CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

21 de dezembro de 2015

MAESTRO ALBINO DANTAS

Saudoso maestro da Banda de Música da Polícia Militar Amazonense (1942-45), o tenente Albino Ferreira Dantas, oriundo de Quipapá (PE), costumava publicar seus escritos, cujo tema fundamental era a Música. 

Em alguma oportunidade falhou ao elaborar seus esclarecimentos, sendo, por isso, apenado pelo regulamento militar.

A publicação abaixo, às vésperas de completar 70 anos, circulou no vespertino Diário da Tarde, edição de 24 de janeiro de 1946.


Regentes e Músicos!

Albino Dantas

Quem vive fora do meio musical, não faz o cálculo de quanto é difícil organizar ou manter, no mesmo plano, uma Banda de Música, que venha agradar a gregos e troianos nas tocatas realizadas. Reger qualquer organização musical não é somente ter nas mãos uma batuta e dispor dos elementos à vontade, para conseguir boa música.
Existem pormenores bem interessantes, que influem de modo acentuado nessas organizações de arte. Podemos conhecer harmonia muito bem, sermos os tais em teoria, fazermos bonitas instrumentações, tocarmos todos os instrumentos, nada, porém, dará resultado positivo se não existir o máximo que a música exige: bom gosto interpretativo.
Daí o conceito dos grandes mestres. Músico não é aquele que aprendeu a conhecer as notas sem ter o sentimento puro do artista, mas, o que, “não sabendo música, sente os eflúvios divinos da sublime arte dos sons!” Depois, vem o complexo, pessoal, que tem grande relação com o assunto. O músico, diga-se a verdade, é manhoso ao extremo. Tudo lhe ofende e ele toma a mínima coisa como a maior das ofensas. Precisamos de habilidade para conduzi-lo no ofício, do contrário todo nosso trabalho será improfícuo e, consequentemente, sem nenhum valor.
A música, como todas as artes, tem os dias aziagos, e, geralmente, quando tratamos de músicos, são eles os responsáveis por esses malditos dias... Desses erros e injustiças, ditados pelos regentes, vêm inevitavelmente a derrocada dos conjuntos musicais. Quando nos esforçamos para apresentarmos ao público números musicais de valor, como os clássicos, devemos reconhecer que os executantes dispendem de maior esforço que os regentes, pois, enquanto estes regem, aqueles forçam horas e horas os pulmões, esbanjando ar e sobrecarregando horrivelmente os rins. As nossas deduções a respeito do assunto ventilado não primam pela velha praxe do “ouvimos dizer”. Falamos tendo por base os longos tempos que enfrentamos o “batente”, agarrados aos instrumentos e às velhas estantes de ferro, sem respeitarmos feriados nem dia santo. O músico militar é o tipo do folgado para o resto da tropa, e apelidado até de “cadete”, quando recebe qualquer regalia. É bem verdade que ele não aprecia muito o aperto, e, quando pode ir dando um jeito no corpo, aguente-se quem quiser! Arranja dispensa, vai à visita médica, o ajudante liga... tudo isso serve pra azucrinar o mestre, que tinha uma peça na estante!
Mesmo assim, o mestre sabendo levar, não existe gente melhor no mundo. O superior deve manter de pé a disciplina funcional e mui especialmente a militar. Com o que não concordamos é que, pelo fato de ser o mestre, se julgue este uma pessoa estranha ao meio musical. Da boa compreensão do regente e dos músicos é que surgem os grandes conjuntos!.