CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, março 28, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (3)

Quando da comemoração do centenário de nascimento de Armando Andrade de Menezes, festejada no sábado passado (21), o acadêmico Zemaria Pinto leu o texto aqui postado. De sua autoria, foi lido (por Tenório Telles) na Academia Amazonense de Letras, em 16 de agosto de 2006, quando do lançamento do livro de Armando de Menezes – Em memória de Paulo Jacob. 

Armando de Menezes, gravura por
Bjarne Furtado 

Em Memória de Paulo Jacob

Em Memória de Paulo Jacob não fosse por um claro anacronismo, diria que Sérgio Buarque de Holanda, ao elaborar a sua teoria do “homem cordial”, teria tido como modelo o querido Armando de Menezes. Armando é só coração. E por aí se desenvolve a principal vertente da sua literatura. Porque o memorialista é antes de tudo um amoroso. Não, eu não disse apaixonado. A paixão é violenta e por vezes cruel. Se o amor afasta-se do ódio por uma linha tênue, essa linha é a paixão. É a paixão que separa o amor do ódio, o bem do mal. Para o proustiano Pedro Nava, poeta da memória, “na reconstituição de memórias, nós levamos para o passado um lastro de presente que corrompe a nossa lembrança. Não sou historiador, sou memorialista. Trato de fatos que tenho a liberdade interpretar, porque fui participante deles.” Armando ergueu o edifício de sua obra em toro de três pilares: a lembrança, o amor e a simplicidade. A lembrança como matéria de trabalho. O amor como base da composição. E a simplicidade como expressão.

Conheci o Armando há pouco mais de um ano. Mas, ele não sabe, há mais de 20 ouço Thiago de Mello falar dele. Eu, que sou por natureza retraído, só depois de conhecer o Armando compreendi a frase que o querido Thiago repete sempre: “a amizade é a mais alta forma de amor”.

Não faz muito tempo, o nosso presidente Elson Farias registrou, a respeito do Armando, que, entre as “inúmeras artes em que é mestre o nosso companheiro de academia, a arte da amizade é a que e exerce com a maior destreza e a mais clara sabedoria”.

Lembrança, amor, simplicidade. A matéria de trabalho. A base da composição. A expressão. Essa equação fica muito evidente — e sua comprovação, mais fácil — no livro que Armando nos entrega nesta noite: Em Memória de Paulo Jacob. A começar pelo título, objetivo, direto, simples, mencionando a memória como fio condutor: memória de um amigo, um grande amigo, como constatamos na leitura, que atravessara à outra margem do grande rio. Estas pouco mais de 50 páginas encerram um significado inestimável: uma homenagem póstuma, um ritual marcado, paradoxalmente, pela alegria que o amigo ausente provocava em vida, pela lembrança dos seus feitos e, em especial neste caso, pela lembrança de sua obra. E que obra, senhores! Pois estamos tratando de Paulo Jacob, um dos grandes romancistas brasileiros da segunda metade do século passado.

 

domingo, julho 27, 2025

POESIA DOMINICAL (9)

 O poema deste domingo é obra do saudoso Sergio Luiz Pereira (1965-2015), que nos herdou duas obras (Cordas da Lira e Sopros do Oboé) e uma póstuma, donde recolhi a ilustração poética. Metais Sonoros é o título da obra será editada para relembrar o décimo ano da morte do Poeta, que ocorre em dezembro próximo. Dele escreveu Tenório Telles, em Estudos de Literatura do Amazonas (2021): “A morte precoce de Sergio Luiz Pereira interrompeu não só uma história de vida, mas o trabalho criativo de um dos mais dedicados e meticulosos poetas de sua geração.” E conclui: “É particularmente marcante na poética de Sergio Luiz Pereira o rigor formal, a linguagem elegante e a beleza que reveste sua lírica.”

 

Serginho, nos pincéis do Bjarne (2016) 


DOS CANTOS DA CIDADE

Amanhece o encanto já perdido.

 · Bandeira Tribuzi

 Quando o dia estender seus lençóis brancos

Quase nada seremos: carnes frias

Corpos comuns em tristes letargias

Contrário do que foram solavancos.

 

A tarde mais virá com ventos francos

Bater em nossas mentes, fugidias

Lembranças do que fomos nas sadias

Ondas de amor, sem trancos ou barrancos.

 

Quando a noite pesar em nossos passos

Cada qual mitigará os seus cansaços

À procura de encanto renovado.

 

Quem sabe não seremos só saudade

Nos quatro cantos da nossa cidade

     Banhada pelo gozo já apagado.

segunda-feira, outubro 26, 2015

SERGIO LUIZ PEREIRA (1966-2015)

Sérgio Luiz Pereira
Faleceu ontem, em pleno domingo de bastante chuva, chuva que parecia lamentar a partida de nosso amigo. Serginho, como nos acostumamos a tratá-lo, saiu de cena sem alarde, sem atender ao nosso insistente apelo para que nos acompanhasse por mais anos. Não deu ou não foi possível. Morreu às vésperas de seu cinquentenário.

Funcionário da Editora Valer há quinze anos, onde servia como Revisor de talento e competência. Nesse labor, teve a oportunidade auxiliar a revolução editorial que a Valer executou em nossa cidade, assegurou o editor Tenório Telles. Assim, por sua apreciação técnica passaram inúmeros livros, tanto os clássicos reeditados quanto os livros de escritores amazonenses e de outras procedências.

Sonetista de qualidade, produziu dois livros: Cordas da lira e Sopros do oboé. Preparava um terceiro, já em fase de editoração, que os amigos já se comprometem em lançar logo que possível.

Bjarne Furtado
De outro modo, era vice-dirigente de uma associação litero-musical-etílica, que responde pelo dialético nome de Chá do Armando, e que se reúne toda sexta-feira, após o expediente. Ou seja, desde o começo da noite até o encerramento das lembranças e lambanças, ou que as altercações e as criações artísticas se esgotem, por parte dos presentes. Serginho era o termômetro desse pessoal, pois sabia conduzir a entidade com sorriso espontâneo e uma estimulante dose de Red. 

Três músicos desse pessoal, sob a direção do violinista Bjarne Furtado, reuniram forças para, executando o Carinhoso e outros temas de prazer do falecido, promover uma despedida repleta de soluços entre a plateia. Nessa oportunidade, o Cauã (foto), filho do falecido, achegou-se ao caixão e parecia dialogar com o pai. Que terão conversado?

No final desta tarde, os "chazistas", os amigos e os parentes o levaram para o Campo Santo. No cemitério Nossa Senhora Aparecida, popularmente do Tarumã. A partir de hoje, é naquele local que ele vai -- ao som do oboé -- nos aguardar.  
Até a eternidade, amigo Sérgio Luiz Pereira.