CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, julho 23, 2012

RAIMUNDO MORAES (1872-1941) 2ª PARTE


Raymundo Moraes, 1935 
Transcrevo a segunda parte do capítulo O Gaiola, inserto em Na planície amazônica (1926), o livro de Moraes que despertou a admiração de tantos, não apenas de governantes e leitores sobre a Amazônia, mas igualmente de casas editoras do Sul do país.

O Gaiola (final)

No verão [os gaiolas] furam, quando navegam nos rios secos, rasgam as chapas em âmagos fincados no álveo, em pedras soltas no leito, e vão a pique ou salvam-se milagrosamente alcançando as praias. Forçados pelas vazantes imprevistas, nos longínquos afluentes, navegam à noite, envoltos na escuridão com dois fortes projetores à proa, nas bochechas, pouco acima da linha dágua, e rompem a treva apitando, guinando, bufando, cercados de nuvens de borboletas e de insetos atraídos pelos focos luminosos.

Nas inundações, enfiam-se na mata alagadiça e ficam presos muitas horas, apertados nos caules do arvoredo, cobertos de ramos e folhas, de lianas e parasitas, como divindades silvestres.

Outros, verdadeiros hospitais ambulantes, levam no bojo a gripe, a tuberculose, a coceira, o sarampo. Súbito há um alarme, é a varíola que se manifesta. Tocam no primeiro barracão para deixar o doente. A gente de terra protesta, não consente, e, armada de rifle, ameaça. Isolam, então, o desgraçado na última tolda, debaixo de encerados transformados em tendas de campanha. Breve, porém, a bexiga empesta o vapor e surgem os casos fatais. As vítimas vão ficando enterradas pelos barrancos, fora do conhecimento dos moradores ribeirinhos; e a epidemia propaga-se das margens para o interior da hinterlândia, dizimando e arrasando os seringais do centro, atingindo e invadindo as malocas do silvícola.

Invariáveis e inconstantes como são as cheias nas cordas remotas, há anos ali de muita água e há anos de pouca, surpreendendo sempre o navegante com os fenômenos potamológicos mais inopinados. Quem escreve estas linhas, comandando o Brito em 1913, gaiola de cento e cinquenta pés, atracado ao porto Guanabara, derradeiro ponto acessível no laco, afluente do Purus, só ali ficou vinte e cinco dias em seco. Duas vezes teve a ilusão de regressar e em ambas perdeu o repiquete. O rio começava a encher violentamente às seis horas da tarde. Os cabos de arame passados para terra pareciam cordões de viola. A amarra de lançante, rasgando as águas, lembrava um espigão de ferro. Do talhamar subia o ruído marulhante e falso da embarcação que navegava, tal a força da corrente: cinco, seis, sete milhas. Rápidos, rumo da foz, passavam de bubuia galhadas, tronqueiras, ilhas de capim, canoas alagadas, cisco. O vapor, apesar dos viradores dobrados, assemelhava-se a um cavalo inquieto e preso: encostava, abria, tesando e brandeando as espias. Na volta da meia-noite, a escala a prumo, fincada na ribanceira, marcava seis metros acima do nível observado ao por do sol. Ordem de ativar fogos. Preparativos de partida para o raiar do dia. Pois bem, às seis da manhã o navio não flutuava mais. Perdera-se o momento, o repiquete fugira no tempo vertiginoso de poucas horas.

Os gaiolas avançam tanto em determinadas viagens, que são obrigados a descer de popa, ao sabor do caudal, desviando-se das pontas de tabatinga, dos torrões, dos salões, dando adiante, atrás, parando, largando o ferro passando espias nas margens. Afinal encontram a boca de um igarapé, metem a popa e viram rio abaixo. Ao evoluírem, partem os gualdropes, empenam a porta do leme, arrancam os pés-de-galinha, entopem os ralos dos injetores, quando não atravessam e ficam esperando o inverno vindouro.

Mas não há fugir das manobras sensacionais e arriscadas, fora de qualquer tabela, aproveitando os acidentes e contornos topográficos, das paredes do canon, os remansos, as corredeiras, os sangradouros, os estoques fluviais.

Felizes muitas vezes, sem avarias de monta, retornam no rabo dos repiquetes, evitando com essa precaução anteceder-se ao grosso das enxurradas, que avolumam momentaneamente os remotos cursos dágua, além de ficarem a salvo dos paus flutuantes, arrastados na testada das enchentes. E singram carregados de goma, abarrotados de seringueiros de saldo. Entretanto, nas derradeiras seções dos tributários, ainda recebem, em vastos paióis provisórios sobre a coberta, farta quantidade de castanha, bertholletia excelsa, e chegam a Manaus com os embornais mergulhados. Amarram nas boias recordando museus zoológicos, cheios de araras, papagaios, periquitos, macacos, jacamins, mutuns, tartarugas e jabutis.

Livro de Raymundo Moraes,
publicado em Manaus,
em 1924
Da capital amazonense para a jusante, em Santarém, Óbidos, Monte Alegre, Prainha, recebem cachos de banana, paneiros de tomate, cuias pintadas, garrafadas de muirapuama, melões, melancias, atas, laranjas, abacates, mel de abelha, queijos, fora os olhos de botos e os irapurus, trabalhados pela pajelança, e que atraem a felicidade no comércio, no jogo e no amor.

Ao vingarem os Estreitos de Breves, livres da última escalada, próximos ao ponto terminal, transmitem a impressão de navios-piratas, vindos de uma pilhagem bárbara, tanto e díspares são os bichos e as coisas amontoadas sob as mesas, amarrados aos pés de carneiros, presos aos balaústres, guardados nos banheiros, escondidos no rancho. O aspecto anárquico e cigano dos gaiolas que trafegam os altos rios, modifica-se, todavia, nas embarcações desse tipo nas linhas fixas e baixas, onde se observa mais ordem, limpeza, conforto e regularidade.

Em todo o vale do Amazonas, sem incluir a Estrada de Ferro de Bragança, ligando a zona do Salgado, no Pará, e ainda a via-férrea do Alcobaça, vencendo a zona de cataratas do Tocantins, com oitenta quilômetros já em tráfego, só existe a ferrovia Madeira-Mamoré, com trezentos e sessenta e seis quilômetros de trilhos para salvar a região encachoeirada dos cursos que lhe dão o nome, desdobrada entre Porto Velho e Guajará-Mirim [RO], este na fronteira de Mato Grosso com a Bolívia. Ao Amazonas propriamente, dessa estrada, cabem apenas oito quilômetros e tanto de linha, os únicos existentes em todo o seu território.

De sorte que a bacia imensa, por uma fatalidade geográfica, permanece à mercê do transporte fluvial, que vai da canoa escoteira ao gaiola de várias tonelagens. Alguns varadouros atravessando as mesopotâmias, e que ligam a rede hidrográfica pelo deserto, principiam a surgir, concretizando a ideia da transacreana, entrevista por Euclides da Cunha, a fim de unir o sertão. Até agora, no entanto, somente o gaiola domina o tráfego da desmedida planície equatorial.

domingo, julho 22, 2012

RAIMUNDO MORAES (1872-1941) 1ª PARTE


Raymundo Moraes, 1935
Em busca de subsídios para nova pesquisa, esbarrei na preciosa bibliografia deste falecido escritor paraense. Dele se costuma lembrar pelos fatos: um, que foi um comandante de gaiola (alcunha de barco regional); dois, que recebeu o estímulo de presidentes da República, em razão de seu livro Na planície amazônica; três, que foi desconsiderado pelo saudoso Péricles Moraes (sem qualquer parentesco), lembrado presidente da Academia Amazonense de Letras.


Capa do livro
Interessei-me, todavia, pela produção literária do autor paraense. Quando este residiu em Manaus, no governo do interventor Sá (1924) e de Efigênio Salles (1925-30), dirigiu a Biblioteca Pública e a Imprensa Oficial. No ensejo, publicou os livros: Notas dum jornalista (1924); Na planície amazônica (1926); Cartas da floresta (1927); e País das pedras verdes (1930). Editados pela Livraria Clássica (que existiu na rua Guilherme Moreira canto da rua Theodureto Souto), com exceção do último, que foi lançado pela Imprensa Oficial.

Em Um escritor nativista (1986), o saudoso Leandro Tocantins confirma que R. Moraes foi um autodidata, e que frequentara apenas o curso primário. “De suas longas peregrinações através dos rios, na função de “prático” e depois de comandante de gaiola, despertou nele o gosto pelo estudo nas obras que definem em termos de ciência e de literatura a região amazônica”.

Para ilustrar esta postagem, transcrevo em duas partes o capítulo O Gaiola, inserto Na planície amazônica, livro que despertou a admiração de tantos, não apenas de governantes, mas igualmente de casas editoras do Sul do país.

O Gaiola (1ª parte)
Capa da 1ª edição do livro
Vale imenso, terra mal definida na eclosão dum afloramento, a Amazônia é toda retalhada de cordas líquidas. O olhar que a descortinasse do alto, abrangendo esses mil veios dágua, teria a impressão de ver uma cabeça formidável emergindo do fundo do vale - gigantesca Medusa - cabeleira branca, frondosa e desgrenhada em curvas de serpentes. Fios que correm em busca da planície, é por eles que a atividade civilizada vai alargando o âmbito da sua influência, na marcha incessante do explorador, atrevido, vindo do levante ou ido do poente.

A história da Amazônia, desde a conquista, nos séculos XVI, XVII e XVIII, escreve-se ao longo das artérias fluviais, na orla dos paranás, dos furos, dos igarapés. A grande caravana de batedores do sertão, geólogos, astrônomos, botânicos, hidrógrafos, etnólogos, precedidos de piratas e catequistas, de bandeirantes e generais, subidos do mar ou descidos das cordilheiras, só penetra a Hileia, embarcada.

Lede os relatórios das expedições, as monografias dos naturalistas, as pastorais dos missionários, as ordens do dia dos capitães. É a remo e a vela que viajam floresta a dentro. Varam a hinterlândia e desembocam no Atlântico a bordo. A visão panorâmica da terra,
do céu
, da selva é colhida das águas, no banco da canoa, no paneiro da igarité, na tolda da galeota, à sombra dos latinos. A cruz e o cronômetro, a miçanga e o fuzil iam e vinham no porão dos transportes.

Recorram-se-lhe os pontos estratégicos, os lindes fronteiriços e a sua crônica militar, dramática e sangrenta, reponta, como as iaras e os botos encantados, do seio potâmico: é estampada na orilha dos caudais. Pelas margens, afirmando a posse da gleba, as cidadelas e os redutos. No Rio Branco o Forte de S. Joaquim olhando a Guiana e a Venezuela; no Rio Negro o Forte de Marabitanas olhando a Colômbia; no Rio Solimões o Forte de Tabatinga olhando o Peru; no Rio Guaporé o Forte do Príncipe da Beira olhando a Bolívia. Macapá, numa ribanceira, vigiando o arquipélago, nos litorais da foz do Xingu e do Paru, praças de guerra guardando os surgidouros; Gurupá, eriçada de peças, policiando o fundo do estuário; Santarém, guarnecida por um forte, fechando o Tapajós; Óbidos, a cavaleiro de verde colina, trancando a garganta do Amazonas; Castelo, na Baía do Guajará, defendendo Belém.

Toda uma teoria de muralhas, fossos, parapeitos, barbacãs, casamatas, baterias, canhões, montada nas faixas ribeirinhas, atesta o valor das vias movediças. Dança-se, caça-se, reza-se, namora-se, peleja-se à flor das águas. A montaria é o cavalo; o remo a rédea. Daí a influência do gaiola na vida amazônica. Ele é o bonde, ele é o carro, ele é a locomotiva. Veio da ubá indígena, através de cem feitios, ao navio regional de hoje, elegante, forte, veloz, manobreiro, com fábrica de gelo, luz elétrica, dois mastros, pequeno calado. Da elevada superestrutura, desenvolvidas obras mortas, dois, três conveses, camarotes nas amuradas, adveio-lhe o apelido irônico e pitoresco de gaiola. Existem de roda na popa e nos flancos; de uma e duas hélices; de cem, duzentas, quinhentas, oitocentas, mil toneladas de deslocamento; de três, cinco, oito, doze pés de calado; de madeira e de ferro, sujos e limpos, feios e belos; construídos na Inglaterra, na Holanda, na Dinamarca, em Santarém, na América do Norte.
Sobem dos ancoradouros de Belém, nas orlas marítimas, às vizinhanças andinas, nas zonas alpestres. Penetram, furam, remexem a bacia. Quando o preço da borracha é animador, marcham aos vinte, aos trinta, penachando, pintados de branco e de preto, de cinzento e de amarelo.

A vida, a bordo, revela tudo que há de mais imprevisto e curioso. No primeiro convés, ora de teca ora de aço, além dos guinchos, escotilhas, cozinha, rancho, camarotes de oficiais, casa das máquinas, aboletam-se cargas e quadrúpedes, como sal, querosene, gasolina, tijolo, telha, carneiros, cabras, porcos, burros, bois e vacas. Depois disto acondicionado, carregando baús, trouxas, sacos, embarcam os passageiros de terceira classe, nordestinos contratados para o corte da seringa, e ali se agasalham na maior promiscuidade, amarrando as redes ao lado e por cima dos animais até fazerem um denso trançado, que mal deixa passar a tripulação para a manobra.

Cem, duzentos, trezentos indivíduos magros, hirsutos, sujos, pardavascos; as crianças nuas; as mulheres, de saia, casaco, chinelas e cachimbo ao queixo; os homens de chapéus de carnaúba, calça e camisa, alpercatas, bentinho ao pescoço, pajeú à cinta. Falam cantando e chamam os filhos bichinhos. Assim que se empilham naquele pequeno espaço úmido e maculado, ouvem-se as notas fanhosas das harmônicas e o soluço sertanejo das violas.

No segundo convés - as cabines, o bolinete, a máquina do leme, a copa, o bar, a despensa, os banheiros, as sentinas, a caixa da fumaça, as mesas de refeições. Aí se acomodam o comandante, oficiais de catavento, criadagem, patrões, coronéis, aviados e representantes de casas exportadoras. Em cada camarote de dois e quatro beliches, oito, dez, doze pessoas que os atravancam de cestos, caixas, molhos de tabaco, máquina de café, sacos de roupa, paneiros, cães, gatos.

Fora, tumultuosamente, bagagens sobre estrados, barricas de bolacha, frasqueiras de cachaça, potes de mel, latas de biscoitos, canastras de verduras. Pendurados, à ré, alguns quartos de carne para
mant
imento. Igualmente ao que vai por baixo, as redes armadas dominam. Na última tolda - capoeiras de criação, tabuado, e, dentro dos botes, baldes de folha, plantas, bilhas e filtros de barro. Ao largarem os cabos dos cais, a mareta lambe-lhes o contrafeito.

Deixam o porto completamente entupidos e seguem até o Farol de Cutijuba, onde aguardam a madrugada para atravessar a Baía de Marajó. Dias depois, nas fazendas pastoris do Baixo Amazonas, temerariamente, recebem vinte, trinta reses para o consumo. Continuam a derrota embarcando lenha para as fornalhas e cortando capim para o gado, de acordo com a necessidade. Em noites escuras chocam-se aos madeiros que vogam à tona, entortam os eixos, racham as esferas, quebram as palhetas. Fundeiam e encostam a grinalda em terra. A guarnição do fogo mergulha a oito, dez pés e repara a avaria, num esforço heroico, correndo o risco dum ataque de piranhas, piraíbas e jacarés.

Suspendem. Por uma tarde de sol impiedoso, em virtude de pontas de cigarros e fósforos atirados imprudentemente, ou de faulhas caídas da chaminé, os garrafões empalhados, álcool ou cachaça, expostos ao ar sobre o convés, incendeiam-se; e o fogo lavra de repente, as chamas devoram tudo, lambendo, enroscando-se, carbonizando e deixando apenas o casco. O Tabatinga, o Lauro Sodré e o S. Luís perderam-se assim. (segue na 2ª parte)