada no cemitério Santa Isabel, em 27 de dezembro, consoante o diário A Província do Pará (28 dez.)

12. José Luís Nunes Pinto e 2 familiares

médico pediatra em Belém, que estava acompanhado da esposa 13. Maria Pinto e da filha 14. Nair Pinto. A viagem da família atendia “ao convite do governador amazonense Gilberto Mestrinho para conhecer as obras de sua administração”, informa A Crítica (15 dez.). Semelhante referência foi publicada pelo vespertino A Gazeta (16 dez.). Enfim, os corpos dos familiares do clínico não foram identificados.

15. Aline Linhares Teixeira

viajava com as filhas 16. Aline e 17. Ângela Ester Linhares Teixeira, era esposa de conhecido industrial Max Teixeira (1928-90), cujo nome referencia uma avenida na cidade (CEP 69090-001). Mãe e filhas retornavam do casamento de um familiar. Seus corpos foram sepultados no cemitério São João Batista local. O desempenho de Aline na sociedade era admirável, daí a Nota exposta pelo Grêmio Guanabara, que funcionava na Estrada do V8, hoje avenida Efigênio Sales:

O GRÊMIO GUANABARA, por sua Diretoria, sente-se consternado, comunica aos seus associados o trágico desaparecimento de uma de suas mais lídimas expressões do Departamento Feminino, Senhora Aline Linhares Teixeira e de suas filhinhas Aline e Ângela, ocorrido no acidente do avião Constellation da Panair do Brasil e, ao mesmo tempo apresenta às famílias enlutadas profundo pesar por tão rude golpe que a todos nós do Grêmio Guanabara atingiu.

18. Kassen Merahim

jovem estudante, morador de Rio Branco (AC), onde foi sepultado em 26 de dezembro (O Acre, 27 dez.).

19. Hugo Macario de Brito

engenheiro do setor de manutenção da Petrobras, solteiro, nascido no Crato (CE); foi sepultado no São João Batista, em Manaus, assistido por seu irmão Humberto Macário, médico em Salvador.

20. Norbert Mannicke

engenheiro operador da Companhia Schlumberger, casado, de nacionalidade alemã; em viagem a serviço da Petrobras.

21. Walter do Nascimento Meguins

técnico soldador da Petrobras, casado, de Belém (PA) onde foi sepultado na necrópole de Santa Isabel em 27 de dezembro, em que se pronunciou o representante do presidente da Petrobras (A Província do Pará, 28 dez.). Estava lotado em Nova Olinda do Norte (AM) e deixou órfã uma filha de seis anos – Rosimê da Conceição Meguins – que, em sua Tese de Doutorado sobre Educação na UFMG, em 2006, lavrou a seguinte dedicatória:

“Ao meu pai, Walter Meguins (em memória)

que, na passagem muito rápida pela vida,

deixou as mais profundas marcas

impressas em lições de amor, justiça e verdade.”

22. Pedro Alves Ferreira

radiotelegrafista, solteiro, amazonense, funcionário da Petrobras.    

23. Mauricio Samuel Ohana

sem anotação

24. Elias Jocayed

comerciante em Porto Velho (RO), “tendo recebido recentemente ótima herança de seu genitor, passando os negócios à família” (A Crítica, 15 dez.).

 25. Jackson de Albuquerque Pinto

1º tenente aviador, designado para conduzir aeronave da Missão Mapuera, com origem em Manaus (AM). Na época, era comum militar da Força Aérea viajar de cortesia em companhias aéreas. Neste voo, a única vaga existente foi ocupada por este oficial, tendo permanecido na reserva o tenente José Orlando Amado Neco.

26. Amaro Alves da Rocha  

comissário da Marinha Mercante e funcionário da Petrobras, servindo em navio da Frota Nacional de Petroleiros (A Provincia do Pará, 16 dez.).

27. José Ribamar Nascimento Santos

sargento do Exército, seu corpo foi sepultado no cemitério Santa Isabel em Belém (PA), conforme o diário A Província do Pará (28 dez.). Servia em Tabatinga (AM), segundo a publicação do jornal A Crítica (29 jan. 1963).

28. Youssef Makarem

residiu por muitos anos no Território Federal do Acre, operando com o comércio de ouro, tendo há pouco mais de um ano transferido o domicílio para Manaus (A Gazeta, 17 dez.).

29. Aymoré de Paula e Souza

nascido em Borba (AM), era irmão do deputado estadual Tupinambá de Paula e Souza e primo do jornalista Ramayana de Chevalier e, na ocasião, jornalista de O Povo de Fortaleza, onde residia (A Gazeta, 14 dez.). Casado com Raimunda Hermelinda Sales de Souza deixou os filhos Newton Sales de Souza, Vera Angelina Sales de Paula e Souza e Fabíola de Paula e Souza Santos (todos vivos em 2022). Fabiola prestou uma entrevista para esta retrospectiva em julho, quando revelou o desencanto familiar com a urna recebida com o corpo de seu genitor.

Aymoré Paula e Souza

A condição de jornalista de Aymoré muito contribuiu para uma ampla rede de apoio, não somente dos periodistas, mas também de radioamadores. O advogado Licurgo de Souza Cavalcanti (PY8-HL) informou ao jornal A Crítica (21 dez.) ter recebido solicitação dos familiares deste colega, tanto da esposa em Fortaleza, como do irmão Edsel Paula e Souza, que trabalhava na presidência da República.

30. José Roberto Blanco

acredito, pela leitura do agradecimento, que o inditoso passageiro era “vendedor-viajante” da empresa Sidney Ross Company, hoje apenas memória, e que estava fazendo a “praça” do Norte. “A Sidney Ross produzia grande número de marcas de medicamentos leves, como Melhoral, Sonrisal, Leite de Magnésia de Phillips, Sal de Frutas Andrews, Pílulas de Vida do Dr. Ross, bem como cosméticos famosos como Glostora e Talco Ross. Seus produtos alcançavam os mais longínquos rincões do Brasil, tinha 1.000 vendedores-viajantes.” (A história da Sidney Ross Company e seus investimentos em publicidade)

Embarcados em Fortaleza (CE)

31. João Ivan Paiva

comerciante de relógios e objetos de adereço, estabelecido na rua dos Barés, próximo ao Mercado Adolpho Lisboa. Seu irmão – José Geraldo Paiva – um mês após o acidente acompanhou a equipe da Polícia Civil ao local e afirmou ter ainda encontrado o corpo do irmão, e exigido o translado para Manaus. Ivan encontra-se sepultado no cemitério São João Batista.  

Foto existente na sepultura

32. Ana Benita Peres Pontes  

 sem referência                                             

33. Peggy Blanche Farrance

 sem referência

34. Geralda Santana Marques

 sem referência                                             

35. Joaquim Cordeiro da Cruz

 em viagem a Tabatinga (AM), a fim de visitar o filho oficial do Exército e os netos recém-nascidos.              

36. Milton Matos Rocha

eleito deputado estadual em 7 de outubro no Acre. Visitara Belém do Pará em companhia de seu filho João Alberto, para tratamento de saúde e retornava para seu Estado (A Crítica, 15 dez.). Nascido em Missão Velha (CE) em 1916, era casado com Raimunda Barbosa Rocha. Já havia exercido a prefeitura de Rio Branco e encerrado o mandato de vice-governador. A Assembleia Legislativa gravou seu nome na Sala das Sessões. Foi sepultado conjuntamente com o filho em 26 de dezembro, no cemitério de São João Batista de Rio Branco (O Acre, 29 dez.).

37. João Alberto Pinheiro Rocha

era filho do deputado Milton Rocha (O Acre, 29 dez.), porém, consta na lista de passageiros como Milton Rocha Filho.

38. Waldomir de Holanda Cavalcante e dois familiares (39. e 40.)

             seus restos mortais foram transladados para Rio Branco (AC), em 27 de dezembro, onde foram recepcionados por grande número de pessoas, inclusive o Governador provisório. “Ivo”, como era conhecido, residia no bairro do Quinze, e foi sepultado no dia seguinte no São João Batista local (O Acre, 29 dez.). Não há informações sobre os familiares.

41. Pedro Vieira de Castro 

Após longo período como destacado comerciante em nossa praça, com grandes negócios na capital e no interior do Estado, decidiu mudar-se para Fortaleza. E já estava organizado naquele endereço, quando necessitou viajar à capital do Acre para encerrar os últimos comércios. Seu filho homônimo, estudante em Itajubá (MG) e em férias no Rio de Janeiro, tomou conhecimento da viagem do pai no Constellation acidentado. Recorreu à agência central da Panair, da qual recebeu passagem para retornar a Manaus, onde acompanhou o desenrolar das buscas. No entanto, o corpo de Pedro Vieira não foi encontrado, detalhou-me seu filho em agosto de 2022. Nota jornalística: Pedro Vieira foi proprietário do bar Siroco (A Crítica, 15 dez.). 

Embarcados em Recife (PE):

42. Emília Benassuly Cohen, mãe de                                                         

43. Jannete Abraham Cohen (8 anos)

Parentes do comerciante Abraham Poinkines vinham participar das festividades do Natal com os familiares (A Crítica, 15 dez.). Seus corpos não foram resgatados; em razão disso, Abraham Jacob Cohen, esposo e pai das vítimas, endereçou uma carta a O Jornal (29 jan. 1963) e, na mesma data, concedeu entrevista para A Crítica.

sexta-feira, outubro 21, 2022

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (4)

Novo capítulo sobre o período provincial da Polícia Militar do Amazonas, compartilhado do livro Guarda Policial (1837-1889)

Recorte da capa do livro

É a partir do aparecimento da Síntese histórica em 1972 que a cilada do primeiro comandante toma vulto. Até então a Polícia Militar do Amazonas privilegiava ao major Severino Euzebio Cordeiro, comandante na criação em 1876, como o primeiro. Com isso, a informação da Síntese se transformou em dogma. Tanto que sem qualquer precaução, os editores de Almanaque (publicação anual que traz a relação hierárquica de seus membros, com várias indicações pessoais: data de inclusão, de promoções e condecorações auferidas, entre outros dados) da Polícia Militar do Amazonas inseriam nele a galeria dos ex-comandantes, preenchendo sem discernimento os espaços vazios elencados acima. Motivo pelo qual, o primeiro comandante exerceu esse encargo durante 14 anos, ou seja, de 1837 a 1851.

O mesmo procedimento ocorreu com os dois seguintes. Ora, se Albino Pereira detém o privilégio de ser o primeiro comandante, ao menos que se consertem as datas, visto que aquele oficial somente pôs os pés em Manaus em 1848, diferentemente do que dogmatiza o autor da Síntese histórica.

Todavia, não é este o fato. O fato é que a Polícia Militar do Amazonas deve esclarecer aos sujeitos (internos e externos) um certo “buraco negro” em sua existência. Episódio que enleia, embaraça a compreensão e, portanto, deve ser desvendado ou esclarecido na história da entidade. Sem traumas, pois semelhante ou em igual condição há em outras instituições. Aludo a dois exemplos análogos, para ficar no regional amazônico.

A festa da criação da cidade de Manaus – 24 de outubro de 1669 – é exemplo devidamente patenteado. Cristalino. Os cronistas e historiadores manauaras e, mais ainda, os donos da verdade no IGHA - na revista 332 anos de Manaus: História e Verdade - colaram duas datas distintas e distantes: 1669 (ano em que se presume ter sido construído o fortim local de São José) com 24 de outubro (data da lei que eleva a vila à cidade de Manaus, em 1848). Com o título – Imbróglio do aniversário de Manaus – o doutor em História da Ufam Francisco Jorge esclarece com mais conveniência essa “invenção” natalícia, ou mais essa “verdadeira mixórdia, pois se trata de uma mistura de tempos, eventos e significados que rigorosamente nada têm a ver uns com os outros”.

O outro caso consagrado é o natalício da Polícia Militar do Pará. Na baía de Guajará, a Força Policial conectou o ano de 1818 (por isso, a terceira PM mais antiga do país) com 25 de setembro (dia em que a tropa paraense ajudou a superar os conselheiristas em Canudos, em 1897). Como se pode notar, há “frankensteins” em variados armários.

 

Uma palavra final sobre os primeiros comandantes. A galeria dos ex-comandantes enfileira o “coronel reformado de artilharia João Henrique de Matos, da Guarda Nacional”, em segundo lugar. Informações desencontradas dos autores consultados não me permitiram definir a origem deste militar. Ao meu ver, pertencia tão-somente à afamada GN; dessa maneira, não deve ser confundido, como procede a corporação amazonense, com oficial R/1 (seja da reserva ou reformado) do Exército. O fato: em janeiro de 1852, Matos foi empossado na 3ª vice-presidência da Província e, nessa condição, tomou o encargo da área da Segurança. Além de assumir o cargo de Chefe de Polícia, substituiu ao tenente-coronel Albino Pereira na direção da Guarnição do Amazonas.


O terceiro nome na galeria é o de Pedro Nicolau Freguerstein (cujo sobrenome correto é Faegerstein), que aqui desembarcou do vapor Marajó em 10 de fevereiro de 1857. Possuía o posto de tenente-coronel. Não obtive outros subsídios acerca de sua presença na Guarda Policial, que importa sobremaneira para este estudo. Aprendi em Os mercenários do imperador, contudo, que se tratava de um “mercenário alemão no exército imperial, durante o primeiro império (1822-31)”, tendo servido como capitão no 28º BC (Rio). 

Silvério Nery, major comandante
da PMAM e genitor de 
governadores

Tem mais: na condição de tenente-coronel serviu na Guarnição do Amazonas, quando então apadrinhou o casamento do major EB Silvério José Nery (julho de 1857), que foi comandante da PMAM em 1878 e genitor dos governadores Silvério e Constantino Nery.

quinta-feira, outubro 20, 2022

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (3)

 Novo capítulo da história da Polícia Militar do Amazonas em seus primórdios, compartilhado do livro Guarda Policial.


Gravura da sede do quartel da Polícia Militar exposta na
capa do livro Guarda Policial.


Já próximo à celebração do centenário, surgiu a Síntese histórica em 1972. O autor da obra reproduz as informações contidas em relatórios presidenciais e, sem acrescer outras análises ou proceder a investigações, fomenta a data das Instruções Gerais como a da criação da Polícia Militar do Amazonas. O governador do Estado, coronel EB João Walter de Andrade, instigado pelo chefe da Casa Militar, tenente-coronel PM Pedro Rodrigues Lustosa, prontamente admite o estudo e autoriza a publicação. Realizada na Imprensa Oficial, a obra foi impressa em papel de baixa qualidade e editada sem observância de normas técnicas. Claramente sem revisão. Por isso e aquilo, repleta de incorreções.

Dessa maneira, a corporação do tenente-coronel Cândido Mariano (patrono da Rocam) abandona a comemoração do centenário que já se acercava célere para, em decorrência dessa dose botulínica – festejar o sesquicentenário.

Numa coincidência proporcionada pelo tempo, o festejo deste evento ocorreu sob o comando-geral do coronel Pedro Lustosa, que inaugurou um desfeado marco da efeméride, desaparecido da Praça da Polícia na inauguração do Palacete Provincial. Em nossos dias, porém, a ata de criação encontra-se consolidada, confirmada, motivando que a Polícia Militar do Amazonas se inscreva estranhamente entre as mais antigas corporações do gênero no País.

 

É na Síntese histórica (1ª ed.) ainda que outro desastre vem atrelado ao primeiro. O finado Mário Ypiranga estabelece uma esdrúxula galeria de ex-comandantes da instituição (acatada pela corporação), assim iniciada:


1 – Tenente-coronel Ex Albino dos Santos Pereira           05.07.1837

2 – Coronel R/1 Ex João Henrique de Matos                   01.06.1851

3 – Tenente-coronel Ex Pedro Nicolau Freguerstein          02.12.1857

4 – Major (Ex) Severino Euzebio Cordeiro                        01.05.1876

 

 

 

 

Detalhe do livro Síntese histórica, de Mário Ypiranga


 

 


 

 

 

 

 

Sem qualquer solidez documental, Ypiranga relaciona o tenente-coronel Albino dos Santos Pereira como o primeiro comandante da Guarda Policial. E inflige outra agravante à galeria, ao transmitir o pressuposto de que este militar exerceu a direção da GP de 1837 a 1851. Aqui alongo minha apreciação sobre o assunto. Não há indício de quem expediu a portaria de sua nomeação, do início de julho. Ou qual foi a autoridade que a expediu e de onde saiu o decreto. Se, como assegura a publicação, ocorreu em 1837, logo a autoria pertence ao governo provincial do Pará. Contudo, nesse lapso, Albino Pereira começava a vida militar no posto de tenente, auxiliar do presidente provincial Soares d’Andrea.

Ele somente se tornaria tenente-coronel na década de 1840, tanto que, em 30 de março de 1848, assume o Comando Militar do Alto Amazonas que, a meu ver, aproveitava a Expedição Militar ao Amazonas, do início da Cabanagem. Àquele cabia disciplinar os ralos corpos militares e os militarizados, no caso, mais de duas dezenas de “Guardas parciais”, pois não existia unidade de comando entre esses fundamentos.

Nessa questão, outro pormenor se alevanta motivado pela lição do mestre Arthur Reis em História do Amazonas: encerrado o ciclo perverso da Cabanagem, a Comarca do Alto Amazonas estava desorganizada, aliás, estava “tudo desorganizado”.  E prossegue: necessitava de elevado “esforço e patriotismo para levantar a comarca”. Em 3 de março de 1841, portanto, quando já existia a Guarda Policial, assumiu o comando militar da Comarca o major de artilharia Francisco Raimundo Nogueira de Faria. Em 1845, foi substituído pelo major José Coelho de Miranda Leão (o mesmo que acolheu os últimos anistiados da Cabanagem em Luseia). Dois anos depois, em janeiro, Miranda Leão foi sucedido pelo coronel reformado e brigadeiro honorário João Henrique de Matos, “que se conservou até abril de 1848”. Nesta data, só então assume o comando local o tenente-coronel Albino dos Santos Pereira, encargo que repassa em 1852, por ocasião da instalação da província.

Sem precisar a data, o jornal A Estrella do Amazonas noticia a morte deste oficial, poucos dias após desembarcar em Cuiabá (MT). Acreditava que este infortúnio causaria doloroso sentimento aos habitantes do Pará e Amazonas, “que tão bem conheceram as qualidades do falecido”.

Encerrando a preleção, cabe reiterar a pergunta: por que privilegiar o tenente-coronel Albino dos Santos Pereira, se mais outros oficiais o antecederam no comando? Não antevejo argumentos. A corporação deve, sim, interromper de alguma maneira esse flagelante equívoco.

 

quarta-feira, outubro 19, 2022

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (2)

 Segundo capítulo da história da Polícia Militar do Amazonas em seus primórdios, constante do livro Guarda Policial. 

Recorte da capa do livro

 

Logo adiante, no período das Regências, quando avultaram as revoltas militares e motins na Corte e em outras províncias, e mais, com as lutas políticas alcançando os quarteis, padre Diogo Antônio Feijó (1784-1843), ministro da Justiça, providenciou a extinção das Milícias e das Ordenanças. No mesmo diploma jurídico, para substitui-las, criou em 18 de junho de 1831, a Guarda Nacional, igualmente conhecida por Milícia Cidadã, que subsistiu até a segunda década do século XX. E mais providências: em 10 de outubro do mesmo ano, a Regência sancionou a lei que criava na Corte o Corpo de Guardas Municipais Voluntários a pé e a cavalo, com o escopo de “fortalecer ainda mais a tranquilidade pública e auxiliar a Justiça”. Enfim, autorizou a criação de semelhante Corpo nas Províncias.

O comando das Ordenanças era exercido por um capitão-mor, secundado por um sargento-mor e um ajudante. Cada Ordenança, com estrutura militar, compunha-se de alferes, sargentos, cabos de esquadra e soldados, sob a direção de um capitão da companhia. Era quase impossível manter essa composição, pois os óbices eram diversos. Acredito que os mais determinantes foram a dificuldade do soldo e o pequeno número de habitantes das localidades. A tentativa de remodelação, passando à subordinação de um Juiz de Paz, não produziu os resultados pretendidos.

Vila da Barra do Rio Negro (1849)

Enquanto isso, dos confins da capitania do Rio Negro, cuja sede inicial fora Mariuá, atual Barcelos, são exíguas as notícias sobre o emprego ou a atuação das mencionadas organizações militares. De certo, aqui laboraram. Observo, contudo, que as forças 

em operação deveriam ser essencialmente militares, sob a direção de oficiais portugueses, posto que, nesse período, a metrópole buscava sobrepujar aos indígenas, com mais destaque os Mura, acusados de “responsáveis pelo não desenvolvimento da Capitania do Rio Negro”. Eram tempos de “pacificações”, nem sempre pacíficas. Assim que, debaixo dessa ordenação, as Tropas Auxiliares (as de 2ª Linha) da capitania combateram esses índios e, paulatinamente, os foram massacrando.


Padre Diogo Antônio Feijó

Não seria espantoso se eu arguisse a probabilidade desta corporação datar do final do século XVIII, quando da instalação do Corpo de Milicianos Ligeiros da Província do Pará, “criado por Carta Régia de doze de maio de mil setecentos e noventa e oito”. Qual o fundamento? Apenas a condição de integrante da província do Grão-Pará? Cuja ligação desta província direta e estreita com a Metrópole, a qual cuidando da organização militar impunha, na condição de colonizadora, a legislação e normas gerais próprias. No entanto, essa estrutura policial adotada pelo governo do Grão-Pará foi mantida somente na capital da província. Devido a obstáculos bem variados. A Capitania do Rio Negro, que cuidasse de sua segurança.

Em 1808, a sede da Capitania desce o rio Negro e se instala na margem esquerda, quase na confluência com o rio Solimões. Em 28 de março, o Lugar da Barra (hoje Manaus) foi promovido em sede da “sonhada província” do Amazonas. Em 1822, por ocasião da Independência do Brasil, quis o Amazonas se tornar igualmente “independente”, mas não conseguiu sê-lo sequer da província do Pará. A frustração dos amazonenses, no entanto, estimulou ainda mais a luta pela emancipação. A capitania permaneceu “na mesma condição de subalterna ao Pará. Extremo-norte, longe das cogitações dos homens de Estado do reino, estava condenada, esquecida.” Ao menos conquistou promoção administrativa, tornou-se a Comarca do Alto Amazonas.

Escritor contemporâneo resume assim este fato: “A notícia da Independência chegaria à capitania do Rio Negro apenas a 9 de novembro de 1823. Desde 1820, com a indefinição na administração do Grão-Pará, a capitania vivia um dilema: não era exatamente uma capitania autônoma, estava subordinada ao Pará”. Esquecido e morando longe, o Lugar da Barra necessitava reagir por seus méritos e recursos, e foi assim que procedeu com a “abrilada de 1832”. Nesta rebelião, estabelece um governo livre, mantido até que a expedição enviada pelo presidente da província do Pará, Joaquim Machado de Oliveira, sob o comando do coronel Domingos Simões da Cunha Baiana, sufocasse os propósitos autonomistas do Amazonas. Teve salientada importância neste episódio dois religiosos: “tanto frei José dos Santos Inocentes como frei Joaquim de Santa Luzia, representam a alma desta jornada”.

“A aspiração autonomista não morrera, com o fracasso de 32, pelos anos à frente seria levada com entusiasmo. Com sangue, com mortes. Por fim, o 5 de setembro (de 1850)”, sacramenta o mestre Arthur Reis. E outro estudioso desta questão amazonense: “Mais uma vez os sonhos de autonomia da elite do Rio Negro não encontravam meios de se realizar. Contudo, permaneciam no espírito de seus defensores, que embora derrotados, não deixavam de nutri-los com o néctar da esperança”.